Autor Tópico: Libertarismo  (Lida 11195 vezes)

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Offline -Huxley-

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Re: Libertarismo
« Resposta #75 Online: 17 de Novembro de 2007, 22:15:25 »
O que o Adriano está dizendo aí está errado. Marx não foi quem criou a teoria do valor-trabalho e sim Adam Smith. E mesmo a teoria do valor-trabalho de Marx é apenas uma versão incrementada da teoria do valor-trabalho de David Ricardo.


Bom mesmo, e a crítica marxista é nessa linha, faz uma abordagem história para se contrapor a essa sacralização do capital, que também é propriedade privada.

Estamos no séc. XXI e tem gente que ainda leva marx à sério, que coisa.

Eu também não entendi o que o Adriano quis dizer, mas...Você deu uma argumento "se isso é de fulano, então não preciso nem responder". Não existe esse história de "Marx é economista cujas idéias são discutidas apenas por esquerdistas". Se não acha assim, então veja:
 
"Marx foi uma poderosa cabeça, além de um espírito humanista. Sua análise contundente do capitalismo teve um imenso impacto no pensamento ocidental, e contribuiu para alertar os economistas para uma visão voltada para o mundo real, que a fascinação pela elegância matemática por vezes fazia esquecer."

Roberto Campos: http://home.comcast.net/~pensadoresbrasileiros/RobertoCampos//uma_critica_do_capitalismo.htm

Agora, até responder as críticas de Marx é coisa de esquerdista... Ai, ai, ai...


Poderia dar um exemplo de algo sério no marxismo?


Marx já tinha descoberto a não-neutralidade da moeda no capitalismo bem antes que qualquer economista! Na época de Marx, acreditava-se na Teoria Quantitativa da Moeda, segundo a qual a mudança na oferta de moeda não afetava as variáveis reais da economia, exceto o nível de preços. Atualmente, isso é uma coisa que nem alguém como o atual presidente do Fed (Banco Central Americano) acredita, vide a atitude recente de Ben Bernanke diante a crise das hipotecas (redução da taxa básica de juros).

Um dos biógrafos de Keynes já disse que: “Keynes não gostava de Marx, e muito menos do marxismo, mas creditou a Marx a intuição da teoria da demanda efetiva e o papel do dinheiro no capitalismo”.
http://www7.rio.rj.gov.br/cgm/comunicacao/clipping/ver/?8717

Algo sobre a respeito disso:

“Muito antes de Keynes, e pela primeira vez na história do pensamento econômico, Marx fez uma crítica detalhada à lei de Say, pois seu estudo sobre a possibilidade de crises de superprodução exigiu que se debruçasse sobre o tema (se a lei de Say for válida não há possibilidade de haver superprodução). Recuperemos, sinteticamente, uma parte do seu raciocínio.

Marx distingue dois tipos de circulação, a circulação simples (M – D – M) e a
circulação capitalista (D – M – D’). A primeira refere-se a um mercado no qual os agentes da troca são produtores independentes, que oferecem suas mercadorias (M) a fim de obter dinheiro (D) para usá-lo na compra de outras mercadorias (M). Nesse tipo de circulação, a mercadoria – considerada como valor de uso – está no início e no fim do processo, com o dinheiro na posição de termo médio. Nesse tipo de circulação, o ato de venda antecede e prepara um ato de compra. Logo, é impossível, ou sumamente improvável, que o dinheiro adquirido (pela venda) não volte à circulação (pela compra). O valor da demanda é igual ao
valor da oferta. A lei de Say se confirma.

Porém, diz Marx, na circulação capitalista as coisas se passam diferentemente. Aqui, os agentes fundamentais – os capitalistas – não têm em vista o valor de uso, mas sim o valor de troca. Essa circulação tem como ponto inicial o dinheiro (D), representação geral do valor, e tem também nele o seu ponto terminal, acrescido em quantidade (D’). As mercadorias (M) constituem apenas o termo intermediário. O primeiro ato dessa circulação é um ato de compra – de equipamentos, matérias-primas e força de trabalho –, por meio do qual o dinheiro transforma-se em capital. O segundo é um ato de venda, por meio do qual a mercadoria produzida transforma-se numa soma de dinheiro maior que a inicial (pois ela incorporou um mais-valor). Temos então D – M – D’. Na comparação com a circulação simples (M – D – M), alterou-se completamente o sentido do processo: não mais se trata de converter valores de uso em outros valores de uso qualitativamente diversos), mas de converter uma soma de dinheiro em outra soma de dinheiro (quantitativamente maior). Na circulação capitalista, ao contrário do que ocorre na circulação simples, o fato de que as vendas sejam seguidas por compras já não é óbvio, pois neste caso a compra (a conversão de dinheiro em capital) só se realiza na medida em que o capitalista considere que ela será seguida por uma venda futura que realize o valor do capital empregado. Se, por qualquer razão, a realização da mais-valia não ocorre (ou não ocorre na medida considerada indispensável), então o dinheiro não se converte em capital. As compras de força de trabalho e de meios de produção são suspensas, e o processo de circulação se interrompe. O
mercado vive uma situação de superprodução. A lei de Say não se confirma."

http://www.desempregozero.org.br/artigos/desemprego_em_uma_abordagem_teorica.pdf


Eu poderia me arrastar nesta discussão, mas é melhor deixar isso para lá. Esse tópico é sobre Libertarianismo. É melhor para o tópico que não desviem o assunto, nem utilizem mais de argumento "ad rótulo". Num debate, deve-se responder aos argumentos, não atacando os argumentadores per si.

Offline -Huxley-

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Re: Libertarismo
« Resposta #76 Online: 17 de Novembro de 2007, 22:45:54 »
Bom mesmo, e a crítica marxista é nessa linha, faz uma abordagem história para se contrapor a essa sacralização do capital, que também é propriedade privada.

Acho que a crítica de Marx a propriedade privada está ultrapassada. Na visão marxista, a taxa de lucro teria uma tendência de longo prazo a reduzir-se, mas por mecanismos diferentes dos propostos por Ricardo. Ao invés da questão agrícola, Marx supunha que o uso crescente de tecnologias intensivas em capital (e poupadoras de trabalho) acabaria fazendo com que o estoque de capital se ampliasse mais rapidamente que os lucros. A queda da taxa de lucro resultante tenderia a reduzir a taxa de acumulação e o crescimento econômico, produzindo sucessivas crises de superprodução até que a economia parasse totalmente de crescer.

Contemporaneamente, mesmo muitos marxistas admitem que tal argumentação contém um erro que permite questionar sua seqüência lógica. Marx subestimou o fato de que a mesma evolução tecnológica responsável pela ampliação supostamente desproporcional do estoque de capital tenderia a reduzir os preços das máquinas e equipamentos. Quando considerado tal efeito sobre os preços, o estoque de capital não cresce necessariamente mais depressa que os lucros, e a tendência à queda da taxa de lucro não necessariamente se manifesta. 
« Última modificação: 18 de Novembro de 2007, 12:58:56 por -Huxley- »

Offline Dbohr

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Re: Libertarismo
« Resposta #77 Online: 18 de Novembro de 2007, 10:45:16 »
Bons argumentos, Huxley :ok:

Sabem, o que eu lamento nessa história de direita x esquerda e socialismo x capitalismo é que ambos os lados se pegam tanto a seus respectivos dogmas que qualquer debate descamba para a troca de insultos... o resultado são 150 anos de veneno e um monte de gente morta no caminho.

Offline Adriano

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Re: Libertarismo
« Resposta #78 Online: 18 de Novembro de 2007, 12:20:04 »
Quer dizer que se alguém passa 30 anos contruindo um burado, esse buraco seria valiosíssimo?
Não, quero dizer que o trabalho deve ser um processo de libertação do ser humano, e não apenas um atendimento das demandas do mercado de trabalho. Até a educação se torna um produto, sendo que está é necessária para a liberdade.
Princípio da descrença.        Nem o idealismo de Goswami e nem o relativismo de Vieira. Realismo monista.

Offline Adriano

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Re: Libertarismo
« Resposta #79 Online: 18 de Novembro de 2007, 15:10:13 »
O que o Adriano está dizendo aí está errado. Marx não foi quem criou a teoria do valor-trabalho e sim Adam Smith. E mesmo a teoria do valor-trabalho de Marx é apenas uma versão incrementada da teoria do valor-trabalho de David Ricardo.
Não estou dizendo que Marx criou a teoria valor-trabalho, mas que avançou e incrementou esta teoria com base em Adam Smith e David Ricardo. Os marxistas se baseiam na teoria de Marx, para posterior desenvolvimento, bem diferente de outras escolas de pensamento.

Bom mesmo, e a crítica marxista é nessa linha, faz uma abordagem história para se contrapor a essa sacralização do capital, que também é propriedade privada.

Acho que a crítica de Marx a propriedade privada está ultrapassada. Na visão marxista, a taxa de lucro teria uma tendência de longo prazo a reduzir-se, mas por mecanismos diferentes dos propostos por Ricardo. Ao invés da questão agrícola, Marx supunha que o uso crescente de tecnologias intensivas em capital (e poupadoras de trabalho) acabaria fazendo com que o estoque de capital se ampliasse mais rapidamente que os lucros. A queda da taxa de lucro resultante tenderia a reduzir a taxa de acumulação e o crescimento econômico, produzindo sucessivas crises de superprodução até que a economia parasse totalmente de crescer.

Contemporaneamente, mesmo muitos marxistas admitem que tal argumentação contém um erro que permite questionar sua seqüência lógica. Marx subestimou o fato de que a mesma evolução tecnológica responsável pela ampliação supostamente desproporcional do estoque de capital tenderia a reduzir os preços das máquinas e equipamentos. Quando considerado tal efeito sobre os preços, o estoque de capital não cresce necessariamente mais depressa que os lucros, e a tendência à queda da taxa de lucro não necessariamente se manifesta. 
Sim, a crítica de Marx está de certa maneira ultrapassada, mas o marxismo vai além de Marx, assim como o evolucionismo vai além de Darwin. Por isso Mészáros vai além e propõe a teoria sociometabólica do capital, e distingue capital de capitalistas, considerando que estes também trabalham em pról do capital, cujo objetivo é se reproduzir. Assim Mészáros constrói sua teoria com muitas críticas a Hayek, atacando idéias hegelianas de sua teoria.

Mas é tudo baseado na teoria da mais valia, que embora seja apresentada uma boa crítica pela escola austríaca, com base na teoria do lucro e juro como remuneração do capital, porém na teoria marxista o juros é visto não como uma remuneração natural do capital, mas sim como uma remuneração social.

A diferença é que não se caracteriza o lucro e a riqueza como resultado dos processos econômicos capitalistas, mas como esses processos surgiram e como veio a surgir o que Marx chamava de alienação do trabalho, através da divisão social do trabalho. Mézsáros, mais atual, chama de divisão hierárquica do trabalho, onde existe a divisão entre controle e produção material, o qual define como sendo uma estrutura totalizante.
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Offline Luis Dantas

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Re: Libertarismo
« Resposta #80 Online: 18 de Novembro de 2007, 19:48:22 »
Quer dizer que se alguém passa 30 anos contruindo um burado, esse buraco seria valiosíssimo?
Não, quero dizer que o trabalho deve ser um processo de libertação do ser humano, e não apenas um atendimento das demandas do mercado de trabalho. Até a educação se torna um produto, sendo que esta é necessária para a liberdade.

De fato, o trabalho deve ser parte do processo de libertação do ser humano.  Por isso mesmo a idéia de mais-valia é questionável, e mais ainda o marxismo que depende dessa idéia.
Wiki experimental | http://luisdantas.zip.net
The stanza uttered by a teacher is reborn in the scholar who repeats the word

Em 18 de janeiro de 2010, ainda não vejo motivo para postar aqui. Estou nos fóruns Ateus do Brasil, Realidade, RV.  Se a Moderação reconquistar meu respeito, eu volto.  Questão de coerência.

Rhyan

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Re: Libertarismo
« Resposta #81 Online: 20 de Novembro de 2007, 20:23:27 »
Blog interessante sobre Libertarismo em português:
http://libertyzine.blogspot.com/

Offline Nightstalker

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Re: Libertarismo
« Resposta #82 Online: 20 de Novembro de 2007, 21:17:20 »
Não sei como a teoria valor-trabalho proposta por Marx pode estar certa.

Gostaria da opinião do Huxley ou de alguém bem entendido em economia sobre este excerto da obra "História e Crítica das Teorias de Juro" de Eugen von BÖHM-BAWERK:

A Teoria da Exploração do Socialismo-Comunismo por Eugen von BÖHM-BAWERK
Conselheiro do Fórum Realidade.

"Sunrise in Sodoma, people wake with the fear in their eyes.
There's no time to run because the Lord is casting fire in the sky.
When you make sin, hope you realize all the sinners gotta die.
Sunrise in Sodoma, all the people see the Truth and Final Light."

Offline Buckaroo Banzai

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Re: Libertarismo
« Resposta #83 Online: 21 de Novembro de 2007, 11:00:20 »
Quase mudando de assunto: o que acham da visão libertarista quanto ao que fazer contra o crime: apenas restituição, em vez de punição - se é que não estou falando bobagem.

Offline Rodion

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Re: Libertarismo
« Resposta #84 Online: 21 de Novembro de 2007, 11:51:16 »
Quase mudando de assunto: o que acham da visão libertarista quanto ao que fazer contra o crime: apenas restituição, em vez de punição - se é que não estou falando bobagem.

supervalorização da sanção indenizatória..
"Notai, vós homens de ação orgulhosos, não sois senão os instrumentos inconscientes dos homens de pensamento, que na quietude humilde traçaram freqüentemente vossos planos de ação mais definidos." heinrich heine

Rhyan

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Re: Libertarismo
« Resposta #85 Online: 22 de Novembro de 2007, 17:33:17 »

Offline Pregador

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Re: Libertarismo
« Resposta #86 Online: 22 de Novembro de 2007, 17:36:31 »
Quase mudando de assunto: o que acham da visão libertarista quanto ao que fazer contra o crime: apenas restituição, em vez de punição - se é que não estou falando bobagem.

Só restituir não reforçaria o comportamento dentro da legalidade do criminoso e de toda sociedade.
"O crime é contagioso. Se o governo quebra a lei, o povo passa a menosprezar a lei". (Lois D. Brandeis).

Offline Südenbauer

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Re: Libertarismo
« Resposta #87 Online: 22 de Novembro de 2007, 17:54:04 »

Rhyan

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Re: Libertarismo
« Resposta #88 Online: 22 de Novembro de 2007, 22:24:09 »
É mesmo.

Offline -Huxley-

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Re: Libertarismo
« Resposta #89 Online: 14 de Dezembro de 2007, 23:25:33 »
Eu estava pensando aqui.Se fosse levada a sério sua convicção doutrinária, o libertário deveria defender a ausência de interferência estatal no caso da existência de monopólios naturais, como os serviços do setor elétrico. Afinal, o direito de propriedade é absoluto. Retirar o direito de o monopolista fixar o preço e as inversões no nível em que bem entende é algo que viola claramente o axioma da não-agressão. É praticar o que na visão deles (em outras circunstâncias semelhantes a essa, embora eles não admitam, é claro) se chamaria de "coletivismo". Ora, se um indivíduo é um fim em si mesmo e não um meio para satisfazer a necessidade dos outros, então alguém que está na condição de usuário destes serviços é só um desafortunado que teve o azar em não ser um empresário do setor elétrico. Mesmo numa transação de monopólio não há nenhuma coerção, afinal toda transação de bens e/ou serviços é baseada em troca VOLUNTÁRIA.

O que vocês acham?

Offline Rodion

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Re: Libertarismo
« Resposta #90 Online: 15 de Dezembro de 2007, 07:30:48 »
é isso mesmo, huxley. o libertário não acredita em monopólios; pra que ocorra um monopólio, algo deve ter alterado a ordem natural das coisas, e esse algo só pode ter sido intervenção estatal.
ideologia...
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Offline Adriano

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Re: Libertarismo
« Resposta #91 Online: 15 de Dezembro de 2007, 07:40:04 »
é isso mesmo, huxley. o libertário não acredita em monopólios; pra que ocorra um monopólio, algo deve ter alterado a ordem natural das coisas, e esse algo só pode ter sido intervenção estatal.
ideologia...
Tem isso mesmo, os "erros do mercado" são sempre culta do estado.  :biglol:
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Offline JJ

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Re:Libertarismo
« Resposta #92 Online: 05 de Junho de 2018, 12:10:31 »
UMA AVALIAÇÃO IMPARCIAL DOS LIBERTÁRIOS


por Russell Kirk

O termo libertarianismo é de mau gosto para quem pensa a política seriamente. Tanto o dr. Friedrich A. Hayek (1899-1992) quanto este vosso servo já envidaram muitos esforços, de tempos em tempos, para declarar que se recusam a aceitar o rótulo de libertário. Qualquer um que tenha sido influenciado pelo pensamento de Edmund Burke (1729-1797) e de Alexis de Tocqueville (1805-1859) – como o professor Hayek e este comentarista – põe-se firmemente contra a ideologia; e o libertarianismo é uma ideologia simplista, apreciado por um tipo de gente a quem Jacob Burckhardt (1818-1897) chamou de “os terríveis simplificadores”.




Vários dos homens e várias das mulheres que aceitam o rótulo de “libertários” não são, de fato, libertários ideológicos em absoluto, mas simplesmente conservadores com um nome diferente. São pessoas que percebem no crescimento do Estado monolítico, especialmente durante o último meio século, uma sinistra ameaça à liberdade ordenada; e, é claro, estão corretos. Ao utilizar essa palavra do século XX, derivada de liberdade, desejam enfatizar a vinculação à liberdade pessoal e cívica. (…)



Se alguém acredita em uma ordem moral duradoura, na Constituição dos Estados Unidos, nos modos de vida norte-americanos
estabelecidos e numa economia livre – ora, tal pessoa, na verdade, é um conservador, mesmo que detenha uma compreensão imperfeita dos termos gerais da política. (…) Comumente, os libertários são descendentes intelectuais dos antigos “liberais clássicos”; tomam o partido dos conservadores comuns contra a ameaça do despotismo democrático e do coletivismo econômico.


(…) Alguns aparentam viver sob a ilusão de que a ideologia comunista pode ser dissipada por meio de acordos comerciais – uma noção realmente néscia. (…) A maioria dos libertários acredita numa proporção humana; opõem-se veementemente ao que Wilhelm Röpke (1899-1966) chamou de “culto do Colossal”. Assumem a causa do indivíduo autossuficiente, da associação voluntária, da justa recompensa do êxito pessoal. Conhecem os perigos da centralização política. Numa época em que muita gente está disposta a – ou melhor, desejosa de – trocar a própria independência por “direitos”, os libertários exortam-nos a andar virilmente com os próprios pés.


Não foram poucos, dentre os que estudaram comigo de um modo mais próximo, ou os que se tornaram meus assistentes, os que haviam sido atraídos, anos antes, pelos argumentos de Ayn Rand (1905-1982) ou de Murray N. Rothbard (1926-1995). Contudo, à medida que faziam outras leituras, conscientizaram-se das inadequações e extravagâncias das várias facções libertárias; ao começar a prestar mais atenção às nossas dificuldades políticas atuais, viram o quanto as propostas libertárias são impraticáveis. Encontraram, assim, o caminho do realismo conservador, o que proclama que a política é a arte do possível. Portanto, o que podemos dizer do libertarianismo, amistosamente, é que tem sido amiúde um espaço de recrutamento de jovens conservadores, ainda que os libertários não tenham a menor intenção de fortalecer a crença nos costumes, na convenção e na política da “consagração pelo uso”.



Os libertários ideológicos não são absolutamente conservadores no sentido verdadeiro do termo em política; nem desejam os libertários mais cândidos ser chamados de conservadores. Ao contrário, são doutrinários radicais, desdenhosos da herança que recebemos de nossos ancestrais. Rejubilam-se com o radicalismo de Thomas Paine (1737-1809); até mesmo aplaudem aqueles radicais do século XVII, os niveladores e os escavadores, que teriam arrancado todas as delimitações de terras, e posto abaixo, também, toda a estrutura da Igreja e do Estado.


Os grupos libertários divergem entre si em relação a alguns pontos, e exigem graus diversos de fervor. O que podemos afirmar é que, em geral, são anarquistas “filosóficos” em trajes burgueses. Das antigas instituições sociais, manteriam somente a propriedade privada.


Buscam uma liberdade abstrata, que nunca existiu em civilização alguma – nem entre qualquer povo bárbaro ou selvagem. Dariam cabo do governo político; nisso, subscrevem a noção de Karl Marx da extinção do Estado.


A Constituição dos Estados Unidos decididamente não é um ensaio de libertarianismo. Foi projetada por um grupo aristocrático que buscava “uma união mais perfeita”. (…) O que a Constituição estabeleceu foi um patamar mais elevado de ordem e prosperidade, não um paraíso de anarquistas. (…) “Partindo da liberdade ilimitada”, escreveu Fiodor Dostoiévski, “chego ao despotismo ilimitado”. Os piores inimigos da liberdade duradoura para todos podem ser as pessoas que exigem incessantemente mais liberdade para si mesmos. Isso é verdade no caso da economia de um país, bem como em outros casos. O sucesso econômico dos Estados Unidos baseia-se no antigo fundamento de hábitos morais, costumes e convicções sociais, muita experiência histórica e um entendimento político escorado no senso comum. A estrutura da livre empresa deve muito ao modo conservador de compreender a propriedade e a produção, exposto por Alexander Hamilton (1755-1804) – o adversário dos libertários da época.


A estrutura norte-americana de livre empresa não deve absolutamente nada ao conceito destrutivo de liberdade que devastou a Europa ao longo da era da Revolução Francesa – isto é, a ruinosa e impossível liberdade pregada por Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). Os libertários do século XX são discípulos da noção de natureza humana e das doutrinas políticas rousseaunianas.


(…) O sonho de uma liberdade privada absoluta é uma daquelas visões que emanam dos portões de marfim; e a desordem na qual a sociedade seria lançada em consequência dos desejos já é ilustrada pela desordem moral dos assuntos privados. (…) O inimigo de todo costume e convenção acaba nas trevas exteriores, onde há choro e ranger de dentes. A emancipação final da religião, do Estado, da lei moral e da lei positiva, bem como das responsabilidades sociais, é a aniquilação total: uma liberdade de destruição mortífera.


A grande linha divisória da política moderna, como nos lembra Eric Voegelin (1901-1984), não é a que divide os totalitários de um lado e os liberais (ou libertários) do outro; ela se encontra entre todos os que creem em uma ordem moral transcendente, de um lado, e, do outro, todos os que confundem a nossa existência efêmera de indivíduos com a origem e o fim de tudo. Nessa separação entre ovelhas e cabritos (Mateus 25, 32-33), os libertários têm de ser classificados com os cabritos – isto é, como utilitaristas que não admitem sanções transcendentes de qualquer tipo para a conduta humana. Com efeito, são fiéis convertidos ao materialismo dialético de Karl Marx; razão pela qual os conservadores deles se distinguem no tocante ao princípio de todos.


A ordem como primeira necessidade


(…) Em qualquer sociedade tolerável, a “ordem é a primeira necessidade”. A liberdade e a justiça só podem ser estabelecidas depois que a ordem esteja razoavelmente assegurada. Os libertários, porém, dão primazia a uma liberdade abstrata. Os conservadores, sabendo que a “liberdade é inerente a algum objeto sensível”, são conscientes de que a liberdade pode ser encontrada somente no contexto de uma ordem social, tal como a ordem constitucional dos Estados Unidos. Ao exaltar uma “liberdade” absoluta e indefinível à custa da ordem, os libertários colocam em perigo a própria liberdade que louvam.


(…) Os conservadores discordam dos libertários no que diz respeito à questão do que mantém a sociedade civil coesa. Os libertários sustentam – até onde aturam qualquer tipo de limitação – que o nexo de sociedade é o autointeresse, intimamente associado ao pagamento em dinheiro. Os conservadores, no entanto, declaram que a sociedade é uma comunidade de almas, que une os mortos, os vivos e os ainda não nascidos; e que se harmoniza por aquilo que Aristóteles (384-322 a.C.) chamou de “amizade” e os cristãos chamam de caridade ou amor ao próximo.


(…) Tal como anarquistas e os marxistas, os libertários, em geral, acreditam que a natureza humana é boa e benevolente, embora danificada por certas instituições sociais. Os conservadores, ao contrário, afirmam que “com a queda de Adão, pecadores todos são”: a natureza humana, embora composta tanto pelo bem quanto pelo mal, não pode ser tornada perfeita. Portanto, a perfeição da sociedade é impossível, já que todos os seres humanos são imperfeitos – e entre os vícios estão a violência, a fraude e a sede de poder. O libertário persegue seu caminho ilusório em direção a uma utopia do individualismo – que, como sabe o conservador, é o caminho do Averno.


(…) O libertário assevera que o Estado é o grande opressor. Por sua vez, o conservador constata que o Estado é algo natural e necessário para a realização da natureza humana e o crescimento da civilização; não pode ser abolido, a não ser que a humanidade seja abolida; é ordenado à nossa própria existência. Nos dizeres de Edmund Burke, “Ele, que nos concedeu a natureza para ser aperfeiçoada pela virtude, determinou também os meios necessários à perfeição: legou-nos, portanto, o Estado. Determinou sua conexão com a fonte e o arquétipo original de toda perfeição”. Sem o Estado, a condição do homem é “solitária, pobre, sórdida, embrutecida e curta” – como argumentava


Santo Agostinho (354-430), muitos séculos antes de Thomas Hobbes (1588-1679). Os libertários confundem Estado com governo; na
verdade, o governo é o instrumento temporário do Estado. O “governo” – como Burke prosseguia dizendo – “é um artifício da sabedoria
humana para prover as necessidades dos homens”.


Dentre essas necessidades deve ser reconhecida a urgência, para a sociedade civil, de restrições suficientes às paixões. A sociedade requer não somente que as paixões dos indivíduos sejam subjugadas, mas que, mesmo no povo e no corpo social, bem como nos indivíduos, as inclinações dos homens, amiúde, devem ser frustradas, a vontade controlada e as paixões subjugadas. Isso somente pode ser feito por um poder exterior; e não sujeito, no exercício da função, àquelas vontades e paixões cujo ofício é refrear e subjugar.


Conclusão


A esta altura, talvez já tenha deixado bem claro que não sou um libertário. Aventuro-me a sugerir que o libertarianismo, se entendido adequadamente, está tão distante dos verdadeiros conservadores norte-americanos quanto o comunismo. O conservador típico neste país acredita na existência de uma ordem moral duradoura. Sabe que a ordem, a justiça e a liberdade são produtos de uma experiência social longa e muitas vezes dolorosa, e que precisam ser protegidas de ataques radicais abstratos. Defende os costumes, o hábito, as instituições comprovadas que funcionam bem. Afirma que a grande virtude em política é a prudência: o julgamento de qualquer medida pública se dá pelas consequências no longo prazo. É atraído por uma sociedade de diversidade e oportunidade, e desconfia de qualquer ideologia que possa querer governar por intermédio de um único princípio abstrato, seja esse princípio a “igualdade”, a “liberdade”, a “justiça social” ou a “grandeza nacional”. Reconhece que a natureza humana e a sociedade não podem ser tornadas  perfeitas: a política continua a ser a arte do possível. Apoia a propriedade privada e a livre empresa; está consciente de que o governo honesto, que reprime a violência e a fraude, é necessário para a sobrevivência de uma economia saudável.


O que os libertários doutrinários nos oferecem é uma ideologia do egoísmo universal – no momento em que o país precisa, mais do que nunca, de homens e mulheres que estejam prontos a subordinar os interesses privados, caso necessário, à defesa das coisas permanentes.


Nós, criaturas humanas imperfeitas, já somos bastante egoístas sem precisarmos de estímulo para buscar o egoísmo como princípio.



http://portalconservador.com/avaliando-os-libertarios/


« Última modificação: 05 de Junho de 2018, 12:21:53 por JJ »

Offline André Luiz

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Re:Libertarismo
« Resposta #93 Online: 06 de Junho de 2018, 08:54:52 »
Conservadores, sempre muito humildes e modestos  ::)

 

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