Autor Tópico: O caso que expôs a crise do budismo na Tailândia  (Lida 715 vezes)

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Offline 4 Ton Mantis

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O caso que expôs a crise do budismo na Tailândia
« Online: 24 de Julho de 2017, 14:55:37 »
https://t.co/7D9Cu1PZwH



A imagem não parecia fazer sentido: um grupo de monges budistas, com suas cabeças raspadas e túnicas alaranjadas, sentado nos bancos de couro de um jatinho executivo. Eles distribuíam acessórios de luxo, como óculos escuros, entre si.

O vídeo, feito pelo monge Wirapol Sukphol (nome que usava antes de sua ordenação religiosa), viralizou na Tailândia desde que foi publicado no YouTube, em 2013.

A partir das imagens, o Departamento de Investigações Especiais da Tailândia, ligado ao Ministério da Justiça do país, descobriu que Wirapol tinha ao menos US$ 6 milhões em dez contas bancárias e havia comprado 22 automóveis Mercedes Benz.

Ele também havia construído uma mansão no sul da Califórnia, era dono de uma mansão em sua cidade natal, Ubon Ratchathani, e tinha encomendado uma réplica gigante da famosa estátua do Buda de Esmeralda, que fica no palácio real de Bangcoc.

Além disso, as autoridades encontraram provas de que Wirapol teve relações sexuais com diversas mulheres. Uma delas afirmou que teve um filho com ele aos 15 anos de idade, o que foi confirmado por exames de DNA.

Diante do escândalo, o monge fugiu para os Estados Unidos e só na semana passada, quatro anos depois, o governo tailandês conseguiu sua extradição. Ele nega as acusações, de fraude, lavagem de dinheiro e estupro.




Mau comportamento
Wirapol ainda não tinha 30 anos quando teria cometido os crimes dos quais é acusado. Mas, apesar ter sido um dos mais notórios casos de um monge budista violando o patimokkha - os 227 preceitos de vida que eles devem seguir -, não foi o primeiro do tipo no país.

De acordo com os preceitos do budismo, monges não deveriam tocar em dinheiro e muito menos manter relações sexuais.

Mas as tentações da vida moderna fizeram pipocar casos de sacerdotes acumulando riquezas, consumindo drogas, participando de festas ou mantendo relações sexuais com homens, mulheres, garotas e garotos.

Vários templos atraem grandes quantidades de fieis devotos graças a um habilidoso marketing promovendo monges carismáticos com supostos poderes sobrenaturais. Com isso, eles capitalizam do anseio dos tailandeses urbanos por espiritualidade e na crença de que doações generosas aos templos garantem mais sucesso e riquezas materiais.

Wirapol, ao que tudo indica, se aproveitou desta tendência.


Voz suave
Wirapol chegou à província de Sisaket, uma região pobre do noroeste do país, no início da década de 2000. Ali, no povoado de Ban Yang, estabeleceu um monastério em um terreno doado.

No entanto, poucos visitavam o templo; os moradores locais eram muito pobres para oferecer o tipo de doações que Wirapol queria, de acordo com Ittipol Nontha, um dos líderes do governo local.

Nontha diz que o monge passou a celebrar cerimônias extravagantes, vendia amuletos e construiu sua réplica do Buda de Esmeralda - que ele dizia ser feita de nove toneladas de ouro, mas uma investigação provou ser falso - para atrair fieis mais ricos de outras partes do país.

Esses fiéis disseram ter sido cativados pela voz suave e calorosa de Wirapol e por afirmar possuir poderes especiais, como, por exemplo, a capacidade de caminhar sobre a água e de falar com divindades.

O monge também deu presentes caros a pessoas influentes da região. Muitos dos automóveis de luxo que comprou foram presentes para outros monges e para autoridades locais.

Até hoje, Wirapol tem seguidores afirmando que ele é um homem de bom coração e que tem o direito de desfrutar dos objetos luxuosos que recebeu.




Escândalos
A série de escândalos levou os tailandeses a falar abertamente sobre uma crise do budismo em seu país.

O número de ordenações de monges caiu abruptamente nos últimos anos e muitos templos pequenos têm dificuldade de se autossustentar.

O órgão ao qual os sacerdotes budistas respondem é o Conselho Supremo Sangha, formado por um grupo de monges anciãos. Até este ano - e por mais de uma década - ele não teve um Patriarca Supremo propriamente ativo, e tem se mostrado pouco eficiente.

O Escritório Nacional de Budismo regula a religião, mas também sofre com problemas de liderança e denúncias de irregularidades financeiras.

O governo introduziu uma lei exigindo que os templos, que arrecadam coletivamente entre US$ 3 e 4 bilhões a cada ano em doações, publiquem seus registros financeiros.

As autoridades também discutem a introdução de uma carteira de identidade digital para os monges, para garantir que aqueles que cometerem atos indevidos, não possam mais ser ordenados.

Entre vertentes
Os problemas morais de alguns monges também se devem, em parte, à forma como o budismo evoluiu na Tailândia.

Durante 150 anos houve duas formas diferentes de budismo no país: uma delas é a vertente mais austera, conhecida como tradição Thammayut, que é praticada nos templos de elite, sustentados pela realeza de Bangcoc.

Nesta tradição, os monges precisam seguir regras estritas para se desprender do mundo material.

A segunda vertente é mais relaxada e é conhecida como tradição Mahanikai das províncias (Estados), nas quais os monges são parte da comunidade e, como tal, participam das atividades dos locais. Algumas vezes, no entanto, isso entra em conflito com a patimokkhai.

Nos vilarejos, os templos funcionam também como escolas ou centros tradicionais de medicina e para cerimônias locais.

A população tem buscado conselhos de monges Mahanikai sobre vários assuntos mundanos, do dia a dia. Nesse ambiente, a linha entre o que é e o que não é comportamento aceitável fica menos clara.


Comércio
Outra causa do problema é o peso da superstição na vida dos tailandeses - e a forma como isso foi comercializado.

Nos últimos anos, os monges têm sido cada vez mais requisitados para rituais semirreligiosos, como benzer carros ou casas recém-comprados, para atrair sorte. Em alguns templos, vende-se até mesmo bilhetes de loteria, que para muitos é uma tentação difícil de resistir.



Phra Payom Kalayano, o abade de um templo no norte de Bangcoc, é crítico ao que chama de comercialização do budismo. Ele pediu aos tailandeses que sejam mais conscientes ao fazer doações religiosas.

"Hoje em dia, as pessoas, especialmente os ricos, acha que jogar dinheiro nos templos garante um bom carma. Eles têm fé, mas não pensam. Isso não é praticar o bom carma de maneira inteligente. É só fé cega."

"Alguns monges também são estúpidos, não sabem usar as doações que recebem. Em vez de administrar bem o dinheiro para construir carma e prestígio para o templo, eles terminam construindo casos criminais contra si mesmos", afirma.

Antes da chegada da globalização e das várias distrações do consumo, era mais fácil pregar uma vida monástica em que se abdica de prazeres materiais. Mas hoje, é difícil defender que os monges abram mão de conveniências tecnológicas como celulares ou viagens de avião.

E é mais difícil ainda definir o papel que os monges devem desempenhar na Tailândia do século 21, além da provisão de bênçãos de boa sorte e amuletos, atividades que facilmente podem se tornar em máquinas de dinheiro.
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Offline Rafael_SG

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Re:O caso que expôs a crise do budismo na Tailândia
« Resposta #1 Online: 24 de Julho de 2017, 16:28:45 »
Em casa de ferreiro o espeto é de pau...

Triste, mas faz parte da natureza humana. Tem sempre uns fdp querendo tirar uma "graninha" às custas dos outros.

Offline Skeptikós

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Re:O caso que expôs a crise do budismo na Tailândia
« Resposta #2 Online: 25 de Julho de 2017, 03:01:45 »
E religiosos parecem ser no geral muito ingênuos ao ponto de confiarem cegamente nos líderes de suas religiões. O ceticismo faz falta nessas horas.
"Che non men che saper dubbiar m'aggrada."
"E, não menos que saber, duvidar me agrada."

Dante, Inferno, XI, 93; cit. p/ Montaigne, Os ensaios, Uma seleção, I, XXV, p. 93; org. de M. A. Screech, trad. de Rosa Freire D'aguiar

Offline Rafael_SG

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Re:O caso que expôs a crise do budismo na Tailândia
« Resposta #3 Online: 25 de Julho de 2017, 10:39:55 »
E religiosos parecem ser no geral muito ingênuos ao ponto de confiarem cegamente nos líderes de suas religiões. O ceticismo faz falta nessas horas.

Faz mesmo

Offline criso

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Re:O caso que expôs a crise do budismo na Tailândia
« Resposta #4 Online: 14 de Agosto de 2017, 14:12:04 »
lá no oriente, o budismo é uma religião tão cheia de vícios e abusos quanto as religiões de massa daqui
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Offline criso

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Re:O caso que expôs a crise do budismo na Tailândia
« Resposta #5 Online: 14 de Agosto de 2017, 14:13:16 »
tenho estudado bastante o budismo, especialmente o zen e o mahayana, e fiquei completamente encantado com suas ideias e propostas, mas imagino que isso seja radicalmente distinto na prática da "religião organizada" budista no oriente.
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Offline Vithor

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Re:O caso que expôs a crise do budismo na Tailândia
« Resposta #6 Online: 14 de Agosto de 2017, 22:43:34 »
tenho estudado bastante o budismo, especialmente o zen e o mahayana, e fiquei completamente encantado com suas ideias e propostas, mas imagino que isso seja radicalmente distinto na prática da "religião organizada" budista no oriente.
Pois é, A religião Budista realmente na Teoria é impecável, Em minha singela opinião está a anos luzes à frente das demais religiões... É uma pena que pessoas Com más intenções estão em todas as religiões sem exceção e até mesmo no Ateísmo...
Já visitei Mosteiros que Tem Aqui no Sul do Brasil e pelo menos do que eu vi e percebi são mosteiros bem mais "modestos"... Mas Vai saber né...
Interessante:
Olha um Relato que Encontrei:
http://ateupraticante.blogspot.com.br/2008/11/os-perigos-do-budismo.html
« Última modificação: 14 de Agosto de 2017, 22:48:06 por vithor »

Offline criso

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Re:O caso que expôs a crise do budismo na Tailândia
« Resposta #7 Online: 15 de Agosto de 2017, 00:33:12 »
Relato interessante que encontrei:

Citar
"O Budismo acredita em um ser superior que controla as nossas vidas"

O único ser superior presente no Budismo é a Natureza Búdica, que, na verdade, é o próprio sujeito. Isso significa que o Ser Supremo do Budismo é o próprio praticante. Além do mais, o Budismo é uma religião essencialmente de ateus e agnósticos. Não há um criador, um agente pessoal eterno, e nem mesmo um Apocalipse dirigido. São coisas que não interessam à maior parte dos Budistas. Na verdade, discutir se existem deuses ou não é um assunto completamente sem sentido para um Budista. Doutrinariamente, não há deuses no Budismo, nem qualquer ilusão externa ao indivíduo que o salve ou o condene, nem especulações sobre o início ou o fim dos tempos, e muito menos a preocupação em religar-se a uma entidade Mística Sobrenaturalista. O Budismo (principalmente o Zen) procura apenas uma experiência plena com a realidade, o que descarta a necessidade de deuses.

"O Budismo é sobrenaturalista"

Essa frase é muito usada por ateus que querem recriminar todas as práticas espirituais, assim como pelos cristãos, que querem usar esse dado para tentar nos convencer a segui-los. É um dado mais comum no Zen-Budismo, que constata que tudo o que existe É a natureza, e, portanto, natural. Se tudo é natural, nada existe sobre a natureza, e portanto não existe o sobrenatural. Um Budista esclarecido não perde tempo especulando sobre que há além da vida ou do plano físico, apenas se vive e se melhora ESTA vida. Não somos todos místicos ou esotéricos (isso fica a cargo do praticante). O sobrenaturalismo, porém, é escolha do praticante. Alguns são ateus, outros são teístas. Alguns são místicos e esotéricos, e outros são céticos e materialistas. Nenhuma crença ou percepção espiritual é uma obrigação.

"O Budismo é um sistema de crenças"

As pessoas confundem Sistemas Éticos com Sistemas de Crenças, como se fossem a mesma coisa. Um Sistema de Crenças é um conjunto de pressupostos sem os quais um modo de ver o mundo não funciona. O Cristianismo precisa de um conjunto de pressupostos, bem delimitados no Credo Niceno-Constantinopolitano. Você deve confiar no Credo. O mesmo se diz do ateísmo: você tem um conjunto de crenças a serem seguidas. No Budismo, há uma história simbólica que pode ser questionada. Isso porque os budistas não vivem na dicotomia crer/não-crer que existe no Ocidente. Sua concepção está mais na área do fazer/não-fazer. Assim, não é preciso crer no Zen, mas apenas praticá-lo.

"O Budismo é contra as armas"

O Budismo é pacifista, mas não contra as armas. Na verdade, o Budismo é um conjunto de práticas de melhora pessoal do indivíduo e de ajuda a outros indivíduos no que se pode ajudar. Muitas tradições até incentivam que o indivíduo aprenda a se defender por meio de qualquer coisa que estiver ao seu alcance (daí muitos budistas no passado terem inclusive desenvolvido artes marciais, algumas letais). A ideia do mestres em artes marciais é: para se defender, faça o possível, até mesmo mate seu agressor, mas deixe-o de lado assim que a ameaça for eliminada. Não é de se admirar que as artes marciais mais famosas (algumas com o uso de armas) tenham surgido a partir de ideais budistas: aikidô, jiu-jítsu, judô, kung fu shaolin (este com o uso de armas), dentre outros.

"O Budismo incentiva o praticante a renegar o mundo"

O Budismo é apenas uma doutrina que preza pela melhoria espiritual do indivíduo para que ele viva bem e feliz em qualquer situação em que estiver. Assim,não é obrigatório ninguém se tornar um monge, um mendigo ou um eremita. Pelo contrário, o Budismo ensina um caminho espiritual de "limpeza do ego" que permita que monges e leigos, mendigos e milionários, eremitas e celebridades, eruditos e incultos, onívoros e vegetarianos, jovens e velhos, todos, sem distinção de qualquer espécie, possam viver bem consigo mesmos e buscar o bem dos outros. Logo, ensina-se a não se apegar às coisas, mas também a não ter aversão a elas.

"O Budismo crê na reencarnação"

A Reencarnação é uma introjeção conceitual do Ocidente, e não uma doutrina Budista. Uma vez que nenhuma semente permanente sobrevive à nossa morte, a Reencarnação ou Transmigração da Alma (uma semente permanente) é um conceito estranho ao Budismo. Em vez disso, usa-se o termo Renascimento ou Remanifestação, para o qual o que existe é um conjunto de ações éticas e de materiais prévios que nos causa e que deixaremos para causar outras coisas, e ainda serviremos de material prévio para outras coisas. Por isso, dizemos também que o Budismo não é voltado a uma vida após a morte, pois uma das buscas dos budistas é o esvaziamento do Eu. Se não está preparado para começar a esvaziar, não siga em frente. O Eu, como tudo no universo, é impermanente. Não existia antes do nascimento, e não durará depois da morte. Ao morrer, a consciência, o Eu, se apaga como o fogo de uma vela, e evapora como uma gota de água sobre uma chapa quente. Logo, não existe crença no pós-morte para o Budismo.

"O Budismo possui leis, regras e mandamentos"

Um mandamento é uma regra inflexível, cuja não execução é punida por leis religiosas próprias (ou com ameaças de inferno ou promessas de paraíso). No Budismo não existem mandamentos, mas preceitos, ou seja, conselhos de mestres que, em anos de prática, perceberam que determinado caminho era o melhor a ser seguido e ensinaram isso aos discípulos, mas nunca obrigaram ninguém a seguir determinada postura ética. Significa que não há coisas obrigadas no Budismo, apenas indicações de qual o melhor caminho, mas nenhuma obrigação de se seguir este ou aquele caminho. Por exemplo: no Zen pede-se para fazer o Zazen, mas isso não é obrigatório, é apenas algo que os mestres aprenderam por gerações e compartilharam com seus discípulos. Se qualquer discípulo acha que outro caminho é melhor em relação ao Zazen, que aprimore esse caminho para que seja eficiente.

"O Budismo possui dogmas e rituais"

Quanto aos rituais, admito que pode ser verdade (há a presença de templos também). Apesar de nenhum deles ser obrigatório, o ritual é uma peça chave, pois ajuda na prática e cria um hábito na aplicação da ética. Quanto aos dogmas, o Budismo não possui. Todas as suas doutrinas são postas à prova pelos mestres aos seus discípulos. O Budismo não é uma doutrina de "está escrito, tem que aceitar". Não é uma religião dogmática e inquestionável, mas uma religião do experimentar. Não focamos em doutrinas pura e simplesmente sem, antes, focar a atenção na experiência. Além disso, o Budismo exige de seus praticantes uma constante postura crítica e cética, tanto em relação a doutrinas e ideologias, como em relação a crenças pessoais e à sua própria pessoa. Para isso sugiro ler o Kalama Sutra, em que o próprio Buda nos aconselha a não aceitar tudo o que se diz sem experimentar primeiro, nem mesmo seus próprios ensinamentos. Um espírito questionador é, portanto, essencial a um Budista.

"O Budismo é uma religião/psicologia"

Uma religião é um sistema de "religamento" entre o homem e um deus ou ser superior, que se dá mediante contratos de crença, fé e ritual, e quase sempre sustentada pelo mito. Uma psicologia é um sistema de "reajustamento", em que pessoas que estão em desequilíbrio com o meio social buscam ajustar-se à sociedade. O Budismo é uma prática ética de autoanálise e automelhoria, ou seja, não há um deus ao qual religar-se, e muito menos privilegia-se uma sociedade padrão à qual ajustar-se. O Budista está só, e ponto final.

"O Budismo acredita que você só é feliz sendo budista"

Há, no Budismo, um exercício ético interessante: compreender que qualquer pessoa, de qualquer vida espiritual benéfica, pode alcançar a iluminação e tornar-se um Buda. Por isso os budistas não estão preocupados se você é budista ou não-budista, estão interessados apenas se você se aprimora enquanto indivíduo e se é feliz. Diferente do Cristianismo (que baseia-se na pregação de uma salvação) e do Neoateísmo (baseado na pregação anti-religiosa), o Budismo não se baseia na "pregação" de uma verdade, mas no exemplo de seus praticantes. Para tanto, sua principal forma de propagação é o "ver e vir", demonstrar pelas ações e ensinar somente aos interessados. O "ver e vir" é o que faz, por exemplo, com que o Budismo cresça muito entre grupos interessados. Os Cristãos enviam missionários que saem pregando e convertendo as pessoas. No Budismo, um pequeno grupo se converte e só depois é que PEDEM a um centro que envie um missionário. No Cristianismo, a conversão é empurrada a você, no Budismo, a conversão vem somente de você.

"O Budismo preza pelo ascetismo e pelo fim da individualidade"

As pessoas confunde muito o prazer (a simples sensação agradável) com o desejo (ânsia de ter a sensação agradável a todo custo), e com isso acabam transformando o Budismo e uma espécie de ascetismo. Na verdade, não se procura eliminar o prazer nem a dor, mas apenas buscar o "Caminho do Meio", ou seja, encontrar um meio termo entre os dois, a moderação. Quanto à individualidade, ela é uma mera ilusão, mas deve ser respeitada. Logo, não existe no Budismo a preocupação extrema com a sexualidade do outro (muitos Budistas são homossexuais, e os centros budistas celebram casamentos homossexuais), com as opiniões do outro (a opinião deve ser respeitada), com a família do outro (o Budismo não tem um "plano" padronizado para modelos familiares), com as crenças do outro (há budistas céticos e esotéricos, ateus e teístas, convivendo tranquilamente) e muito menos com a vida particular do outro (não ficamos vigiando as ações do outro para ver se estão "pecando").

"O Budismo é machista, homofóbico e racista"

Apesar de algumas escolas (Tailandesa, Theravada, Tibetana) terem algumas reservas em relação ao homossexualismo ou à participação ativa de mulheres, os próprios mestres sabem que o próprio Buda Histórico recriminou seus discípulos por agirem, pensarem ou interpretarem seus ensinamentos de forma a diminuir a importância de outros seres humanos. A ideia central do Budismo é que todos os seres podem viver de forma harmoniosa, sendo as diferenças entre eles meras ilusões. Para ver como o Budismo aceita o diferente, há mestres budistas homossexuais (Mestre Jim Shalkham, da tradição Soto Zen), mestres budistas mulheres (Monja Cohen, também do Soto Zen) e boa parte dos budistas ocidentais são não-orientais (o que demonstra que não há primazia racial). Para o Budismo, o essencial é que se aprenda a conviver com o outro e se aceite o outro como ele é. Sempre somos lembrado que há muitos Bodissátivas (outros budas) que eram homossexuais, mulheres, anões, ricos, pobres, estrangeiros...

"Se você seguir o Budismo, deixará de sofrer"

O Budismo apresenta um conjunto de ações ou conselhos de como diminuir o sofrimento, que podem ser aplicados sem necessariamente você precisar ser budista, ir a uma sanga, visitar um templo ou abrir mão de outras práticas espirituais. Se, para deixar de sofrer, você tomou remédios e hoje está feliz, ótimo, que bom! Fico muito feliz por você! Se, para deixar de sofrer, você abraçou o Budismo e tornou-se um praticante exemplar, ótimo do mesmo jeito, é igualmente bom! O que o Budismo aconselha é que, para cessar o sofrimento, o indivíduo deve seguir o Caminho Óctuplo, ou seja, ter um caminho ético. O caminho óctuplo é tão somente o modo Budista de lidar com o comportamento humano, mas não significa que você não possa ser Estoico, Consequencialista, Humanista ou Utilitarista. Resumindo: você deixa de sofrer quando encontra um caminho ético coerente e pessoal, alguns encontrando no Budismo, outros encontrando no Humanismo. Simples assim!

"O Budismo é comodista"

Na meditação aprendemos que existe uma diferença clara entre passividade e comodismo. Passividade é tão somente o "deixar passar", é a velha prática do wu-wei de transformar uma energia em outra, e não tentar barrá-la. Se não entendeu isso, meditou de forma errada! É mais fácil desviar do carro que tentar pará-lo com seu corpo como barreira. Uma das principais atitudes do Budismo é o "faça". Não discuta o que fazer, faça! O melhor caminho a se seguir é a ação. Por isso, quando se entra no Budismo, tendo aquela ideia pré-concebida de pacifistas feitos de manteiga que morrem a qualquer soco, costuma-se ficar assustado quando nos deparamos com monges pró-ativos, budistas empresários e mesmo aqueles com forte participação na vida política e na luta por direitos.

"O Budismo te fará feliz"

Eu sou depressivo, e sou budista, e sou feliz. Não sou feliz porque sou budista. Sou feliz porque aprendi a me compreender. O Budismo não apresenta a fórmula da felicidade, mas para o Despertar. Se quer ser feliz, encontre outros meios (de preferência, encontre meios internos para a sua felicidade). Se você consegue ser feliz escrevendo livros ou desenterrando dinossauros, ótimo, que bom! Porém, há, como em todos os caminhos espirituais, gente que finge ser feliz para ser aceito. Se um budista finge sorrisos, então não entendeu o Budismo. Há uma frase que vi uma vez em um centro de Kung Fu de um amigo meu: "a felicidade é um sofrimento". Segundo ele, era de um mestre zen. Mesmo que não seja, é bem esse o espírito do zen: felicidade e infelicidade são distinções que fazemos, não fazem sentido.

"O Budismo é muito complexo para os incultos"

Um dos principais apelos do Budismo é que ele não vê distinções entre as pessoas. Há budistas pós-doutores como há budistas sapateiros semi-analfabetos. É fácil de ser compreendida essa característica do Budismo pelo fato de Sidarta Gautama ter sido um príncipe letrado e erudito, enquanto que o Sexto Patriarca do Zen-Budismo, Huineng, ter sido um lenhador analfabeto e inculto, e ambos serem igualmente respeitados nos dias de hoje. O Budismo não é um conhecimento acadêmico para poucos que exige anos de estudo e aprendizagem das línguas originais. Pelo contrário, ele é uma prática cotidiana, do dia-a-dia, é tão somente agir. Como o Budismo se baseia em doutrinas muito simples e em um viver mais prático, há muito pouco a ser deturpado caso alguém tenha uma cultura menor que um monge. É uma vida espiritual para poucos, tenham conhecimentos ou não.

"O Budismo é hierárquico"

Tudo bem, admito que seja um pouco hierárquico, mas o sistema depende muito de que escola falemos. Alguns apresentam uma organização social complexa, dividida em classes, estrados, lamas e eruditos. Outras escolas têm apenas a distinção simples entre o mestre e o discípulo. O praticante não tem nenhuma obrigação de sustentar ou aceitar a hierarquia do Budismo além da fundamental distinção entre mestre e discípulo. Eu, por exemplo, que pratico o Zen-Budismo, ainda não tenho mestre, e só procurarei um quando me achar preparado para ele. Se eu me achar preparado, não vou sair escolhendo um mestre aleatoriamente, e nem obedecendo ele em tudo, mas sempre analisarei seus ensinamentos e tentarei aplicar. É o espírito do Budismo.

Diante do posto aqui, espero que você, leitor, tenha percebido que, muitas vezes, não é saudável viver de estereótipos. Mal sabem meus amigos que minha visão não se adequa ao que eles costumam usar para julgar as religiões ocidentais. Na verdade, as crenças monoteístas não são a regra de comportamento espiritual, mas uma exceção que apareceu na história humana. No mais, espero que todos fiquem em paz.
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Offline Vithor

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Re:O caso que expôs a crise do budismo na Tailândia
« Resposta #8 Online: 15 de Agosto de 2017, 17:42:13 »
Relato interessante que encontrei:

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"O Budismo acredita em um ser superior que controla as nossas vidas"

O único ser superior presente no Budismo é a Natureza Búdica, que, na verdade, é o próprio sujeito. Isso significa que o Ser Supremo do Budismo é o próprio praticante. Além do mais, o Budismo é uma religião essencialmente de ateus e agnósticos. Não há um criador, um agente pessoal eterno, e nem mesmo um Apocalipse dirigido. São coisas que não interessam à maior parte dos Budistas. Na verdade, discutir se existem deuses ou não é um assunto completamente sem sentido para um Budista. Doutrinariamente, não há deuses no Budismo, nem qualquer ilusão externa ao indivíduo que o salve ou o condene, nem especulações sobre o início ou o fim dos tempos, e muito menos a preocupação em religar-se a uma entidade Mística Sobrenaturalista. O Budismo (principalmente o Zen) procura apenas uma experiência plena com a realidade, o que descarta a necessidade de deuses.

"O Budismo é sobrenaturalista"

Essa frase é muito usada por ateus que querem recriminar todas as práticas espirituais, assim como pelos cristãos, que querem usar esse dado para tentar nos convencer a segui-los. É um dado mais comum no Zen-Budismo, que constata que tudo o que existe É a natureza, e, portanto, natural. Se tudo é natural, nada existe sobre a natureza, e portanto não existe o sobrenatural. Um Budista esclarecido não perde tempo especulando sobre que há além da vida ou do plano físico, apenas se vive e se melhora ESTA vida. Não somos todos místicos ou esotéricos (isso fica a cargo do praticante). O sobrenaturalismo, porém, é escolha do praticante. Alguns são ateus, outros são teístas. Alguns são místicos e esotéricos, e outros são céticos e materialistas. Nenhuma crença ou percepção espiritual é uma obrigação.

"O Budismo é um sistema de crenças"

As pessoas confundem Sistemas Éticos com Sistemas de Crenças, como se fossem a mesma coisa. Um Sistema de Crenças é um conjunto de pressupostos sem os quais um modo de ver o mundo não funciona. O Cristianismo precisa de um conjunto de pressupostos, bem delimitados no Credo Niceno-Constantinopolitano. Você deve confiar no Credo. O mesmo se diz do ateísmo: você tem um conjunto de crenças a serem seguidas. No Budismo, há uma história simbólica que pode ser questionada. Isso porque os budistas não vivem na dicotomia crer/não-crer que existe no Ocidente. Sua concepção está mais na área do fazer/não-fazer. Assim, não é preciso crer no Zen, mas apenas praticá-lo.

"O Budismo é contra as armas"

O Budismo é pacifista, mas não contra as armas. Na verdade, o Budismo é um conjunto de práticas de melhora pessoal do indivíduo e de ajuda a outros indivíduos no que se pode ajudar. Muitas tradições até incentivam que o indivíduo aprenda a se defender por meio de qualquer coisa que estiver ao seu alcance (daí muitos budistas no passado terem inclusive desenvolvido artes marciais, algumas letais). A ideia do mestres em artes marciais é: para se defender, faça o possível, até mesmo mate seu agressor, mas deixe-o de lado assim que a ameaça for eliminada. Não é de se admirar que as artes marciais mais famosas (algumas com o uso de armas) tenham surgido a partir de ideais budistas: aikidô, jiu-jítsu, judô, kung fu shaolin (este com o uso de armas), dentre outros.

"O Budismo incentiva o praticante a renegar o mundo"

O Budismo é apenas uma doutrina que preza pela melhoria espiritual do indivíduo para que ele viva bem e feliz em qualquer situação em que estiver. Assim,não é obrigatório ninguém se tornar um monge, um mendigo ou um eremita. Pelo contrário, o Budismo ensina um caminho espiritual de "limpeza do ego" que permita que monges e leigos, mendigos e milionários, eremitas e celebridades, eruditos e incultos, onívoros e vegetarianos, jovens e velhos, todos, sem distinção de qualquer espécie, possam viver bem consigo mesmos e buscar o bem dos outros. Logo, ensina-se a não se apegar às coisas, mas também a não ter aversão a elas.

"O Budismo crê na reencarnação"

A Reencarnação é uma introjeção conceitual do Ocidente, e não uma doutrina Budista. Uma vez que nenhuma semente permanente sobrevive à nossa morte, a Reencarnação ou Transmigração da Alma (uma semente permanente) é um conceito estranho ao Budismo. Em vez disso, usa-se o termo Renascimento ou Remanifestação, para o qual o que existe é um conjunto de ações éticas e de materiais prévios que nos causa e que deixaremos para causar outras coisas, e ainda serviremos de material prévio para outras coisas. Por isso, dizemos também que o Budismo não é voltado a uma vida após a morte, pois uma das buscas dos budistas é o esvaziamento do Eu. Se não está preparado para começar a esvaziar, não siga em frente. O Eu, como tudo no universo, é impermanente. Não existia antes do nascimento, e não durará depois da morte. Ao morrer, a consciência, o Eu, se apaga como o fogo de uma vela, e evapora como uma gota de água sobre uma chapa quente. Logo, não existe crença no pós-morte para o Budismo.

"O Budismo possui leis, regras e mandamentos"

Um mandamento é uma regra inflexível, cuja não execução é punida por leis religiosas próprias (ou com ameaças de inferno ou promessas de paraíso). No Budismo não existem mandamentos, mas preceitos, ou seja, conselhos de mestres que, em anos de prática, perceberam que determinado caminho era o melhor a ser seguido e ensinaram isso aos discípulos, mas nunca obrigaram ninguém a seguir determinada postura ética. Significa que não há coisas obrigadas no Budismo, apenas indicações de qual o melhor caminho, mas nenhuma obrigação de se seguir este ou aquele caminho. Por exemplo: no Zen pede-se para fazer o Zazen, mas isso não é obrigatório, é apenas algo que os mestres aprenderam por gerações e compartilharam com seus discípulos. Se qualquer discípulo acha que outro caminho é melhor em relação ao Zazen, que aprimore esse caminho para que seja eficiente.

"O Budismo possui dogmas e rituais"

Quanto aos rituais, admito que pode ser verdade (há a presença de templos também). Apesar de nenhum deles ser obrigatório, o ritual é uma peça chave, pois ajuda na prática e cria um hábito na aplicação da ética. Quanto aos dogmas, o Budismo não possui. Todas as suas doutrinas são postas à prova pelos mestres aos seus discípulos. O Budismo não é uma doutrina de "está escrito, tem que aceitar". Não é uma religião dogmática e inquestionável, mas uma religião do experimentar. Não focamos em doutrinas pura e simplesmente sem, antes, focar a atenção na experiência. Além disso, o Budismo exige de seus praticantes uma constante postura crítica e cética, tanto em relação a doutrinas e ideologias, como em relação a crenças pessoais e à sua própria pessoa. Para isso sugiro ler o Kalama Sutra, em que o próprio Buda nos aconselha a não aceitar tudo o que se diz sem experimentar primeiro, nem mesmo seus próprios ensinamentos. Um espírito questionador é, portanto, essencial a um Budista.

"O Budismo é uma religião/psicologia"

Uma religião é um sistema de "religamento" entre o homem e um deus ou ser superior, que se dá mediante contratos de crença, fé e ritual, e quase sempre sustentada pelo mito. Uma psicologia é um sistema de "reajustamento", em que pessoas que estão em desequilíbrio com o meio social buscam ajustar-se à sociedade. O Budismo é uma prática ética de autoanálise e automelhoria, ou seja, não há um deus ao qual religar-se, e muito menos privilegia-se uma sociedade padrão à qual ajustar-se. O Budista está só, e ponto final.

"O Budismo acredita que você só é feliz sendo budista"

Há, no Budismo, um exercício ético interessante: compreender que qualquer pessoa, de qualquer vida espiritual benéfica, pode alcançar a iluminação e tornar-se um Buda. Por isso os budistas não estão preocupados se você é budista ou não-budista, estão interessados apenas se você se aprimora enquanto indivíduo e se é feliz. Diferente do Cristianismo (que baseia-se na pregação de uma salvação) e do Neoateísmo (baseado na pregação anti-religiosa), o Budismo não se baseia na "pregação" de uma verdade, mas no exemplo de seus praticantes. Para tanto, sua principal forma de propagação é o "ver e vir", demonstrar pelas ações e ensinar somente aos interessados. O "ver e vir" é o que faz, por exemplo, com que o Budismo cresça muito entre grupos interessados. Os Cristãos enviam missionários que saem pregando e convertendo as pessoas. No Budismo, um pequeno grupo se converte e só depois é que PEDEM a um centro que envie um missionário. No Cristianismo, a conversão é empurrada a você, no Budismo, a conversão vem somente de você.

"O Budismo preza pelo ascetismo e pelo fim da individualidade"

As pessoas confunde muito o prazer (a simples sensação agradável) com o desejo (ânsia de ter a sensação agradável a todo custo), e com isso acabam transformando o Budismo e uma espécie de ascetismo. Na verdade, não se procura eliminar o prazer nem a dor, mas apenas buscar o "Caminho do Meio", ou seja, encontrar um meio termo entre os dois, a moderação. Quanto à individualidade, ela é uma mera ilusão, mas deve ser respeitada. Logo, não existe no Budismo a preocupação extrema com a sexualidade do outro (muitos Budistas são homossexuais, e os centros budistas celebram casamentos homossexuais), com as opiniões do outro (a opinião deve ser respeitada), com a família do outro (o Budismo não tem um "plano" padronizado para modelos familiares), com as crenças do outro (há budistas céticos e esotéricos, ateus e teístas, convivendo tranquilamente) e muito menos com a vida particular do outro (não ficamos vigiando as ações do outro para ver se estão "pecando").

"O Budismo é machista, homofóbico e racista"

Apesar de algumas escolas (Tailandesa, Theravada, Tibetana) terem algumas reservas em relação ao homossexualismo ou à participação ativa de mulheres, os próprios mestres sabem que o próprio Buda Histórico recriminou seus discípulos por agirem, pensarem ou interpretarem seus ensinamentos de forma a diminuir a importância de outros seres humanos. A ideia central do Budismo é que todos os seres podem viver de forma harmoniosa, sendo as diferenças entre eles meras ilusões. Para ver como o Budismo aceita o diferente, há mestres budistas homossexuais (Mestre Jim Shalkham, da tradição Soto Zen), mestres budistas mulheres (Monja Cohen, também do Soto Zen) e boa parte dos budistas ocidentais são não-orientais (o que demonstra que não há primazia racial). Para o Budismo, o essencial é que se aprenda a conviver com o outro e se aceite o outro como ele é. Sempre somos lembrado que há muitos Bodissátivas (outros budas) que eram homossexuais, mulheres, anões, ricos, pobres, estrangeiros...

"Se você seguir o Budismo, deixará de sofrer"

O Budismo apresenta um conjunto de ações ou conselhos de como diminuir o sofrimento, que podem ser aplicados sem necessariamente você precisar ser budista, ir a uma sanga, visitar um templo ou abrir mão de outras práticas espirituais. Se, para deixar de sofrer, você tomou remédios e hoje está feliz, ótimo, que bom! Fico muito feliz por você! Se, para deixar de sofrer, você abraçou o Budismo e tornou-se um praticante exemplar, ótimo do mesmo jeito, é igualmente bom! O que o Budismo aconselha é que, para cessar o sofrimento, o indivíduo deve seguir o Caminho Óctuplo, ou seja, ter um caminho ético. O caminho óctuplo é tão somente o modo Budista de lidar com o comportamento humano, mas não significa que você não possa ser Estoico, Consequencialista, Humanista ou Utilitarista. Resumindo: você deixa de sofrer quando encontra um caminho ético coerente e pessoal, alguns encontrando no Budismo, outros encontrando no Humanismo. Simples assim!

"O Budismo é comodista"

Na meditação aprendemos que existe uma diferença clara entre passividade e comodismo. Passividade é tão somente o "deixar passar", é a velha prática do wu-wei de transformar uma energia em outra, e não tentar barrá-la. Se não entendeu isso, meditou de forma errada! É mais fácil desviar do carro que tentar pará-lo com seu corpo como barreira. Uma das principais atitudes do Budismo é o "faça". Não discuta o que fazer, faça! O melhor caminho a se seguir é a ação. Por isso, quando se entra no Budismo, tendo aquela ideia pré-concebida de pacifistas feitos de manteiga que morrem a qualquer soco, costuma-se ficar assustado quando nos deparamos com monges pró-ativos, budistas empresários e mesmo aqueles com forte participação na vida política e na luta por direitos.

"O Budismo te fará feliz"

Eu sou depressivo, e sou budista, e sou feliz. Não sou feliz porque sou budista. Sou feliz porque aprendi a me compreender. O Budismo não apresenta a fórmula da felicidade, mas para o Despertar. Se quer ser feliz, encontre outros meios (de preferência, encontre meios internos para a sua felicidade). Se você consegue ser feliz escrevendo livros ou desenterrando dinossauros, ótimo, que bom! Porém, há, como em todos os caminhos espirituais, gente que finge ser feliz para ser aceito. Se um budista finge sorrisos, então não entendeu o Budismo. Há uma frase que vi uma vez em um centro de Kung Fu de um amigo meu: "a felicidade é um sofrimento". Segundo ele, era de um mestre zen. Mesmo que não seja, é bem esse o espírito do zen: felicidade e infelicidade são distinções que fazemos, não fazem sentido.

"O Budismo é muito complexo para os incultos"

Um dos principais apelos do Budismo é que ele não vê distinções entre as pessoas. Há budistas pós-doutores como há budistas sapateiros semi-analfabetos. É fácil de ser compreendida essa característica do Budismo pelo fato de Sidarta Gautama ter sido um príncipe letrado e erudito, enquanto que o Sexto Patriarca do Zen-Budismo, Huineng, ter sido um lenhador analfabeto e inculto, e ambos serem igualmente respeitados nos dias de hoje. O Budismo não é um conhecimento acadêmico para poucos que exige anos de estudo e aprendizagem das línguas originais. Pelo contrário, ele é uma prática cotidiana, do dia-a-dia, é tão somente agir. Como o Budismo se baseia em doutrinas muito simples e em um viver mais prático, há muito pouco a ser deturpado caso alguém tenha uma cultura menor que um monge. É uma vida espiritual para poucos, tenham conhecimentos ou não.

"O Budismo é hierárquico"

Tudo bem, admito que seja um pouco hierárquico, mas o sistema depende muito de que escola falemos. Alguns apresentam uma organização social complexa, dividida em classes, estrados, lamas e eruditos. Outras escolas têm apenas a distinção simples entre o mestre e o discípulo. O praticante não tem nenhuma obrigação de sustentar ou aceitar a hierarquia do Budismo além da fundamental distinção entre mestre e discípulo. Eu, por exemplo, que pratico o Zen-Budismo, ainda não tenho mestre, e só procurarei um quando me achar preparado para ele. Se eu me achar preparado, não vou sair escolhendo um mestre aleatoriamente, e nem obedecendo ele em tudo, mas sempre analisarei seus ensinamentos e tentarei aplicar. É o espírito do Budismo.

Diante do posto aqui, espero que você, leitor, tenha percebido que, muitas vezes, não é saudável viver de estereótipos. Mal sabem meus amigos que minha visão não se adequa ao que eles costumam usar para julgar as religiões ocidentais. Na verdade, as crenças monoteístas não são a regra de comportamento espiritual, mas uma exceção que apareceu na história humana. No mais, espero que todos fiquem em paz.
Realmente esse também é interresante. Tudo tem um Lado bom e Ruim...

Offline Eremita

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Re:O caso que expôs a crise do budismo na Tailândia
« Resposta #9 Online: 04 de Setembro de 2017, 22:15:08 »
Toda vez que você cria um grupo com algum tipo de poder (leia-se: capacidade de impor sua vontade sobre outros), vai chegar uma hora em que esse grupo vai usar esse poder para pregar uma coisa e seguir outra.

Ou seja. Pra mim isso diz mais sobre a natureza humana do que sobre o budismo.
Monoteísmo é a hidra de Lerna. Con Kolivas estava certo sobre o desktop. Prozac não deixa tudo melhor. Aquiles devia ter escolhido os dois destinos, juntos. Coração sentimental + mente cética = aflição. Sou responsável pelo que digo, não pela sua interpretação sobre o que digo.

Offline Nostromo

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Re:O caso que expôs a crise do budismo na Tailândia
« Resposta #10 Online: 05 de Setembro de 2017, 12:29:15 »
Sempre vai ter um querendo se dar bem. O Budismo até é interessante e menos tóxico.

Offline El Elyon

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Re:O caso que expôs a crise do budismo na Tailândia
« Resposta #11 Online: 05 de Setembro de 2017, 18:50:07 »
Citação de: Nostromo
Sempre vai ter um querendo se dar bem. O Budismo até é interessante e menos tóxico.

Fale isso para os habitantes da Teocracia Feudal que era o Tibet governando pelos seus Iluminados Monges. Ou para muçulmanos Rohingya (a caracterização é mais complexa, mas é o suficiente aqui) perseguidos em Myanmar atualmente. Secularistas Ocidentais conhecem a versão extremamente sanitizada do Budismo que é encontrada por aqui e  assumem que tem alguma validade perto dos milênios de tradição, sincrestismo e evolução que existem no sudeste, leste e norte-asiático
"As long as the Colossus stands, Rome will stand, when the Colossus falls, Rome will also fall, when Rome falls, so falls the world."

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Offline criso

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Re:O caso que expôs a crise do budismo na Tailândia
« Resposta #12 Online: 05 de Setembro de 2017, 22:07:28 »
Citação de: Nostromo
Sempre vai ter um querendo se dar bem. O Budismo até é interessante e menos tóxico.

Fale isso para os habitantes da Teocracia Feudal que era o Tibet governando pelos seus Iluminados Monges. Ou para muçulmanos Rohingya (a caracterização é mais complexa, mas é o suficiente aqui) perseguidos em Myanmar atualmente. Secularistas Ocidentais conhecem a versão extremamente sanitizada do Budismo que é encontrada por aqui e  assumem que tem alguma validade perto dos milênios de tradição, sincrestismo e evolução que existem no sudeste, leste e norte-asiático

Seria como um oriental, ao querer se aproximar do cristianismo, ir lá estudar os apócrifos e o evangelho, mas não ter a menor ideia de como é entrar numa UNIVERSAL
Visita
Interiora
Terrae
Rectificandoque
Invenies
Occultum
Lapidem

e que as rosas floresçam em vossa cruz!

Offline El Elyon

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Re:O caso que expôs a crise do budismo na Tailândia
« Resposta #13 Online: 05 de Setembro de 2017, 23:30:05 »
Citação de: criso
Seria como um oriental, ao querer se aproximar do cristianismo, ir lá estudar os apócrifos e o evangelho, mas não ter a menor ideia de como é entrar numa UNIVERSAL

Algo próximo disso - mas para reforçar a analogia, não seria estudar as fontes diretas (textos consagrados), mas sim autores com amplo domínio filosófico e teológico como Karl Jasper e Paul Tilich e ateus cristãos/jesusitas/cristãos culturais como Thomas J. J. Altizer e tomasse nações incrivelmente secularizadas como a Inglaterra e Países Baixos como representantes da "Cristandade Ocidental".
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São Beda.

Offline Nostromo

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Re:O caso que expôs a crise do budismo na Tailândia
« Resposta #14 Online: 06 de Setembro de 2017, 10:58:20 »
Citação de: Nostromo
Sempre vai ter um querendo se dar bem. O Budismo até é interessante e menos tóxico.

Fale isso para os habitantes da Teocracia Feudal que era o Tibet governando pelos seus Iluminados Monges. Ou para muçulmanos Rohingya (a caracterização é mais complexa, mas é o suficiente aqui) perseguidos em Myanmar atualmente. Secularistas Ocidentais conhecem a versão extremamente sanitizada do Budismo que é encontrada por aqui e  assumem que tem alguma validade perto dos milênios de tradição, sincrestismo e evolução que existem no sudeste, leste e norte-asiático

Não duvido que ocorre, mas como visão de mundo minha não tinha noção de que isso acontecia dentro da sociedade tibetana e oprimisse alguém lá.

 

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