Autor Tópico: Socialismo e "socialismos"  (Lida 2143 vezes)

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Offline Lorentz

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Re:Socialismo e "socialismos"
« Resposta #25 Online: 20 de Dezembro de 2017, 12:55:13 »
O JJ postando textos do Mises.org.

Está curado novamente. Terá uma nova recaída em uns 20 dias, e durará uns 3 meses.
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Offline FZapp

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Re:Socialismo e "socialismos"
« Resposta #26 Online: 30 de Dezembro de 2017, 01:22:48 »
Por que o nazismo era socialismo e por que o socialismo é totalitário



Um texto que é uma excelente construção de todo tipo de espantalho. Sério isso? Pelamor...
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Offline Geotecton

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Re:Socialismo e "socialismos"
« Resposta #27 Online: 30 de Dezembro de 2017, 10:00:21 »
Por que o nazismo era socialismo e por que o socialismo é totalitário
Um texto que é uma excelente construção de todo tipo de espantalho. Sério isso? Pelamor...

Refute o texto.
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Offline FZapp

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Re:Socialismo e "socialismos"
« Resposta #28 Online: 30 de Dezembro de 2017, 19:58:25 »
Por que o nazismo era socialismo e por que o socialismo é totalitário
Um texto que é uma excelente construção de todo tipo de espantalho. Sério isso? Pelamor...

Refute o texto.

Já foi refutado nos comentários.

Você acha sério mesmo que algo como socialismo, que é um conceito super amplo e advindo de uma teoria econômica, possa se encaixar num tipo só ?
E você acha mesmo que só por causa do nome do partido podemos definir as atitudes do nazismo, quando na verdade sabemos historicamente que Hitler entrou para espionar o partido, virou a casaca e depois se apropriou do partido para os seus próprios fins ?
E se fossem tão amigos, teria sido presos e mortos todos os partidários dos partidos socialistas alemães durante a ascensão do partido ?

O texto começa ignorando fatos históricos e se baseia em palavras para construir silogismos, e faz uma análise inocente sobre a guerra. Os próprios discursos de Hitler queriam demonstrar a supremacia alemã e a pobreza da alma russa , e o por quê seriam derrotados, e nunca foram aliados e sim fizeram pactos convenientes, que foram traídos no devido momento.

Quanto a socialismo ser totalitário é complexo mesmo definir socialismo, então é uma afirmação impossível de fazer.


E você acha mesmo que nazismo seria de esquerda ?
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Offline JJ

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Re:Socialismo e "socialismos"
« Resposta #29 Online: 07 de Janeiro de 2018, 16:18:14 »
A NOMENKLATURA

"Retirado en la paz de estos desiertos,
com pocos, pero doctos, libros juntos,
vivo en conversación com los difuntos
y escucho com mis ojos a los muertos"
Quevedo


A NOMENKLATURA – Michael S. Voslensky – Record – 4ª edição, c. 1980.


Qual o interesse em saber como vivia a classe privilegiada na União Soviética se ela implodiu e a velha Rússia emergiu em seu lugar com novas características? Creio que a resposta é simples: o modelo soviético não se diferencia muito dos demais regimes políticos baseados no estatismo, incluindo o Brasil. É claro que não pretendo comparar o fascismo benevolente brasileiro com a brutalidade do regime soviético, mas demonstrar como todo socialismo revolucionário, ao assumir o poder pela violência, se organiza eliminando fisicamente a elite anterior e criando sua própria elite com tantos ou mais privilégios que seus antecessores. E países como China, Cuba e Coréia do Norte estão aí para mostrar como a classe dirigente, chamada por Voslensky de Nomenclatura, se consolida e age no poder. Falar das possibilidades de mudanças desses regimes implica em conhecer melhor o alicerce de todos eles e, também, nos conhecermos melhor pelo parentesco com a nova elite bolivariana na AL. O leitor talvez não saiba, mas estão em curso diversas propostas de cubanização do Brasil, como a reforma do sistema político, a implantação dos médicos pé no chão, etc. Ou seja, nesta fase em que vivemos, o comunismo como modo de organização é explicitado por uma elite cujo poder confunde-se com a administração, dissemina-se gradualmente e permite-se identificar por suas pegadas nas questões que propõe.


A princípio, pode-se creditar o trabalho de Voslensky como fundamental pela sua abordagem aos numerosos casos documentados dos modos de agir, pensar e se comportar da Nomenclatura, de que foi membro. Voslensky atuou nas rebarbas do regime e terminou se ‘exilando’ na Alemanha a partir de um convite para integrar o corpo docente de uma Universidade. Em 1974, amaldiçoado pelos russos, Voslensky perdeu sua cidadania, reconquistando-a em 1991 sob Gorbachev. Seu trabalho pode ser considerado essencial para se conhecer, por dentro, a funcionalidade do sistema russo.


Por desconhecer internamente um sistema, seus analistas são levados a trabalhar sobre sua visibilidade externa e suas tragédias. Percebe-se isso muito bem no Brasil. Nossa imprensa, que se diz livre, apenas replica o que dizem os burocratas – não sabe o que acontece dentro do Estado. Voslensky trata de ambas as coisas com naturalidade, sem afetação nem panfletismo, e, com eficácia, consegue abordar todas as arestas da Nomenclatura e demonstrar como uma nova classe se forma e se enraíza na sociedade. A princípio, nos apresenta a nova classe como uma classe escondida, que se nega a si mesma na hipocrisia de representar outra classe. Com dados reveladores, discorre sobre o embrião dessa nova classe e sua consolidação como uma aristocracia travestida de vanguarda proletária. Depois, analisando detalhes da nova ‘administração’ – desde sua carreira até sua hereditariedade, Voslensky está pronto para mostrar que essa classe serão os novos exploradores do povo soviético, que, em nome de um novo sistema, irá expropriá-lo de seus bens.


A relação do novo sistema com a propriedade privada não é hereditária nem escritural, mas de apropriação, concessão e uso, tornando-a um bem da Nomenclatura, que não pode ser extorquida – a menos que o proprietário caia em desgraça. Mas o aspecto mais singular é que o novo proprietário não sustenta a propriedade ocupada, mas utiliza o Estado como fornecedor de mão de obra e de recursos para sua manutenção e provimento.


Trata-se, portanto, de um sistema mais próximo ao feudalismo do que ao capitalismo, como já notamos em governos demagogos latino-americanos.
Voslensky estruturou sua análise nos seguintes tópicos:


I – A classe escondida
II – O nascimento da nova classe dominante
III – A classe dirigente da sociedade
IV – A classe dos exploradores da sociedade
V - A classe dos privilegiados
VI - A ditadura da nomenclatura
VII – A classe que aspira a hegemonia mundial
VIII – Uma classe parasitária


Com farta documentação de apoio às suas teses, Voslensky discorre em 443 páginas todos os processos que tornaram o regime comunista soviético um dos mais abomináveis da face da terra, sem jamais perder a fleuma do diplomata que foi e do professor universitário que encerrou sua carreira na Alemanha, onde morreu em 1997, aos 77 anos de idade, provavelmente lúcido o bastante para perceber que seu trabalho não tinha sido em vão. O mundo que descrevera no final dos anos 70, prevendo o fim do comunismo pelo empobrecimento progressivo da sociedade, realmente terminou ocorrendo. Os avatares caricaturescos da velha URSS, ainda existentes, são menos importantes do que a possibilidade de se reviver os mesmos padrões de dominação social com um novo estatismo se formando no quintal bolivariano da AL. No Brasil, são esses modelos que se tentam introduzir no processo eleitoral e na organização social com nomes dissimulados de ‘controles, democratização, etc’.


A CLASSE ESCONDIDA


Citando numerosas fontes, desde os primórdios da revolução de 1917 até os anos de 1970, Voslensky nos fala que os escritores da época, especialmente os russos emigrados dos anos 20, diziam que a nova classe dirigente russa era a classe burocrática que detinha o real poder de mando. Entre eles, o livro de Milovan Djilas mostrou-se fundamental para o entendimento dos mecanismos do poder de uma ‘nova classe’ que se desenhava nos países socialistas. “Os dirigentes constituem um grupo humano numeroso, que se distingue dos outros grupos da sociedade soviética por seu lugar (preponderante) no sistema de produção social; por sua relação com os meios de produção (o direito de dispor deles); por seu papel (diretor) na organização social do trabalho e pela parte (importante) da riqueza social de que se apropria” (p. 35). Esta é uma citação das ideias de Lênin com as observações do autor entre parênteses. Esse grupo dirigente constituía uma classe, uma classe que se escondia com o nome de outra — o proletariado. Mas o próprio proletariado, por ser mais abrangente e disseminado na sociedade, não tinha relação com a classe no poder. Poderia se argumentar que a classe no poder seria a ‘representante’ do proletariado, seu partido político. Voslensky demonstra que a falsidade da doutrina consiste exatamente nisso, e, usando a terminologia marxista, compara as ideias de Marx e Engels com as de Lênin para demonstrar que sendo o proletariado quase inexistente na União Soviética, não poderia jamais representar a sociedade, cuja maioria era camponesa. Portanto, a revolução não poderia ser a superação de um capitalismo que era secundário e incipiente. Em outras palavras, a ‘hegemonia do proletariado’ alcunhada por Lênin não passava de uma confusão indescritível (p. 55).


Com isso, Voslensky demonstra que o poder revolucionário nada tendo de evolutivo, no sentido de respeitar as liberdades e a democracia, porém tratou de consolidar uma burocracia tentacular de dominação da sociedade, para viver às suas expensas e ampliar seu poder através da violência progressiva. Com o nome de ditadura do proletariado, o novo regime confiscava todos os recursos da sociedade para si, representando a si próprio com o nome de outra classe. Ao se inscreverem no partido, os candidatos se declaravam de origem operária, fato que Voslensky ironiza dizendo que bastava olhar suas mãos para perceber que se tratava de um engodo. Portanto, o que seria o novo governo? A resposta é simples: uma ‘ditadura sobre o proletariado’, se evidentemente a classe fosse preponderante. Não o sendo, era uma ‘ditadura sobre o povo’. A argumentação de Voslensky baseia-se nos fatos históricos da constituição de Stalin de 1936, quando a terminologia ‘ditadura do proletariado’ foi substituída por ‘governo do povo’. Como pode uma ditadura acabar sem comemoração e sem data definida? Analisando as incoerências, o autor consegue desmistificar todos os fatos utilizando a própria linguagem e documentação do PCUS (Partido Comunista da União Soviética).


Esse é o lado surpreendente de ‘A Nomenklatura’. O próprio marxismo desmente os fatos ocorridos na URSS. Mas não se pode dizer que isso tenha sido uma deformação do marxismo. Aqui, teríamos que entrar com extensa argumentação para provar que o desenvolvimento do capitalismo não geraria uma classe operária revolucionária, mas seria seu próprio fim, como conhecemos nos dias atuais. Portanto, o historicismo de Marx estava errado: a sequência pós-capitalista é a sociedade tecnológica que conhecemos no Primeiro Mundo, e que está em franca expansão na Ásia — o chamado capitalismo avançado, ou sociedade do conhecimento.


Assim, na URSS, os revolucionários profissionais criaram a nomenclatura para preencher a enorme quantidade de cargos do governo russo, usando o critério de fidelidade, e não o de competência, como no Brasil. Embora o regime também escolhesse pessoas competentes para cargos técnicos elevados, o padrão administrativo se baseava no nosso conhecidíssimo nepotismo. “Durante os numerosos anos em que vivi na URSS, raramente encontrei pessoas verdadeiramente talhadas para o posto que ocupavam. E era precisamente com as pessoas competentes que se causavam mais dificuldades: como não correspondiam ao critério habitual de seleção de quadros, pareciam ocupar os postos que jamais deveriam ocupar...” (p. 71-72). Era o que ele chamava de perfil político na preferência da seleção, uma prática que conhecemos de cátedra no Brasil, comprovando que mais além da ideologia existe uma plataforma comum: o estatismo.


Voslensky mostra como Stalin desenvolveu sua liderança nesse tipo de seleção. Ao contrário de seus pares revolucionários, que se ocupavam com as diretrizes gerais da revolução e das transformações necessárias, Stalin cultivava a ordenação de fichas de pessoas em seus arquivos. Humoristas dos anos 20 chamavam Stalin de camarada fichário (p. 72). Mas foi com essa diligência sobre pessoas e cargos que ele criou uma enorme estrutura de apoio pessoal, chamada Uchraspred, que significava ‘recenseamento e distribuição de cargos’, uma vez que qualquer promoção passava pelo seu crivo. Bastante complexas, tais estruturas continham diversas comissões ligadas ao Comitê Central. Só em 1922, foram distribuídos 10 mil postos na administração soviética (p. 73), para cargos de secretários de comitês regionais e distritais, e membros correspondentes.


Percebendo a crescente ‘burocratização do partido’, Trotsky alertou seus camaradas revolucionários. Mas, após a morte de Lênin, com o carreirismo já estabelecido, 240 mil novos membros foram admitidos no partido. Com isso, o efetivo do partido que vinha inchando escandalosamente passou de 386 mil para 736 mil. A metade era de novos membros estranhos à velha guarda bolchevista, que mais tarde permitiriam a Stalin eliminar os antigos revolucionários e ser o verdadeiro dono da revolução.


Nos anos 30, os expurgos marcaram outra mudança radical renovando a elite dirigente. Voslensky, então um adolescente, testemunhou essa fase sangrenta. Era a nova aristocracia contra a velha aristocracia dos revolucionários. Foi o período em que famílias inteiras caíram em desgraça, e os campos de trabalhos forçados da Sibéria se viram povoados por milhares de pessoas chegando em trens apinhados correndo pela estepe siberiana, depois de dias de viagem trancados nos vagões.


Os detalhes dos expurgos têm um toque especial. Todos os analistas dessa fase negra da Rússia contam a mesma história com seus próprios detalhes sobre os personagens que conheceram ou pesquisaram. Voslensky não foi diferente. Mostra como foram moídos todos os grandes revolucionários do passado, e como na era Kruvchev era praticamente impossível se obter qualquer documento a partir do assassinato de Kirov (1934), o então poderoso secretario do PC de Leningrado, exatamente porque durante os expurgos nascera a nova classe dirigente que 20 anos depois comandaria todo o país e que ocuparia o lugar dos condenados.


O autor resume então assim: “o processo de nascimento da nova classe dominante soviética realizou-se em três etapas. Na primeira etapa, foi criada a organização dos revolucionários profissionais, embrião da nova classe. A segunda começou pela tomada do poder por essa organização em novembro de 1917: formou-se uma direção em dois níveis, o nível superior da velha guarda leninista e o nível inferior da Nomenclatura stalinista. A terceira etapa foi a liquidação da velha guarda leninista pela Nomenclatura” (p. 86).


O desejo do poder pelo poder é uma lição para os nossos dias na realidade brasileira. Quando o poeta Evtuchenko exprimiu este estado de espírito: “pouco importa que o poder seja dos sovietes, o importante é o poder”, estava nos dando uma lição sobre o que aconteceu com o lulismo pós 2003.



http://carlosupozzobon.blogspot.com.br/2012/04/nomenklatura.html


« Última modificação: 07 de Janeiro de 2018, 16:45:56 por JJ »

Offline JJ

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Re:Socialismo e "socialismos"
« Resposta #30 Online: 07 de Janeiro de 2018, 16:23:07 »
A CLASSE DIRIGENTE DA SOCIEDADE SOVIÉTICA


Neste capítulo, Voslensky faz um retrato literário de um nomenclaturista hipotético, Ivanov, e de sua luta cotidiana para ascender na organização. Mostra os subterfúgios, as lealdades, as trocas de favores, a criação das redes de contatos e de subordinados, o servilismo a que estão sujeitos os membros para desfrutarem dos privilégios do Estado. Mostra como um candidato a um cargo superior é escrutinado pelo comitê correspondente, a quantidade de assinaturas, e o vai-e-vem de certidões que conferem sua aceitação. Essa papelada recebia assinatura dos grandes figurões da KGB. O autor mostra em detalhes o funcionamento do apparatchick burocrático, e repete o caráter escondido, furtivo dos dirigentes, sua necessidade de esconder-se para não revelar sua natureza aristocrática ao resto da população. Mas um funcionário que se eleva ao primeiro escalão e que vai gozar dos privilégios para toda a vida, não significa que não possa ser degolado. Sua estabilidade depende de seguir as regras, de não atrair a desconfiança nem a ira dos superiores. E traça a crônica dos destinos de algumas personagens importantes da era pós-Stalin, que ele mesmo conheceu, por seus afazeres desconformes com as expectativas do Comitê Central.


Mostrando que “a vanguarda da classe operária” (Lênin), “a mais alta forma de organização da classe operária” (Stalin) eram um mito, pois a nova classe não tinha origem operária coisa nenhuma, o autor prova que esse mito era semelhante ao da origem ariana apregoada pelos nazistas, que na verdade era também fajuta. Mesmo quando um nomenclaturista provava sua origem no campesinato ou no proletariado, ele não tinha vínculo algum com essas classes, e a maioria deles desprezava sua origem operária e camponesa.


Voslensky cita o que o escritor Konstantin Paustovski escreveu sobre uma turnê de turistas soviéticos pela Europa de trem: “Os operários, os engenheiros, os artistas viajavam de segunda e terceira classes; a Nomenclatura viajava de primeira. Não é preciso dizer-lhes que a Nomenclatura não tinha nenhum contato com a segunda e terceira classes, pois, além do mais, não poderia tê-lo; estavam prevenidos contra tudo, exceto contra os de sua própria situação. Eram espantosos pela incultura. Tinham uma concepção toda particular daquele que fizera a honra e a glória de nosso país. Diante de uma pintura do Juízo Final, um nomenclaturista perguntou: ‘É o julgamento de Mussolini?’ e, olhando a Acrópole, um outro indagou: ‘Como o proletariado pode permitir que se construísse coisa semelhante?’ Um terceiro, que ouviu alguém admirar o azul do Mediterrâneo, perguntou brutalmente: ‘será que nosso mar é menos belo?’ Essas bestas ferozes, esses exploradores, esse cínicos obscurantistas, diziam palavras ostensivamente anti-semitas que não seriam renegadas por verdadeiros nazistas. Aprenderam a ver no povo apenas o adubo que fertiliza suas próprias carreiras: intriga, calúnia, assassínio — eis suas armas... Os nomenclaturistas se escondem atrás de slogans, discursos blasfematórios em que afirmam agir pelo bem do povo” (p. 115-116). É o que ele chama de a classe dos desclassificados, dos que galgam os mais altos níveis da sociedade sem nenhum mérito, nenhum preparo, nenhuma condição intelectual.

Nos 3 escalões de comando, havia 3 milhões de privilegiados. Mas o partido comunista tinha 17 milhões de indivíduos. O que mostra que nem todos do partido estavam desfrutando dos privilégios. Voslensky apresenta os números dessa aritmética em diversos períodos históricos, conforme sua coleta de dados. Depois, mostra como funciona o nepotismo com nomes conhecidos do regime. Mas como se tratava de viver sob a doutrina de uma sociedade sem classes, o autor nos oferece o quadro real do que vem a ser essa sociedade.



A CLASSE DOS EXPLORADORES DA SOCIEDADE SOVIÉTICA



Neste capítulo, Voslensky analisa como funciona o sistema de propriedade no regime socialista. Fazendo uma revisão do assunto na obra de Marx, ele demonstra que mais uma vez os escritos de Marx foram modificados na URSS. O artigo 10 da Constituição soviética dizia: “o sistema econômico da URSS se funda na propriedade socialista dos meios de produção sob a forma da propriedade do Estado (de todo o povo) e da propriedade colcoziana e cooperativa. Os bens dos sindicatos e das outras organizações sociais, necessários à realização de suas tarefas estatutárias, são também propriedade socialista”.


Depois de examinar o conceito de propriedade privada, chega à questão da propriedade estatal. Se o Estado é um aparelho da classe dominante, ele passa a ser a propriedade da nomenclatura de fato, mas não de direito. No caso, o direito à propriedade individual foi abolido, mas se a propriedade continua existindo, ela então passa a ser ‘social’ no nome e ‘particular’ nos benefícios. Assim, os chefes de fábricas são a classe dirigente que recebe salários executivos e dispõe do resto do aparelho do Estado para si na condição de vitaliciedade na nomenclatura. A propriedade é, portanto, condicionada à posição do membro na estrutura.


Como a doutrina marxista dizia “o estado é o aparelho de dominação da classe dominante”, no regime socialista esta dominação pertence aos seus dirigentes, sendo a nova classe que se esconde em nome de todo o povo, mas que utiliza esse subterfúgio para impor uma exploração cruel ao resto da população. Isso pode ser comprovado nas diferenças de salários, e no estilo de vida de governantes e governados. O autor discute minuciosamente cada tipo de propriedade, seus estatutos, e depois conclui que nada do que está escrito implica em conformidade com a disposição estatutária. Por exemplo, um sindicato pode ter uma propriedade, mas os membros filiados não podem vendê-la, repassar ou extinguir. Somente a hierarquia dos dirigentes do partido tem esse poder.


“A ‘lei econômica fundamental do socialismo’ formulada por Stalin pode ser considerada a afirmação mais fantasiosa da ‘economia política do socialismo oficial’. Esta lei garante ‘a satisfação máxima das necessidades materiais e culturais, sempre crescentes, de toda a população pelo crescimento e aperfeiçoamento constantes da produção socialista baseada na técnica mais evoluída’ “ (p. 152).

Triunfado o socialismo, a satisfação das necessidades da sociedade começa a cair. A produção diminui, a escassez aumenta. Comparem, por exemplo, o carro-chefe da produção cubana, a cana de açúcar, cuja produção em 1970 era de 8 milhões de ton/ano mas em 2010 de apenas 2 milhões de ton/ano. Na União Soviética ocorreu a mesma coisa. Portanto, a única certeza que se tem é que a satisfação das necessidades da sociedade não é o fundamento da lei econômica do ‘socialismo real’.


“No processo de produção, que fim persegue a população ativa? Procura perpetuar o poder da classe dominante? Não, sua finalidade é muito simples e compreensível: produzir para o consumo, não para o da Nomenclatura, mas para o da população trabalhadora. Os homens desejam uma oferta de produtos que não satisfaça somente os privilegiados nas suas lojas especiais: querem um habitat em lugar de casernas e datchas do Estado; automóveis para o comum dos mortais em lugar dos carros de combate e das limusines governamentais; querem manteiga em lugar de canhões. Querem que o processo de produção sirva à satisfação de suas necessidades” (p. 154).


Então, como explicar que um país autossuficiente em alimentos possa produzir somente 20% dos alimentos que consome depois de 50 anos de socialismo, como é o caso de Cuba? A única explicação possível é que o socialismo é um sistema voltado para a classe que assumiu o poder, em oposição ao resto da sociedade. Sua função é explorar ao máximo a sociedade, confiscando para si todos os recursos disponíveis em nome da governabilidade.


Mas a propaganda oficial diz exatamente o contrário. Do ponto de vista da explicação da economia capitalista, os teóricos do socialismo afirmam todos sem distinção que a economia capitalista funciona da seguinte forma: um capitalista decide produzir um bem. Todo o capital é investido na produção desse bem. Os demais capitalistas, pressentindo o negócio, investem também na produção do mesmo bem. Logo, o mercado se satura, os depósitos se enchem de mercadorias que ninguém compra, a produção entra em crise, os bancos quebram, e os empregados vão para a rua. No socialismo real, isso não acontece porque a economia é planificada. Nada é desperdiçado na superprodução, porque esta não foi planejada para o lucro. Este argumento domina a maior parte dos debates entre a juventude socialista, que vê com horror a abundância por tratar-se de um consumismo que esgota os recursos naturais do planeta. O resultado é a crença em uma ideologia que vai deixar os recursos naturais onde se encontram e produzir a privação, a escassez e o tormento da população desassistida de todos os benefícios da tecnologia e do progresso material do homem.


De fato, assistimos hoje em dia a uma retomada dos princípios fundamentais da economia socialista através da ecologia. Não haveria um renascimento tão forte do socialismo planificado se não se vendesse com sucesso a ideia do esgotamento dos recursos naturais do planeta. Quando eu era jovem, na primeira crise do petróleo de 1973, dizia-se que o petróleo iria acabar no máximo em 30 anos. A cada crise, o argumento retorna com uma força avassaladora. E, no entanto, as reservas conhecidas aumentam cada vez mais, e apesar do planeta já estar consumindo pouco menos de 100 milhões de barris diários, os primeiros protótipos de carros híbridos começaram a aparecer com capacidade de percorrer 100 quilômetros com um litro de gasolina, muito antes de o petróleo acabar.


Ora, a força do capitalismo está em sua anarquia, no fato de sua economia não dispor de uma autoridade diretora. A economia capitalista funciona como uma centopeia que move suas patas em harmonia sem que o cérebro tenha que comandar uma a uma. Mas, se uma delas ‘emperra’, o cérebro logo toma conhecimento e age correspondentemente. Portanto, não existe uma planificação, ou seja, uma análise refletida sobre cada um dos mecanismos de ação dos mercados, e se tal ocorresse, ele entraria em colapso, pois qualquer órgão planejador é menos eficaz do que a interconexão dos elos de cada um dos produtores em ação. E quando o mercado enfrenta problemas, ele é mais ágil e eficaz para se redesenhar do que qualquer burocracia, por melhor que seja, tanto mais se escolhida por critérios políticos.


Quando Lênin discorreu sobre o Imperialismo em sua obra clássica, ele afirmava que o colapso do capitalismo viria da monopolização da economia, que criando oligopólios cada vez maiores, “engendra inelutavelmente uma tendência à estagnação e à putrefação. Na medida em que se estabelecem preços de monopólio, isto faz desaparecer os estimulantes do progresso técnico, e, em seguida, qualquer outro progresso; e torna-se, então, possível, no plano econômico, frear artificialmente o progresso técnico” (p. 159). Voslensky cita Lênin para concluir que é exatamente o que ocorre no socialismo. Basta, portanto, ler a obra de Lênin e colocar a palavra socialismo no lugar de capitalismo que as peças se encaixam. Pois o socialismo é a realização final dos monopólios estatais e da estagnação e putrefação da economia.


A tônica de analisar os clássicos do marxismo e depois mostrar que a crítica ao capitalismo feita por marxistas é, em última análise, uma crítica ao próprio socialismo real, confere a originalidade da obra de Voslensky. Mas isso não nos deveria surpreender. A essência da mentalidade marxista consiste em atribuir os maiores defeitos aos outros e depois praticá-los insensivelmente, não por sadismo, nem por arrogância, mas por negarem a lei mais básica da natureza humana: o direito à propriedade individual e de todas as formas de empreendimento e sobrevivência sem a tutela do Estado. A mentalidade marxista difere da mentalidade liberal comum por entender que os fatores da produção possam ser intelectualizados e controlados por um órgão neutro e eficaz. Para que isso ocorra, é preciso que a mente esteja carregada de altruísmo e de vontade de ação para o bem comum. Aceita a premissa, a razão humana tropeça na natureza e o resultado é o artificialismo da sociedade na disjunção de todas as suas partes. O planejamento dos bens de consumo torna-se a prisão do homem na escassez.


E o que fazer quando o fracasso é inelutável na produção? A nomenclatura recorre então a diversas técnicas de dissimulação que o autor chama de pripiski, a palavra russa para embuste. “Inclui-se, conscientemente, nas contas das cifras inexatas o correspondente aos produtos que não foram fabricados. Esta técnica se baseia na acepção clara e límpida do caráter inteiramente teórico e burocrático da planificação e da contabilidade: os gabinetes do Gosplan e dos ministérios prevêem disposições teóricas sem conhecer a realidade; o resultado, da mesma maneira, não tem nenhuma relação com a produção real” (p. 166).


Mas a crônica dos embustes vai longe. O autor comenta anúncios solenes de primeiros-secretários falando sobre o aumento de 280% na produção de carne, ou a maior colheita vindoura de algodão, que depois se revelaram “pripiski”. A farsa de Alexey Stakhanov (que teria extraído 102 toneladas de carvão sozinho em 5:45 hs em 1935, 14 vezes sua cota) com sua vertiginosa produtividade era “pripiski”. Na Geórgia de Stalin, que desfrutava de privilégios inalcançáveis para as demais repúblicas, onde os cidadãos se vestiam muito melhor do que no resto do país, e gastavam muito acima das possibilidades de um trabalhador soviético, havia “uma corrupção tão grande que tudo podia ser comprado ali: um diploma ou um lugar na universidade, até mesmo um certificado do título de ‘herói da União Soviética’. Isto continuou após a morte de Stalin, cujo culto foi oficialmente mantido na Geórgia. Tanto os georgianos consideravam sua república como uma região à parte, que os recém-chegados, que se espantavam com os costumes incomuns da província recebiam de volta a pergunta: ‘A Geórgia não lhe agrada? Então, volte para a União Soviética’ “ (p. 167).


Naturalmente, os relatórios sobre a produção que satisfaziam e até mesmo ultrapassavam os planos quinquenais eram todos falsos. Um pesquisador norte-americano chamado Naum Jasny analisou dados estatísticos publicados na URSS e revelou numerosas falsificações. Quando se anunciava um aumento de salário no ano, Naum descobria que na verdade havia uma redução. Isto em 1948. O próprio Kruvchev denunciou a falsificação de dados da era Stalin, mas não adiantou: era uma atividade inerente à Nomenclatura e continuou em seu tempo.


Para Voslensky, a necessidade de manter o poder implica em uma sociedade na qual a precedência seja dada à indústria pesada, e não à de bens de consumo. De fato, a indústria bélica soviética sempre esteve sob intenso incentivo do governo russo. Era a fonte de seu poder e de sua permanência. Mesmo assim, a falsificação de dados e relatórios, a queixa de engenheiros testemunhada pelo autor atesta que também ali a situação era aflitiva. Isso não impedia que a indústria pesada desfrutasse de uma enorme propaganda, especialmente notável na construção de foguetes durante a corrida espacial. O livro ‘Escolhi a Liberdade’ de Kravchenko, um engenheiro chefe de fábrica e dissidente, atesta este argumento.


Porém, o fator mais humilhante de todo o sistema diz respeito aos salários dos trabalhadores. A nova sociedade, onde todos estariam livres da exploração capitalista, terminou se revelando uma tirania da nomenclatura. Em 1980 atingiu, sem os descontos de impostos, 167 rublos por mês. Uma quantia capaz de manter apenas um homem por mês, e ainda assim dificilmente. Mas esse era o salário médio dos trabalhadores. Na prática, o salário verdadeiro do trabalhador mais simples, como pedreiro, faxineira, etc, era apenas de 100 rublos/mês. Mas a propaganda dizia que primeiro era preciso produzir mais para depois distribuir o bolo. E como poderiam fazer para produzir mais se o próprio sistema não permitia a produção de excedentes?

Comparando com os salários de outros trabalhadores, os 170 rublos/mês era 1/3 do salário médio de um operário francês. Esta era a situação em 1980, 60 anos depois da implantação do socialismo na Rússia. Ora, na Rússia mulheres também trabalham e até as crianças eventualmente. Isso era comemorado como emancipação feminina, mas o autor descobriu que no seu tempo, Marx chamava isso de exploração suplementar.


O trabalho infantil merece um comentário. Os marxistas sempre condenaram o trabalho infantil nos regimes capitalistas. Mas na Rússia, desde os anos 20, foram abertas escolas de aprendizes. “Numerosas crianças, órfãos ou desabrigados (pela prisão e envio dos pais aos campos de concentração), foram assim utilizadas como força de trabalho barata, sob o pretexto de que recebiam, destarte, uma educação de acordo como os princípios do pedagogo e tchekista Anton Makarenko. Sob Stalin, criaram-se escolas de trabalho manual, onde reinava uma disciplina militar, e as crianças tinham de usar um uniforme negro. Ali, eram matriculadas à força crianças em atraso na escolaridade, ou indisciplinadas” (p. 184-185).


Quanto ao nível de vida comparativo, Voslensky afirma que a Nomenclatura simplesmente desistiu de comparar o nível de vida médio da população das duas Alemanhas, das duas Coréias, etc. Porém, um conjunto de medidas foram tomadas para compensar a baixa produtividade de uma população assalariada explorada como baixar os custos de alguns itens: alugueis, pães e massas, e transportes urbanos. Mas os ocidentais que viajavam a Moscou sempre reclamaram dos custos elevados de mercadorias quando comparados com o Ocidente, especialmente os bens de consumo duráveis utilizados pela nomenclatura. Mas por que seriam altos os custos dos alugueis se na União Soviética era autorizada apenas uma área de 9 m2 por pessoa? Um casal com um filho tinha direito a um apartamento de 27 m2, embora tivesse direito a requisitar área maior. Mas seria atendido em uma sociedade do tipo QI (quem indica)?


“É certo que na URSS o pão, as massas e batatas, o leite, os legumes, o milho, e outros produtos básicos são baratos. Por outro lado, a carne, o peixe, as aves, as frutas, o chocolate, o café, os condimentos são caros e raros. Como não se pode comer pão, tendo por sobremesa massas e batatas, 80% do orçamento de uma família soviética média são para a alimentação.


É certo que a medicina é gratuita. As policlínicas e os hospitais postos à disposição da população nunca estão vazios: é preciso ficar na fila durante horas para ser atendido por um médico. Os médicos das policlínicas devem observar uma norma: 15 minutos por paciente, e a metade do tempo é dedicada a encher e assinar a carteira de saúde. Também se tornou habitual granjear a atenção do médico e da enfermeira com presentes e mesmo pagar-lhes; a gratuidade do atendimento não é de fato, assegurada. Não seria melhor retirar dos salários a contribuição necessária para o seguro-doença, o que permitiria a cada um escolher seu médico?” (p. 188).


Eis aí como o regime da Nomenclatura se assemelha lá e cá. Eis como todos os regimes estatais têm os mesmos traços. Mas, por outro lado, quem pertence à classe nomenclaturista tem uma situação totalmente diferente.
« Última modificação: 07 de Janeiro de 2018, 16:32:26 por JJ »

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Re:Socialismo e "socialismos"
« Resposta #31 Online: 07 de Janeiro de 2018, 16:24:10 »
A CLASSE DOS PRIVILEGIADOS


Quando se analisam os salários e o padrão de vida da nomenclatura notamos uma diferença abismal em estilo de vida e comportamento, se comparados com o resto da população. E essa diferença é que serve de parâmetro para a afirmação de que os regimes comunistas são baseados em uma classe dirigente do aparelho estatal, que se confunde com o partido, embora o partido comunista seja sempre maior do que o Estado, e que vive às expensas da sociedade, isto é, contra ela e de seu saque permanente. Tratava-se de um novo modelo de elite com as mesmas características em todos os países comunistas.


Lênin deixou claro em seu testamento que os quadros dirigentes não deveriam ter uma remuneração superior à dos operários qualificados. Somente os “técnicos burgueses” poderiam receber salários mais elevados “devido à sua natureza venal e durante o tempo em que fossem úteis” (p. 212). Naturalmente que essas recomendações não foram seguidas. Segundo os estudos do autor, um chefe de setor na burocracia soviética recebia 450 rublos/mês, com direito a 30 dias de férias em local gratuito. O assalariado só tinha direito a 2 semanas por ano. Além disso, o chefe de setor (posição ocupada por Voslensky na burocracia) recebia o 13º salário, a um vale-alimentação para usar na cantina do Kremlin, que era um local onde a elite desaparecia atrás de uma porta envidraçada de aparência comum com uma placa ‘escritório de permissões’, na rua Granovskogo. Ao sair, carregavam embrulhos de papel pardo direto para os carros com os motoristas particulares esperando. Esse local fornecia até mesmo viandas para os nomenclaturistas.


Desnecessário dizer que eram rações tão fartas que serviam para alimentar toda a família. Calculando o valor da bolsa-alimentação e acrescentando ao salário, o autor chegou a 750 rublos por mês, isto é, 5 vezes o salário de um operário (p. 214).


Na burocracia existem adicionais que não são encontrados no trabalho de fábrica. 10% de aumento pelo conhecimento de uma língua estrangeira, por duas línguas: 20%, mesmo que jamais se faça uso delas em serviço. Uma situação semelhante existe no Judiciário brasileiro, uma das nossas nomenclaturas mais privilegiadas do país.


Na nomenclatura, a maior mordomia era que um chefe de setor encontrava todos os produtos de que necessitava em lojas especiais, ao passo que o cidadão comum tinha que procurá-los incansavelmente no comércio oficial, quase sempre desabastecido. Curioso era o imposto de renda, que para qualquer cidadão com rendimentos acima de 200 rublos era de 13%, ou seja, um país socialista que não praticava o imposto de renda progressivo. Como se trata de uma ideologia invertida, esses 13% eram aplicados com o argumento do, pasmem, ‘igualitarismo’. Stalin inventou uma fonte de renda especial para seus apaniguados, chamada ‘o pacote’, que era um envelope com um maço de notas, não muito, mas uma espécie de bolsa-pai dos povos, sem descontos e sem contabilidade. Os subordinados adoravam receber o envelope secretíssimo, pois assim podiam avaliar em que estado se encontravam com o comandante.


Interessante destacar como a sociedade cria a desigualdade social através de subterfúgios com o nome “social”. Por exemplo, na Rússia, existiam “fundos de consumo social” que encobriam “certa quantidade de serviços gratuitos, com a inscrição em uma estação de tratamento ou casa de férias, alojamentos colocados à disposição, inscrição numa creche, num jardim de infância ou num campo de pioneiros, utilização de cantinas, hospitais, ou de clínicas” (p. 216). Esses benefícios eram tratados na burocracia como se pertencessem a todo o povo soviético, mas na verdade eram destinados somente aos membros da nomenclatura. Com tal facilidade, o aparelho do partido falava em termos de “parte invisível do salário”, como se fosse estendida a toda a sociedade.


Outra forma de ganhos adicionais era através dos poucos que tinham autorização para viajar ao estrangeiro, voltar com as malas carregadas de presentes para os parentes, mas que na verdade eram destinados à venda em um mercado interno altamente carente de produtos tecnológicos. Nada demais para os brasileiros da alta nomenclatura que possuem passaporte diferenciado e alfândega livre nos aeroportos. Tal situação levou a Rússia a ser talvez a primeira nação do mundo a criar os ‘free-shops’, naturalmente que com outra denominação. Eram lojas dentro de Moscou que não aceitavam o rublo como moeda de troca. Ou o cliente pagava com moeda estrangeira, acessível somente aos burocratas, ou com certificados que podiam ser convertidos em moeda estrangeira. Tratava-se de moeda estrangeira não utilizada em viagem que eram trocadas por esses papeis nas agências de comércio exterior soviéticas.


E ainda existia o adicional da propina. A corrupção frutifica no adubo da burocracia triunfante. Não se podendo exercer controles ilimitados sobre a burocracia, o propinoduto é azeitado no toma lá dá cá. O paraíso da corrupção era a Geórgia. Mas como esses dados não eram revelados, vindo à tona apenas quando da destituição do secretário do partido local, nunca se soube a real extensão do problema. No Azerbaidjão, se teve notícias de um cargo de procurador de distrito ser vendido por 30 mil rublos. Notícias semelhantes temos no Brasil, onde fiscais de rua do ICMS em São Paulo vendem seus postos antes de se aposentar. Nota-se que um membro do Partido podia comprar o posto e tornar-se o guardião da legalidade socialista na sua província. Mas, para ser o chefe de distrito da milícia, era preciso desembolsar 50 mil rublos. Com esse dinheiro era possível ser presidente de um colcoze (cooperativa de produção agrícola), ainda que fosse um posto eletivo. Como já sabemos do Brasil, os membros do colcoze davam seu sufrágio a pessoas ‘recomendadas’. O posto do diretor do sovcoze (equivalente à confederação de sindicatos ou cooperativas) valia mais: 80 mil rublos. Porém, o primeiro secretário do comitê do distrito do Azerbaijão custava 100 mil rublos e o segundo secretário 20 mil rublos, pois eram a nata da província, e esse dinheiro era distribuído entre os membros do C.C. em Baku. E assim segue o autor, fornecendo os preços dos cargos públicos da sociedade, onde um diretor de teatro conseguia o cargo com uma propina de 10 a 30 mil rublos; um Instituto de Pesquisas poderia ser dirigido por alguém disposto a pagar 40 mil rublos. Um membro da Academia de Ciências do Azerbaidjão poderia ostentar o honorável título por 50 mil rublos. Nas Universidades ‘públicas’, do reitor ao estudante, havia taxas para conseguir uma vaga ou posto. Esses valores não são suposições, mas pertencem a um relatório confidencial apresentado por um membro do C.C. do PC do Azerbaidjão em 1970.


Estabelecido o propinoduto, as iniciativas para acabar com a corrupção apenas atenuavam momentaneamente a voracidade da venda de cargos. Depois de algum tempo, os funcionários nomeados para acabar com a corrupção terminavam imitando os demitidos, o que demonstra que certas práticas são inerentes à burocracia e ao sistema, e jamais acabarão se não se mudar todo o sistema. Pessoas da nomenclatura conseguiam retirar parentes da prisão com correntes de ouro, relógios e coisas do gênero.


Um país, como a URSS, com permanente escassez de alimentos publicou, no pós-guerra, uma obra intitulada Uma Alimentação Sadia e Digestiva que, não obstante, tornou-se a bíblia dos gourmets da nomenclatura. Mas, como se alimentavam os membros da cúpula do partido? “Os restaurantes do PCUS abrem às 11 horas, servindo um almoço leve, com caviar, salmão e esturjão. Bebe-se cumis, uma batida à base de leite de jumento. Um iogurte cremoso e açucarado não poderia faltar. A cantina abre à uma da tarde. Uma orquestra barulhenta recebia fregueses levemente embriagados arrastando os pés. Funcionários da KGB controlavam a entrada, e garçonetes especialmente escolhidas iam e vinham com os pedidos dos nomenclaturistas espalhados pelas salas. Um buffet reservado permite a compra de produtos alimentícios que não se viam mais nas lojas desde 1928. Embora os pratos não fossem excessivos, era possível pedir quatro e até cinco pratos, pagando-se o mesmo preço de uma refeição miserável e indigesta das cantinas comuns, onde, à mesma hora, filas de trabalhadores esperavam para comer durante o descanso do meio-dia. Embora o prédio do C.C. e o restaurante estivessem apenas há 10 minutos a pé, a nomenclatura não dispensava os carros oficiais para não se misturar com o povo que costumava apinhar-se em praças próximas. Para democratizar o ambiente, era permitida a entrada, uma hora antes do fechamento, dos quadros da Escola Superior do Partido e dos colaboradores da Academia de Ciências Sociais” (p. 226).


A refeição é inteiramente gratuita no Hotel do Departamento Internacional do C.C... Os visitantes estrangeiros podem instalar-se no restaurante do Hotel, pedir tudo o que lhe agrade, mandar trazer vinho, conhaque e outras bebidas fortes, tudo de graça. O mesmo sistema se aplica a todas as ‘casas de hóspedes’ do CC nos países socialistas e no interior do país (p. 227). Além disso, existem os banquetes reservados aos dignitários do regime com sua riqueza e abundância de pratos, tudo fornecido gratuitamente com os mais altos cuidados dietéticos. Enquanto isso, os cidadãos soviéticos comuns são obrigados a fazer filar para conseguir, a preço de ouro, produtos alimentícios de qualidade medíocre, no abismo que separa a nomenclatura do resto da população (p. 227).

Outra grande diferença social ocorre na questão da moradia. São conhecidos os problemas graves de moradia, e o empilhamento de famílias nos apartamentos com um único banheiro para dezenas de pessoas. Mesmo com a grande movida no setor de construção nos anos 60 da era Kruvchev, o problema não foi resolvido em 2 décadas. Embora a norma habitacional reserve 9 m2 por pessoa, ela não é seguida. Segundo as estatísticas, a divisão total do número de área residencial construída pelo número de habitantes correspondia a apenas 7 m2/ habitante em 1975. As listas de espera por um apartamento são uma fila sem fim. E em Moscou? Se na capital as estatísticas fornecem uma área de 15 m2/habitante, isso se deve ao fato da grande quantidade de nomenclaturistas habitando ali.


Na nomenclatura, conseguir um apartamento de 100 m2 por um preço ridículo é comum, e além disso uma datcha, comprar um carro sem dificuldade, ou mesmo tê-lo gratuitamente com um motorista de graça, e regalar com isso a família, aproveitar gratuitamente de bons hospitais e repousar, sem despesas, a cada ano, numa casa de repouso. O mais importante na diferença é como são dissimulados os gostos pelo luxo e pela ostentação. Dizendo que precisam receber convidados estrangeiros, os nomenclaturistas dispõem de belas e sólidas construções, com elevadores e largas escadarias, cômodos espaçosos e móveis importados da Finlândia só para eles. Mas quem recebe estrangeiros em casa em um regime ameaçador?


Como se todos esses privilégios não bastassem, um chefe de setor não recebe apenas uma moradia, mas também uma casa de campo para repouso, a famosa datcha. Quem pode ter uma datcha? Pelas leis todo o cidadão pode comprar um pedaço de terra na periferia e construir ali sua casa ou comprar uma casa através de uma cooperativa. Só que um operário precisaria economizar todo o salário durante dez anos. Mas, como era uma sociedade de classes, a distorção é evidente por si mesma. Diz o autor que se tratava de um privilégio reservado inicialmente aos intelectuais que foi depois estendido a toda a burocracia, pois na URSS os burocratas também eram considerados intelectuais, assim como nos EUA todo jornalista é considerado escritor.


Por uma sina do destino, um chefe de setor não precisa pagar pela datcha. Ela não lhe pertence como propriedade pessoal. Ele simplesmente a recebe e passa a ocupá-la vitaliciamente. A vantagem do sistema é que esta condição permite a manutenção e limpeza também fornecidas gratuitamente pela estrutura do Estado. Às vezes, cobrava-se um aluguel simbólico, especialmente nos condomínios de férias à beira de lagos e praias turísticas. Nenhum habitante troca uma lâmpada queimada ou ajusta um parafuso frouxo. Incomoda-se a administração pelos mínimos detalhes. As mulheres não plantam uma flor para embelezar tais ambientes. Tudo tem que ser feito pela administração. “Os nomenclaturistas se estiram em suas redes, passeiam, jogam tênis ou vôlei, comem e bebem na varanda, vão ao cinema” (p. 232). Do outro lado da cerca opaca do condomínio, na casa dos comuns mortais, os habitantes passam seu tempo cavando, pregando, trabalhando da manhã até a noite. Mas considerando que muitos burocratas tinham origem camponesa, muito provavelmente gostavam de jardinagem, mas não o faziam, pois sua posição social não o permitia: noblesse oblige. Entretanto, se um chefe da nomenclatura compra uma casa, ele coloca em nome de seus pais, se compra um carro, coloca em nome dos filhos maiores ou do irmão. Algo que já conhecemos por aqui, sem a necessidade de comentários.


Quem lembrar-se da época da telefonia estatal no Brasil terá suas recordações tumultuadas por pesadelos: era preciso esperar de 2 a 4 anos para conseguir um aparelho na empresa estatal, ou dispor de um bom pistolão. Caso contrário, havia o mercado paralelo que funcionava impulsionado pela corrupção. Ora, um dos símbolos de status na URSS era justamente o(s) telefone(s). Um nomenclaturista não se contentava com uma só linha: uma para a comunicação interna e outra para a externa. E, conforme o degrau na pirâmide, mais aparelhos para funções governamentais importantes. Assim, era comum uma mesinha ao lado da mesa de trabalho cheia de telefones. Esses aparelhos, chamados ‘Vertuchkas’, cresceram com a burocracia a ponto de serem impressos guias telefônicos especiais só para a nomenclatura. A luta por um telefone no automóvel foi encarniçada, especialmente numa época paranóica com a espionagem e com as dificuldades técnicas para atender a todos os requisitantes. Mesmo assim, a nomenclatura venceu as resistências e dispôs dessa facilidade nos carros dos funcionários.


Segundo Voslensky uma das características da postura do nomenclaturista consistia na aparência de estar sempre ocupado e morrendo de tanto trabalhar. Esse tipo de manifestação terminava sendo a psicologia do ambiente para justificar sua vacuidade, semelhante ao ouvido dos membros do nosso judiciário para justificar os 60 dias de férias por ano. Quando alguém falava para o outro sobre a sua boa aparência, a resposta era sempre a mesma: “As aparências enganam” (p. 243).


Como a nomenclatura utilizava os meios de transportes se eles eram comuns a todos? Em primeiro lugar, apesar dos aeroportos e estações ferroviárias cheios, todos os trens e aviões trabalhavam com uma reserva de lugares para os ‘passageiros de última hora’. Enquanto isso, a população fazia fila ante os guichês às vezes por dias seguidos. Como conta o autor:


“Nosso chefe de setor tem sua passagem no bolso (obtida na seção de Transportes do CC só para os membros, funcionando como uma agência de viagem), um Volga negro o leva para a estação ou para o aeroporto. Ele não se dirige para o edifício central, mas para uma sala reservada chamada ‘Sala dos Deputados do Soviete Supremo’. Invenção original que cumula de legítimo orgulho os funcionários encarregados de zelar pelos nomenclaturistas. Isso lhes pode parecer possuir um arzinho democrático, bem no espírito da Constituição: não é uma sala para ‘altas personalidades’, mas uma peça simples, reservada aos representantes do povo, aos quais todos nós damos os nossos votos. Mas quem duvida que, na maior parte do tempo, não são deputados que se vão instalar naquela sala, de móveis requintados, e tapetes macios, à qual se destina um pessoal especial, principalmente os funcionários da Nomenclatura? Além do mais, o número de deputados em viagem não é de tal ordem que justifique a manutenção de uma vasta rede de tais salas. E, depois, era preciso resolver outro problema: como fazer com que estrangeiros, perfeitamente conscientes de não serem deputados no Soviete Supremo, fossem admitidos naqueles locais? Escreveu-se simplesmente, em inglês, ‘VIP Hall’ sobre a placa que assinalava em russo a existência daquela sala. Que, depois, iria ofuscar-se em ser tratado de ‘very important person’?


Guiado por um pessoal amável – bem diferente daquele que, nas outras salas, trata asperamente os usuários –, nosso chefe de setor atinge diretamente o trem ou o avião, alguns minutos antes que os outros viajantes sejam chamados para lá – é preciso evitar que ele encontre o povo nas plataformas ou nos corredores de embarque. No vagão-leito de primeira classe, ou na primeira classe do avião, encontra seus pares. Na aterragem, a escada móvel é colocada, inicialmente, na altura da primeira classe. Ele desce para a pista, inteiramente desembaraçado, e as autoridades locais vêm recebê-lo. Só depois disso deixam-se descer os outros passageiros. No desembarque do trem, ele é, infelizmente, obrigado a se misturar com o povo – mas não é um grande trajeto a fazer na plataforma: basta-lhe atingir a ‘Sala dos Deputados’ da estação de chegada. Na saída reservada, um carro do C.C. do comitê da região ou da cidade do Partido espera para levá-lo a uma residência reservada para ele. Eis um lugar ideal para preparar a locução aos membros do Partido, abordando um tema clássico, como, por exemplo: ‘A União do Partido e do Povo’ “ (p. 245-246).


Uma análise percuciente sobre as diferenças de classe é feita sobre a educação. Lá também os aspirantes à Academia de Ciências Sociais, se menos dotados, não estão com tudo perdido: a seleção por critérios políticos se encarrega de arrumar uma vaga para eles. O mesmo vale para as entradas de teatro, com as reservas sempre atentas à disposição dos funcionários do governo. Enfim, toda a sociedade está organizada para as diferenças de classe. E essas diferenças não são duais. Ao contrário, fazem parte de uma pirâmide que torna uma pessoa tanto mais privilegiada quanto maior sua ascendência na hierarquia funcional do governo-partido. Não vou falar sobre o estilo de vida de Stalin, Beria, Molotov e tantos dirigentes do partido. Segundo Voslensky, eles viviam como os milionários americanos. Desde a primavera de 1922, Lênin tinha 6 carros na garagem. A alienação de Stalin era tal, que sua filha Svetlana (“Vinte Cartas a Um Amigo”) dizia que seu pai quando se referia aos preços das mercadorias falava com os preços de antes da Revolução. A construção de datchas não foi interrompida. A de Pitsunda, na orla do Mar Negro, construída para Kruvchev, possuía um ancoradouro particular onde o líder russo desembarcava para descansar pisando em um tapete vermelho sobre a areia. E as datchas numerosas dos altos figurões eram mantidas por pessoal permanente sob constante aviso da iminência da chegada de seu amo, mesmo que tal ocorresse apenas uma vez ao ano.


Voslensky mostra em um capítulo a vida solitária dos dirigentes e sua total alienação com a vida do povo. O isolamento acabava por embotar a consciência. O paliativo usado por Stalin era a projeção de filmes soviéticos mostrando a vida do povo. Kruvchev zombou de Stalin no famoso XX Congresso após sua morte. Mas Voslensky garante que nem um nem outro conheciam na realidade como vivia o povo. Isso não nos surpreende. Segundo Paul Johnson, Marx que escreveu sobre as condições de vida da classe operária na Inglaterra nunca entrou em uma mina de carvão, apesar de ter sido convidado diversas vezes para isso. Não era preciso: a teoria já explicava tudo. “Pode-se caracterizar de maneira mais marcante uma classe de indivíduos que consegue viver como estranhos no país que governam?” (p. 267). Mas essa constatação não pode ser pública e revelada. Ao contrário, sua realidade está na capacidade de ser invocada para a destruição de um adversário, quando este é acusado de “falta de ligação com as massas”.
« Última modificação: 07 de Janeiro de 2018, 16:39:59 por JJ »

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Re:Socialismo e "socialismos"
« Resposta #32 Online: 07 de Janeiro de 2018, 16:25:17 »
A DITADURA DA NOMENCLATURA


Nos altos escalões hierárquicos, a nomenclatura funcionava como se fosse uma teia de clãs ordenada em pirâmide. Os mais poderosos nomeavam seus vassalos, que mantinham fidelidade irrestrita às suas ordens. Como em uma partida de xadrez, a nomeação de um postulante a um cargo mais elevado representava “um lance complexo, uma prova de fôlego prolongada. Não são as qualidades políticas do postulante (menos ainda suas competências funcionais) que são determinantes, mas as manobras políticas” (p. 280). Mas para reduzir o Politburo e o Secretariado do C.C. ao papel de auxiliares do Secretário-Geral só mesmo com a concentração de poderes, momento em que a direção coletiva passa à autocracia aparente dele. Basta analisar o que ocorreu com Stalin, Kruvchev e depois Brejnev. Não era incomum, durante a entrega de medalhas e comendas aos subordinados ouvir dos premiados expressões do tipo: “Queridíssimo camarada... sempre senti muito orgulho, e o sentirei para sempre, de ter passado quase a totalidade de minha vida sob sua direção” (p. 282).


“Com isso, a luta pelo poder não ocorre através dos discursos inflamados das democracias ocidentais. Ao contrário, é uma rede de intrigas sutil em que a retórica só intervém na última fase, quando se trata de apagar, com formalidade política, os erros de que se tornou culpado o adversário já vencido. Enquanto a armadilha não estiver funcionando, não se tornando pública, esforça-se em adormecer a desconfiança do rival através de demonstrações renovadas de amizade” (p. 284).

Voslensky narra em detalhes a luta pelo poder entre Brejnev e Chelepine no golpe de gabinete que destituiu Kruvchev. Como vitorioso, Brejnev destituiu o clã Chelepine com movimentação de cargos, reestruturação de funções, e, naturalmente, com renomeação para postos distantes de Moscou.

Na questão do poder de repressão da KGB, os relatos do autor são particularmente interessantes. Ele não destoa dos demais escritores emigrados, apenas conta detalhes do que conheceu pessoalmente. Podemos assim saber que Beria tinha uma prisão em sua própria residência, com sala de tortura no subsolo para jovens aterrorizadas com suas seções de sadomasoquismo. A crônica dos tchekistas (primeiros membros da polícia política leninista) é sempre demonstrativa do que acontecia nos porões do regime com os dissidentes – um espetáculo de horrores com organização e procedimentos que não se devem subestimar, por ser um legado da polícia czarista aperfeiçoado com requintes que deixariam a SS nazista invejosa de seus resultados. Dentro da Lubianka (a famosa prisão de Moscou para onde eram encaminhados os suspeitos), qualquer policialzinho de quepe se dava ares de Gengis Khan. Pelo resto do país, a crônica do ex-ministro exilado em 1917 Pavel (Paul) Miliukov é digna de registro:

“Cada destacamento da Tcheka tinha sua tortura preferida. Em Kharkov, os tchequistas escalpelavam os prisioneiros, ou descobriam os ossos de suas mãos arrancando-lhes as “luvas”. Em Voronej, colocavam suas vítimas em barricas cheias de pregos no interior, e começavam, então, a fazê-las rolar. Ainda em Voronej, aplicavam um ferro em forma de estrela de cinco pontas, em brasa, na testa do supliciado, e colocavam nas cabeças dos padres coroas feitas de arame farpado. Em Tsarytsin e Kamychin, cortavam os prisioneiros com serra. Em Poltava e Krementchuck, faziam-lhes sofrer o suplício da empalação. Em Lekaterinoslav, crucificavam-nos ou lapidavam-nos. Em Kiev, fechavam suas vítimas em caixões contendo cadáveres em decomposição, enterravam-nos vivos e os desenterravam no fim de meia hora” (p. 306).

Este é o relato dos primeiros anos da guerra civil que consolidaram o poder dos bolcheviques. Com semelhante legado, não se poderia esperar coisas muito edificantes sobre o respeito aos direitos humanos nos anos de consolidação do regime. De fato, a Rússia foi um dos poucos países que se conhece onde o Culto da Delação foi incentivado pelo aparelho de Estado, promovendo a destruição de famílias e a paranóia generalizada.


UMA CLASSE QUE ASPIRA À HEGEMONIA MUNDIAL


Procurando demonstrar que a natureza russa sempre foi a conquista territorial, já analisada por Marx no tempo do Czarismo, e a ocultação de documentos do tempo do Império para não permitir comparações com o presente comunista, Voslensky trata o internacionalismo russo como sendo uma fusão da teoria marxista com o expansionismo russo. Mas a questão da agressividade diz respeito à realpolitik já demais conhecida por nós. Mesmo com a guerra fria, o autor insiste que a Rússia, não obstante sua falta de escrúpulos em mandar para o matadouro milhões de seus concidadãos, não cometeria a insensatez de se envolver em um conflito onde sua ameaça fosse evidente, como no caso de uma guerra atômica. Paradoxalmente, sua natureza de classe exploradora e parasitária é que a protegia do aventureirismo no terreno de uma conflagração mundial. A fórmula é expressa com a seguinte observação: a nomenclatura não quer a guerra, ela quer a vitória. Isto significa uma estratégia de vencer sem combater, ou seja, de subversão e levantes, de golpes e insurreições.


A cronologia desses ataques evidencia a fórmula: 1920, a Polônia; 1939, a Finlândia e de novo a Polônia; 1940: Letônia, Lituânia e Estônia; 1944, a Bulgária; 1945, o Japão; 1956, a Hungria; 1968, Tchecoslováquia; 1979, Afeganistão. Sem falar no caso de Cuba, na Intentona Comunista no Brasil, na China e Coréia, e na guerra civil espanhola.


Essas ações foram conduzidas sob o manto da chamada “coexistência pacífica”, uma abordagem propagandística para o reconhecimento de 2 sistemas mundiais e da necessidade de convivência. Assim, a détente internacional (a distensão) foi uma maneira que descobriram para camuflar um conceito nebuloso para fins de discursos políticos vazios. Voslensky enfatiza a necessidade soviética de garantir a supremacia militar como meta de sobrevivência. Mas termina reprovando a embriaguez chauvinista e hegemônica que só tem feito paralisar a sociedade soviética em função de falsas conquistas e de um messianismo ideológico superado.


A liberdade e as boas condições de vida dos habitantes de um país são mais importantes que o sentimento de grandeza de seus regimes. E pergunta se o Japão militarista dos anos 30 e 40 seria maior do que o atual. Ou se os alemães desejariam trocar seu estilo de vida atual pelo sentimento de pseudograndeza do Terceiro Reich. Isso lhe permite concluir que a tentativa hegemônica dos nomenclaturistas estava fadada ao fracasso.


UMA CLASSE PARASITÁRIA


A nomenclatura é a classe em que o poder permite a ascensão à riqueza e não a riqueza ao poder como no capitalismo. Eis aí uma explicação para o horror causado pelo capitalismo na esquerda brasileira, e também porque ela está sempre cercando o poder. O horror à privatização vem desse conhecimento, ou dessa subjetividade como eles costumam dizer. Se o parasitismo é intrínseco ao socialismo de Estado, Voslensky termina profetizando que sendo o regime por natureza parasitário, todo o esforço de sobrevivência terminaria em vão, e o Ocidente não só ultrapassaria a capacidade soviética em todos os aspectos pelo seu próprio modelo de avanço tecnológico, como seria capaz de ser um fator determinante na desintegração da URSS em 1992.

Uma classe parasitária leva a sociedade para a desintegração quando ela começa a se tornar mais cara. A parte do produto nacional que ela se outorga começa a aumentar, enquanto, simultaneamente, o nível de contribuição para este produto começa a baixar. No Brasil conhecemos muito bem o que ocorre com as estatais e o próprio governo. Em determinado momento, as receitas de impostos não sustentam mais o funcionalismo, as sinecuras e os privilégios da oligarquia. Começa a inflação, a balança comercial acusa déficits insustentáveis e empréstimos internacionais são necessários para equilibrar os gastos. O resto da história é conhecido dos brasileiros.


Podemos argumentar que um dos senões à sua obra são suas respostas para as causas do parasitismo. Para Voslensky, o parasitismo é a natureza íntima da própria classe. Mas sabemos muito bem que o parasitismo está intimamente relacionado com o mundo feudal, e com o poder aristocrático, oligárquico e tirânico. O parasitismo é um componente do burocratismo estatal que convive tanto mais nocivamente na sociedade quanto maior sua presença na estrutura social. Por isso, o livro ‘A Nomenklatura’ tem importância entre nós. A pergunta se podemos ou não evoluir para o socialismo do tipo soviético pode ser respondida afirmativamente, mas nunca com esse nome porque nem mesmo seus promotores o desejam. Já estamos no meio do caminho e avançando cada vez mais. As propostas sociais de reforma política defendidas pelos grupos socialistas e marxistas no Brasil indicam claramente esta direção. Nossa distância do bolchevismo encurta-se a cada dia à medida que reforçamos a estrutura estatal, os cartórios, monopólios, sindicatos, organizações sociais saqueadoras da riqueza do país, seja na forma assistencial ou na forma de corrupção, e que permitimos um sistema de ensino calamitoso porque ideologicamente dominado por esquerdistas obscuros.


O único distanciamento possível do bolchevismo brasileiro está no caminho da sociedade do conhecimento, tendo como modelo de convergência os países asiáticos que se baseiam em sistemas produtivos, de capitalismo avançado, canalizando as energias humanas para o ativismo, administração, criatividade e invenção.


Sob a imposição do capitalismo, os homens começaram a se mostrar atarefados, enérgicos, vigilantes, ordeiros e cuidadosos com suas coisas. Perderam o lustro intelectual, o brilho erudito, mas ganharam o bem-estar e a tecnologia. E a moderna sociedade capitalista, a sociedade da informação, está novamente colocando os seres humanos em uma nova ordem social, onde a cooperação e a participação têm um alcance muito maior do que tudo o que já foi pensado racionalmente sobre avanços sociais no passado. O brilho voltará com sua diversidade, e o conhecimento será cada vez mais valorizado e determinante na vida social. Só não embarcam nesta viagem os países preparados para frustrá-la.



Postado por Carlos U Pozzobon às 21:54   


http://carlosupozzobon.blogspot.com.br/2012/04/nomenklatura.html


« Última modificação: 07 de Janeiro de 2018, 16:37:53 por JJ »

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Re:Socialismo e "socialismos"
« Resposta #33 Online: 07 de Janeiro de 2018, 16:43:09 »

A princípio me parece que existem dois tipos de socialistas:


1) Os ingênuos que não conhecem a verdadeira história do socialismo;


2)Os que conhecem um pouco, ou muito, mas que minimizam esses problemas, e que  gostariam de participar de uma revolução socialista na qual fossem depois fazer parte da nomenklatura (de preferência na parte mais alta).



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Re:Socialismo e "socialismos"
« Resposta #34 Online: 07 de Janeiro de 2018, 22:26:42 »
Construa seu espantalho.

Espere a sua data preferida.

Queime-o.

Comece de novo.
--
Si hemos de salvar o no,
de esto naides nos responde;
derecho ande el sol se esconde
tierra adentro hay que tirar;
algun día hemos de llegar...
despues sabremos a dónde.

"Why do you necessarily have to be wrong just because a few million people think you are?" Frank Zappa

Offline JJ

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Re:Socialismo e "socialismos"
« Resposta #35 Online: 25 de Fevereiro de 2018, 11:18:18 »
Manifesto Ecossocialista



1) Os ecossocialistas procuram resgatar a herança histórica de luta da humanidade pela justiça social, pela democracia como valor essencial e pelo direito à diferença (de gênero - Homem-Mulher -, da diversidade cultural dos povos e de opções sexuais, religiosas). Afirmam que, como parte dos movimentos que entram em luta por novas formas de relações sociais (socialistas), entram em luta também por novas formas de relação do ser humano com a natureza. Nesse sentido, não somos nem socialistas no sentido estrito, nem ecologistas em sentido estrito: somos ecossocialistas.


2) O "socialismo realmente existente", ao propor a primazia do desenvolvimento das forças produtivas em detrimento de novas relações sociais que permitissem o livre desenvolvimento do ser humano e a proteção do meio ambiente, reproduziu na prática características da sociedade capitalista que pretendia superar.


3) A crise na qual está imersa a humanidade não se restringe ao campo do econômico, mas abrange todo um processo civilizatório com suas crenças e seus valores, inclusive a crença de que a economia é a base da felicidade humana. Daí a necessidade de se repensar os fundamentos filosóficos para a construção de uma nova utopia. Entre esses valores que precisam ser repensados e que fazem parte, inclusive, da herança filosófica de grande parte da esquerda está o antropocentrismo.


4) Para os ecossocialistas, as especificidades do homem como espécie biológica que, por exemplo, tem a propriedade de criar cultura e história não são suficientes para autorizar a visão da natureza como objeto a ser submetido. Para os ecossocialistas, o Homem é parte da natureza, aquela que, inclusive, desenvolveu a consciência. Se vivemos numa sociedade em que a espécie humana perdeu essa consciência da sua naturalidade, esta é mais uma dimensão do processo de alienação a que se chegou.


5) Para os ecossocialistas, a defesa da vida não se restringe à defesa da vida humana, mas se estende a todas as formas de vida.


6) O chamado "socialismo científico", construído a partir das visões científicas do século passado (positivismo, evolucionismo, determinismo), da lógica cartesiana e da física newtoniana (mecânica), deve ser dialeticamente superado. Uma nova visão de mundo, holística, não-compartimentalizada, que reconheça que aquilo que a ciência convencional chama de "LEI" e "ORDEM" é apenas uma parte da realidade, da qual o ACASO também faz parte, constitui-se em novo paradigma sobre o qual poderíamos reformular nossa utopia.


7) Os ecossocialistas recusam a tese de que o homem está destruindo a natureza. Essa tese, ao tratar da questão genericamente, dilui as responsabilidades pela atual devastação do planeta. Numa sociedade fundada no lucro e na propriedade privada, a natureza não está igualmente à disposição do ser humano. A propriedade privada da natureza tira, por exemplo, de grande parte da humanidade o direito de decidir o que dela vai ser feito. Assim, vivemos numa sociedade que gera riqueza (questionável) para poucos, miséria para muitos e degradação ambiental para todos, pondo em risco, inclusive, a própria sobrevivência do planeta.


8) Desse modo, os recursos naturais do planeta não podem ser apropriados sob o regime da propriedade privada com poderes absolutistas do proprietário, mas sim de forma coletiva, democrática, em sintonia com o meio ambiente, e solidária com as gerações futuras.


9) Nesse sentido, é necessário mudar a relação ser humano-natureza, buscando uma relação harmoniosa preocupada com o futuro do planeta. Os interesses dos segmentos, grupos classes, povos e nações têm que ser compatibilizados com o meio ambiente. Para os ecossocialistas, os interesses dos explorados e oprimidos devem ser pensados para além do corporativismo, e para isso é preciso que incorporemos um projeto que seja do interesse de toda a humanidade e de defesa da(s) vida(s) e do planeta. A visão holística inerente aos ecossocialistas é fundamental na superação efetiva do corporativismo, pois implica reconhecer o outro como outro na sua diferença.


10) Para os ecossocialistas, um meio ambiente saudável é incompatível com o capitalismo nas suas duas vertentes, a neoliberal e a social-democrata. A preocupação com o enriquecimento imediato, inerente à lógica do MERCADO e do LUCRO, deve deixar de constituir a base dos valores da humanidade. A separação do homem da terra está na origem e no cerne da sociedade capitalista. Só assim foi possível a mercantilização generalizada dos homens (proletarização) e da natureza. A lógica do mercado, que pressupõe a divisão do trabalho, levou a uma extrema especialização tanto produtiva como do conhecimento. A lógica da concorrência impôs ritmos intensos ao processo de produção, incompatíveis com os fluxos de matéria e energia de cada ecossistema (que ficaram dependentes de insumos energéticos externos), com o equilíbrio psicoafetivo do trabalhador (vide Chaplin em Tempos Modernos) e com os ritmos próprios à vida de cada povo e cultura. Nesse sentido, capitalismo e desenvolvimento auto-sustentável são incompatíveis.


11) A queda do Muro de Berlim e da burocracia com suas políticas secretas sepultou o modo coletivista do Estado autoritário e centralizado, mas não os princípios e os fundamentos de um igualitarismo socialista democrático.


12) No entanto, para a opinião pública mundial ficaram abalados os princípios da supremacia do coletivo sobre o individual e do plano sobre o mercado. Impõe-se a necessidade de repensarmos a relação entre o individual e o social, entre o público e o privado. A luta contra a desigualdade, por exemplo, não é uma luta pela igualdade no sentido estritamente econômico-social. É uma luta para que todos tenham condições iguais para afirmar suas diferenças. Os ecossocialistas recusam uma visão do social que anule o indivíduo. Queremos um social que incorpore a visão de que cada indivíduo é singular, tem a sua originalidade. Queremos um social que permita o desabrochar da criatividade que existe em cada ser humano. Queremos um socialismo (e não um social-ismo) que seja assinado na primeira pessoa, em que cada um se sinta estimulado e responsável individualmente pela sua construção. Não confundimos afirmação da individualidade com individualismo, como, de certa forma, a esquerda até hoje veio fazendo. Como a questão do indivíduo era confundida com o individualismo burguês, ela foi negligenciada e recalcada. No entanto, como ela é parte constitutiva do homem moderno e não era explicitada no seio da esquerda, a questão do indivíduo veio se manifestando de uma maneira perversa por meio dos diversos cultos à personalidade. Aquilo que era negado à maioria sob o pretexto de que se constituía num princípio burguês passou a ser privilégio de alguns poucos (quase sempre do secretário-geral).


13) No entanto, os ecossocialistas propugnam por ampliar radicalmente os espaços das liberdades coletivas e individuais, não restringindo as especificidades do desenvolvimento afetivo, psicológico e cultural.


14) Em uma sociedade em que o poder e a economia estão extremamente centralizados, monopolizados - como a que vivemos, tanto em nível nacional como internacional -, não é possível deixar exclusivamente às forças do mercado a formação dos valores, dos gostos e dos preços. O mercado não gosta dos miseráveis e a justiça social não é mercadoria que dê lucros imediatos. Não queremos trocar o ESTADO TOTAL pelo MERCADO TOTAL. É preciso mesmo indagar-se se existe mercado numa economia oligopolizada.


15) Afirmamos que os princípios da autogestão, da autonomia, da solidariedade (inclusive com as gerações futuras), da defesa da(s) vida(s) e das liberdades, do desenvolvimento espiritual e cultural dos indivíduos e dos povos e das tecnologias alternativas, libertos das amarras do produtivismo e do Estado autoritário, ajudarão a semear e robustecer a utopia transformadora ecossocialista e libertária.


16) Uma das decorrências do antropocentrismo (na verdade, do homem europeu, logo do eurocentrismo) foi (e é) o produtivismo. A crença num homem TODO-PODEROSO que tudo pode submeter está na base da idéia de progresso do mundo moderno. O PROGRESSO entendido como aumento da riqueza material, medido por meio do PIB, impregnou as consciências, inclusive a de muitos que se pensam críticos da sociedade dominante. Para os ecossocialistas, o capitalismo não é somente um modo de produção. É também um modo de vida, um determinado projeto civilizatório, um modo de ser para o ser humano. Não cabe simplesmente questionar o modo de produção-distribuição do capitalismo. Se o capitalismo não permite que todos tenham automóveis, nós, os ecossocialistas, não lutamos para que todos tenham um, pois isso só socializaria o congestionamento. Assim, não questionamos somente o modo como se produz e para quem. Incorporamos à nossa crítica também o BEM-ESTAR. Queremos um BEM-VIVER, que vai além do conforto material. SEM MEDO DE SER FELIZ.


17) Assim, os ecossocialistas questionam os padrões culturais de consumo que são condicionados pelo modo de produção. Diferenciamo-nos dos demais ecologistas, pois não ficamos na crítica ao consumismo, uma vez que esta é a face aparente de uma sociedade que, no fundo, é produtivista. O produtivismo-consumismo é, por sua vez, filho direto dos valores antropocêntricos que a sociedade capitalista leva ao paroxismo com sua visão da riqueza imediata, do lucro e da extrema fragmentação/especialização da produção, inclusive da produção do conhecimento.


18) A crítica ecossocialista da matriz produtivista-consumista dos atuais modelos de desenvolvimento predatórios, embotantes e desumanos se dirige também à proposta de "crescimento zero" ou do anticonsumismo monástico para o Terceiro Mundo. Propomos, sim, um redirecionamento da produção-consumo que vise prioritariamente a superação da miséria, tanto material como espiritual, e uma gestão democrática dos recursos. Para os ecossocialistas, a produção não é um fim em si mesma, mas um meio para a efetivação de uma sociedade igualitária baseada na radicalização democrática (que combina democracia direta e representativa).


19) A tese do "crescimento zero" demonstrou toda a sua fragilidade sobretudo na última década de recessão e desemprego, com queda do PIB. Mesmo nesse contexto, a degradação ambiental só fez progredir. Nada temos contra o crescimento se ele for baseado na proteção da natureza e na gestão democrática dos recursos. O crescimento do ser humano não pode ser reduzido ao consumo de bens materiais. Não queremos substituir o SER pelo TER. Essa é a utopia capitalista.


20) Para os ecossocialistas, o trabalhador não se define como "mão-de-obra" ou "força-de-trabalho", mas como um ser humano pleno e complexo, com direitos integrais de cidadania. Não reduzimos o ser humano ao mundo da produção, nem tampouco à sua dimensão econômica. A economia é apenas um instrumento a serviço da sociedade, e não o contrário, como acontece no capitalismo, e, portanto, deve estar subordinada democraticamente aos cidadãos.


21) Os ecossocialistas não entendem que os proletários fabris e rurais sejam os únicos agentes da transformação social. Há um movimento real, constituído por diferentes movimentos sociais, que procura suprimir o estado de coisas existentes. São pessoas que pelas mais diferentes razões rompem a sua inércia e vêm para o espaço público construir novos direitos.


22) Os ecossocialistas propõem novos critérios para a elaboração da contabilidade nacional, em que sejam computados os custos da degradação do meio ambiente, como, por exemplo, a perda da biodiversidade, do fundo de fertilidade da terra (e da água), dos mananciais. A poluição é um claro exemplo de socialização dos prejuízos e da privatização dos benefícios. Para nós são indicadores do desenvolvimento o tempo livre e o avanço cultural do povo e, para isso, é fundamental retomar a luta pela diminuição da jornada de trabalho. Não existe nenhum limite natural para a jornada de trabalho. Ele é claramente político e é o resultado das lutas de classes. Entendemos que o trabalho é uma necessidade e, como tal, deve ser democraticamente gerenciado e reduzido para que o homem possa ser livre.


23) A sociedade americana, paradigma de desenvolvimento na ótica dominante, no seu afã produtivista-consumista, chegou à insana condição de, com apenas 6% da população mundial, consumir 25% da produção mundial do petróleo. Desse modo, se 24% da população mundial tivesse o padrão cultural da sociedade norte-americana, consumiria 100% do petróleo mundial. Esse modelo se mostra, assim, definitivamente, não só devastador-poluidor como também excludente socialmente. Se na utopia capitalista a felicidade deve ser alcançada por meio do consumo de bens materiais com todas as conseqüências já apuradas, nós, ecossocialistas, propugnamos a luta por um redirecionamento do que seja riqueza que incorpore, inclusive, a dimensão ética, pois deve ser estendida a todos os seres humanos e se pautar no direito à vida de todos os seres vivos. A sociedade moderna surgiu apoiada numa ética do trabalho, que, no entanto, vem sendo substituída pela ética do consumo. É preciso superarmos, dialeticamente, a ambas.


24) a ciência e a tecnologia são indispensáveis para a construção da sociedade ecossocialista, em que haja a superação do desperdício e da devastação e a diminuição da jornada de trabalho (o tempo livre). Todavia não podemos cair no mito nacionalista de que a ciência e a tecnologia são os únicos motores para se alcançar tal fim. É a própria noção de riqueza e trabalho que precisa ser reelaborada. Outras sociedades, menos complexas tecnologicamente do que a nossa, foram capazes de subordinar o trabalho e não se escravizar a ele.

25) A luta pela construção do ecossocialismo passa, necessariamente, pela invenção de novas tecnologias e por uma apropriação crítica do complexo tecnológico hoje à disposição da humanidade. Nesse sentido, devemos estar atentos e abertos a todo o complexo científico-tecnológico que o conhecimento humano produziu e, sobretudo, saber adequá-lo às particularidades socioculturais de nosso povo, tanto para recusá-lo como para dele nos apropriar.


26) Até agora o movimento popular e sindical tem se preocupado com a questão tecnológica basicamente por seu impacto no (des)emprego, com ênfase nas conseqüências da robótica e da informática. Esse é um aspecto importante e por intermédio dele é possível perceber com clareza que a redução da jornada de trabalho se constitui numa bandeira extremamente moderna e atual. No entanto, há um outro lado da questão que precisa ser aprofundado: em muitos casos o trabalhador tem vendido a sua saúde (insalubridade como adicional no salário) em vez de lutar pela despoluição das fábricas e dos processos de produção, deixando intacta a matriz tecnológica do capital. Os ecologistas lançam junto aos sindicatos e à classe trabalhadora a luta política pelas tecnologias limpas e um ambiente de trabalho saudável, tanto no aspecto bio-físico-químico como no psicossocial. Devemos, pois, assumir a luta por tecnologias que minimizem o impacto agressivo sobre a saúde e a vida de quem produz e o meio ambiente, patrimônio da população e base de sua qualidade de vida. A luta pela substituição das tecnologias sujas que usam o benzeno, o mercúrio, o ascarel, o asbesto, os agrotóxicos e o jateamento de areia (nos estaleiros, por exemplo), entre outros, supõe o aumento da consciência de classe e, por incorporar a dimensão ecológica, torna-se uma questão de interesse de toda a humanidade, contribuindo para superar o corporativismo. Ambientes de produção ecologicamente seguros são condição preliminar para que todo o ambiente seja despoluído. O segredo comercial, normalmente invocado pelo capital para não revelar a composição química de seus produtos, não pode estar acima da vida.


27) As chamadas tecnologias limpas não se resumem ao tratamento da saúde, dos efluentes e dos despejos, mas implicam a despoluição de todo o processo de produção em todas as suas fases. O ecossocialismo não quer limpar a atual organização do processo produtivo sem alterar seus princípios e sua lógica de funcionamento. Não queremos pintar de verde a fachada do prédio do capitalismo predatório, mantendo inalterada sua lógica de exploração, exclusão e desigualdades. Assim, a bandeira das tecnologias limpas deve se associar às transformações na estrutura da propriedade, de distribuição e da natureza do consumo final.


28) Para efetivar esta bandeira torna-se fundamental uma articulação entre a comunidade científica, o movimento ambientalista e o movimento popular e sindical. Isolados estes, as teses ficam nas gavetas e a chantagem patronal joga trabalhadores e ecologistas uns contra os outros. São os trabalhadores que vivem cotidianamente submetidos às piores condições ambientais, tanto no seu local de trabalho como em sua moradia. É preciso, no entanto, romper com o corporativismo que opõe trabalhadores de um lado e ambientalistas e cientistas de outro. Se os trabalhadores, por exemplo, não têm onde morar e, constrangidos, invadem áreas de interesse público, como mananciais, é preciso afirmar que nesse caso a questão habitacional torna-se de interesse público e haveremos de buscar alternativas para que os trabalhadores tenham um teto e o manancial seja preservado. Assim, é preciso reverter o corporativismo e a alienação a ele vinculada, aprofundando a luta política, cimentando a concepção de uma nova sociedade fundada em um outro tipo de desenvolvimento tecnológico.


29) Os ecossocialistas propugnam pela reciclagem dos resíduos e materiais, pela descentralização geográfica da economia e da política, pelo combate ao desperdício e à obsolescência precoce planejada do produto. A durabilidade deve se constituir num critério de qualidade do produto. Estas são bandeiras que devem estar associadas à luta contra a pobreza (material e simbólica), contra a concentração de terra e renda e contra a dependência externa.


30) A conversão gradual do complexo militar e industrial para uma economia voltada para um desenvolvimento autogerido, democrático e sustentável deve ser acompanhada pela transformação radical dos critérios de investigação de ecotécnicas, tecnologias economicamente eficientes, poupadoras de energia, descentralizáveis (tanto no plano técnico como no político), ecologicamente seguras e capazes de serem apropriadas e geridas pelo trabalho coletivo.


31) A tendência atual do capitalismo de diminuir cada vez mais o número de trabalhadores do processo de produção material, aumentando enormemente a capacidade de produção, tem como um dos sustentáculos a manipulação do desejo, a fabricação capitalista da subjetividade por meio da mídia, sobretudo da televisão. Este tem sido um poderoso instrumento político dos grandes monopólios. A democratização dos meios de comunicação torna-se essencial. Pela "Reforma Agrária do AR".


32) A defesa do ensino público, gratuito e de qualidade em todos os níveis é fundamental para que criemos um complexo científico-tecnológico que contribua para um desenvolvimento ecologicamente seguro, voltado para o interesse comum e a soberania dos povos. Só com um estreitamento profundo da universidade com os interesses da grande maioria do povo será possível quebrar o mito da neutralidade das forças produtivas. A busca de um paradigma filosófico e científico não-reducionista é parte da luta por uma universidade de qualidade e voltada para o interesse comum.


33) Um projeto ecossocialista pressupõe as reformas agrária e urbana, que devem ser pensadas na sua articulação com a matriz energética. O incentivo às formas de geração de energia descentralizadas como miniusinas, biodigestores, eólica (vento) e solar é importante no sentido de democratizar o acesso à energia sem aumentar a pressão sobre a atual matriz energética, esta sim excludente, com vistas a possibilitar o desenvolvimento de pequenas e médias cidades. Essa preocupação não deve nos omitir das responsabilidades referentes aos problemas das grandes cidades, exigindo a proteção das encostas, dos mananciais e fundos de vales, a primazia do transporte coletivo sobre o individual, o uso do gás como combustível, as ciclovias, a reciclagem do lixo urbano e outras propostas.


34) Na sociedade atual há um verdadeiro culto à centralização, à concentração e ao que é grande (ao maior) sob o pretexto de que seriam mais eficientes. Combatemos radicalmente esse princípio, não por um culto ingênuo ao pequeno, ao menor, mas sim pela hierarquização e centralização do poder que os MEGAPROJETOS comportam. O limite de tamanho é desigual para as diferentes atividades e sociedades e não é uma questão de ordem exclusivamente técnica, embora comporte, como tudo, um lado técnico do fazer. Como tal, o limite do tamanho é sobretudo do campo político e, assim, deve ser estabelecido a partir de uma base democrática e autogestionária. Não é difícil perceber a íntima relação entre os MEGAPROJETOS no Brasil (Tucuruí, Jari, Carajás, Angra I e II, Itaipu...) e o suporte autoritário que os criou. E aqui não devemos confundir o autoritarismo com sua fachada aparente que foi a ditadura militar, mas, sobretudo, ver os vínculos profundos que mantém com o capital monopolista.


35) Os ecossocialistas lutam pelo desenvolvimento de formas democráticas e participativas de gestão em todos os níveis, desde o local de trabalho até o Parlamento, por meio da combinação da democracia direta e da representativa. Acreditamos ser esta uma forma evoluída de gestão política e administrativa. Os cidadãos trabalhadores devem ter uma noção geral dos problemas e participar criativamente das soluções, substituindo a visão fragmentária por uma visão holística (que se preocupa com a relação das partes entre si, das partes com o todo e com a relação do TODO retroagindo sobre as partes). Para isso são necessários tanto um processo educacional que, ao mesmo tempo que estimule o senso crítico e a criatividade, vise o interesse público como uma radical democratização dos meios de comunicação. Sem essas condições as mudanças no regime de propriedade e nas formas de gestão, que estão associadas, ficam comprometidas.


36) Para os ecossocialistas uma nova ética revolucionária é precondição de uma nova política: os FINS não justificam os MEIOS. As práticas autoritárias, machistas, elitistas, militarizadas e predatórias só fundamental uma falsa transformação, sem a afirmação de novos valores para uma nova sociedade.

 
37) Essa nova ética ecológica planetária é incompatível com a exportação de lixo químico dos países ricos para os países periféricos e inconciliável com os testes nucleares que transformam o planeta em laboratório e a população em cobaia. Sobretudo agora, quando caiu o Muro e com ele toda a lógica da Guerra Fria e sua corrida armamentista, torna-se necessária a desnuclearização do mundo para que a política não fique submetida àqueles que têm o poder de definir a morte. A queda da burocracia no Leste Europeu, saudada por todos os verdadeiros socialistas, deixou, por outro lado, o imperialismo de mãos livres para apertar o botão.

 
38) Defendemos uma nova divisão internacional do trabalho radicalmente diferente da atual, em que os países ricos se reservam as tecnologias de ponta, como a robótica, a biotecnologia, a química fina e o laser, e relocalizam no Terceiro Mundo as indústrias sujas, altamente degradadoras do meio ambiente e consumidoras de energia, inclusive do próprio homem. Uma nova ética ecológica planetária supõe intercâmbio, cooperação, paz, solidariedade e liberdade no lugar da hipocrisia do nacionalismo chauvinista que justifica as próprias agressões praticadas por cada governo e empresas contra suas próprias populações e seu meio ambiente. O direito à autodeterminação dos povos não pode ser invocado para destruí-los, assim como suas fontes naturais de vida. Um novo conceito de soberania é necessário, incorporando uma ética ecológica.

 
39) O ecossocialismo não se constrói num só país nem numa só direção. A solidariedade entre todos aqueles que são negados em sua humanidade, por serem explorados e oprimidos, se faz pelo reconhecimento de que formamos uma mesma espécie, cujo maior patrimônio é nossa diferença cultural. Uma posição verdadeiramente revolucionária, ecossocialista, reconhece que habitamos uma mesma casa, o planeta Terra, que, por sua vez, vem sendo ameaçado por um internacionalismo fundado no dinheiro e no lucro e por um poder altamente concentrado: o IMPERIALISMO.

 
40) Os ecossocialistas entendem que é necessário romper com a idéia restrita de revolução, originária da mitológica tomada de assalto do poder, militarizada e, por sua vez, derivada de uma restrita visão do Estado. Afirmamos que inexiste o tal corte absoluto mistificado na história, uma vez que o processo de transformação social é composto não por uma, mas por várias rupturas, descontinuidades, desníveis e disfunções. No entanto, numa sociedade em que o poder está hierarquizado, do cotidiano familiar ao aparelho de Estado, passando pelos locais de trabalho, as diversas rupturas nos diversos níveis têm contribuições diferenciadas, embora todas essenciais num verdadeiro processo de transformação, aliás em curso. Aqui se faz necessária, mais uma vez, uma visão que dialetize a relação entre as partes e o todo. Os debates acerca dessa questão vêm ganhando maior profundidade no seio da esquerda. Mesmo aqueles que procuram afirmar a idéia de uma ruptura têm apontado que ela implica o estabelecimento de novas relações entre o Estado e a sociedade civil, entre partidos e sindicatos e demais movimentos populares. Apontam que o socialismo se torna uma necessidade reconhecida pela população quando no processo de luta evidenciamos os limites de desenvolvimento capitalista. Esses limites são evidenciados, por sua vez, quando a burguesia rejeita propostas humanização em geral, em particular no tocante à socialização da propriedade. Desse modo, a ruptura deve ser entendida como o resultado prático e teórico da dialética reformas / revolução. Nesta dialética é fundamental, portanto, entender que a teoria e a prática para uma sociedade socialista devem existir já a partir do capitalismo, embora condicionada pelos limites e barreiras dessa sociedade. Aí são fundamentais, por exemplo, os Conselhos Populares. Estes devem ser organizações da sociedade civil autônomas em relação ao Estado e aos partidos, atuando como verdadeiros laboratórios de construção de hegemonias. Assim, a democracia socialista não é simplesmente a negação da democracia capitalista, mas sim a sua superação. Se a democracia é um valor estratégico, como acreditamos, e não tático, e o poder não se localiza em um lugar restrito, como no aparelho de Estado, por exemplo, devemos instituir práticas democráticas em todos os lugares de interesse público, inclusive nas unidades de produção (empresas / locais de trabalho), o que implica repensar o regime de propriedade. Afinal, assim como os fluxos de matéria e energia dos ecossistemas e mesmo da sociedade transcendem as fronteiras nacionais, o mesmo ocorre com as cercas e fronteiras da propriedade privada.

 
41) Por fim, a atual crise que afeta a humanidade expressa na descrença com relação ao futuro, no hipocondrismo, no alcoolismo, na violência cotidiana, no estresse, na apatia e no consumo indiscriminado de drogas em geral mostra a decadência do atual modelo de desenvolvimento. Repudiamos a militarização do combate às drogas que vem substituindo a antiga caça aos comunistas. A militarização no combate às drogas acaba por escamotear a verdadeira questão: o esvaziamento do sentido da vida, a instrumentalização mercantilizada do desejo, a vida sem direito a fantasias típicas da sociedade que transformou a liberdade "numa calça velha, azul e desbotada", conforme um anúncio publicitário. Nós, ecossocialistas, reconhecemos que, se é, num certo sentido, verdadeiro que ninguém vive de fantasia, também é verdadeiro que a dimensão da fantasia é inerente à vida. Assim, repudiamos a sociedade que reduz a fantasia à sua por intermédio da droga.

Sem medo de ser feliz!

 
Secretaria Nacional de Movimentos Populares

Subsecretaria Nacional dos Ecologistas do PT



http://www.mma.gov.br/informma/item/8075-manifesto-ecossocialista


« Última modificação: 25 de Fevereiro de 2018, 11:54:47 por JJ »

Offline JJ

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Re:Socialismo e "socialismos"
« Resposta #36 Online: 25 de Fevereiro de 2018, 11:33:34 »
Manifesto Ecossocialista

20) Para os ecossocialistas, o trabalhador não se define como "mão-de-obra" ou "força-de-trabalho", mas como um ser humano pleno e complexo, com direitos integrais de cidadania. Não reduzimos o ser humano ao mundo da produção, nem tampouco à sua dimensão econômica. A economia é apenas um instrumento a serviço da sociedade, e não o contrário, como acontece no capitalismo, e, portanto, deve estar subordinada democraticamente aos cidadãos.





"Direitos integrais de cidadania"  parece ser uma coisa muito  linda, mas :


1) Quais seriam esses "direitos integrais de cidadania" ?


2)Quem (na sociedade atual) vai pagar  por eles ? 






« Última modificação: 25 de Fevereiro de 2018, 11:38:35 por JJ »

Offline JJ

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Re:Socialismo e "socialismos"
« Resposta #37 Online: 25 de Fevereiro de 2018, 11:37:57 »
Manifesto Ecossocialista

22) Os ecossocialistas propõem novos critérios para a elaboração da contabilidade nacional, [...] Para nós são indicadores do desenvolvimento o tempo livre [...]




Então, os desempregados estão numa situação de maior desenvolvimento.   :D



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Re:Socialismo e "socialismos"
« Resposta #38 Online: 25 de Fevereiro de 2018, 11:43:50 »
Manifesto Ecossocialista


23) A sociedade americana, paradigma de desenvolvimento na ótica dominante, no seu afã produtivista-consumista, chegou à insana condição de, [...]




Beleza. Então, vamos adotar como modelo uma sociedade que não produza quase nada e que não consuma quase nada (ou pelo menos produza pouco e consuma pouco).  Acho que podemos encontrar  esse modelo  em Cuba,  e/ou  em  algum país da África que produza pouco e consuma pouco.



« Última modificação: 25 de Fevereiro de 2018, 12:03:19 por JJ »

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Re:Socialismo e "socialismos"
« Resposta #39 Online: 25 de Fevereiro de 2018, 11:53:00 »

Manifesto Ecossocialista


24) a ciência e a tecnologia são indispensáveis para a construção da sociedade ecossocialista, em que haja a superação do desperdício e da devastação e a diminuição da jornada de trabalho (o tempo livre). Todavia não podemos cair no mito nacionalista de que a ciência e a tecnologia são os únicos motores para se alcançar tal fim. É a própria noção de riqueza e trabalho que precisa ser reelaborada. Outras sociedades, menos complexas tecnologicamente do que a nossa, foram capazes de subordinar o trabalho e não se escravizar a ele.





Beleza.  Então,  uma ideia interessante seria passarmos a viver  como  uma sociedade menos complexa, por exemplo,  poderíamos passar a viver como índios em tribos .


« Última modificação: 25 de Fevereiro de 2018, 12:36:39 por JJ »

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Re:Socialismo e "socialismos"
« Resposta #40 Online: 25 de Fevereiro de 2018, 12:09:04 »
Manifesto Ecossocialista


29) Os ecossocialistas propugnam pela reciclagem dos resíduos e materiais, pela descentralização geográfica da economia e da política, pelo combate ao desperdício e à obsolescência precoce planejada do produto. A durabilidade deve se constituir num critério de qualidade do produto. [...]


Aqui eu concordo bastante.


 :ok: :ok: :ok: :ok: :ok: :ok: :ok: :ok: :ok: :ok:

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Re:Socialismo e "socialismos"
« Resposta #41 Online: 25 de Fevereiro de 2018, 12:12:22 »
Manifesto Ecossocialista

31) A tendência atual do capitalismo de diminuir cada vez mais o número de trabalhadores do processo de produção material, aumentando enormemente a capacidade de produção, tem como um dos sustentáculos a manipulação do desejo, a fabricação capitalista da subjetividade por meio da mídia, sobretudo da televisão. Este tem sido um poderoso instrumento político dos grandes monopólios. A democratização dos meios de comunicação torna-se essencial. Pela "Reforma Agrária do AR".




Aqui novamente temos exposta a ideia de controle social (ista)   da mídia.


 :no: :no: :no: :no: :no: :no: :no:
 

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Re:Socialismo e "socialismos"
« Resposta #42 Online: 25 de Fevereiro de 2018, 12:17:16 »
Manifesto Ecossocialista

34) Na sociedade atual há um verdadeiro culto à centralização, à concentração e ao que é grande (ao maior) sob o pretexto de que seriam mais eficientes. Combatemos radicalmente esse princípio, não por um culto ingênuo ao pequeno, ao menor, mas sim pela hierarquização e centralização do poder que os MEGAPROJETOS comportam.


Lembrei da política de "campeões nacionais" e do BNDES  comandado  pelo PT.   :D




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Re:Socialismo e "socialismos"
« Resposta #43 Online: 25 de Fevereiro de 2018, 12:24:11 »
Manifesto Ecossocialista
 
37) [...] A queda da burocracia no Leste Europeu, saudada por todos os verdadeiros socialistas, deixou, por outro lado, o imperialismo de mãos livres para apertar o botão.




Há tá,  estou acreditando nessa.   :D


(Boa tentativa de tascar um verdadeiro escocês)   8-)



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Re:Socialismo e "socialismos"
« Resposta #44 Online: 25 de Fevereiro de 2018, 12:28:28 »
Manifesto Ecossocialista

 
40) Os ecossocialistas entendem que é necessário romper com a idéia restrita de revolução, originária da mitológica tomada de assalto do poder, militarizada e, por sua vez, derivada de uma restrita visão do Estado. Afirmamos que inexiste o tal corte absoluto mistificado na história, uma vez que o processo de transformação social é composto não por uma, mas por várias rupturas, descontinuidades, desníveis e disfunções. No entanto, numa sociedade em que o poder está hierarquizado, do cotidiano familiar ao aparelho de Estado, passando pelos locais de trabalho, as diversas rupturas nos diversos níveis têm contribuições diferenciadas, embora todas essenciais num verdadeiro processo de transformação, aliás em curso.  [...]  Nesta dialética é fundamental, portanto, entender que a teoria e a prática para uma sociedade socialista devem existir já a partir do capitalismo, embora condicionada pelos limites e barreiras dessa sociedade. Aí são fundamentais, por exemplo, os Conselhos Populares. [...]



Gramscismo  ?


 :?: :?: :?: :?: :?: :?: :?: :?: :?: :?: :?:


« Última modificação: 25 de Fevereiro de 2018, 12:31:31 por JJ »

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Re:Socialismo e "socialismos"
« Resposta #45 Online: 20 de Março de 2018, 16:03:39 »
Cresci em uma economia socialista. Eis o que as pessoas não entendem sobre liberdade

Socialismo e liberdade são conceitos totalmente antagônicos


A liberdade individual só pode existir em um contexto de capitalismo de livre mercado. A liberdade pessoal prospera no capitalismo, entra em queda em economias reguladas pelo governo, e desaparece no socialismo.

Quanto mais o estado se expande e assume o controle (mesmo que apenas regulatório) de vários setores da sociedade, mais a liberdade (empreendedorial e social) do indivíduo encolhe.

Por isso, as populações daqueles países cujas economias não são socialistas, mas estão debilitadas por amplas e intrusivas regulações estatais, necessitam ter um apreço mais intenso pela liberdade individual e pelo capitalismo.

Nasci e fui criada na Romênia socialista durante a Guerra Fria. Era um país no qual o governo era o proprietário de todos os recursos e meios de produção. O estado controlava praticamente todos os aspectos de nossas vidas: nossa educação, a escolha de nossos empregos, o momento do dia em que teríamos água quente, e tudo o que podíamos dizer em público.

Assim como os outros dos países do Leste Europeu, era comum o resto do mundo se referir à Romênia como um país comunista. Na escola, fomos ensinados que vivíamos em um país socialista. O nome do país antes de a Revolução de 1989 derrubar o regime de Ceausescu era República Socialista da Romênia.

Do ponto de vista econômico, uma ínfima fatia das propriedades ainda estava sob controle privado. Em um sistema comunista, absolutamente toda a propriedade está sob controle do estado (por isso, o comunismo pleno é um sistema impossível). Assim, embora não fosse tecnicamente correto dizer que a Romênia era uma economia comunista, seu pesado sistema de planejamento centralizado e a imposição de um controle estatal totalitário sobre todos os cidadãos romenos faziam jus ao epíteto de país comunista.

O socialismo cria escassez e racionamento

Não obstante o fato de que a Romênia era um país rico em recursos, havia racionamentos por todos os lados. Comida, eletricidade, água e praticamente cada item básico e essencial da vida cotidiana eram escassos. O prédio em que eu vivia tinha água quente para os chuveiros por apenas duas horas pela manhã e duas horas à noite. Tínhamos de ser rápidos e pontuais, caso contrário perderíamos a oportunidade. Creiam-me: ter racionamento de eletricidade e de água quente sob invernos rigorosos não é nada charmoso.

Chicletes Wrigley e chocolate suíço, comuns em toda a Europa, eram raridade para nós. Lembro-me vivamente de como fiquei feliz quando consegui um pacote de gomas de mascar estrangeiras e uma barra de um delicioso chocolate ao leite. Tão raros eram que decidi guardá-los carinhosamente, esperando uma ocasião especial para consumi-los.

Batom, perfume francês e jeans eram itens disponíveis apenas no mercado negro e aos quais você só tinha acesso se tivesse as conexões certas. Que Deus abençoe esses empreendedores do mercado negro, pois foram eles que possibilitaram que nossas vidas fossem mais toleráveis. Foram eles que nos davam a oportunidade de comprar coisas que desejávamos intensamente, mas que não conseguíamos obter nas lojas estatais, cujas prateleiras estavam ou permanentemente vazias ou cheias de itens feios, repulsivos e de baixa qualidade.

É verdade que não precisávamos de nada elegante, mas tínhamos de comes. Neste aspecto, as mercearias não eram muito melhores. O pão, duro e sem gosto, era vendido por centímetro, e as poucas postas de carne sobre as mesas imundas dos açougueiros tinham um aspecto cinzento e nada atrativo. Ovos? Raridade. Frutas frescas? Nunca vi. Sendo assim, o velho provérbio romeno "A consciência passa pelo estômago" fazia muito sentido.

A partir do final da década de 1970, a vida na Romênia passou a piorar a um ritmo mais intenso. Nem mesmo as carnes cinzentas estavam mais disponíveis. Consequentemente, nossos pais tiveram de se virar e aprender a preparar o fígado, o cérebro, a língua e outras entranhas que a maioria das pessoas no Ocidente nem sequer consideraria experimentar.

Nas raras ocasiões em que o governo anunciava que leite, manteiga e ovos estariam temporariamente disponíveis nas mercearias estatais, minha mãe — assim como todos os nossos vizinhos — acordava às duas da manhã e ia para a fila, na esperança de ter alguma chance de conseguir essas iguarias. A mercearia abria às 6 da manhã, de modo que, se ela não chegasse cedo à fila, perderia a oportunidade de conseguir comida.

Em 1982, o estado mandou seus funcionários à casa das pessoas para fazer o censo. Feito o censo, o programa de racionamento de comida foi implantado. Para uma família de quatro pessoas, como a minha, nossa cota era de 1 quilograma de farinha e 1 quilograma de açúcar por mês. Isso significa que, ao comparecermos a uma mercearia estatal, tínhamos de apresentar o cartão de racionamento. Ele nos daria direito a essa cota de farinha e açúcar — mas, obviamente, apenas se tais raridades estivessem disponíveis e se tivéssemos a sorte de estar no lugar certo e na hora certa quando elas estivessem sendo distribuídos.

O único canal de televisão era, obviamente, estatal. Sua programação era a mesma: ou elogiava o governo ou apresentava programas sobre a criminalidade e a pobreza no mundo ocidental. A nós era dito que as pessoas ao redor do mundo eram pobres e estavam sofrendo por causa do capitalismo, e que por isso precisávamos do socialismo para resolver as desigualdades da humanidade.

O capitalismo e a propriedade privada

Tendo vivenciado a escassez e o racionamento criados por uma economia controlada pelo governo em meu país natal, passei a compreender e apreciar ainda mais o capitalismo, o único sistema que se mostrou capaz de elevar, e de maneira substantiva, a civilização humana, retirando-a de miséria e elevando-a à pujança.

Eis uma definição de capitalismo: sistema social baseado na propriedade privada dos meios de produção. É caracterizado pela poupança e pela acumulação de capital, pelas trocas voluntárias intermediadas pelo dinheiro, pela busca do lucro, pela livre concorrência, pelo sistema de preços, e por uma harmonia da busca pelo interesse próprio material de todos os indivíduos que dele participam.

Ou seja, trata-se de um sistema econômico no qual as pessoas e empresas incorrem na produção de bens e serviços, fazem transações voluntárias e comercializam produtos e serviços sem interferência governamental. Um sistema de capitalismo de livre mercado funciona da maneira mais eficiente quando não adulterado por intervenções do governo, do banco central ou de bancos estatais nos mercados de crédito, na política monetária e na manipulação das taxas de juros.

Propriedade privada e direitos de propriedade estão no cerne do capitalismo. Em minha escola romena, aprendi que a propriedade privada não só torna as pessoas gananciosas, como ainda é algo nefasto para a sociedade. A propriedade privada era associada ao capitalismo, o sistema que nossos livros escolares anunciavam que havia fracassado.

Alocação de recursos

A Romênia era rica em recursos naturais. No entanto, a diferença entre nosso padrão de vida e o do Ocidente era dramática. Isso, por si só, era um indicativo de quão fracassado era o sistema econômico ao qual os países do Leste Europeu aderiram durante a era soviética.

Ainda assim, a pergunta permanece: por que havia tanta pobreza, tanta escassez e tanto racionamento em um país abundante em recursos naturais?

A ciência econômica é o estudo da alocação de recursos escassos por meio do sistema de preços livres. Os preços livremente formados indicam quais recursos estão escassos, quais estão em abundância, e quais recursos devem ser primordialmente alocados para um determinado setor em vez de para outro setor (confira uma explicação detalhada e sucinta aqui). Em suma, trata-se do estudo da alocação de recursos escassos que possuem vários usos alternativos.

A eficiência, portanto, é uma preocupação primária quando objetivo é o progresso econômico.

Em um ambiente de planejamento centralizado, não há sistema de preços livremente formados. Os preços são estabelecidos por burocratas do governo. Sendo assim, é impossível saber quais recursos são escassos e quais são abundantes. Também não há a busca pelo lucro. Logo, é impossível saber em qual setor há uma maior demanda do consumidor, necessitando de mais investimentos para expandir a produção. São os vários burocratas do estado que têm a tarefa de planejar toda a economia e, consequentemente, de fazer toda a alocação de recursos escassos. (Confira aqui).

É absolutamente impossível burocratas saberem como alocar adequadamente os recursos escassos de todo um país, não importa quão espertos, sábios e sensatos eles sejam. Escassez e racionamentos são uma das consequências de uma má alocação de recursos escassos.

Já o livre mercado, por meio das múltiplas e espontâneas interações entre empreendedores e consumidores, é capaz de direcionar eficientemente a alocação de recursos escassos por meio deste incrível processo de oferta e demanda. É exatamente por meio do sistema de lucros e prejuízos (a busca pelo lucro e aversão ao prejuízo) que a eficiência econômica é estimulada, algo impossível de ocorrer sob o socialismo.

Devido à busca pelo lucro, o capitalismo estimula a inovação. A inovação leva ao progresso e a um aumento no padrão de vida. Mas o progresso e o ambiente que oferece aos seres humanos um alto padrão de vida não podem ser criados sem o capital que irá transformar recursos primários em bens de consumo que aumentam nosso padrão de vida. E o capital busca ambientes em que é bem tratado: ambiente de menor regulação, de menor intervenção estatal e de menor tributação. Em suma, o capital se move para onde há mais liberdade econômica.

Comunismo, socialismo, fascismo ou qualquer outro sistema controlado pelo governo não possui o incentivo da busca pelo lucro. As pessoas, que são os recursos humanos, não têm o estímulo de incorrer em atividades empreendedoras quando a recompensa é proibida (a menos que seja no mercado negro). Elas aceitam que o estado e seu aparato burocrático controlem sua vida e ditem seu destino. Não há capital, não há investimentos que produzem bens de consumo que elevam o padrão de vida.

Consequentemente, o padrão de vida se torna dramaticamente menor que na maioria dos países mais capitalistas, e a pobreza é acentuadamente maior. O país que adota um sistema coletivista se afunda em uma armadilha econômica e social da qual é difícil de sair. Somente o capitalismo pode salvar uma nação do fracasso de seu planejamento econômico centralizado.

O capitalismo nos ajuda a ser indivíduos melhores

De uma maneira pavorosamente similar ao velho estilo de vida soviético, uma típica família da Venezuela possui preocupações cotidianas que nós já temos como superadas. Elas acordam diariamente preocupadas se conseguirão encontrar algo para comer, onde conseguirão, e como pagarão por isso. Além de se preocuparem com como e onde conseguir comida, ainda têm de se preocupar se haverá itens básicos nas prateleiras dos supermercados (que já se encontram sob controle estatal), se encontrão papel higiênico, se conseguirão remédios básicos, se haverá sabonete, e se conseguirão manter seus filhos minimamente nutridos.

Nós, que temos a sorte de viver em um sistema de mercado relativamente livre, não temos esse tipo de preocupação. Vamos diariamente ao nosso trabalho, vemos televisão, gastamos horas de lazer com Netflix ou nas redes sociais, ficamos com nossas famílias, lemos livros, escolhemos o que e onde comer, podemos nos locomover de maneira extremamente barata via aplicativos de transporte, e ainda desfrutamos alguns hobbies. Em suma, temos a liberdade pessoal de praticar e usufruir uma variedade de eventos cotidianos por causa do capitalismo.

Mas há outro importante — e quase sempre ignorado — motivo para se desejar viver em uma sociedade capitalista: dado que não temos que nos preocupar com as necessidades básicas de amanhã (sabemos que sempre haverá comida e itens básicos à disposição, sem perigo de racionamento), temos mais tempo para ler, explorar e inovar. Consequentemente, somos livres para criar e implantar todos os tipos de idéias empreendedoriais, não importa quão malucas elas possam parecer à primeira vista.

Não fosse o capitalismo e a abundância que ele nos permite, nossa preocupação diária seria exclusivamente em como iríamos nos manter vivos amanhã, como encontraremos comida e como provermos nossas necessidades básicas. Apenas isso ocuparia nossas mentes. Tendo vivido na Romênia socialista, conheço bem essa sensação. Ou então pergunte a um venezuelano.

Assim, por nos fornecer diariamente acesso aos itens essenciais para nossa sobrevivência, o capitalismo nos permite estar sempre em busca de desafios, ter objetivos e metas, e nos esforçarmos para conseguir alcançá-los. Ele nos dá a liberdade de tentar coisas novas e de explorar novas oportunidades. Ele nos dá a chance de criar mais oportunidades. Ele nos ajuda a fortalecer nosso caráter, pois, quando tentamos, também fracassamos, e sem fracassos, como podemos saber que cometemos erros? Sem fracassos, como podemos saber que precisamos mudar?

A liberdade individual só pode existir em um mercado livre

Antes de imigrar para os EUA, tive de passar por um rigoroso processo. Um dos eventos memoráveis foi minha entrevista com o orientador americano que, entre várias outras perguntas, queria saber por que fugi da Romênia e por que quis vir para os EUA.

Minha resposta curta foi: 'liberdade'. E então ele fez uma pergunta interessante: "Se os EUA passarem por um período de devastação econômica, com escassez e racionamentos similares aos da Romênia, você ainda se sentiria da mesma maneira?". Não pensei muito sobre isso, e apenas respondi: "Sim, é claro, desde que eu tenha liberdade".

Hoje, olhando em retrospecto, vejo que esta foi uma resposta tola e insensata. A liberdade individual — esta condição humana básica e essencial — só pode existir em um arranjo econômico de livre mercado. Se uma economia entra em colapso, se escassez e racionamentos se tornam a rotina, não há nenhuma possibilidade de liberdade individual.

Escassez e racionamentos são criados pela intervenção do estado neste intrincado e complexo arranjo que é o mercado (a livre interação entre consumidores e empreendedores), seja por meio de controle de preços ou de uma insensata alocação de recursos.

E quando a escassez é intensa e prolongada o bastante para afetar de modo dramático a vida das pessoas, elas tendem a se revoltar. E revoltas populares geram sérias contra-reações do governo, dentre as quais (mas sem se limitar a isso) a abolição total dos direitos individuais (o direito à liberdade de expressão e de ter armas), a implantação de um estado policial e, acima de tudo, a criação de um poderoso aparato de propaganda estatal.

Sobre este último, o grande Theodore Dalrymple certa vez disse o seguinte:

Em meus estudos sobre as sociedades comunistas, cheguei à conclusão de que o propósito das propagandas feitas pelo regime não era persuadir ou convencer os cidadãos, nem tampouco informar; o propósito era humilhar. Consequentemente, quanto menos a propaganda correspondesse à realidade, melhor.

Quando as pessoas são obrigadas a permanecer em silêncio ao mesmo tempo em que lhe contam as mais óbvias mentiras; ou, pior ainda, quando elas são forçadas a repetir elas próprias essas mentiras, perdem todo o senso de honestidade.

Consentir com mentiras óbvias faz com que você, de certa forma, se torne também uma pessoa perversa. Qualquer resistência é erodida, e acaba sendo totalmente destruída.  Uma sociedade formada por mentirosos emasculados é fácil de ser controlada.

Por isso, é impossível haver liberdade em um ambiente cujo estado é poderoso e cuja economia é por ele controlada. A consequência lógica deste arranjo sobre a população é a contínua abolição das liberdades mais básicas do indivíduo.

O capitalismo de livre mercado é o único caminho para os direitos individuais e a liberdade, ambos os quais representam os sólidos fundamentos de uma sociedade livre. Já socialismo e liberdade são conceitos completamente antagônicos.

 
https://www.mises.org.br/Article.aspx?id=2860





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Re:Socialismo e "socialismos"
« Resposta #46 Online: 25 de Março de 2018, 17:20:29 »
PSOL 50  Socialismo e liberdade



1) Socialismo com democracia, como princípio estratégico na superação da ordem capitalista.


O sistema capitalista imperialista mundial está conduzindo a humanidade a uma crise global. A destruição da natureza, as guerras, a especulação financeira, o aumento da superexploração do trabalho e da miséria são suas conseqüências. Sob o atual sistema, o avanço da ciência e da técnica só conduz a uma mais acelerada concentração de riquezas. A agressiva busca do controle estratégico dos recursos energéticos do planeta está levando à própria devastação destes recursos. A lógica egoísta e destrutiva da produção, condicionada exclusivamente ao lucro, ameaça a existência de qualquer forma de vida.


Assim, a defesa do socialismo com liberdade e democracia deve ser encarada como uma perspectiva estratégica e de princípios. Não podemos prever as condições e circunstâncias que efetivarão uma ruptura sistêmica. Mas como militantes conscientes que querem resgatar a esperança de dias melhores, sustentamos que uma sociedade radicalmente diferente, somente pode ser construída no estímulo à mobilização e auto-organização independente dos trabalhadores e de todos os movimentos sociais.


O essencial é ter como permanente a idéia de que não se pode propor essa outra sociedade construída sem o controle dos próprios atores e sujeitos da auto-emancipação. Não há partido ou programa, por mais bem intencionado que seja, que os substituam. Uma alternativa global para o país deve ser construída via um intenso processo de acumulação de forças e somente pode ser conquistada com um enfrentamento revolucionário contra a ordem capitalista estabelecida. Nesta perspectiva é fundamental impulsionar, especialmente durante os processos de luta, o desenvolvimento de organismos de auto-organização da classe trabalhadora, verdadeiros organismos de contra-poder.


O desafio posto, portanto, é de refundar a idéia e a estratégia do socialismo no imaginário de milhões de homens e mulheres, reconstruindo a idéia elementar – mas desconstruída pelas experiências totalitárias dos regimes stalinistas e as capitulações à ordem no estilo da 3ª via social-democrata – de que o socialismo é indissociável da democracia e da liberdade, da mais ampla liberdade de expressão e organização, da rejeição aos modelos de partido único. Enfim, de que um projeto de emancipação social dos explorados e oprimidos nas condições atuais é um verdadeiro projeto de emancipação da civilização humana, de defesa da vida diante das forças brutais de destruição acumuladas pelo capitalismo imperialista.


A defesa do socialismo, finalmente, não é apenas a defesa das reivindicações dos trabalhadores melhor organizados, mas a conseqüente busca de incorporação das reivindicações e lutas de todos os setores oprimidos. A luta pelo socialismo é também a luta contra todas as opressões, injustiças e barbáries cotidianas.


http://www.psol50.org.br/partido/programa/



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Re:Socialismo e "socialismos"
« Resposta #47 Online: 25 de Março de 2018, 17:25:13 »


Não, PSOL: não existe esse negócio de socialismo e liberdade.




É com uma bandeira amarela e um simpático solzinho vermelho que uma multidão de homens e mulheres prometem solucionar de vez todos os problemas econômicos enfrentados pelo país. Segurando cartazes e entoando cânticos de batalha, eles tomam as redes e as ruas ecoando a combinação de duas palavrinhas que funcionam quase como uma combinação sagrada: socialismo e liberdade. Esse é o arranjo que carrega o partido mais identificado com o progressismo em solo tupiniquim, o PSOL. Essa é a associação que conduz seu séquito de seguidores.


Mas quanto dessa combinação é possível? Se você não caiu de paraquedas nesse parágrafo, já deve ter sacado essa resposta no título que abre esse texto. Nada. Socialismo e liberdade é dessas misturas esquizofrênicas presentes apenas nos discursos políticos sem sentido.


E para entender como isso se justifica é preciso desembarcar num cenário distante dos slogans partidários. Mais precisamente num lugar chamado mundo real.


Há mais de 10 bilhões de produtos diferentes que podem ser comprados em Nova York ou Londres nesse exato momento. Em São Paulo, em Belo Horizonte ou no Rio, não é muito diferente. Em resumo, isso é tudo que você precisa saber sobre o funcionamento de uma economia complexa como a nossa: ela envolve bilhões de transações todos os dias, de forma completamente autônoma e descentralizada. E isso é simples de se confirmar. Repare ao seu redor. A vasta maioria das transações que você faz no seu dia a dia não possui qualquer envolvimento direto com o governo. De fato, cada decisão na nossa vida envolve algum tipo de troca, um trade-off. É um jogo. E nós movemos as peças.


E aqui, há uma regra importante, que de certa forma traduz nossa natureza. Em bom economês, indivíduos buscam maximizar sua própria utilidade. Na prática, se ficou complicado entender, pense num conceito parecido com o bem estar, só que um pouco mais complexo. Eu, você, seu vizinho: todos nós agimos para melhorar ao máximo nossas vidas. Os consumidores buscam ficar bem de vida, as empresas buscam maximizar os lucros. E essas transações todas facilitam esse processo. Elas permitem que esse seja um jogo de ganha-ganha (sim, ganha-ganha: não é um coincidência que desde 1800 a nossa renda média tenha aumentado mais de 9 vezes).



Em regra, essas transações ocorrem num lugar chamado mercado. Mercados são organizações extremamente sofisticadas. Pra começo de conversa, eles não funcionam de forma racional sem a autonomia de decisão das pessoas. A participação nessas trocas necessariamente é livre e voluntária – seja comprar, vender, investir, alugar, tanto faz. Nos mercados, não há uma organização central. Ninguém é encarregado de tomar as decisões – ou melhor, todos nós somos.


O mercado, diferentemente das economias planificadas, gira em torno de um negócio chamado preço. Tudo é questão de preço. Pense, por exemplo, num supermercado. Quando os clientes começam a pedir muitos pacotes de macarrão, o dono do estabelecimento inadvertidamente realizará uma encomenda maior com seu fornecedor de macarrão. Se há, porém, uma fome insaciável por massas em toda cidade, um ataque zumbi por comida italiana, o preço das massas no atacado subirá. Pense num cenário em que há problemas com a colheita de trigo e não haverá jeito: na gôndola do supermercado mais próximo de você, aquela sua marca favorita de macarrão estará inevitavelmente mais cara.



O preço funciona como uma espécie de google, um grande oráculo de informação – e informação é tudo que você precisa ter numa economia complexa. É disso que se trata todo esse negócio de oferta e demanda. Se no supermercado mais próximo houver mais pessoas interessadas em comer macarrão do que pacotes de macarrão disponíveis, então o preço dos pacotes de macarrão subirá. Essa é a maneira mais racional de lidar com a escassez. E escassez é a base da economia.


No mercado, há uma dispersão de decisões e conhecimento. Essa é a grande sacada aqui. É exatamente por esse motivo que economias planificadas tendem a falhar em relação a economias abertas. O monopólio das decisões econômicas restringe substancialmente o número de apostas a serem exploradas a cada momento. Planificadores econômicos são incapazes de mobilizar todo conhecimento necessário para tomarem as bilhões de decisões que acontecem todos os dias em nome de cada um de nós. Sem a eficiência de um sistema de preços e a possibilidade das decisões e do conhecimento estarem dispersos pela sociedade, o resultado final será previsível: escassez de produtos básicos, filas, baixa produtividade e miséria. E você não precisa conhecer absolutamente nada de economia para entender isso, basta ter acesso a um livro de história. Se há uma única lição a tirar de todo século vinte é a de que o socialismo não funciona.



E aqui, um ponto importante: economias planificadas só são possíveis através de uma autoridade central. Imagine-se à frente de um regime socialista. Sua tarefa é planificar a economia. Mobilizado pelos sentimentos mais altruístas possíveis, você busca acabar com a pobreza, diminuir os interesses do capital financeiro, construir um paraíso terreno. E como é que faz isso tudo? Essa é uma tarefa inacreditavelmente difícil (e eu estou sendo bonzinho com o difícil, na verdade ela é impossível). Calcular a alocação dos recursos de uma economia complexa é uma tarefa imensa. A rota de destruição é um caminho inevitável.


Não bastasse toda essa complexidade, o socialismo não é muito bom em lidar com incentivos. E aqui, vou me ater a um exemplo do outro lado do mundo.



No final da década de 70, os agricultores da aldeia chinesa de Xiaogang estavam desesperados. As 18 famílias que trabalhavam numa comuna coletiva não estavam conseguindo arroz suficiente para elas próprias sobreviverem. Os agricultores tomaram uma drástica decisão: encontraram-se secretamente e dividiram a terra entre si, num contrato em 3 partes. A medida poderia levá-los à prisão. Por isso, acordaram que ninguém jamais saberia daquela história, que continuariam entregando suas metas de colheita ao Partido Comunista e que, se qualquer um deles fosse preso, os outros criariam seus filhos.


Em pouco tempo, houve um verdadeiro milagre. Os agricultores de Xiaogang tornaram-se mais produtivos. Em um ano, a extensão de terra plantada praticamente dobrou e a aldeia passou a gerar excedente de arroz. A produção de grãos aumentou para 90 mil quilos em 1979, mais de seis vezes do que no ano anterior. A renda per capita de Xiaogang acompanhou o passo e subiu dos 22 yuan para os 400 yuan. Produzir para si mesmo e suas famílias era o combustível necessário.


Como uma gripe contra a planificação, as informações de sucesso logo se espalharam. Algumas lideranças locais acusaram os moradores de Xiaogang de “desenterrar a pedra fundamental do socialismo”. Mas os agricultores chineses conheciam as deficiências da planificação econômica melhor do que qualquer sociólogo engajado. Como numa flecha, a agricultura individual rapidamente se espalhou pela região. Era inevitável. O mercado negro atuava como uma metástase nas comunas coletivas chinesas.


Representantes do governo visitaram a aldeia e, logo, a abençoaram. Em uma conferência do Partido Comunista em 1982, Deng Xiaoping, já substituído Mao Tsé-Tung, endossou as reformas. Apenas seis anos depois do acordo secreto dos agricultores de Xiaogang, já não havia mais comunas na China. E o país, com a abertura econômica, viu o maior salto de renda da história da humanidade.


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O que isso tudo significa? Duas coisas. A primeira que incentivos importam. Quanto mais livre você é para cuidar da sua vida e da sua família, mais produtivo você será. A segunda que surtos como o de Xiaogang são inevitáveis em economias planificadas. Assim como é inevitável o estabelecimento da repressão. Foi exatamente isso que aconteceu na União Soviética de Lênin e Stálin, na Romênia de Ceausescu, na China de Mao Tsé-Tung, no Camboja de Pol Pot, na Albânia de Enver Hoxha, no paraíso cubano de Fidel, na Birmânia de Ne Win, no Vietnã de Ho Chi Minh, na Coreia do Norte de Kim Il-Sung, na Iugoslávia de Tito e na Venezuela de Chávez e Maduro, este último apoiado no Brasil pelo PSOL. Nada disso é uma coincidência, um acaso, uma má sorte. O socialismo privilegia o uso da força em detrimento da razão.


É por isso que essa ideia de associá-lo à liberdade beira o absurdo. A centralização política e econômica de um grupo privilegiado de planificadores é a noção oposta do que seja a liberdade humana. Por mais nobres que sejam as motivações de seus líderes, o socialismo não é apenas a total abolição da racionalidade econômica, mas da soberania do indivíduo. O que partidos políticos como o PSOL almejam, no fim, é o total controle – e não a libertação – de um povo, ainda que apoderem-se de falar em nome dele. Graças a isso, a aplicação dessa ideia é possível apenas num único lugar: nos delírios megalômanos de quem acredita deter o poder sobre todas as questões da humanidade. E só.



https://spotniks.com/nao-psol-nao-existe-esse-negocio-de-socialismo-e-liberdade/




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Re:Socialismo e "socialismos"
« Resposta #48 Online: 12 de Abril de 2018, 09:11:59 »

Por que os intelectuais odeiam o capitalismo?


Ressentimento, arrogância e ignorância


N. do T.: o artigo a seguir foi adaptado de um discurso improvisado feito pelo autor, daí o seu tom mais coloquial.
 

Por que os intelectuais sistematicamente odeiam o capitalismo? Foi essa pergunta que Bertrand de Jouvenel (1903-1987) fez a si próprio em seu artigo Os intelectuais europeus e o capitalismo.


Esta postura, na realidade, sempre foi uma constante ao longo da história. Desde a Grécia antiga, os intelectuais mais distintos — começando por Sócrates, passando por Platão e incluindo o próprio Aristóteles — viam com receio e desconfiança tudo o que envolvia atividades mercantis, empresariais, artesanais ou comerciais.


E, atualmente, não tenham nenhuma dúvida: desde atores e atrizes de cinema e televisão extremamente bem remunerados até intelectuais e escritores de renome mundial, que colocam seu labor criativo em obras literárias — todos são completamente contrários à economia de mercado e ao capitalismo. Eles são contra o processo espontâneo e de interações voluntárias que ocorre de mercado. Eles querem controlar o resultado destas interações. Eles são socialistas. Eles são de esquerda. Por que é assim?


Vocês, futuros empreendedores, têm de entender isso e já irem se acostumando. Amanhã, quando estiverem no mercado, gerenciando suas próprias empresas, vocês sentirão uma incompreensão diária e contínua, um genuíno desprezo dirigido a vocês por toda a chamada intelligentsia, a elite intelectual, aquele grupo de intelectuais que formam uma vanguarda. Todos estarão contra vocês.


"Por que razão eles agem assim?", perguntou-se Bertrand de Jouvenel, que em seguida pôs-se a escrever um artigo explicando as razões pelas quais os intelectuais — no geral e salvo poucas e honrosas exceções — são sempre contrários ao processo de cooperação social que ocorre no mercado.


Eis as três razões básicas fornecidas por de Jouvenel.


Primeira, o desconhecimento. Mais especificamente, o desconhecimento teórico de como funcionam os processos de mercado.


Como bem explicou Hayek, a ordem social empreendedorial é a mais complexa que existe no universo. Qualquer pessoa que queira entender minimamente como funciona o processo de mercado deve se dedicar a várias horas de leituras diárias, e mesmo assim, do ponto de vista analítico, conseguirá entender apenas uma ínfima parte das leis que realmente governam os processos de interação espontânea que ocorrem no mercado. 


Este trabalho deliberado de análise para se compreender como funciona o processo espontâneo de mercado — o qual só a teoria econômica pode proporcionar — desgraçadamente está completamente ausente da rotina da maior parte dos intelectuais.


Intelectuais normalmente são egocêntricos e tendem a se dar muita importância; eles genuinamente creem que são estudiosos profundos dos assuntos sociais. Porém, a maioria é profundamente ignorante em relação a tudo o que diz respeito à ciência econômica.


A segunda razão, a soberba. Mais especificamente, a soberba do falso racionalista.


O intelectual genuinamente acredita que é mais culto e que sabe muito mais do que o resto de seus concidadãos, seja porque fez vários cursos universitários ou porque se vê como uma pessoa refinada que leu muitos livros ou porque participa de muitas conferências ou porque já recebeu alguns prêmios. Em suma, ele se crê uma pessoa mais inteligente e muito mais preparada do que o restante da humanidade. Por agirem assim, tendem a cair no pecado fatal da arrogância ou da soberba com muita facilidade.


Chegam, inclusive, ao ponto de pensar que sabem mais do que nós mesmos sobre o que devemos fazer e como devemos agir. Creem genuinamente que estão legitimados a decidir o que temos de fazer. Riem dos cidadãos de ideias mais simplórias e mais práticas. É uma ofensa à sua fina sensibilidade assistir à televisão. Abominam anúncios comerciais. De alguma forma se escandalizam com a falta de cultura (na concepção deles) de toda a população. E, de seus pedestais, se colocam a pontificar e a criticar tudo o que fazemos porque se creem moral e intelectualmente acima de tudo e todos.


E, no entanto, como dito, eles sabem muito pouco sobre o mundo real. E isso é um perigo. Por trás de cada intelectual há um ditador em potencial. Qualquer descuido da sociedade e tais pessoas cairão na tentação de se arrogarem a si próprias plenos poderes políticos para impor a toda a população seus peculiares pontos de vista, os quais eles, os intelectuais, consideram ser os melhores, os mais refinados e os mais cultos.


É justamente por causa desta ignorância, desta arrogância fatal de pensar que sabem mais do que nós todos, que são mais cultos e refinados, que não devemos estranhar o fato de que, por trás de cada grande ditador da história, por trás de cada Hitler e Stalin, sempre houve um corte de intelectuais aduladores que se apressaram e se esforçaram para lhes conferir base e legitimidade do ponto de vista ideológico, cultural e filosófico.


E a terceira e extremamente importante razão, o ressentimento e a inveja. O intelectual é geralmente uma pessoa profundamente ressentida. O intelectual se encontra em uma situação de mercado muito incômoda: na maior parte das circunstâncias, ele percebe que o valor de mercado que ele gera ao processo produtivo da economia é bastante pequeno.


Apenas pense nisso: você estudou durante vários anos, passou vários maus bocados, teve de fazer o grande sacrifício de emigrar para Paris, passou boa parte da sua vida pintando quadros aos quais poucas pessoas dão valor e ainda menos pessoas se dispõem a comprá-los. Você se torna um ressentido. Há algo de muito podre na sociedade capitalista quando as pessoas não valorizam como deve os seus esforços, os seus belos quadros, os seus profundos poemas, os seus refinados artigos e seus geniais romances.


Mesmo aqueles intelectuais que conseguem obter sucesso e prestígio no mercado capitalista nunca estão satisfeitos com o que lhes pagam. O raciocínio é sempre o mesmo: "Levando em conta tudo o que faço como intelectual, sobretudo levando em conta toda a miséria moral que me rodeia, meu trabalho e meu esforço não são devidamente reconhecidos e remunerados. Não posso aceitar, como intelectual de prestígio que sou, que um ignorante, um parvo, um inculto empresário ganhe 10 ou 100 vezes mais do que eu simplesmente por estar vendendo qualquer coisa absurda, como carne bovina, sapatos ou barbeadores em um mercado voltado para satisfazer os desejos artificiais das massas incultas."


"Essa é uma sociedade injusta", prossegue o intelectual. "A nós intelectuais não é pago o que valemos, ao passo que qualquer ignóbil que se dedica a produzir algo demandado pelas massas incultas ganha 100 ou 200 vezes mais do que eu". Ressentimento e inveja.


Segundo Bertrand de Jouvenel,


O mundo dos negócios é, para o intelectual, um mundo de valores falsos, de motivações vis, de recompensas injustas e mal direcionadas . . . para ele, o prejuízo é resultado natural da dedicação a algo superior, algo que deve ser feito, ao passo que o lucro representa apenas uma submissão às opiniões das massas.


[...]


Enquanto o homem de negócios tem de dizer que "O cliente sempre tem razão", nenhum intelectual aceita este modo de pensar.


E prossegue de Jouvenel:


Dentre todos os bens que são vendidos em busca do lucro, quantos podemos definir resolutamente como sendo prejudiciais?  Por acaso não são muito mais numerosas as ideias prejudiciais que nós, intelectuais, defendemos e avançamos?


Conclusão


Somos humanos, meus caros. Se ao ressentimento e à inveja acrescentamos a soberba e a ignorância, não há por que estranhar que a corte de homens e mulheres do cinema, da televisão, da literatura e das universidades — considerando as possíveis exceções — sempre atue de maneira cega, obtusa e tendenciosa em relação ao processo empreendedorial de mercado, que seja profundamente anticapitalista e sempre se apresente como porta-voz do socialismo, do controle do modo de vida da população e da redistribuição de renda.



https://www.mises.org.br/Article.aspx?id=1487





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Re:Socialismo e "socialismos"
« Resposta #49 Online: 15 de Maio de 2018, 09:51:05 »
Manuela D`Ávila contraria o próprio partido e faz coro com a imprensa burguesa ao atacar a Coréia socialista


A morte do dirigente socialista coreano, Kim Jong-Il, foi recebida com muitos pesares pelas forças revolucionárias e progressistas em todo o mundo, inclusive no Brasil. O Partido Comunista Marxista-Leninista (PCML-Brasil) e o Partido Comunista do Brasil (PCdoB), lançaram notas de solidariedade ao povo coreano pela morte de seu principal dirigente, desencadeando uma onda de ataques da burguesia, que através da mídia, lançam acusações de todo o tipo, buscando desacreditar tanto os socialistas brasileiros quanto os coreanos. Entre os comunistas que sofreram ataques diretos está a Deputada Federal e pré-candidata à prefeitura de Porto Alegre, Manuela D`Ávila, que, ao invés de assumir o seu compromisso com o socialismo e com o partido no qual milita (PCdoB), tomou uma posição covarde e lançou uma nota que, além de descredibilizar o próprio partido, faz coro com a mídia burguesa pró-imperialista e suas mentiras sobre a suposta "ditadura comunista hereditária norte-coreana". A nota foi divulgada em seu perfil no Twitter e republicada em seu site. Eis a mesma na íntegra:


1) Partidos também são espaços em que militantes divergem. Me parece absolutamente natural.

2) Eu não concordo com a integralidade da nota de meu partido sobre a Coréia.

3) Respeito a auto-determinação dos povos e suas culturas. Mas não tolero hereditariedade no poder e defendo a irrestrita liberdade dos povos

3) Há dois dias (19) me manifestei sobre isso aqui no twitter.

4) Espero, sinceramente, o mesmo tratamento a todos os políticos de Porto Alegre e a seus partidos. Acompanharei atenta.


Dep. Manuela D`Ávila


Retirado do site oficial

O conteúdo da nota

"1) Partidos também são espaços em que militantes divergem. Me parece absolutamente natural.
2) Eu não concordo com a integralidade da nota de meu partido sobre a Coréia."


A deputada tem todo o direito de pensar diferente do seu próprio partido, no entanto, o lugar de apresentar essas divergências não é em público. Já diz aquele velho ditado que "roupa suja a gente lava em casa". O próprio estatuto do partido deixa isso bem claro ao falar dos direitos de seus militantes (Artigo 6º, parágrafo 1º):


"a) participar, expressando livremente as suas opiniões, da elaboração da linha política do Partido e das discussões acerca das questões políticas, teóricas e práticas nas instâncias partidárias de que fizer parte; manter suas opiniões, se divergentes, sem deixar de aplicar, defender e difundir as decisões do Partido."


"3) Respeito a auto-determinação dos povos e suas culturas. Mas não tolero hereditariedade no poder e defendo a irrestrita liberdade dos povos"


Ao dizer para os quatro cantos do mundo que é socialista e ter crescido na política (até o ponto de ser deputada) dentro de um partido comunista, não faz mais do que a obrigação ao respeitar a auto-determinação dos povos. O contraditório é conhecer estes povos através das imagens distorcidas criadas pelos seus inimigos imperialistas e reproduzidas pelos lacaios nacionais (Globo, Folha de SP, etc.), compartilhando em público o mesmo discurso liberal dos nossos inimigos de classe.


A lei coreana não prevê nenhum tipo de hereditariedade no poder estatal do país. Kim Jong-Un, assume o posto máximo da nação coreana do mesmo jeito que seu pai (Kim Jong-Il) assumiu depois da morte de Kim Il Sung (pai de Kim Jong-Il), por meio de manobras políticas perfeitamente aceitáveis no jogo democrático.


Além disso, todos os representantes do poder na Coréia socialista são eleitos de forma direta ou indireta. Basicamente o povo elege os parlamentares, membros da Assembléia Popular Suprema, e essa Assembléia elege e supervisiona os principais cargos políticos da nação, entre eles o chefe do Comitê de Defesa Nacional (cargo antes ocupado por Kim Jong-Il), que junto do premier e do próprio presidente da APS, constituem o triunvirato do poder na Coréia socialista.


Dentro até mesmo dos moldes liberais, não há nada que indique qualquer tipo de ausência de liberdade popular por causa da forma de escolha dos dirigentes do país.


 :histeria:


Boa parte das nações européias, apontadas pela mídia como exemplos de democracia, escolhem seus dirigentes máximos de forma indireta, através de eleições dos orgãos legislativos. Kim Jong-Il e agora Kim Jong-Un, são apenas integrantes (escolhidos pelo povo) da imensa estrutura de poder e ganham toda essa importância por causa da política Songun e do constante estado de guerra imposto pelos países imperialistas à nação socialista. A grande diferença entre as monarquias parlamentares ocidentais (nessas sim, a hereditariedade tem força de acordo com a lei) e o Estado socialista coreano é que no último a democracia é verdadeira, vai além das formalidade e é garantida através das bases populares de trabalhadores e camponeses, alicerces do poder popular.


"3) Há dois dias (19) me manifestei sobre isso aqui no twitter." (na verdade 4)


Como membro do comite central do PCdoB deveria ter se manifestado junto ao partido e não numa rede social. Como comunista, deveria ter estudado a questão antes de reproduzir as mentiras da mídia burguesa. Como representande eleita pelo povo brasileiro, deveria estar preocupada com a solidariedade aos povos vítimas do imperialismo e não com as críticas da imprensa burguesa sobre a sua pessoa.


Perdeu uma boa oportunidade de não digitar nada...


"4) Espero, sinceramente, o mesmo tratamento a todos os políticos de Porto Alegre e a seus partidos. Acompanharei atenta." (na verdade 5)


Bom, essa é a parte mais preocupante, na qual a máscara cai. Nessas poucas linhas não há qualquer tipo de sentimento de solidariedade à liberdade dos povos, mas sim uma justificativa diante dos ataques da imprensa. Uma clara concessão de princípios para garantir um cargo político em 2012. Essa mesma atenção dada aos ataques da imprensa à imagem da deputada poderia ser deslocada para o estudo do marxismo-leninismo e dos países socialistas.


A responsabilidade dos partidos diante dos seus militantes

Sobre essa questão deveriam refletir os membros do PCdoB e os comunistas brasileiros de diversas organizações. Sempre haverá problemas referentes à disciplina revolucionária, por mais forte e ideológica que seja a organização (nem a Revolução de Outubro foi consensual entre os comunistas russos), mas esse não foi um caso isolado, é reflexo de uma situação maior que precisa ser discutida de maneira sincera enquanto há tempo para corrigir os erros. Não é a primeira vez que um membro do PCdoB vai contra a história do partido. O próprio Aldo Rebelo, hoje ministro dos esportes, foi contra a criação da Comissão da Verdade, responsável por investigar os crimes cometidos durante a Ditadura Militar. O PC do Chile também foi vítima de "quinta-colunismo" por parte de uma figura pública (clique aqui para mais informações), o que comprova que nesse momento de crise do sistema capitalista e avanço da esquerda na América Latina, muitos dos que estão ao nosso lado sucumbirão diante da pressão dos inimigos do povo, que será cada vez mais constante diante da "ameaça comunista".


Muitas organizações com passado revolucionário caíram diante do "canto da sereia do capital" justamente por abrir mão de seus princípios em pról de pequenos avanços pragmáticos, geralmente voltados para as eleições. Isso torna imperativa uma revisão interna por parte dos partidos comunistas que estão tendo problemas com suas figuras públicas. Como os quadros são formados? Qual o poder que os mesmos ganham ao se tornarem figuras públicas? Vale apena abrir mão da sua essência para adquirir pequenos avanços táticos? Muitas perguntas que precisam ser respondidas...


Não sou um membro do PCdoB e por mais discordâncias que eu possa ter, sou daqueles que preferem construir o seu ao falar mal dos outros, principalmente quando esse "falar mal" representa o aprofundamento da divisão entre os comunistas e o fortalecimento da mídia, que faz de tudo para satanizar qualquer luta popular, porém, a Deputada Manuela, enquanto figura comunista pública (assim como qualquer outro que chame para si a bandeira vermelha), não deve explicações apenas aos membros do seu partido, mas sim a todos os brasileiros que sempre foram solidários com a sua luta e aos comunistas de todo o mundo.


A declaração da Manuela, assim como da Camila (do PC do Chile) vieram em péssimos momentos, pois ambos os partidos têm sido alvos de constantes ataques em seus países. Esperávamos, sinceramente, outras posturas das "camaradas"...


Que a deputada tenha a honra de fazer uma autocrítica e reflita sobre algumas palavras escritas pelos pais do socialismo científico:


"Os comunistas não se rebaixam a dissimular suas opiniões e seus fins." (MARX, Karl e. ENGELS, Friederich. Manifesto Comunista. 1848)


Pela união dos comunistas do Brasil e do mundo, principalmente através dos princípios da revolução e da solidariedade entre os povos!


Aos socialistas a união, aos traídores a depuração!
Abaixo o "quinta-colunismo"!
Abaixo a mídia pró-imperialista!
Viva a Revolução Coreana!
Camarada Kim Jong-Il, presente!


Diego Grossi, colaborador do blog.



http://solidariedadecoreiapopular.blogspot.com.br/2011/12/manuela-davila-contraria-o-proprio.html


« Última modificação: 15 de Maio de 2018, 09:53:45 por JJ »

 

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