Autor Tópico: Por que o nazismo foi um movimento de direita?  (Lida 6713 vezes)

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Offline Buckaroo Banzai

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Re: Por que o nazismo foi um movimento de direita?
« Resposta #75 Online: 16 de Novembro de 2006, 14:00:31 »
ainda que direitistas e esquerdistas não concordem, eu não sou nenhum dos dois... eu não tenho essa dúvida  de nazismo ser classificável como direita ou esquerda para "melhorar" a direita, ou piorar a esquerda, me parece só uma questão de consistência.... é estranho que esquerda e direita fiquem mudando de significado.... já disse várias vezes, mas parece uma classificação totalmente inútil, que serve só para criarem maniqueísmo com outras palavras no lugar de bem e mal, ainda que a infantilização da coisa chegue ao ponto de alguns realmente colocarem que é uma questão de bem contra o mal.

Se antes esquerda era X, agora é Y e direita vice-versa, então faz mais sentido se falar em X e Y apenas em vez de esquerda ou direita, ou, como eu costumava ver, adotar alguma visão atemporal dos conceitos, em vez de dizer que partido tal era da direita que agora é considerada esquerda e coisas do tipo.

Offline Buckaroo Banzai

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Re: Por que o nazismo foi um movimento de direita?
« Resposta #76 Online: 16 de Novembro de 2006, 14:03:51 »
Parece até aquelas histórias dizendo que Stalin foi de direita... :lol:

um dos criterios usados para o direitismo do partido nazista é o nacionalismo... ao mesmo tempo, alguns apontam que mesmo Stalin não era exatamente internacionalista, mas se opunha a isso, e no entando o mesmo critério não é usado.... mas talvez seja porque o mais definitivo como você disse, não seja a posição política e econômica, mas a moral.

Agora, no que difere a moral nazista e a de Stalin?

Offline Felius

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Re: Por que o nazismo foi um movimento de direita?
« Resposta #77 Online: 16 de Novembro de 2006, 17:18:49 »
Mas pessoal, que medo é esse do Nazismo ser de direita? Por acaso isso denigre a direita toda? É irrelevante se tem um louco pro seu lado do espectro político, é só não concordar com as loucuras que ele fazia, ora, ninguém fica menos direitista por condenar o Hitler. Parece até aquelas histórias dizendo que Stalin foi de direita... :lol:

E o argumento de hittler.
Todos querem evitar qualquer e toda relacao a qualquer coisa relacionada ao nazismo, e nao pode falar nada alem das piores coisas possiveis sobre o mesmo.
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Offline Partiti

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Re: Por que o nazismo foi um movimento de direita?
« Resposta #78 Online: 16 de Novembro de 2006, 20:00:09 »
um dos criterios usados para o direitismo do partido nazista é o nacionalismo... ao mesmo tempo, alguns apontam que mesmo Stalin não era exatamente internacionalista, mas se opunha a isso, e no entando o mesmo critério não é usado.... mas talvez seja porque o mais definitivo como você disse, não seja a posição política e econômica, mas a moral.

Agora, no que difere a moral nazista e a de Stalin?

Difere não em nacionalismo, ou algo do tipo, é aquilo que eu falei: conservadorismo versus ruptura com os valores pré-estabelecidos. A idéia principal do socialismo, incluso Stalin, era a revolução ploretariada, instaurando uma nova ordem social. Já Hitler era o retorno aos velhos dias de glória do Reich. Stalin só seria direitista se quizesse recuperar o passado czarista, ou algo do tipo, coisa que ele nunca faria.
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Offline Partiti

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Re: Por que o nazismo foi um movimento de direita?
« Resposta #79 Online: 16 de Novembro de 2006, 20:01:05 »
E o argumento de hittler.
Todos querem evitar qualquer e toda relacao a qualquer coisa relacionada ao nazismo, e nao pode falar nada alem das piores coisas possiveis sobre o mesmo.

Verdade, como se ele fosse o único louco da história da humanidade.
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Offline Partiti

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Re: Por que o nazismo foi um movimento de direita?
« Resposta #80 Online: 16 de Novembro de 2006, 20:06:31 »
ainda que direitistas e esquerdistas não concordem, eu não sou nenhum dos dois... eu não tenho essa dúvida  de nazismo ser classificável como direita ou esquerda para "melhorar" a direita, ou piorar a esquerda, me parece só uma questão de consistência.... é estranho que esquerda e direita fiquem mudando de significado.... já disse várias vezes, mas parece uma classificação totalmente inútil, que serve só para criarem maniqueísmo com outras palavras no lugar de bem e mal, ainda que a infantilização da coisa chegue ao ponto de alguns realmente colocarem que é uma questão de bem contra o mal.

Se antes esquerda era X, agora é Y e direita vice-versa, então faz mais sentido se falar em X e Y apenas em vez de esquerda ou direita, ou, como eu costumava ver, adotar alguma visão atemporal dos conceitos, em vez de dizer que partido tal era da direita que agora é considerada esquerda e coisas do tipo.

É assim mesmo, ja falei que isso de direita e esquerda é completamente equivocado, mas ainda é usado e o foi no passado, portanto é necessário sim estabelecer alguma interpretação sobre essa classificação. Portanto assumo os critérios utilizados na época de análise, assumindo conservadorismo contra ruputra, ao invés do atual neo-liberalismo contra social-democracia.
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Pug2

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Re: Por que o nazismo foi um movimento de direita?
« Resposta #81 Online: 17 de Novembro de 2006, 07:01:45 »
Ainda existe quem queira colocar nazismo na esquerda

 :histeria:


Ok, não o coloquemos na esquerda. Não é isso que conta. O que conta é: por que é de direita?


Para mim pode ser o que quiserem, porém, são os próprios interessados quem desse modo se classifica. Uma pesquisa por sites neonazis europeus o confirmara. O termo esquerdalha é bastante usado para definir os seus opositores.

ainda,

Talvez se classifica de direita por se eles considerarem conservadores
 ( moralistas).
O racismo é atribuído á direita por esta ser tradicionalmente menos favorável a estrangeiros ( imigrantes). Já a esquerda, costuma ser pró-portas aberta.
o multi-culturalismo é como se sabe uma das principais críticas dos nazis, já os partidos de esquerda promovem a mixofilia ( muito importante no mundo cada vez mais globalizado).

Para mim resume-se ao mixofobia vs mixofilia.
Tenho verificado que são precisamente os que se dizem de direita ( mesmo não sendo nazis) quem mais se opõe á livre circulação de pessoas ( mesmo num mundo globalizado).



Pug2

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Re: Por que o nazismo foi um movimento de direita?
« Resposta #82 Online: 17 de Novembro de 2006, 07:03:33 »
Partilho da opinião dos que pensam que o esquerda vs direita é um arcaísmo.


Offline Buckaroo Banzai

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Re: Por que o nazismo foi um movimento de direita?
« Resposta #83 Online: 17 de Novembro de 2006, 11:12:52 »
Para mim pode ser o que quiserem, porém, são os próprios interessados quem desse modo se classifica. Uma pesquisa por sites neonazis europeus o confirmara. O termo esquerdalha é bastante usado para definir os seus opositores.

Não sei tanto se a auto-classificação ou classificação de um grupo por qualquer outro signifique realmente alguma coisa; o mais válido é uma classificação isenta. Por auto-classificação os criacionistas são cientistas e os evolucionistas (de todas as áreas da ciência) são religiosos ateus fanáticos (mesmo que nem sejam ateus). Para o Quevedo os espíritas são pseudocientistas e vice-versa.


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Talvez se classifica de direita por se eles considerarem conservadores
 ( moralistas).
Eu sei lá... não vejo o nazismo como muito mais moralista que o comunismo, apenas nesse tipo de "conservadorismo histórico", que o Partiti apontou.

Mas a moral deles, num sentido mais corriqueiro, de matar quantos quer que sejam para os seus objetivos, me parece o mais relevante, em vez de incidentais classificações das pessoas mortas por se oporem ou por serem tidas como inconvenientes ao regime que consideravam superior e que legitimaria essas mortes.


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O racismo é atribuído á direita por esta ser tradicionalmente menos favorável a estrangeiros ( imigrantes). Já a esquerda, costuma ser pró-portas aberta.
o multi-culturalismo é como se sabe uma das principais críticas dos nazis, já os partidos de esquerda promovem a mixofilia ( muito importante no mundo cada vez mais globalizado).
Bem, acho que novamente dos dois supostos lados se tem fortes contradições a isso, como a proibição generalizada de qualquer religião pelos comunistas. E também foi o lado oriental da Alemanha que construiu o muro e não o contrário.

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Para mim resume-se ao mixofobia vs mixofilia.
Eu acho que não deveria se resumir a isso, se fosse para ser assim, melhor seria que em vez de se falar em esquerda e direita, se falasse em mixofilos e mixofobos... por outro lado, isso provavelmente valeria também para o que eu julgava ser um critério mais pertinente, de coletivismo vs individualismo.

Acho que as classificações esquerda e direita só se justificariam (num sentido mais atemporal) se ficasse bem estabelecido algo como que, colocando alguns íntens separados em duas colunas (como numa mixofilia e coletivismo, noutra mixofobia e individualismo, mas com mais ítens), que seria esquerda ou direita na medida em que mais tivesse de cada lado, sem que algum ítem especialmente pesasse tremendamente mais, o que é análogo a classificar um homem muito peludo como macaco a meu ver. 

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Tenho verificado que são precisamente os que se dizem de direita ( mesmo não sendo nazis) quem mais se opõe á livre circulação de pessoas ( mesmo num mundo globalizado).

acho que até pode ser o caso, mas não sei se não encontraríamos exceções. China e Coréia do Norte, talvez? Alemanha oriental? E seriam então de direita por isso? Acho que isso vai variar de acordo com o que for visto como conveniente por algum motivo qualquer, não vejo como uma definição para esquerda ou direita.

Offline JJ

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Re:Por que o nazismo foi um movimento de direita?
« Resposta #84 Online: 20 de Maio de 2018, 08:26:00 »

Socialismo e Nacional-socialismo: a esquerda e a direita autoritárias do século XX


19/10/2014Bertone Sousa



Em um texto anterior, discuti algumas características do comunismo a partir do recorte temporal que vai do período da tomada do poder pelos bolcheviques na Rússia ao fim da era Stálin, tomando por base a obra do historiador alemão Gerd Koenen, “Utopia do Expurgo[1]“, uma importante referência para quem quer compreender historicamente o comunismo (clique aqui para ler o texto). Um ponto importante discutido na obra é acerca da relação entre comunismo e nazismo e a qual ele dedica dois capítulos (8 e 10). Portanto, esse texto tentará responder às seguintes questões: o que havia em comum entre nacional-socialismo e socialismo? Quais as diferenças? É possível falar que as duas ideologias se encontravam em campos opostos (direita e esquerda)? Se sim, então por que ambas professavam o socialismo e até fizeram um pacto de não agressão? Se não, então por que guerrearam até a derrota completa e extinção de uma delas?


Koenen já inicia esclarecendo essa questão no início do capítulo 10 com uma observação muito importante:


Consiste, no objetivo insano, utópico, de um expurgo e de homogeneização da sociedade conforme critérios políticos, sociais ou racistas, a singularidade tanto do stalinismo quando do nacional-socialismo, que os destacou de todos os demais regimes e formações sociais da história humana até então conhecidos.


Trata-se, no entanto, de um paralelismo e não de uma identidade. Ao contrário:  é justamente a comparação direta que clareia as diferenças da situação inicial e da disposição dos respectivos projetos nacional e social-revolucionários. Nalguns aspectos os dois sistemas encontravam-se até em oposição diametral, isto é, representavam dois extremos da história do século 20.


[…] Não foi o nacional-socialismo uma reação ao bolchevismo nem foi o stalinismo uma reação ao nacional-socialismo. Foram simplesmente duas possibilidades extremas de uma política de violência tanto interna quanto externa, que se deram no mesmo espaço histórico, porém sob condições completamente distintas[2].


Até agora os textos publicados aqui sobre o comunismo ressaltaram mais o aspecto anti-humanista e totalitário que os regimes comunistas assumiram no século 20 e suas cruzadas contra inimigos reais e imaginários que os levou a dizimarem milhões de pessoas. Nesse artigo, porém, vou me deter numa problematização teórica sobre as diferenças entre nazismo e comunismo, uma relação que muitas vezes confunde a cabeça das pessoas.


Há meses tenho recebido ocasionalmente e-mails de leitores me pedindo esclarecimentos acerca dessas questões. Isso se deve ao fato de jornalistas da extrema direita brasileira (nenhum deles historiador) afirmarem que o nazismo era de esquerda e que o nome “socialismo” em sua sigla é uma prova de sua identidade com os movimentos revolucionários de esquerda. Também usam fotos e imagens de época para evocar as semelhanças nas posturas, nos gestos, discursos e práticas dos dois regimes. Além disso, eles dizem que a brutalidade com que os dois regimes tratavam suas vítimas é outra prova que irmana seus ideais e estratégias.


Outro engano está no fato de muitos acreditarem que a direita está relacionada apenas ao liberalismo econômico e a esquerda à intervenção do Estado na economia. Isso remonta à perspectiva de Friedrich Hayek, que na obra O Caminho para a Servidão, publicada originalmente em 1944, destaca que o abandono dos princípios do liberalismo e do individualismo defendidos pelos clássicos dos séculos 18 e 19 e âncoras das liberdades individuais que vigoraram na Europa até o início do século 20, abriu o caminho para as ideologias coletivistas, o Fascismo, o Nazismo e o Socialismo, baseadas no monopólio do Estado sobre a economia e inexoravelmente autoritárias. No entanto,  Hayek também assinalava que essas ideologias “diferem entre si na natureza do objetivo para o qual pretendem dirigir os esforços da sociedade”. Como veremos no decorrer deste artigo, não era apenas neste aspecto que essas ideologias se distinguiam. Por ora, cabe enfatizar que estatismo por si só não define um governo como direita ou esquerda; há questões históricas mais amplas que fogem a essa visão reducionista.


Infelizmente, esse tipo de abordagem deixa a história e a historiografia sobre o assunto de lado para adaptar os eventos a uma perspectiva ideológica e o que eles fazem é o que o historiador inglês Richard Overy chamou de “exercício fútil” para fazer os dois regimes parecerem “mais semelhantes um ao outro, ou tentar descobrir por avaliação estatística qual era o mais assassino”. Por isso, a ênfase que eles dão às vítimas do comunismo para igualá-lo ao nazismo ou mesmo “provar” que era pior termina tornando obtusa a compreensão dos dois fenômenos e de seus mecanismos de ação e recrutamento. Esse texto pretende aprofundar a discussão histórica sobre o tema e trazer alguns esclarecimentos aos leitores. Para os interessados em buscar mais leituras, as referências utilizadas serão indicadas em notas ao final do texto.


As duas ideologias no contexto do início do século


O primeiro ponto que é preciso levantar é que a equiparação entre nazismo e comunismo é falaciosa e não tem fundamentação histórica. Como disse Koenen na citação acima, um estudo comparado dos dois sistemas e das duas ideologias evidenciará alguns paralelos entre eles, mas não uma identidade. Ao contrário, para além das semelhanças, suas diferenças se mostram muito mais altissonantes e inconciliáveis, e Koenen não é o único historiador a dizer isso. Quando falamos de comunismo e nazismo, imediatamente remetemos à noção do totalitarismo para designar esses sistemas, e que, segundo o autor, consiste na “séria tentativa de registrar e remodelar, a partir de um único centro condutor, Estado, economia e sociedade, cultura e educação e, finalmente, também a vida individual dos cidadãos […], em síntese, o ‘totum’ de uma sociedade[3]“. Ter clareza desse conceito nos ajuda a estabelecer paralelos e apontar as aproximações e os distanciamentos entre eles.


Os dois sistemas emergiram em decorrência da Primeira Guerra Mundial, isto é, são rebentos da guerra total que resultou na decomposição da ordem social e econômica liberal oriunda do século 19 e, ao mesmo tempo, trouxeram para o plano da ação histórica outras ideologias também originadas naquele século: a da luta de classes, a da luta racial e o nacionalismo. As ideologias  que ganharam notoriedade depois da Primeira Guerra na Europa (Nazismo, Fascismo e Comunismo) e que tinham em comum o fato de serem antiliberais e antidemocráticas, já vinham ganhando terreno desde o final do século 19. Como doutrinas da violência que eram, estavam na ordem do dia após o conflito: na postura de seus principais representantes, a retórica e a violência se superpunham à razão e à ação.


Após a guerra o liberalismo ficou crescentemente desacreditado, cedendo lugar a Estados centralistas. Após a crise de 1929, ficou patente que o liberalismo era uma doutrina econômica falida e incapaz de reerguer as economias em crise. Enquanto o keynesianismo fornecia um modelo teórico às democracias e o socialismo soviético se mostrava como exemplo de sucesso de planejamento econômico, Hitler e seu partido nazista aglutinaram o apoio da burguesia e de conservadores temerosos; sem a crise e o fracasso do liberalismo, é pouco provável que os nazistas tivessem chegado ao poder. A partir de 1934 a esquerda e a direita autoritárias se mostravam como os modelos políticos a ditar o rumo da Europa. Um livro recente e essencial para se entender as diferenças entre essas ideologias é “Os Ditadores”, de Richard Overy. O livro consiste em um estudo histórico e minucioso acerca da União Soviética sob Stálin e da Alemanha sob Hitler. Com mais de 150 páginas apenas de referências, entre fontes consultadas e bibliografia, Overy escreveu uma obra magistral sobre o assunto. Ao falar sobre o impacto da Primeira Guerra para a ascensão dos dois sistemas, ele observa:


Os dois Estados sofreram uma hiperinflação que destruiu inteiramente a moeda e empobreceu qualquer um com riqueza monetária. Na União Soviética, isso serviu aos propósitos revolucionários arruinando a burguesia; na Alemanha, arruinou toda uma geração de poupadores cujos ressentimentos ajudaram a alimentar a subida posterior do nacionalismo de tipo hitlerista. Os dois Estados eram encarados como Estados párias pelo resto da comunidade internacional, a União Soviética por ser comunista, a Alemanha porque era responsabilizada pela eclosão da Guerra em 1914. Esse senso de isolamento empurrou-os para uma forma mais extrema de política revolucionária e o eventual surgimento da ditadura[4].


O que as duas ideologias tinham em comum é que eram antiliberais e anti-humanistas, de onde provinha seu desprezo pelo individualismo e sua ênfase no coletivismo. Mas suas razões de existir e seus objetivos eram diferentes e até antagônicos: a utopia soviética se via na vanguarda da emancipação da humanidade e da construção ulterior da sociedade sem classes, estágio mais elevado do progresso humano, e o nacional-socialismo era a ideologia de um povo, a legitimação de sua dominação sobre os demais e seu objetivo maior era a construção de uma ordem social baseada na hierarquia racial e na superioridade da raça germânica. As duas ideologias[5] se sobressaíram nas primeiras décadas do século 20 e se estabeleceram como doutrinas nacionais e por motivos diferentes. O regime bolchevista, após a percepção de que a revolução não ocorreria na Europa, voltou-se para a conquista de todo o território russo e a construção e consolidação do socialismo, o que implicou a caça e perseguição brutais aos kulaks e “inimigos do povo”, como foi discutido no texto anterior. Hitler pretendia expandir as fronteiras da Alemanha e subjugar militarmente a Europa, fundando um Reich de mil anos.






Offline JJ

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Re:Por que o nazismo foi um movimento de direita?
« Resposta #85 Online: 20 de Maio de 2018, 08:28:18 »

As raízes conservadoras do nacional-socialismo


A ideologia soviética via a história pelo viés econômico da luta de classes e a nazista pelo viés biológico da luta de raças. Isso levou um importante historiador a assinalar: “A centralidade do pensamento racial – bem como a ideia do assassinato maciço industrializado – constituiu a diferença básica entre o império de Hitler e o de Stalin[6]“. Portanto, essas cosmovisões distinguem radicalmente os dois regimes:


Enquanto o marxismo e os movimentos socialistas se originaram dos princípios da Revolução Francesa, o pensamento racista que antecedeu ao nazismo se formou como oposição a esses princípios. Embora esse pensamento tenha se iniciado na própria França, através de Arthur Gobineau, foi entre conservadores ingleses, como Edmund Burke, que o sentimento racial aliou-se ao nacionalismo[7].


Essa fala de Hannah Arendt é importante porque nos remete para as raízes conservadoras do nazismo. Edmund Burke (1729-1797) foi um teórico político e estadista inglês que, ainda no século 18, teceu fortes críticas ao pensamento social Iluminista que culminou com a Revolução Francesa de 1789. Embora ele considerasse que essas ideologias levariam a um reino de terror e ditadura, suas ideias nortearam o pensamento conservador que se opôs ao Iluminismo e à Revolução e sedimentaram a ojeriza que algumas elites conservadoras sentiam pelos ideais de liberdade e autonomia individual. Os conservadores criticavam no Iluminismo a ruptura com a tradição e com as crenças religiosas e morais, que eles julgavam ser “as únicas fontes legítimas de autoridade política. Os Estados não eram constituídos; eram apenas uma expressão da experiência moral, religiosa e histórica de uma nação[8]“. Com base nisso, eles atacavam os ideais de igualdade como abstrações perniciosas.


“Entre 1789 e 1815, duas concepções diferentes de autoridade guerrearam entre si: os direitos do homem de um lado e a sociedade hierárquica tradicional do outro[9]“. Enquanto a Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão alterava a condição dos súditos e  reafirmava a primazia do indivíduo sobre as instituições, o pensamento de Edmund Burke com sua valorização das tradições e da sociedade hierárquica restringia a noção de liberdade e de direitos ao governo fundado em práticas de longa data. No século 19, esse pensamento acomodou-se ao conservadorismo nacionalista.


Isso porque a Revolução Francesa não produziu apenas ideais de liberdade e igualdade, mas também o princípio da soberania nacional. A revolução deu novo status ao Estado moderno ao romper com os privilégios de nascimento do Antigo Regime[10] e com a hegemonia da Igreja; isso pôs em evidência a importância do Estado-nação e da autodeterminação dos povos. Como reação a isso, emergiu a ideologia do nacionalismo, que desprezava as noções de igualdade e direitos individuais e enfatizava o senso de comunidade e auto-sacrifício como prova do orgulho de um povo por sua história e por suas tradições. A nação passou a ser frequentemente evocada como entidade escolhida por Deus para cumprir um ideal elevado para o qual fora destinada. A ênfase do nacionalismo no apego à tradição, a Deus e ao passado (como a glorificação da monarquia e da aristocracia hereditária) logo se tornou a força motriz do pensamento conservador que via com desconfiança as ideias revolucionárias e os valores burgueses do liberalismo. A Alemanha foi o principal cenário onde esse pensamento se desenvolveu, encabeçado pelo movimento romântico com a evocação de um passado místico e a negação do indivíduo, que só poderia ser pensado em sua ligação com o povo, a pátria e a comunidade nacional.  O pensamento nacionalista do século 19 rejeitava os direitos do homem para afirmar a força da nação com foco na etnicidade. “Os primeiros sinais de problemas futuros já podiam ser percebidos nas visões expressas no início do século XIX pelo nacionalista alemão Friedrich Jahn: ‘Quanto mais puro um povo, melhor’, ele escreveu. As leis da natureza, sustentava, operavam contra a mistura de raças e povos[11]“.


Somado a isso, o desenvolvimento da Biologia foi um importante catalisador das teorias do racismo e do antissemitismo que se difundiram na Europa a partir de então. Os estudos voltados para qualidades biológicas inerentes em determinadas raças levaram alguns povos a acreditar que apenas as melhores raças alcançariam a civilização. Por outro lado, a aquisição de direitos por parte dos judeus e a abolição da escravidão nas colônias britânicas e francesas levaram os teóricos do pensamento racial a buscarem na ciência a legitimação para afirmar a inferioridades das duas raças. Mas no final do século, a publicação na Alemanha do livro de um escritor inglês chamado Houston Stewart Chamberlain influenciaria diretamente Hitler: ele dizia que apenas dois povos ainda mantinham sua pureza racial e que por isso estavam destinados a lutar até que um extinguisse o outro: eram os arianos e os judeus. Portanto, aliado ao nacionalismo, o pensamento racista se desenvolveu de forma visceralmente avessa a toda noção de igualdade.


As orientações sócio-econômicas das duas ideologias no poder


Uma vez que o pensamento nazista se formou de uma matriz ideológica oposta aos princípios da Revolução Francesa, como disse Hannah Arendt e acabo de explicar, e os movimentos socialistas se originaram daqueles princípios, pode-se verificar que as semelhanças entre as duas ideologias quando chegaram ao poder no século XX são bem menores do que suas diferenças. Enquanto o nacionalismo se aliou a ideologias raciais com status de ciência no século 19 e evoluiu para uma postura cada vez mais segregacionista, o socialismo buscava ampliar a noção de direitos oriunda da Revolução Francesa no sentido de estendê-los às classes desfavorecidas. Ao questionar a propriedade privada e a insuficiência dos direitos políticos, o socialismo evoluiu para um pensamento revolucionário e antiliberal. Em 1843, Marx contestou a noção individualista da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão que apenas levava à noção de “homem egoísta” em detrimento da verdadeira emancipação humana que não poderia ser alcançada pela política, segundo ele, mas pela ação revolucionária focada na abolição da propriedade e no deslocamento da noção de homem abstrato, individual para a de homem genérico, organizado em forças sociais. No século 20, essa teoria cimentou a ausência de direitos individuais na sociedade soviética. Ainda em 1918 os bolcheviques proclamaram uma Declaração dos Direitos do Povo Trabalhador e Explorado, que pouco efeito teve na prática; por não assegurar direitos e liberdades individuais, deixou a sociedade à mercê do terror estatal que marcou toda a história do país sob o comunismo.


O nazismo, por outro lado, opunha-se tanto à direita liberal quanto às esquerdas (a social-democrata e a comunista) e associava todas elas ao judaísmo, que, segundo Hitler, as controlava para subjugar o povo alemão. O nome “socialista” na sigla do partido deveu-se a uma estratégia para se diferenciar de todas essas ideologias e ganhar o apoio da sociedade alemã, especialmente os trabalhadores, a quem pretendia cooptar e recrutar para reerguer a economia do país e fazer frente ao crescimento dos partidos e movimentos de esquerda. O uso da cor vermelha na bandeira também foi estrategicamente escolhido por sua vivacidade e facilidade de atrair a atenção. Hitler explicou essa estratégia em Mein Kampf. Além disso, a adoção do nome “socialismo” era antes uma provocação, segundo ele mesmo: “Neste mundo, porém, quem não se dispuser a ser odiado pelos adversários não me parece ter muito valor como amigo. Por isso, a simpatia desses indivíduos era por nós considerada não só inútil mas prejudicial. Para irritá-los, adotamos, de começo, a denominação de Partido para o nosso movimento, que tomou o nome de Partido Nacional Socialista dos trabalhadores Alemães […] A cor que escolhemos foi a vermelha, não só porque chama mais atenção como porque, provavelmente, irritaria nossos adversários e faria com que eles se impressionassem conosco[12]“.


Os adversários a quem ele se referia eram os comunistas e Hitler plagiou suas estratégias para cooptar o apoio dos trabalhadores a seu partido. Em “Minha Luta” ele detalha como foi influenciado pelas ideias socialistas sem, contudo, se unir ideologicamente a elas; antes copia-lhes os métodos de organização, propaganda, agitação e difusão para criar um partido que se lhes oponha frontalmente. Em “Minha Luta, ele escreveu:


A doutrina de Marx é assim o extrato espiritual concentrado das doutrinas universais hoje geralmente aceitas. E, por esse motivo, qualquer luta do nosso chamado mundo burguês contra ela é impossível, até ridícula, pois esse mundo burguês está inteiramente impregnado dessas substâncias venenosas e admira uma concepção do mundo que, em geral, só se distingue da marxística em grau e pessoas. O mundo burguês é marxístico, mas acredita na possibilidade do domínio de determinado grupo de homens (burguesia), ao passo que o marxismo procura calculadamente entregar o mundo às mãos dos judeus.


Em face disso, a concepção “racista” distingue a humanidade em seus primitivos elementos raciais. Ela vê, no Estado, em princípio, um meio para um fim e concebe como fim a conservação da existência racial humana. Consequentemente, não admite, em absoluto, a igualdade das raças, antes reconhece na sua diferença maior ou menor valor e, assim entendendo, sente-se no dever de, conforme a eterna vontade que governa este universo, promover a vitória dos melhores, dos mais fortes e exigir a subordinação dos piores, dos mais fracos. […]


Por outras palavras: o Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães apropria-se nas características iniciais do pensamento fundamental de uma concepção racista do mundo; e, tomando em consideração a realidade prática, o tempo, o material humano existente, com as suas fraquezas, forma uma fé política, a qual, por sua vez, dentro desse modo de entender a rígida organização das massas humanas, autoriza a prever a luta vitoriosa da nova doutrina[13].


Hitler ganhou o apoio de industriais alemães, mas não foi controlado por eles. Seu regime garantiu a propriedade privada, estabilizou a moeda, construiu grandes obras, reergueu a indústria, pavimentou estradas, estancou o desemprego e garantiu qualidade de vida para a população alemã. Ele via seu partido como uma organização revolucionária, embora tenha chegado ao poder por meio de eleições livres.

Do ponto de vista econômico, os nazistas não possuíam um corpo doutrinário definido. Eles desprezavam na teoria marxista o princípio de socialização de todos os meios de produção e defendiam a existência de empresas independentes. Como a Alemanha foi arruinada pela crise de 1929, socialistas e nacional-socialistas, por motivos diferentes, pretendiam superar a ordem social burguesa marcada por conflitos de classes, egoísmo econômico e repetidas crises. Enquanto os socialistas preconizavam a revolução e a coletivização para a derrubada dessa ordem e construção da sociedade sem classes, o nazismo preconizava a conquista e o saque:


Sua concepção [de Hitler] tinha mais em comum com as tradições mercantilistas dos primórdios da era moderna, quando território, tesouro e recursos eram usurpados a ponta de espada sob a interpretação errônea de que a riqueza do mundo era finita […]. Hitler tomou emprestado da geopolítica popular da década de 1920 a ideia de que a questão primordial enfrentada por todas as nações era a limitação de espaço vital – a quantidade de terra e materiais necessários para sustentar a vida de uma determinada nação ou raça[14].


O termo “capitalismo de Estado” foi cunhado por um cientista social alemão exilado nos Estados Unidos na época para designar o modelo econômico do terceiro Reich, marcado por forte intervenção do Estado, disciplinarização da mão-de-obra e proteção do lucro privado. Tanto a direita antiliberal quanto a esquerda cultuavam o Estado e o viam como elemento indispensável para a construção da utopia, uma sociedade de super-humanos, onde racionalismo e grandeza moral se conjugariam na formação de um mundo melhor. No caso da Alemanha, o regime nazista se manifestava como um Estado de Bem-estar racial, com sua política eugênica, garantia do pleno emprego aos alemães e doutrina da superioridade da raça ariana. O conceito de “capitalismo de Estado” também é usado hoje para caracterizar o sistema soviético, uma vez que a propriedade privada também não foi extinta naquele país.


Tanto a economia soviética como a alemã eram economias de comando. E nesse ponto as semelhanças também não ocorrem por acaso: os nazistas não plagiaram apenas as cores, a organização coletivista e o nome socialismo de seus rivais: os economistas alemães também observavam atentamente como era conduzida a economia soviética e, como os planos quinquenais de Stalin, Hitler tinha o plano quadrienal com objetivos similares: investimentos na indústria pesada, substituição de importações e intercâmbio mínimo com o mercado mundial para salvaguardar as prioridades internas do país. Mas, segundo Richard Overy, nem a União Soviética era um socialismo puro nem a Alemanha nazista era propriamente capitalista. Os dois impérios tinham sistemas econômicos híbridos que se diferenciavam entre si mais pela forma como interpretavam a história, seu papel no cenário mundial e pelos objetivos das duas utopias do que pelo modo de produção predominante.


Desse modo, embora preservasse a existência da propriedade privada, o nazismo não era apenas capitalista, mas uma mistura dos dois sistemas e também não era de esquerda. Por isso usamos a designação extrema direita: Hitler acreditava que o capitalismo liberal era fraco e impotente para conter o avanço do bolchevismo sobre a Alemanha, condenava o parlamentarismo burguês como um sistema dominado pelo judaísmo tanto quanto o bolchevismo e fundou um partido que defendia um Estado forte e centralizado para se opor a isso, um partido e um Estado nacionalistas e racistas, ele sempre enfatizava. Diferentemente do socialismo, sua interpretação da história não era social (luta de classes), mas racial, nem pretendia estender os ideais de inclusão e igualdade social a todos, apenas à raça germânica. Aos outros, caberia a extinção pela guerra. Por isso também é preciso entender os homens a partir do contexto em que estão inseridos e no contexto das décadas de 1920 e 1930 a esquerda e a direita podiam compartilhar algumas ideias gerais muito populares de sua época, sem se confundirem ideologicamente.


Em uma época de impérios e darwinismo social, as noções de uma hierarquia racial eram onipresentes, e poucos europeus, da direita ou da esquerda, não acreditavam nas ideias de superioridade racial ou não aceitavam sua relevância para a política colonial. O chamado “racismo científico” era levado a sério e influenciava atitudes públicas[15].


A derrota na Primeira Guerra, a humilhação do Tratado de Versalhes, a inflação, o desemprego e a visibilidade dos judeus no pós-guerra forneceram a Hitler o fermento para a exacerbação do sentimento racista e antissemita na Alemanha: “A propaganda nazista transformou a suposição de uma conspiração mundial judaica de assunto discutível que era, em principal elemento da realidade nazista; o fato é que os nazistas agiam como se o mundo fosse dominado pelos judeus e precisasse de uma constraconspiração para se defender[16]“. Por outro lado, o medo do comunismo levou liberais e conservadores a apoiá-lo: “Muitos conservadores também estavam insatisfeitos com a democracia do entreguerras e ansiavam por uma volta a modos de governo mais elitistas, aristocráticos e eventualmente monárquicos. Achavam que o problema da democracia estava no poder que conferia às massas, em sua suposta incompatibilidade com a autoridade[17]“. Na Europa do entreguerras, a extrema direita chegou ao poder em países com pouca tradição democrática e apoiada por conservadores herdeiros do pensamento social anti-iluminista e aristocrático que remonta a Edmund Burke. Por isso o nazismo representava a direita.


Isso explica também o apoio da Igreja ao fascismo e ao nazismo, um assunto já bastante comentado na historiografia.  Os ideais da Revolução Francesa a que o nacional-socialismo se opunha também não eram bem quistos pela Igreja, uma instituição que se opôs a variadas conquistas da modernidade e teve seu poder muito reduzido com o avanço do secularismo na Europa. A Igreja, na verdade, não era fascista, mas o direcionamento conservador que tomou a partir do Concílio Vaticano de 1870 veio a colocá-la como aliada de Estados autoritários e corporativos que teve em países católicos seus primeiros experimentos, cujos sistemas políticos também agiam com forte apelo à tradição católica. Segundo Eric Hobsbawm:


[…] com menos frequência observou-se a considerável ajuda dada após a guerra por pessoas de dentro da Igreja, às vezes em posições importantes, a fugitivos nazistas ou fascistas de vários tipos, inclusive muitos acusados de horripilantes crimes de guerra. O que ligava a Igreja não só a reacionários anacrônicos mas aos fascistas era um ódio comum pelo Iluminismo do século XVIII, pela Revolução Francesa e por tudo o que na sua opinião dela derivava: democracia, liberalismo e, claro, mais marcadamente, o “comunismo ateu[18]“.


O nazismo jamais foi um movimento abertamente anti-cristão, nem Hitler era ateu, como os dirigentes marxistas da União Soviética e essa era outra importante diferença entre as duas ideologias. Enquanto em “Minha Luta”, Hitler deplorava a perda da fé religiosa na Europa,  particularmente na Alemanha e considerava a religião como um importante sustentáculo da vida moral numa sociedade, o socialismo, enquanto movimento herdeiro das Luzes, via as religiões como forças sociais a serviço das classes dominantes e legitimadoras da desigualdade e da opressão, o que levou as lideranças soviéticas a emplacarem um amplo programa de descristianização e desfiliação religiosa, sobretudo através da educação. O nazismo, a despeito de seu programa revolucionário, era avesso aos princípios revolucionários do bolchevismo. Por isso Hobsbawm os chamou de revolucionários da contrarrevolução.


Nacionalismo e internacionalismo


Uma característica da política soviética após a morte de Lênin foi a desistência gradual da revolução mundial e a consolidação do novo regime na Rússia. Essa foi uma preocupação de Stalin desde o início e uma de suas metas após assumir o poder. Stalin agia motivado pela preservação da revolução, por sua ampliação e via a si mesmo como o único líder bolchevique que possuía determinação suficiente para dirigir o país. Enquanto o nazismo possuía uma meta definida de extinção de outras raças, o comunismo não escolheu a priori suas vítimas, que foram sendo atropeladas à medida que o partido acreditava que elas poderiam interromper o caminho da revolução. “As consequências dessa determinação [de Stalin] para a sociedade soviética foram profundas e angustiantes, mas para ele devem ter sido justificadas pelo único imperativo de construir o comunismo[19]“.


Na União Soviética o nacionalismo jamais se tornou parte da ideologia governamental. Depois da invasão alemã em 1941, o partido apelou ao sentimento patriótico da população para combater os invasores, mas isso nem de longe se aproximava de um direcionamento nacionalista. Mesmo a ideia de Stalin de “construção do socialismo num só país” tinha um viés diferente do nacionalismo. Sobre o assunto, novamente Richard Overy:


A ideia […] foi muitas vezes mal interpretada como uma expressão de socialismo “nacional” – um deslocamento das aspirações internacionalistas do verdadeiro marxismo inspirado pelo Stalin mais “nacionalista”. Mas a ambição não era nacionalista em nenhum sentido reconhecível. Quando Stalin afirmou, em 1924, que “podemos construir o socialismo… por nossos próprios esforços”, expressava uma ambição social, não nacional. O malogro da revolução fora das fronteiras soviéticas obrigou a maioria dos bolcheviques a aceitar a visão sensata de que o socialismo teria de ser construído sem a ajuda de outros proletariados […]. Stalin nunca deu as costas à ideia de que a União Soviética devia continuar a combater o capitalismo e incentivar a revolução no estrangeiro; “o socialismo num só país” deu à União Soviética um lugar especial na liderança da luta mundial, mas não foi uma declaração de independência nacional. Se Stalin, na década de 1930, esperou que os cidadãos soviéticos expressassem um patriotismo soviético, foi por amor à única pátria socialista, não por soberba nacional […]. Embora, a partir da década de 1930, a ditadura começasse a identificar-se mais com um passado especificamente russo, ele sempre manteve a distinção entre a União Soviética como um Estado socialista de muitas nacionalidades e a nação como expressão de uma cultura particular e sem igual[20].


Enquanto Stalin não fazia distinção entre nações, Hitler as concebia como entidades inseparáveis da ideia de raça e as raças inferiores estavam destinadas a ser conquistadas e ter seus territórios tomados pelas raças superiores, dotadas de uma vontade maior de autopreservação e de uma capacidade extraordinária de produzir cultura e ciência e isso também embalava a diferença radical que os dois ditadores tinham da noção de Estado: “O Estado de Stalin era uma realidade multinacional sustentada por uma visão social e política distintamente não nacional; o conceito de Estado de Hitler baseava-se apenas na ‘preservação e intensificação’ de uma nação única, a cujos fins todas as ambições políticas e sociais deviam ser implacavelmente subordinadas[21].”


Disse anteriormente que o nacional-socialismo se caracterizava como um Estado de Bem-Estar racial, algo que inexistiu na União Soviética ou qualquer outro sistema socialista. Esse plano de fundo colocava os dois sistemas em campos opostos quanto a seus objetivos finais:


A utopia soviética buscada sob Stalin era uma utopia sociológica, cujo objetivo visava criar uma sociedade progressista baseada em torno da satisfação de necessidades humanas […]. A utopia alemã buscada sob Hitler era uma utopia biológica, dedicou-se à criação de um corpo racial puro, capaz de reprodução sob linhas demográficas estreitamente definidas. Mediam-se o valor e o bem-estar individuais em termos de utilidade biológica e valor de raça, acima de tudo a disposição de aceitar o sacrifício do eu pela sobrevivência da espécie […] É inteiramente cabível que o esforço de guerra [alemão] para construir tal utopia afundasse em malogro na guerra de 1945, pois esta foi a lógica do darwinismo vulgar que embasou o empreendimento – vitória ou derrota na luta pela existência[22].


O Estado soviético tinha uma posição formal contra todo tipo de discriminação racial aberta ou violenta, além de ser formado por variados grupos étnicos que jamais foram perseguidos por motivos raciais. As deportações em massa que ocorreram na União Soviética no final e após a Segunda Guerra não tiveram um padrão pré-estabelecido de corte racial. Embora grupos étnicos praticamente inteiros tenham sofrido deportação na URSS, as razões para isso tinham fundo político, não étnico. No caso da Alemanha, ao contrário, a “solução final”, a questão da eliminação dos judeus, ganhou contornos mais dramáticos a partir de 1941,  quando os alemães puseram em prática o assassinato em massa de judeus que durou, segundo Richard Overy, até 1944. Hitler via sua guerra contra outras raças, especialmente os judeus, em termos extremos de sobrevivência ou extinção.


A União Soviética era uma federação de nacionalidades, cujas identidades nacionais foram respeitadas na medida em que não comprometeram as ambições políticas centrais do regime […] Xenófoba e exclusiva, a Alemanha de Hitler viu-se em direta e violenta competição com todas as outras nacionalidades, trancada numa história perpétua de luta racial. As raças estrangeiras não podiam ser assimiladas sob quaisquer circunstâncias[23].


Não é possível compreender adequadamente as diferenças entre socialismo e nacional-socialismo se não se tiver clareza da importância e das raízes dos conceitos de internacionalismo e nacionalismo que norteavam as duas ideologias e as colocava em oposição tenaz.



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Re:Por que o nazismo foi um movimento de direita?
« Resposta #86 Online: 20 de Maio de 2018, 08:29:16 »

Prisioneiros e países ocupados


Outra diferença entre os dois regimes está no uso que faziam do trabalho escravo, ou dos campos de concentração. A direita comumente usa analogias entre os campos nazistas e soviéticos para provar a similaridade entre eles. Havia homologias, é verdade, mas mesmo nesse ponto as diferenças também sobressaíam. No importante estudo que realizou sobre os campos de trabalho forçado na URSS, Anne Applebaum[24] ressaltou logo no início as diferenças que apresentavam com os campos nazistas: uma das mais importantes era que o Gulag (como era chamado o complexo de campos soviéticos) tinham uma função essencialmente econômica. Os “inimigos” que ali eram seviciados eram escolhidos de forma mais aleatória e vaga em relação aos inimigos do nazismo, judeus sobretudo. Esperava-se, na União Soviética, tornar esses trabalhadores “novos homens” reeducados pelo trabalho, por isso exigia-se que fossem produtivos. Apesar de milhões de pessoas terem morrido nesses campos, o Gulag não foi concebido como local de extermínio, ao contrário dos campos nazistas, onde os terríveis experimentos com câmaras de gás foram responsáveis pela morte de centenas de milhares de judeus.


Além disso, após a morte de Stalin, grande parte dos campos soviéticos foi fechada e milhões de prisioneiros libertos, algo impensável no nazismo, quando no fim da guerra a crueldade dispensada aos prisioneiros recrudesceu. É fato que a propagação de campos no século XX nos regimes totalitários evidenciou a aterradora capacidade desses Estados de produzir mortes em escala industrial, porém não houve nos campos da União Soviética nada semelhante ao Holocausto, nem eles foram organizados de forma proposital para produzir montanhas de cadáveres ou mesmo para serem instrumentos de terror como ocorreu com os campos Alemães. A semelhança nas placas de entrada dos campos, com frases sobre o trabalho nos dois países também não revelam a diferença na concepção de trabalho nos dois regimes, mesmo para os prisioneiros:


Os campos alemães foram criados com a intenção da violência contra inimigos da nação e o esforço de guerra. O trabalho era muitas vezes um caminho deliberado para a destruição. O trabalho no Gulag podia ser destrutivo, mas o objetivo era manter os prisioneiros bem vivos e bem o suficiente para continuarem trabalhando em todos, menos nos mais sinistros campos de punição[25].


Outras distinções também se manifestaram no final da guerra e após. Hitler perdeu o apoio dos países que ocupou porque no transcorrer do conflito ficou claro que o objetivo da Alemanha não era criar uma Europa unida com autonomia entre seus países membros, mas escravizar suas populações e extinguir os grupos étnicos considerados nocivos à pureza racial ariana. Ele poderia ter conseguido apoio até mesmo entre povos que formavam a União Soviética não fosse sua crença de que “os eslavos eram uma raça de escravos subumanos[26]“. No pós-guerra, a ocupação soviética em Berlim oriental e no leste europeu apresentou características bem distintas. Apesar do centralismo administrativo de Moscou, muitos países do leste não foram anexados à URSS e sua classe governante “foi menos elitista que qualquer outro governo da Europa oriental até então[27]“.


Além disso, na década de 1950, com a iniciativa de Kruschev de denunciar os crimes de Stalin, os campos de trabalho escravo foram fechados e seus prisioneiros libertos. O domínio soviético no leste europeu também pôs fim a décadas de instabilidade e crises econômicas. Com a derrota do nazismo em 1945, a política do nacionalismo racial foi substituída por um projeto de modernização econômica abrangente e inclusiva, com expansão da industrialização, universalização do sistema médico e consequente redução da mortalidade infantil a patamares ainda não alcançados na região.


Diferentemente dos alemães, que ocuparam a Europa oriental em função de seus interesses, a União Soviética cooptou e controlou as elites locais, dissipando as tendências nacionalistas e pondo em prática um programa de urbanização e industrialização que provocou profundas mudanças sociais e projetou economicamente a região sobre o restante do continente por algum tempo. Essas melhorias, contudo, culminaram em uma estagnação econômica a partir dos anos 1970 em decorrência da baixa produção de bens de consumo e da insatisfação popular com a ditadura e o centralismo administrativo de Moscou, elementos que depois se somaram à busca por independência nacional quando o sistema como um todo começou a desmoronar. Mas o importante a ressaltar é que as diferenças de objetivos e de governabilidade entre o sistema soviético e o alemão superam muito as semelhanças que tinham.


A cooperação entre Alemanha e União Soviética


Por fim, outro ponto a ser esclarecido diz respeito à colaboração entre eles com a assinatura do pacto de não agressão em 1939. Na verdade, o primeiro acordo militar da Rússia soviética com a Alemanha foi feito mais de dez anos antes de Hitler subir ao poder, quando o país era uma república democrática. Derrotada na Primeira Guerra, a Alemanha saiu do conflito com seu poderio militar extremamente enfraquecido e ficou mais vulnerável ainda com as proibições impostas pelo Tratado de Versalhes. O Tratado estabeleceu o fechamento das academias militares alemãs, assim como quartéis, campos de aviação e depósitos, a redução do exército a uma força policial de cem mil homens, a extinção da força aérea, a quase extinção da Marinha, que teve sua frota reduzida a apenas seis navios pequenos e trinta embarcações, o uso apenas de armas de defesa leves e veículos pequenos e impôs ao país a fiscalização de inspetores de armas de países aliados vencedores da Primeira Guerra. O que restou ao  governo alemão foi tentar reconstruir seu poder militar com o apoio dos russos. Em 1922, os dois países assinaram o tratado de Rapallo e a partir de então passaram a ter intensa cooperação tecnológica e militar. Dez anos depois, segundo Gerd Koenen, quase a metade das importações soviéticas em matérias de tecnologia era procedente da Alemanha. Quando em 1933 Hitler tornou-se chanceler na Alemanha isso não abalou as relações entre os dois países nem foi um evento visto com maus olhos na União Soviética. Paradoxalmente, a cúpula dirigente de Moscou desconfiava mais da social-democracia (que eles chamavam de social-fascismo) do que com o nacional-socialismo porque


A social-democracia alemã representava, de maneira particular, uma política de orientação ocidental; encarava a União Soviética com extremo ceticismo e estava disposta a defender a república contra quaisquer tentativas de golpe, fossem de direita ou de esquerda. […] De resto, a imprensa do KPD [Partido Comunista da Alemanha] titulava todos os partidos de “fascistas”. Além de social-fascistas havia também clerical-fascistas (o Centro), nacional-fascistas (os nacionalistas alemães) – e finalmente os fascistas nazistas ou de Hitler[28].


A ascensão de Hitler encerrou a cooperação militar entre Alemanha e URSS de forma amistosa. Foi uma cooperação que durou pouco mais de dez anos, no decorrer dos quais os exércitos alemães tinham permissão de fazer treinamentos em território soviético, longe dos inspetores dos países aliados, além de poder “estabelecer centros experimentais de pesquisas de tanques, armas químicas e de aviação na União Soviética[29]“, e ainda testar armas no próprio território soviético e a URSS importou tecnologia,  aprendeu a desenvolver um sistema bélico moderno e seus oficiais fizeram cursos na Alemanha. A cooperação transformou os dois países nas primeiras superpotências militares do mundo.


Se o pacto de não-agressão assinado entre os dois países em 23 de Agosto de 1939 desafiava a lógica das hostilidades entre fascismo e comunismo, os dois ditadores sabiam que uma guerra entre eles aconteceria cedo ou tarde. Stalin sabia que os países capitalistas entrariam novamente em guerra e a URSS não poderia ficar passiva e teria de entrar no jogo. O pacto foi um gesto estratégico de Hitler, que “precisava da neutralidade soviética enquanto era obrigado a combater as potências ocidentais[30]” e Stalin esperava que os países capitalistas se dilacerassem no conflito. Mas Stalin não esperava uma ofensiva de Hitler ainda em 1941 enquanto a Alemanha ainda estava em guerra com a Grã-Bretanha e subestimou o poderio do exército alemão. Os dois regimes viam a guerra como algo essencial, foram forjados numa guerra e a utilizavam com propósitos políticos, uma vez que se viam cercados de inimigos. “As duas ditaduras criaram metáforas de conflito permanente como um meio de legitimar o regime. O resultado foi uma disseminada militarização da vida política, em que as diferenças entre as esferas militar e civil se tornaram indistintas e indeterminadas, em meio às linguagens da guerra[31]“. Eram de dois sistemas políticos beligerantes, cujas divergências ideológicas cedo ou tarde os colocariam em lados opostos no campo de batalha e seus dois dirigentes sabiam disso.


Embora a URSS tenha modernizado seu poderio militar, o fato de Stalin ter destruído a base agrária do país com a perseguição brutal aos kulaks e ter eliminado importantes chefes militares e cientistas nos expurgos da década de 1930, deixando praticamente amadores na direção do Exército Vermelho, tornou a URSS bastante vulnerável à invasão alemã em 1941. As rápidas vitórias alemãs no território soviético evidenciaram o completo despreparo do Exército Vermelho diante dos nazistas. Em apenas um mês, nove décimos da força de tanques soviética foi destruída e as operações de cerco desbarataram a maior parte de sua linha de fronte. O treinamento e o aparato militar alemães eram bem superiores aos soviéticos, Richard Overy esclarece[32]. Koenen confirma essa abordagem e acrescenta que a derrota fragorosa do Exército Vermelho em 1941 não possui precedentes na história bélica. Depois de anos de conflito e heroicas resistências, a ajuda externa, especialmente britânica e norte-americana, foi fundamental para a União Soviética reverter a situação e vencer a guerra.


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Re:Por que o nazismo foi um movimento de direita?
« Resposta #87 Online: 20 de Maio de 2018, 08:58:06 »
Conclusão


Quando vejo alguém dizendo que fascismo e nazismo eram ideologias de esquerda, só posso tirar duas conclusões: ou se trata de um completo ignorante em história, que papagueia o que leu ou ouviu de jornalistas de extrema direita ou documentários sensacionalistas sem conhecimento de causa, ou se trata de alguém que age de má-fé, com o intuito deliberado de lançar um engodo retórico para atrair mentes sugestionáveis. A despeito do caráter totalitário dos dois regimes políticos, Stalin era de esquerda e Hitler de direita. A identificação de Hitler como esquerda por causa do nome “socialista” em seu partido apenas evidencia a lamentável distorção histórica a que a direita se presta.


Ora, mesmo as noções de direita e esquerda não são conceitos estanques e devem ser analisadas a partir das características do contexto em que estão inseridas. Como vimos nesse artigo, a direita e a esquerda podiam partilhar ideias comuns no início do século XX, como o racismo científico (mais absorvido pela direita do que pela esquerda), um conjunto de princípios que, se no hoje nos soam como absurdos, estavam fortemente sedimentados no arcabouço científico daquelas primeiras décadas.


Por outro lado, a Primeira Guerra Mundial e o advento de novas tecnologias como o rádio levou à formação do que compreendemos como a “era das massas”, que deu à luz práticas discursivas e militâncias aclamadas tanto à direita quanto à esquerda. Na primeira, temos o culto à tradição, ao passado heroico e mítico e à figura de líderes redentores e que encontraram no fascismo e no nacional-socialismo seus lugares-comuns. Na esquerda, a exacerbação do discurso Iluminista com a promessa de futuro, do progresso pela via da revolução social, que o bolchevismo trouxe para o plano da história. O socialismo se tornou vitrine no período entreguerras, e foi apropriado e reinventado pela direita, que manteve em comum com a esquerda revolucionária o viés antiliberal e antidemocrático.


A direita se reinventou no período entreguerras e sob a sombra do ódio ao parlamentarismo e do anticomunismo, ela própria se tornou revolucionária. A propaganda, a organização de massas e a força do nacionalismo foram seus ingredientes para isso. O fascismo e o nazismo não se limitaram apenas a reagir ao comunismo, mas se tornaram eles próprios projetos de sociedade coletivistas da era das massas e emergiram como ideologias de organização do trabalho numa época em que a sociedade do trabalho estava em crise, numa época de fortes tensões sociais e de classes, cooptaram os trabalhadores, ganharam o apoio das classes médias e da burguesia industrial, embora não tenham se subordinado a elas e concentraram seus objetivos na propaganda, no culto ao líder e no esforço de guerra, a meta maior de Hitler para reaver os territórios perdidos em 1918 e pôr em prática seus princípios de conquista do espaço vital e eliminação dos judeus.


Pós escrito: Além das referências citadas neste texto e listadas abaixo, outra obra importante para compreender de forma mais abrangente o assunto é o livro Hitler, do historiador inglês Ian Kershaw (Editora Companhia das Letras, 2010). Nesta biografia magistral, o autor discute a relação do nazismo com a direita radical, a aversão de Hitler e de seus seguidores por todos os movimentos de esquerda, sua rejeição ao socialismo, o que levou aqueles que ainda pensavam que seu movimento possuía alguma identidade com o socialismo a abandonar o partido nazista, entre outras questões. Kershaw também argumenta que a fusão de socialismo e nacionalismo presentes na sigla do partido de Hitler não se baseava na moderna noção de socialismo, mas numa exacerbação do darwinismo social e do imperialismo do século XIX, de onde provinha a ênfase de “comunidade nacional” pensada não como um meio para promoção do bem-estar coletivo, mas como preparação para uma luta cruenta para a conquista e pela força e para a destruição do marxismo  – e por marxismo ele chamava genericamente tudo o que era de esquerda. No capítulo oito, ao dissertar sobre a visão econômica de Hitler, Kershaw afirma explicitamente que ele nunca foi um socialista. Em toda a sua obra, Kershaw deixa claro como o nazismo se constituiu e se expandiu como movimento de extrema direita. Em muitos aspectos ela complementa as que foram usadas para fundamentar este texto e é atualmente uma das mais importantes referências tanto para se compreender a trajetória de Hitler como ideólogo e líder como também do nazismo como ideologia e como movimento político.


Pós-escrito 2: Este texto foi publicado como artigo acadêmico na Revista Brasileira de História e Ciências Sociais com o título “Nazismo, Socialismo e as políticas de direita e esquerda na primeira metade do século XX”. O texto passou por algumas alterações para ser adaptado ao formato de artigo científico. CLIQUE AQUI para acessar e baixar.


Notas

[1] KOENEN, Gerd. Utopia do Expurgo: o que foi o comunismo. Ijuí, RS: Editora Unijuí, 2009.

[2] Idem, p. 247.

[3] Ibidem, p. 25.

[4] OVERY, Richard. Os Ditadores: a Rússia de Stálin e a Alemanha de Hitler. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 2009, p. 20.

[5] Uso o termo ideologia no sentido que Hannah Arendt atribui ao termo em “Origens do Totalitarismo”, como uma doutrina que se arroga ser detentora da “chave da história” e do conhecimento das forças que regem a natureza e o homem.

[6] MAZOWER, Mark. Continente Sombrio: a Europa no século XX. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

[7] ARENDT, Hannah. Origens do Totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

[8] PERRY, Marvin. Civilização Ocidental: uma história concisa. 3 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2002, p. 384.

[9] HUNT, Lynn. A Invenção dos Direitos Humanos: uma história. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

[10] A noção de Antigo Regime nasce com a própria Revolução Francesa e, no pensamento dos homens do final do século 18 e início do 19, a revolução marca uma ruptura com uma ordem social caracterizada pela estrutura estamental, com forte continuidade com o feudalismo e o “absolutismo” monárquico como sistema de governo predominante. Cf. VOVELLE, Michel. A Revolução Francesa: 1789-1799. São Paulo: Editora da UNESP, 2012.

[11] HUNT, op. cit., p. 183.

[12] HITLER, Adolf. Minha Luta. 5 ed. São Paulo: Centauro, 2001, p. 265-266.

[13] Idem, p. 291-293.

[14] OVERY, op. cit., p. 410.

[15] MAZOWER, op. cit., p. 109.

[16] ARENDT, op. cit., p. 412.

[17] MAZOWER, op. cit., p. 38.

[18] HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos. São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p. 118.

[19] OVERY, op. cit., P. 36.

[20] OVERY, op. cit., p. 562.

[21] Id., p. 563.

[22] Ibid., p. 275-276.

[23] Ibid., p. 598.

[24] APPLEBAUM, Anne. Gulag: uma história dos campos de prisioneiros soviéticos. Rio de Janeiro: Ediouro, 2009.

[25] OVERY, op. cit., p. 622.

[26] HOBSBAWM, op. cit., p. 171.

[27] MAZOWER, op. cit., p. 275.

[28] KOENEN, op. cit., p. 177.

[29] OVERY, op. cit., p. 458.

[30] Id., p. 497.

[31] Ibid., p. 468.

[32] Ibid., p. 506.



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