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Laicismo, Política e Economia / Re:Por que o nazismo foi um movimento de direita?
« Última Mensagem: por JJ Online Hoje às 08:29:16 »

Prisioneiros e países ocupados


Outra diferença entre os dois regimes está no uso que faziam do trabalho escravo, ou dos campos de concentração. A direita comumente usa analogias entre os campos nazistas e soviéticos para provar a similaridade entre eles. Havia homologias, é verdade, mas mesmo nesse ponto as diferenças também sobressaíam. No importante estudo que realizou sobre os campos de trabalho forçado na URSS, Anne Applebaum[24] ressaltou logo no início as diferenças que apresentavam com os campos nazistas: uma das mais importantes era que o Gulag (como era chamado o complexo de campos soviéticos) tinham uma função essencialmente econômica. Os “inimigos” que ali eram seviciados eram escolhidos de forma mais aleatória e vaga em relação aos inimigos do nazismo, judeus sobretudo. Esperava-se, na União Soviética, tornar esses trabalhadores “novos homens” reeducados pelo trabalho, por isso exigia-se que fossem produtivos. Apesar de milhões de pessoas terem morrido nesses campos, o Gulag não foi concebido como local de extermínio, ao contrário dos campos nazistas, onde os terríveis experimentos com câmaras de gás foram responsáveis pela morte de centenas de milhares de judeus.


Além disso, após a morte de Stalin, grande parte dos campos soviéticos foi fechada e milhões de prisioneiros libertos, algo impensável no nazismo, quando no fim da guerra a crueldade dispensada aos prisioneiros recrudesceu. É fato que a propagação de campos no século XX nos regimes totalitários evidenciou a aterradora capacidade desses Estados de produzir mortes em escala industrial, porém não houve nos campos da União Soviética nada semelhante ao Holocausto, nem eles foram organizados de forma proposital para produzir montanhas de cadáveres ou mesmo para serem instrumentos de terror como ocorreu com os campos Alemães. A semelhança nas placas de entrada dos campos, com frases sobre o trabalho nos dois países também não revelam a diferença na concepção de trabalho nos dois regimes, mesmo para os prisioneiros:


Os campos alemães foram criados com a intenção da violência contra inimigos da nação e o esforço de guerra. O trabalho era muitas vezes um caminho deliberado para a destruição. O trabalho no Gulag podia ser destrutivo, mas o objetivo era manter os prisioneiros bem vivos e bem o suficiente para continuarem trabalhando em todos, menos nos mais sinistros campos de punição[25].


Outras distinções também se manifestaram no final da guerra e após. Hitler perdeu o apoio dos países que ocupou porque no transcorrer do conflito ficou claro que o objetivo da Alemanha não era criar uma Europa unida com autonomia entre seus países membros, mas escravizar suas populações e extinguir os grupos étnicos considerados nocivos à pureza racial ariana. Ele poderia ter conseguido apoio até mesmo entre povos que formavam a União Soviética não fosse sua crença de que “os eslavos eram uma raça de escravos subumanos[26]“. No pós-guerra, a ocupação soviética em Berlim oriental e no leste europeu apresentou características bem distintas. Apesar do centralismo administrativo de Moscou, muitos países do leste não foram anexados à URSS e sua classe governante “foi menos elitista que qualquer outro governo da Europa oriental até então[27]“.


Além disso, na década de 1950, com a iniciativa de Kruschev de denunciar os crimes de Stalin, os campos de trabalho escravo foram fechados e seus prisioneiros libertos. O domínio soviético no leste europeu também pôs fim a décadas de instabilidade e crises econômicas. Com a derrota do nazismo em 1945, a política do nacionalismo racial foi substituída por um projeto de modernização econômica abrangente e inclusiva, com expansão da industrialização, universalização do sistema médico e consequente redução da mortalidade infantil a patamares ainda não alcançados na região.


Diferentemente dos alemães, que ocuparam a Europa oriental em função de seus interesses, a União Soviética cooptou e controlou as elites locais, dissipando as tendências nacionalistas e pondo em prática um programa de urbanização e industrialização que provocou profundas mudanças sociais e projetou economicamente a região sobre o restante do continente por algum tempo. Essas melhorias, contudo, culminaram em uma estagnação econômica a partir dos anos 1970 em decorrência da baixa produção de bens de consumo e da insatisfação popular com a ditadura e o centralismo administrativo de Moscou, elementos que depois se somaram à busca por independência nacional quando o sistema como um todo começou a desmoronar. Mas o importante a ressaltar é que as diferenças de objetivos e de governabilidade entre o sistema soviético e o alemão superam muito as semelhanças que tinham.


A cooperação entre Alemanha e União Soviética


Por fim, outro ponto a ser esclarecido diz respeito à colaboração entre eles com a assinatura do pacto de não agressão em 1939. Na verdade, o primeiro acordo militar da Rússia soviética com a Alemanha foi feito mais de dez anos antes de Hitler subir ao poder, quando o país era uma república democrática. Derrotada na Primeira Guerra, a Alemanha saiu do conflito com seu poderio militar extremamente enfraquecido e ficou mais vulnerável ainda com as proibições impostas pelo Tratado de Versalhes. O Tratado estabeleceu o fechamento das academias militares alemãs, assim como quartéis, campos de aviação e depósitos, a redução do exército a uma força policial de cem mil homens, a extinção da força aérea, a quase extinção da Marinha, que teve sua frota reduzida a apenas seis navios pequenos e trinta embarcações, o uso apenas de armas de defesa leves e veículos pequenos e impôs ao país a fiscalização de inspetores de armas de países aliados vencedores da Primeira Guerra. O que restou ao  governo alemão foi tentar reconstruir seu poder militar com o apoio dos russos. Em 1922, os dois países assinaram o tratado de Rapallo e a partir de então passaram a ter intensa cooperação tecnológica e militar. Dez anos depois, segundo Gerd Koenen, quase a metade das importações soviéticas em matérias de tecnologia era procedente da Alemanha. Quando em 1933 Hitler tornou-se chanceler na Alemanha isso não abalou as relações entre os dois países nem foi um evento visto com maus olhos na União Soviética. Paradoxalmente, a cúpula dirigente de Moscou desconfiava mais da social-democracia (que eles chamavam de social-fascismo) do que com o nacional-socialismo porque


A social-democracia alemã representava, de maneira particular, uma política de orientação ocidental; encarava a União Soviética com extremo ceticismo e estava disposta a defender a república contra quaisquer tentativas de golpe, fossem de direita ou de esquerda. […] De resto, a imprensa do KPD [Partido Comunista da Alemanha] titulava todos os partidos de “fascistas”. Além de social-fascistas havia também clerical-fascistas (o Centro), nacional-fascistas (os nacionalistas alemães) – e finalmente os fascistas nazistas ou de Hitler[28].


A ascensão de Hitler encerrou a cooperação militar entre Alemanha e URSS de forma amistosa. Foi uma cooperação que durou pouco mais de dez anos, no decorrer dos quais os exércitos alemães tinham permissão de fazer treinamentos em território soviético, longe dos inspetores dos países aliados, além de poder “estabelecer centros experimentais de pesquisas de tanques, armas químicas e de aviação na União Soviética[29]“, e ainda testar armas no próprio território soviético e a URSS importou tecnologia,  aprendeu a desenvolver um sistema bélico moderno e seus oficiais fizeram cursos na Alemanha. A cooperação transformou os dois países nas primeiras superpotências militares do mundo.


Se o pacto de não-agressão assinado entre os dois países em 23 de Agosto de 1939 desafiava a lógica das hostilidades entre fascismo e comunismo, os dois ditadores sabiam que uma guerra entre eles aconteceria cedo ou tarde. Stalin sabia que os países capitalistas entrariam novamente em guerra e a URSS não poderia ficar passiva e teria de entrar no jogo. O pacto foi um gesto estratégico de Hitler, que “precisava da neutralidade soviética enquanto era obrigado a combater as potências ocidentais[30]” e Stalin esperava que os países capitalistas se dilacerassem no conflito. Mas Stalin não esperava uma ofensiva de Hitler ainda em 1941 enquanto a Alemanha ainda estava em guerra com a Grã-Bretanha e subestimou o poderio do exército alemão. Os dois regimes viam a guerra como algo essencial, foram forjados numa guerra e a utilizavam com propósitos políticos, uma vez que se viam cercados de inimigos. “As duas ditaduras criaram metáforas de conflito permanente como um meio de legitimar o regime. O resultado foi uma disseminada militarização da vida política, em que as diferenças entre as esferas militar e civil se tornaram indistintas e indeterminadas, em meio às linguagens da guerra[31]“. Eram de dois sistemas políticos beligerantes, cujas divergências ideológicas cedo ou tarde os colocariam em lados opostos no campo de batalha e seus dois dirigentes sabiam disso.


Embora a URSS tenha modernizado seu poderio militar, o fato de Stalin ter destruído a base agrária do país com a perseguição brutal aos kulaks e ter eliminado importantes chefes militares e cientistas nos expurgos da década de 1930, deixando praticamente amadores na direção do Exército Vermelho, tornou a URSS bastante vulnerável à invasão alemã em 1941. As rápidas vitórias alemãs no território soviético evidenciaram o completo despreparo do Exército Vermelho diante dos nazistas. Em apenas um mês, nove décimos da força de tanques soviética foi destruída e as operações de cerco desbarataram a maior parte de sua linha de fronte. O treinamento e o aparato militar alemães eram bem superiores aos soviéticos, Richard Overy esclarece[32]. Koenen confirma essa abordagem e acrescenta que a derrota fragorosa do Exército Vermelho em 1941 não possui precedentes na história bélica. Depois de anos de conflito e heroicas resistências, a ajuda externa, especialmente britânica e norte-americana, foi fundamental para a União Soviética reverter a situação e vencer a guerra.

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Laicismo, Política e Economia / Re:Por que o nazismo foi um movimento de direita?
« Última Mensagem: por JJ Online Hoje às 08:28:18 »

As raízes conservadoras do nacional-socialismo


A ideologia soviética via a história pelo viés econômico da luta de classes e a nazista pelo viés biológico da luta de raças. Isso levou um importante historiador a assinalar: “A centralidade do pensamento racial – bem como a ideia do assassinato maciço industrializado – constituiu a diferença básica entre o império de Hitler e o de Stalin[6]“. Portanto, essas cosmovisões distinguem radicalmente os dois regimes:


Enquanto o marxismo e os movimentos socialistas se originaram dos princípios da Revolução Francesa, o pensamento racista que antecedeu ao nazismo se formou como oposição a esses princípios. Embora esse pensamento tenha se iniciado na própria França, através de Arthur Gobineau, foi entre conservadores ingleses, como Edmund Burke, que o sentimento racial aliou-se ao nacionalismo[7].


Essa fala de Hannah Arendt é importante porque nos remete para as raízes conservadoras do nazismo. Edmund Burke (1729-1797) foi um teórico político e estadista inglês que, ainda no século 18, teceu fortes críticas ao pensamento social Iluminista que culminou com a Revolução Francesa de 1789. Embora ele considerasse que essas ideologias levariam a um reino de terror e ditadura, suas ideias nortearam o pensamento conservador que se opôs ao Iluminismo e à Revolução e sedimentaram a ojeriza que algumas elites conservadoras sentiam pelos ideais de liberdade e autonomia individual. Os conservadores criticavam no Iluminismo a ruptura com a tradição e com as crenças religiosas e morais, que eles julgavam ser “as únicas fontes legítimas de autoridade política. Os Estados não eram constituídos; eram apenas uma expressão da experiência moral, religiosa e histórica de uma nação[8]“. Com base nisso, eles atacavam os ideais de igualdade como abstrações perniciosas.


“Entre 1789 e 1815, duas concepções diferentes de autoridade guerrearam entre si: os direitos do homem de um lado e a sociedade hierárquica tradicional do outro[9]“. Enquanto a Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão alterava a condição dos súditos e  reafirmava a primazia do indivíduo sobre as instituições, o pensamento de Edmund Burke com sua valorização das tradições e da sociedade hierárquica restringia a noção de liberdade e de direitos ao governo fundado em práticas de longa data. No século 19, esse pensamento acomodou-se ao conservadorismo nacionalista.


Isso porque a Revolução Francesa não produziu apenas ideais de liberdade e igualdade, mas também o princípio da soberania nacional. A revolução deu novo status ao Estado moderno ao romper com os privilégios de nascimento do Antigo Regime[10] e com a hegemonia da Igreja; isso pôs em evidência a importância do Estado-nação e da autodeterminação dos povos. Como reação a isso, emergiu a ideologia do nacionalismo, que desprezava as noções de igualdade e direitos individuais e enfatizava o senso de comunidade e auto-sacrifício como prova do orgulho de um povo por sua história e por suas tradições. A nação passou a ser frequentemente evocada como entidade escolhida por Deus para cumprir um ideal elevado para o qual fora destinada. A ênfase do nacionalismo no apego à tradição, a Deus e ao passado (como a glorificação da monarquia e da aristocracia hereditária) logo se tornou a força motriz do pensamento conservador que via com desconfiança as ideias revolucionárias e os valores burgueses do liberalismo. A Alemanha foi o principal cenário onde esse pensamento se desenvolveu, encabeçado pelo movimento romântico com a evocação de um passado místico e a negação do indivíduo, que só poderia ser pensado em sua ligação com o povo, a pátria e a comunidade nacional.  O pensamento nacionalista do século 19 rejeitava os direitos do homem para afirmar a força da nação com foco na etnicidade. “Os primeiros sinais de problemas futuros já podiam ser percebidos nas visões expressas no início do século XIX pelo nacionalista alemão Friedrich Jahn: ‘Quanto mais puro um povo, melhor’, ele escreveu. As leis da natureza, sustentava, operavam contra a mistura de raças e povos[11]“.


Somado a isso, o desenvolvimento da Biologia foi um importante catalisador das teorias do racismo e do antissemitismo que se difundiram na Europa a partir de então. Os estudos voltados para qualidades biológicas inerentes em determinadas raças levaram alguns povos a acreditar que apenas as melhores raças alcançariam a civilização. Por outro lado, a aquisição de direitos por parte dos judeus e a abolição da escravidão nas colônias britânicas e francesas levaram os teóricos do pensamento racial a buscarem na ciência a legitimação para afirmar a inferioridades das duas raças. Mas no final do século, a publicação na Alemanha do livro de um escritor inglês chamado Houston Stewart Chamberlain influenciaria diretamente Hitler: ele dizia que apenas dois povos ainda mantinham sua pureza racial e que por isso estavam destinados a lutar até que um extinguisse o outro: eram os arianos e os judeus. Portanto, aliado ao nacionalismo, o pensamento racista se desenvolveu de forma visceralmente avessa a toda noção de igualdade.


As orientações sócio-econômicas das duas ideologias no poder


Uma vez que o pensamento nazista se formou de uma matriz ideológica oposta aos princípios da Revolução Francesa, como disse Hannah Arendt e acabo de explicar, e os movimentos socialistas se originaram daqueles princípios, pode-se verificar que as semelhanças entre as duas ideologias quando chegaram ao poder no século XX são bem menores do que suas diferenças. Enquanto o nacionalismo se aliou a ideologias raciais com status de ciência no século 19 e evoluiu para uma postura cada vez mais segregacionista, o socialismo buscava ampliar a noção de direitos oriunda da Revolução Francesa no sentido de estendê-los às classes desfavorecidas. Ao questionar a propriedade privada e a insuficiência dos direitos políticos, o socialismo evoluiu para um pensamento revolucionário e antiliberal. Em 1843, Marx contestou a noção individualista da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão que apenas levava à noção de “homem egoísta” em detrimento da verdadeira emancipação humana que não poderia ser alcançada pela política, segundo ele, mas pela ação revolucionária focada na abolição da propriedade e no deslocamento da noção de homem abstrato, individual para a de homem genérico, organizado em forças sociais. No século 20, essa teoria cimentou a ausência de direitos individuais na sociedade soviética. Ainda em 1918 os bolcheviques proclamaram uma Declaração dos Direitos do Povo Trabalhador e Explorado, que pouco efeito teve na prática; por não assegurar direitos e liberdades individuais, deixou a sociedade à mercê do terror estatal que marcou toda a história do país sob o comunismo.


O nazismo, por outro lado, opunha-se tanto à direita liberal quanto às esquerdas (a social-democrata e a comunista) e associava todas elas ao judaísmo, que, segundo Hitler, as controlava para subjugar o povo alemão. O nome “socialista” na sigla do partido deveu-se a uma estratégia para se diferenciar de todas essas ideologias e ganhar o apoio da sociedade alemã, especialmente os trabalhadores, a quem pretendia cooptar e recrutar para reerguer a economia do país e fazer frente ao crescimento dos partidos e movimentos de esquerda. O uso da cor vermelha na bandeira também foi estrategicamente escolhido por sua vivacidade e facilidade de atrair a atenção. Hitler explicou essa estratégia em Mein Kampf. Além disso, a adoção do nome “socialismo” era antes uma provocação, segundo ele mesmo: “Neste mundo, porém, quem não se dispuser a ser odiado pelos adversários não me parece ter muito valor como amigo. Por isso, a simpatia desses indivíduos era por nós considerada não só inútil mas prejudicial. Para irritá-los, adotamos, de começo, a denominação de Partido para o nosso movimento, que tomou o nome de Partido Nacional Socialista dos trabalhadores Alemães […] A cor que escolhemos foi a vermelha, não só porque chama mais atenção como porque, provavelmente, irritaria nossos adversários e faria com que eles se impressionassem conosco[12]“.


Os adversários a quem ele se referia eram os comunistas e Hitler plagiou suas estratégias para cooptar o apoio dos trabalhadores a seu partido. Em “Minha Luta” ele detalha como foi influenciado pelas ideias socialistas sem, contudo, se unir ideologicamente a elas; antes copia-lhes os métodos de organização, propaganda, agitação e difusão para criar um partido que se lhes oponha frontalmente. Em “Minha Luta, ele escreveu:


A doutrina de Marx é assim o extrato espiritual concentrado das doutrinas universais hoje geralmente aceitas. E, por esse motivo, qualquer luta do nosso chamado mundo burguês contra ela é impossível, até ridícula, pois esse mundo burguês está inteiramente impregnado dessas substâncias venenosas e admira uma concepção do mundo que, em geral, só se distingue da marxística em grau e pessoas. O mundo burguês é marxístico, mas acredita na possibilidade do domínio de determinado grupo de homens (burguesia), ao passo que o marxismo procura calculadamente entregar o mundo às mãos dos judeus.


Em face disso, a concepção “racista” distingue a humanidade em seus primitivos elementos raciais. Ela vê, no Estado, em princípio, um meio para um fim e concebe como fim a conservação da existência racial humana. Consequentemente, não admite, em absoluto, a igualdade das raças, antes reconhece na sua diferença maior ou menor valor e, assim entendendo, sente-se no dever de, conforme a eterna vontade que governa este universo, promover a vitória dos melhores, dos mais fortes e exigir a subordinação dos piores, dos mais fracos. […]


Por outras palavras: o Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães apropria-se nas características iniciais do pensamento fundamental de uma concepção racista do mundo; e, tomando em consideração a realidade prática, o tempo, o material humano existente, com as suas fraquezas, forma uma fé política, a qual, por sua vez, dentro desse modo de entender a rígida organização das massas humanas, autoriza a prever a luta vitoriosa da nova doutrina[13].


Hitler ganhou o apoio de industriais alemães, mas não foi controlado por eles. Seu regime garantiu a propriedade privada, estabilizou a moeda, construiu grandes obras, reergueu a indústria, pavimentou estradas, estancou o desemprego e garantiu qualidade de vida para a população alemã. Ele via seu partido como uma organização revolucionária, embora tenha chegado ao poder por meio de eleições livres.

Do ponto de vista econômico, os nazistas não possuíam um corpo doutrinário definido. Eles desprezavam na teoria marxista o princípio de socialização de todos os meios de produção e defendiam a existência de empresas independentes. Como a Alemanha foi arruinada pela crise de 1929, socialistas e nacional-socialistas, por motivos diferentes, pretendiam superar a ordem social burguesa marcada por conflitos de classes, egoísmo econômico e repetidas crises. Enquanto os socialistas preconizavam a revolução e a coletivização para a derrubada dessa ordem e construção da sociedade sem classes, o nazismo preconizava a conquista e o saque:


Sua concepção [de Hitler] tinha mais em comum com as tradições mercantilistas dos primórdios da era moderna, quando território, tesouro e recursos eram usurpados a ponta de espada sob a interpretação errônea de que a riqueza do mundo era finita […]. Hitler tomou emprestado da geopolítica popular da década de 1920 a ideia de que a questão primordial enfrentada por todas as nações era a limitação de espaço vital – a quantidade de terra e materiais necessários para sustentar a vida de uma determinada nação ou raça[14].


O termo “capitalismo de Estado” foi cunhado por um cientista social alemão exilado nos Estados Unidos na época para designar o modelo econômico do terceiro Reich, marcado por forte intervenção do Estado, disciplinarização da mão-de-obra e proteção do lucro privado. Tanto a direita antiliberal quanto a esquerda cultuavam o Estado e o viam como elemento indispensável para a construção da utopia, uma sociedade de super-humanos, onde racionalismo e grandeza moral se conjugariam na formação de um mundo melhor. No caso da Alemanha, o regime nazista se manifestava como um Estado de Bem-estar racial, com sua política eugênica, garantia do pleno emprego aos alemães e doutrina da superioridade da raça ariana. O conceito de “capitalismo de Estado” também é usado hoje para caracterizar o sistema soviético, uma vez que a propriedade privada também não foi extinta naquele país.


Tanto a economia soviética como a alemã eram economias de comando. E nesse ponto as semelhanças também não ocorrem por acaso: os nazistas não plagiaram apenas as cores, a organização coletivista e o nome socialismo de seus rivais: os economistas alemães também observavam atentamente como era conduzida a economia soviética e, como os planos quinquenais de Stalin, Hitler tinha o plano quadrienal com objetivos similares: investimentos na indústria pesada, substituição de importações e intercâmbio mínimo com o mercado mundial para salvaguardar as prioridades internas do país. Mas, segundo Richard Overy, nem a União Soviética era um socialismo puro nem a Alemanha nazista era propriamente capitalista. Os dois impérios tinham sistemas econômicos híbridos que se diferenciavam entre si mais pela forma como interpretavam a história, seu papel no cenário mundial e pelos objetivos das duas utopias do que pelo modo de produção predominante.


Desse modo, embora preservasse a existência da propriedade privada, o nazismo não era apenas capitalista, mas uma mistura dos dois sistemas e também não era de esquerda. Por isso usamos a designação extrema direita: Hitler acreditava que o capitalismo liberal era fraco e impotente para conter o avanço do bolchevismo sobre a Alemanha, condenava o parlamentarismo burguês como um sistema dominado pelo judaísmo tanto quanto o bolchevismo e fundou um partido que defendia um Estado forte e centralizado para se opor a isso, um partido e um Estado nacionalistas e racistas, ele sempre enfatizava. Diferentemente do socialismo, sua interpretação da história não era social (luta de classes), mas racial, nem pretendia estender os ideais de inclusão e igualdade social a todos, apenas à raça germânica. Aos outros, caberia a extinção pela guerra. Por isso também é preciso entender os homens a partir do contexto em que estão inseridos e no contexto das décadas de 1920 e 1930 a esquerda e a direita podiam compartilhar algumas ideias gerais muito populares de sua época, sem se confundirem ideologicamente.


Em uma época de impérios e darwinismo social, as noções de uma hierarquia racial eram onipresentes, e poucos europeus, da direita ou da esquerda, não acreditavam nas ideias de superioridade racial ou não aceitavam sua relevância para a política colonial. O chamado “racismo científico” era levado a sério e influenciava atitudes públicas[15].


A derrota na Primeira Guerra, a humilhação do Tratado de Versalhes, a inflação, o desemprego e a visibilidade dos judeus no pós-guerra forneceram a Hitler o fermento para a exacerbação do sentimento racista e antissemita na Alemanha: “A propaganda nazista transformou a suposição de uma conspiração mundial judaica de assunto discutível que era, em principal elemento da realidade nazista; o fato é que os nazistas agiam como se o mundo fosse dominado pelos judeus e precisasse de uma constraconspiração para se defender[16]“. Por outro lado, o medo do comunismo levou liberais e conservadores a apoiá-lo: “Muitos conservadores também estavam insatisfeitos com a democracia do entreguerras e ansiavam por uma volta a modos de governo mais elitistas, aristocráticos e eventualmente monárquicos. Achavam que o problema da democracia estava no poder que conferia às massas, em sua suposta incompatibilidade com a autoridade[17]“. Na Europa do entreguerras, a extrema direita chegou ao poder em países com pouca tradição democrática e apoiada por conservadores herdeiros do pensamento social anti-iluminista e aristocrático que remonta a Edmund Burke. Por isso o nazismo representava a direita.


Isso explica também o apoio da Igreja ao fascismo e ao nazismo, um assunto já bastante comentado na historiografia.  Os ideais da Revolução Francesa a que o nacional-socialismo se opunha também não eram bem quistos pela Igreja, uma instituição que se opôs a variadas conquistas da modernidade e teve seu poder muito reduzido com o avanço do secularismo na Europa. A Igreja, na verdade, não era fascista, mas o direcionamento conservador que tomou a partir do Concílio Vaticano de 1870 veio a colocá-la como aliada de Estados autoritários e corporativos que teve em países católicos seus primeiros experimentos, cujos sistemas políticos também agiam com forte apelo à tradição católica. Segundo Eric Hobsbawm:


[…] com menos frequência observou-se a considerável ajuda dada após a guerra por pessoas de dentro da Igreja, às vezes em posições importantes, a fugitivos nazistas ou fascistas de vários tipos, inclusive muitos acusados de horripilantes crimes de guerra. O que ligava a Igreja não só a reacionários anacrônicos mas aos fascistas era um ódio comum pelo Iluminismo do século XVIII, pela Revolução Francesa e por tudo o que na sua opinião dela derivava: democracia, liberalismo e, claro, mais marcadamente, o “comunismo ateu[18]“.


O nazismo jamais foi um movimento abertamente anti-cristão, nem Hitler era ateu, como os dirigentes marxistas da União Soviética e essa era outra importante diferença entre as duas ideologias. Enquanto em “Minha Luta”, Hitler deplorava a perda da fé religiosa na Europa,  particularmente na Alemanha e considerava a religião como um importante sustentáculo da vida moral numa sociedade, o socialismo, enquanto movimento herdeiro das Luzes, via as religiões como forças sociais a serviço das classes dominantes e legitimadoras da desigualdade e da opressão, o que levou as lideranças soviéticas a emplacarem um amplo programa de descristianização e desfiliação religiosa, sobretudo através da educação. O nazismo, a despeito de seu programa revolucionário, era avesso aos princípios revolucionários do bolchevismo. Por isso Hobsbawm os chamou de revolucionários da contrarrevolução.


Nacionalismo e internacionalismo


Uma característica da política soviética após a morte de Lênin foi a desistência gradual da revolução mundial e a consolidação do novo regime na Rússia. Essa foi uma preocupação de Stalin desde o início e uma de suas metas após assumir o poder. Stalin agia motivado pela preservação da revolução, por sua ampliação e via a si mesmo como o único líder bolchevique que possuía determinação suficiente para dirigir o país. Enquanto o nazismo possuía uma meta definida de extinção de outras raças, o comunismo não escolheu a priori suas vítimas, que foram sendo atropeladas à medida que o partido acreditava que elas poderiam interromper o caminho da revolução. “As consequências dessa determinação [de Stalin] para a sociedade soviética foram profundas e angustiantes, mas para ele devem ter sido justificadas pelo único imperativo de construir o comunismo[19]“.


Na União Soviética o nacionalismo jamais se tornou parte da ideologia governamental. Depois da invasão alemã em 1941, o partido apelou ao sentimento patriótico da população para combater os invasores, mas isso nem de longe se aproximava de um direcionamento nacionalista. Mesmo a ideia de Stalin de “construção do socialismo num só país” tinha um viés diferente do nacionalismo. Sobre o assunto, novamente Richard Overy:


A ideia […] foi muitas vezes mal interpretada como uma expressão de socialismo “nacional” – um deslocamento das aspirações internacionalistas do verdadeiro marxismo inspirado pelo Stalin mais “nacionalista”. Mas a ambição não era nacionalista em nenhum sentido reconhecível. Quando Stalin afirmou, em 1924, que “podemos construir o socialismo… por nossos próprios esforços”, expressava uma ambição social, não nacional. O malogro da revolução fora das fronteiras soviéticas obrigou a maioria dos bolcheviques a aceitar a visão sensata de que o socialismo teria de ser construído sem a ajuda de outros proletariados […]. Stalin nunca deu as costas à ideia de que a União Soviética devia continuar a combater o capitalismo e incentivar a revolução no estrangeiro; “o socialismo num só país” deu à União Soviética um lugar especial na liderança da luta mundial, mas não foi uma declaração de independência nacional. Se Stalin, na década de 1930, esperou que os cidadãos soviéticos expressassem um patriotismo soviético, foi por amor à única pátria socialista, não por soberba nacional […]. Embora, a partir da década de 1930, a ditadura começasse a identificar-se mais com um passado especificamente russo, ele sempre manteve a distinção entre a União Soviética como um Estado socialista de muitas nacionalidades e a nação como expressão de uma cultura particular e sem igual[20].


Enquanto Stalin não fazia distinção entre nações, Hitler as concebia como entidades inseparáveis da ideia de raça e as raças inferiores estavam destinadas a ser conquistadas e ter seus territórios tomados pelas raças superiores, dotadas de uma vontade maior de autopreservação e de uma capacidade extraordinária de produzir cultura e ciência e isso também embalava a diferença radical que os dois ditadores tinham da noção de Estado: “O Estado de Stalin era uma realidade multinacional sustentada por uma visão social e política distintamente não nacional; o conceito de Estado de Hitler baseava-se apenas na ‘preservação e intensificação’ de uma nação única, a cujos fins todas as ambições políticas e sociais deviam ser implacavelmente subordinadas[21].”


Disse anteriormente que o nacional-socialismo se caracterizava como um Estado de Bem-Estar racial, algo que inexistiu na União Soviética ou qualquer outro sistema socialista. Esse plano de fundo colocava os dois sistemas em campos opostos quanto a seus objetivos finais:


A utopia soviética buscada sob Stalin era uma utopia sociológica, cujo objetivo visava criar uma sociedade progressista baseada em torno da satisfação de necessidades humanas […]. A utopia alemã buscada sob Hitler era uma utopia biológica, dedicou-se à criação de um corpo racial puro, capaz de reprodução sob linhas demográficas estreitamente definidas. Mediam-se o valor e o bem-estar individuais em termos de utilidade biológica e valor de raça, acima de tudo a disposição de aceitar o sacrifício do eu pela sobrevivência da espécie […] É inteiramente cabível que o esforço de guerra [alemão] para construir tal utopia afundasse em malogro na guerra de 1945, pois esta foi a lógica do darwinismo vulgar que embasou o empreendimento – vitória ou derrota na luta pela existência[22].


O Estado soviético tinha uma posição formal contra todo tipo de discriminação racial aberta ou violenta, além de ser formado por variados grupos étnicos que jamais foram perseguidos por motivos raciais. As deportações em massa que ocorreram na União Soviética no final e após a Segunda Guerra não tiveram um padrão pré-estabelecido de corte racial. Embora grupos étnicos praticamente inteiros tenham sofrido deportação na URSS, as razões para isso tinham fundo político, não étnico. No caso da Alemanha, ao contrário, a “solução final”, a questão da eliminação dos judeus, ganhou contornos mais dramáticos a partir de 1941,  quando os alemães puseram em prática o assassinato em massa de judeus que durou, segundo Richard Overy, até 1944. Hitler via sua guerra contra outras raças, especialmente os judeus, em termos extremos de sobrevivência ou extinção.


A União Soviética era uma federação de nacionalidades, cujas identidades nacionais foram respeitadas na medida em que não comprometeram as ambições políticas centrais do regime […] Xenófoba e exclusiva, a Alemanha de Hitler viu-se em direta e violenta competição com todas as outras nacionalidades, trancada numa história perpétua de luta racial. As raças estrangeiras não podiam ser assimiladas sob quaisquer circunstâncias[23].


Não é possível compreender adequadamente as diferenças entre socialismo e nacional-socialismo se não se tiver clareza da importância e das raízes dos conceitos de internacionalismo e nacionalismo que norteavam as duas ideologias e as colocava em oposição tenaz.


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Laicismo, Política e Economia / Re:Por que o nazismo foi um movimento de direita?
« Última Mensagem: por JJ Online Hoje às 08:26:00 »

Socialismo e Nacional-socialismo: a esquerda e a direita autoritárias do século XX


19/10/2014Bertone Sousa



Em um texto anterior, discuti algumas características do comunismo a partir do recorte temporal que vai do período da tomada do poder pelos bolcheviques na Rússia ao fim da era Stálin, tomando por base a obra do historiador alemão Gerd Koenen, “Utopia do Expurgo[1]“, uma importante referência para quem quer compreender historicamente o comunismo (clique aqui para ler o texto). Um ponto importante discutido na obra é acerca da relação entre comunismo e nazismo e a qual ele dedica dois capítulos (8 e 10). Portanto, esse texto tentará responder às seguintes questões: o que havia em comum entre nacional-socialismo e socialismo? Quais as diferenças? É possível falar que as duas ideologias se encontravam em campos opostos (direita e esquerda)? Se sim, então por que ambas professavam o socialismo e até fizeram um pacto de não agressão? Se não, então por que guerrearam até a derrota completa e extinção de uma delas?


Koenen já inicia esclarecendo essa questão no início do capítulo 10 com uma observação muito importante:


Consiste, no objetivo insano, utópico, de um expurgo e de homogeneização da sociedade conforme critérios políticos, sociais ou racistas, a singularidade tanto do stalinismo quando do nacional-socialismo, que os destacou de todos os demais regimes e formações sociais da história humana até então conhecidos.


Trata-se, no entanto, de um paralelismo e não de uma identidade. Ao contrário:  é justamente a comparação direta que clareia as diferenças da situação inicial e da disposição dos respectivos projetos nacional e social-revolucionários. Nalguns aspectos os dois sistemas encontravam-se até em oposição diametral, isto é, representavam dois extremos da história do século 20.


[…] Não foi o nacional-socialismo uma reação ao bolchevismo nem foi o stalinismo uma reação ao nacional-socialismo. Foram simplesmente duas possibilidades extremas de uma política de violência tanto interna quanto externa, que se deram no mesmo espaço histórico, porém sob condições completamente distintas[2].


Até agora os textos publicados aqui sobre o comunismo ressaltaram mais o aspecto anti-humanista e totalitário que os regimes comunistas assumiram no século 20 e suas cruzadas contra inimigos reais e imaginários que os levou a dizimarem milhões de pessoas. Nesse artigo, porém, vou me deter numa problematização teórica sobre as diferenças entre nazismo e comunismo, uma relação que muitas vezes confunde a cabeça das pessoas.


Há meses tenho recebido ocasionalmente e-mails de leitores me pedindo esclarecimentos acerca dessas questões. Isso se deve ao fato de jornalistas da extrema direita brasileira (nenhum deles historiador) afirmarem que o nazismo era de esquerda e que o nome “socialismo” em sua sigla é uma prova de sua identidade com os movimentos revolucionários de esquerda. Também usam fotos e imagens de época para evocar as semelhanças nas posturas, nos gestos, discursos e práticas dos dois regimes. Além disso, eles dizem que a brutalidade com que os dois regimes tratavam suas vítimas é outra prova que irmana seus ideais e estratégias.


Outro engano está no fato de muitos acreditarem que a direita está relacionada apenas ao liberalismo econômico e a esquerda à intervenção do Estado na economia. Isso remonta à perspectiva de Friedrich Hayek, que na obra O Caminho para a Servidão, publicada originalmente em 1944, destaca que o abandono dos princípios do liberalismo e do individualismo defendidos pelos clássicos dos séculos 18 e 19 e âncoras das liberdades individuais que vigoraram na Europa até o início do século 20, abriu o caminho para as ideologias coletivistas, o Fascismo, o Nazismo e o Socialismo, baseadas no monopólio do Estado sobre a economia e inexoravelmente autoritárias. No entanto,  Hayek também assinalava que essas ideologias “diferem entre si na natureza do objetivo para o qual pretendem dirigir os esforços da sociedade”. Como veremos no decorrer deste artigo, não era apenas neste aspecto que essas ideologias se distinguiam. Por ora, cabe enfatizar que estatismo por si só não define um governo como direita ou esquerda; há questões históricas mais amplas que fogem a essa visão reducionista.


Infelizmente, esse tipo de abordagem deixa a história e a historiografia sobre o assunto de lado para adaptar os eventos a uma perspectiva ideológica e o que eles fazem é o que o historiador inglês Richard Overy chamou de “exercício fútil” para fazer os dois regimes parecerem “mais semelhantes um ao outro, ou tentar descobrir por avaliação estatística qual era o mais assassino”. Por isso, a ênfase que eles dão às vítimas do comunismo para igualá-lo ao nazismo ou mesmo “provar” que era pior termina tornando obtusa a compreensão dos dois fenômenos e de seus mecanismos de ação e recrutamento. Esse texto pretende aprofundar a discussão histórica sobre o tema e trazer alguns esclarecimentos aos leitores. Para os interessados em buscar mais leituras, as referências utilizadas serão indicadas em notas ao final do texto.


As duas ideologias no contexto do início do século


O primeiro ponto que é preciso levantar é que a equiparação entre nazismo e comunismo é falaciosa e não tem fundamentação histórica. Como disse Koenen na citação acima, um estudo comparado dos dois sistemas e das duas ideologias evidenciará alguns paralelos entre eles, mas não uma identidade. Ao contrário, para além das semelhanças, suas diferenças se mostram muito mais altissonantes e inconciliáveis, e Koenen não é o único historiador a dizer isso. Quando falamos de comunismo e nazismo, imediatamente remetemos à noção do totalitarismo para designar esses sistemas, e que, segundo o autor, consiste na “séria tentativa de registrar e remodelar, a partir de um único centro condutor, Estado, economia e sociedade, cultura e educação e, finalmente, também a vida individual dos cidadãos […], em síntese, o ‘totum’ de uma sociedade[3]“. Ter clareza desse conceito nos ajuda a estabelecer paralelos e apontar as aproximações e os distanciamentos entre eles.


Os dois sistemas emergiram em decorrência da Primeira Guerra Mundial, isto é, são rebentos da guerra total que resultou na decomposição da ordem social e econômica liberal oriunda do século 19 e, ao mesmo tempo, trouxeram para o plano da ação histórica outras ideologias também originadas naquele século: a da luta de classes, a da luta racial e o nacionalismo. As ideologias  que ganharam notoriedade depois da Primeira Guerra na Europa (Nazismo, Fascismo e Comunismo) e que tinham em comum o fato de serem antiliberais e antidemocráticas, já vinham ganhando terreno desde o final do século 19. Como doutrinas da violência que eram, estavam na ordem do dia após o conflito: na postura de seus principais representantes, a retórica e a violência se superpunham à razão e à ação.


Após a guerra o liberalismo ficou crescentemente desacreditado, cedendo lugar a Estados centralistas. Após a crise de 1929, ficou patente que o liberalismo era uma doutrina econômica falida e incapaz de reerguer as economias em crise. Enquanto o keynesianismo fornecia um modelo teórico às democracias e o socialismo soviético se mostrava como exemplo de sucesso de planejamento econômico, Hitler e seu partido nazista aglutinaram o apoio da burguesia e de conservadores temerosos; sem a crise e o fracasso do liberalismo, é pouco provável que os nazistas tivessem chegado ao poder. A partir de 1934 a esquerda e a direita autoritárias se mostravam como os modelos políticos a ditar o rumo da Europa. Um livro recente e essencial para se entender as diferenças entre essas ideologias é “Os Ditadores”, de Richard Overy. O livro consiste em um estudo histórico e minucioso acerca da União Soviética sob Stálin e da Alemanha sob Hitler. Com mais de 150 páginas apenas de referências, entre fontes consultadas e bibliografia, Overy escreveu uma obra magistral sobre o assunto. Ao falar sobre o impacto da Primeira Guerra para a ascensão dos dois sistemas, ele observa:


Os dois Estados sofreram uma hiperinflação que destruiu inteiramente a moeda e empobreceu qualquer um com riqueza monetária. Na União Soviética, isso serviu aos propósitos revolucionários arruinando a burguesia; na Alemanha, arruinou toda uma geração de poupadores cujos ressentimentos ajudaram a alimentar a subida posterior do nacionalismo de tipo hitlerista. Os dois Estados eram encarados como Estados párias pelo resto da comunidade internacional, a União Soviética por ser comunista, a Alemanha porque era responsabilizada pela eclosão da Guerra em 1914. Esse senso de isolamento empurrou-os para uma forma mais extrema de política revolucionária e o eventual surgimento da ditadura[4].


O que as duas ideologias tinham em comum é que eram antiliberais e anti-humanistas, de onde provinha seu desprezo pelo individualismo e sua ênfase no coletivismo. Mas suas razões de existir e seus objetivos eram diferentes e até antagônicos: a utopia soviética se via na vanguarda da emancipação da humanidade e da construção ulterior da sociedade sem classes, estágio mais elevado do progresso humano, e o nacional-socialismo era a ideologia de um povo, a legitimação de sua dominação sobre os demais e seu objetivo maior era a construção de uma ordem social baseada na hierarquia racial e na superioridade da raça germânica. As duas ideologias[5] se sobressaíram nas primeiras décadas do século 20 e se estabeleceram como doutrinas nacionais e por motivos diferentes. O regime bolchevista, após a percepção de que a revolução não ocorreria na Europa, voltou-se para a conquista de todo o território russo e a construção e consolidação do socialismo, o que implicou a caça e perseguição brutais aos kulaks e “inimigos do povo”, como foi discutido no texto anterior. Hitler pretendia expandir as fronteiras da Alemanha e subjugar militarmente a Europa, fundando um Reich de mil anos.





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Laicismo, Política e Economia / Re:Eleições presidenciais de 2018
« Última Mensagem: por JJ Online Hoje às 08:04:26 »

E também é fato que muitos direitinhas fanboys do país do norte tentam esconder com uma peneira o fato de que o país do norte  teve  boas relações com ditaduras do passado e ainda tem boas relações com algumas atuais.


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Laicismo, Política e Economia / Re:Eleições presidenciais de 2018
« Última Mensagem: por JJ Online Hoje às 08:00:26 »

Não, não têm. Primeiro, porque o EUA possuem interesses econômicos e militares bastantes claros em relação à Arábia Saudita, sem haver aí qualquer laço de afinidade ideológica, a não ser àquelas de que se tratam de seus interesses comuns;


Sim, tem sim. O apoio e a amizade não interessa por qual motivo seja,  se X , Y ou Z ,  continua sendo apoio e amizade,   o fato é que  o país do norte  já apoiou e apoia ditaduras. O fato é que ser uma ditadura não é um fato que impede que o país do norte tenha boas relações com a ditadura, desde que a ditadura esteja satisfazendo um ou mais de um interesse de seus líderes.


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Laicismo, Política e Economia / Re:Eleições presidenciais de 2018
« Última Mensagem: por Euler1707 Online Hoje às 01:42:24 »
Há claro,  o PT  era um partidão que queria implantar uma ditadura socialista, mas  só não implantou porque era tão burro que não sabia sequer quais leis deveria  criar e quais deveria impedir que fossem criadas e que poderiam atrapalhar o seu projeto socialista ditatorial.


Esse olavismo é hilário.


 :hihi:
Mais um espantalho do maior expert da área.

JJ, o que se pode dizer do PT, e isso você não pode negar sem incorrer no mau caratismo, é que o PT tentou emplacar VÁRIOS projetos de caráter, digamos, bolivariano, e isso não é um simples "olavismo", é fato que foi amplamente denunciado por alguns jornalistas à época, como o Reinaldo Azevedo, por exemplo. Dizer que o PT não implantou uma ditadura socialista no Brasil só porque não quis não só demonstra sua ignorância das instituições brasileiras e dos mecanismos legais, mas também é contraditória em relação a sua teoria dos "jogos de poder"; Ora, por quê um partido tão poderoso como o PT não tentou implantar medidas que o perpetuassem no poder, se, segundo você, o objetivo político de todos os agentes políticos é o poder???


Por quê um partido tão poderoso como o PT não tentou implantar medidas que o perpetuassem no poder ?


Porque  eles não tinham uma ideologia realmente ditatorial,  porque eles acreditavam  que  com as regras  atuais do jogo  eles  não  iriam ter problemas para continuar no poder. E certamente que também podemos dizer que eles subestimaram  o crescimento dos inimigos.
[...] apoiavam ditadores [...] por interesses estritamente republicanos, sem haver aí qualquer afinidade ideológica...


Se ser amigo e  apoiar alguma ditadura  estrangeira torna  algum partido  ditatorial,   então  o  país  ídolo  de muitos  "direitinhas"   tem   dois grandes partidos ditatoriais.
Não, não têm. Primeiro, porque o EUA possuem interesses econômicos e militares bastantes claros em relação à Arábia Saudita, sem haver aí qualquer laço de afinidade ideológica, a não ser àquelas de que se tratam de seus interesses comuns; Segundo, porque as relações diplomáticas históricas de um país como os EUA não podem ser reduzidas às ideologias políticas de um partido ou governo; Coisa que, sem sombra de dúvida, caracterizou a diplomacia petista, que, seja por interesses obscuros ou ideológicos, agiu de maneira a lesar à própria pátria e contrária aos interesses nacionais, quando, por exemplo, perdoou dívidas milionárias de países "amigos", ou quando construiu o porto de Cuba. 
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Papo Furado / Re:A mulher mais gostosa que já vi...
« Última Mensagem: por -Huxley- Online Ontem às 22:43:34 »
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Papo Furado / Re:A mulher mais gostosa que já vi...
« Última Mensagem: por -Huxley- Online Ontem às 22:33:43 »
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Laicismo, Política e Economia / Re:A neo-direita brasileira
« Última Mensagem: por JJ Online Ontem às 22:30:38 »
Olavo de Carvalho: um filósofo para racistas e idiotas


28/10/2012Bertone Sousa


Observação: Para ver minha resposta a um vídeo de Olavo direcionado a mim, clique aqui.


Olavo de Carvalho é um católico conservador que, incapaz de conviver com ideias diferentes na academia brasileira, resolveu estudar filosofia sozinho. Essa sua incapacidade, no entanto, é algo que marca toda a sua trajetória de vida, se traduzindo em uma profunda intolerância a qualquer pensamento divergente do seu. No site Mídia sem Máscara, do qual Olavo é dono, vários colunistas expõem todo tipo de pensamento preconceituoso, tacanho e reducionista travestidos de “jornalismo”.


Como católico conservador, Olavo possui um profundo medo de ir para o inferno após a morte. Embora isso seja risível, é o que ele demonstra em vários vídeos seus espalhados pelo Youtube, como este. E para tentar garantir sua ida ao céu, ele atribuiu a si mesmo uma missão: dedicar a vida a combater o comunismo e o marxismo em todas as suas formas de manifestação.  E nada escapa à sua obsessão anti-comunista: positivismo, ciência, secularismo, ateísmo – nada que não seja escolástico e profundamente reacionário.


Não importa que a Guerra Fria tenha terminado e o comunismo internacional tenha arrefecido juntamente com ela; ele não se deu por satisfeito e continua sua cruzada incansável contra todo esquerdismo, como ele caracteriza as entidades globalistas que, segundo ele, pretendem solapar os valores da família cristã e impor em seu lugar a agenda dos movimentos homossexual, feminista e ambientalista. Há anos ele tem sido um dos defensores de golpes militares pró-Estados Unidos na América Latina.


Nos últimos quatro anos, Olavo não cessou de falar sobre a falsidade da certidão de nascimento de Barack Obama, advertindo que ele é comunista e membro da fraternidade islâmica, tendo sido eleito presidente para minar o poder dos Estados Unidos no mundo, o que pode ser visto através do enfraquecimento das forças armadas americanas e pelo favorecimento dos grupos ligados à fraternidade islâmica nos países onde ocorreu a “primavera árabe”. Ele costuma elogiar o patriotismo dos norte-americanos, a importância que dão às forças armadas e deplorar o fato de que isso não existe no Brasil. Às vezes se mostra entusiasta do regime que vigorou no Brasil durante o Segundo Reinado. Também deplora o fato de o regime militar brasileiro não ter aniquilado a esquerda, antes permitindo que se tornassem proprietários de editoras e meios de comunicação.


Acusando sempre a imprensa brasileira de ser aquiescente em relação a esses eventos, ele se coloca como um jornalista que fala “a verdade” dos fatos. Afirma que o Brasil vive um regime totalitário sob o governo do PT, nutre um profundo desprezo por Dilma, Lula, pela Teologia da Libertação e por todos os teóricos da esquerda, sejam brasileiros ou não. Ele mesmo não se envergonha de dizer que, quando Lula foi eleito, tentou alertar as autoridades americanas acerca da “ameaça” que representava sua subida ao poder. É muito curioso esse interesse que ele demonstra pelo nacionalismo americano e pela direita cristã que apoia o partido Republicano. Olavo fala de Lula como a própria encarnação do mal, e frequentemente se refere ao ex-presidente com espasmos viscerais de ódio. Denuncia que o PT pôs em prática a estratégia gramsciana de mudança da sociedade pelo controle permanente das instituições.


Ele atribui os problemas educacionais do Brasil unicamente à esquerda e omite o fato de que foi o regime militar que sucateou o ensino de humanidades no Brasil, excluindo dos currículos disciplinas como línguas clássicas e francês, além de filosofia e sociologia e reduzindo inclusive o ensino da língua portuguesa. Qualquer um que seja minimamente informado sabe que ele mente quando fala essas coisas. Tudo isso deixa bem claro que Olavo não quer um país onde a esquerda participe do jogo democrático. Embora queira passar a imagem de liberal, ele não o é. Prefere uma ditadura fascista ao estilo franquista, que esmague a oposição e imponha a ferro e fogo os valores do catolicismo tradicional e do pensamento conservador.


Olavo ministra, pela internet, um seminário de Filosofia, curso em que ele sozinho trabalha todos os aspectos da disciplina, além de lições sobre história, psicologia e o que mais lhe der na telha. Olavo pensa o mundo de forma monomaníaca: tudo o conduz para um discurso denuncista da esquerda. Ele afirma ter passado vários anos estudando o marxismo, período que ele considera como de “autoenvenenamento”. Não reconhece qualquer importância nos trabalhos de Marx e Engels ou de qualquer outro teórico da esquerda, associando sempre esses autores ao stalinismo e ao Gulag. Apesar de afirmar que estuda o assunto há quatro décadas, ele repete há anos os mesmos chavões.


Embora nem tudo o que Olavo diga seja desprezível e algumas de suas análises tenham certo teor de relevância, elas, no entanto, se perdem como gotículas no oceano de asneiras que ele profere. O problema não é o fato de ele ser de direita, mas de ter descambado para um pensamento intolerante, monomaníaco, mesquinho.  Alguém que leia Olavo de Carvalho verá o quanto ele está aquém de pensadores liberais (de verdade) que se destacaram no Brasil como Roque Spencer Maciel de Barros, por exemplo. Olavo é até mesmo indigno da grandeza dos autores de quem ele usurpa seu pretenso conservadorismo, como Ortega y Gasset, Ludwig Von Mises, Otto Maria Carpeaux, entre outros.


Já tentei buscar na internet informações sobre alunos e ex-alunos de Olavo de Carvalho. E com exceção de algumas frases bajulatórias em seu próprio site do Seminário de Filosofia, o resultado foi nada. Nenhum artigo, nenhum livro, ninguém que se dedique a qualquer área do pensamento filosófico e expresse isso em publicações. Olavo costuma dizer que nunca conheceu uma pessoa que tenha sido alfabetizada pelo método Paulo Freire. Da mesma forma, nunca conheci ou ouvi falar de um filósofo que tenha sido formado por ele. Esses alunos fantasmas vivem – como é de se esperar – silenciosamente paralisados à sombra de seu mestre, de quem são incapazes (ou têm medo) de discordar e mais incapazes ainda de produzir algo minimamente relevante.


Mas então, onde estão e quem são essas pessoas? O que elas produzem? Olhando os comentários aos vídeos semanais de Olavo no canal do Mídia sem Máscara no Youtube, podemos ter uma dimensão do perfil de seus seguidores. Muitos o chamam de “grande mestre” e, seguindo seu exemplo, achincalham a esquerda sem um mínimo de reflexão teórica. Em um de seus programas recentes, um ouvinte ligou e afirmou de forma iracunda que “odeia a esquerda”. Olavo esboça um semblante de satisfação e lhe diz mansamente que não tem que odiar ninguém, que ele precisa ser profissional.

Mas que tipo de  profissionalismo ele pode esperar de seu pupilo, se o que ele diz é a única coisa que aprendeu com o mestre: detestar irracionalmente toda forma de esquerdismo, mesmo que determinadas pessoas ou movimentos nada tenham de esquerdistas ou marxistas? E verbalizar esse ódio com xingamentos e esculhambações?


No ano passado, uma reportagem do portal Ig noticiou a atividade de alguns jovens universitários de direita que, inspirados em Olavo de Carvalho, defendem valores tradicionais e afirmam estarem dispostos a usar a força física e a morrer por isso, estratégia semelhante ao do grupo racista skinheads, demonstra a reportagem. Embora Olavo posteriormente tenha negado qualquer ligação com esses grupos e criticado a reportagem, fica evidente que esse é o resultado mais óbvio de suas posturas políticas: o incentivo a atos e pensamentos de intolerância, facilmente assimiláveis por grupos de extrema direita.


A maioria de seus admiradores não são leitores de filosofia, são antes jovens carentes de um pai, de um líder, de um guia, de um führer. São pessoas incapazes de pensar por si mesmas e compartilham com seu mestre o desprezo pela academia. Apesar de todas as suas limitações e defeitos, a academia é o lugar onde ideias podem ser livremente debatidas. Essas pessoas, no entanto, não querem debates, elas querem a imposição do que pensam que pensam, sem saberem que na verdade não pensam nada. Como Olavo, seus seguidores veem esquerda e comunistas por toda parte, um inimigo a quem eles atribuem uma importância que não existe fora de suas mentes.


Ele ainda aconselha seus alunos a usarem textos anti-marxistas de seu site para enfrentarem professores nas universidades e já citou até exemplos de que isso deu certo. Ora, somente professores muito ingênuos e dogmáticos (e ainda há muitos desses por aí) podem cair nessa. Como se não bastasse, seus seguidores têm lançado diversos produtos com a marca “Olavettes”, contendo frases de seu mestre e com o dizer “Olavettes é nóis mermo”. Não são intelectuais, são tolos. São como crianças imitando adultos, com a diferença de que as crianças carregam a pureza da inocência, e eles a terrível marca da estupidez. Esse comportamento das “olavettes” é de causar vergonha alheia, a começar pelo nome que escolheram para designar a si próprios. Enquanto Olavo continua sua empreitada para tentar chegar ao céu, seus discursos têm atraído uma legião de seguidores, fascinados por seu estilo histriônico de falar, por seus xingamentos e por sua intolerância. Essas pessoas não se destacam por erudição ou produção intelectual, mas pela abjeção de suas ações.


Para que os leitores percebam o quanto Olavo realmente não pode ser levado a sério, vejam a “refutação” que ele faz à ciência moderna e à teoria da relatividade neste vídeo. Chega mesmo a ser patológica a obsessão deste homem para ridicularizar qualquer coisa que não se enquadre em sua estreitíssima visão de mundo formada pelo ideário fascista e por dogmas da escolástica medieval. Sem absolutamente nenhuma referência teórica, sem menção a nenhuma pesquisa, ele tem a desfaçatez de sugerir que a terra é imóvel! Tudo porque o modelo copernicano mostrou a falsidade da cosmologia ptolomaica adotada pela Igreja. Esqueceram de avisar a Olavo que a própria Igreja hoje não pensa mais dessa forma, mudou seus conceitos e já até se desculpou com Galileu através de João Paulo II. O Vaticano inclusive conta com um centro avançado de pesquisa científica, onde atuam pesquisadores de várias partes do mundo.


E como alguém pode refutar a relatividade sem ao menos compreendê-la como ele próprio admite no vídeo? No auge de sua ignorância cínica, Olavo diz que Einstein inventou a teoria da relatividade pra não ter que admitir que a terra é imóvel. É impressionante quantas pessoas dão crédito e se deixam enganar por um impostor que se finge de filósofo e intelectual e pronuncia tantas asneiras absurdas e risíveis. Não é à toa que  apenas skinheads e outros grupos racistas, além de incautos sugestionáveis admiram o tal “filósofo”. Os verdadeiros liberais e pessoas sensatas da direita se envergonham até mesmo de mencionar-lhe o nome, afinal, Olavo não é referência para nada que se queira produzir cientificamente. Ele mescla seus sentimentos de revolta pessoal com a esquerda com fanatismo religioso e sua personalidade megalomaníaca de se achar “um grande intelectual” a quem ninguém se compara no Brasil. É de dar dó. Ele critica intelectuais como Leandro Konder chamando-os de militantes, mas incrivelmente não consegue se enxergar como militante de extrema direita.


Se fôssemos elencar as asneiras ditas e escritas por ele, teríamos de fazer um blog voltado exclusivamente a isso. Apenas mais um exemplo: em seu site pessoal há um texto assinado por José Nivaldo Cordeiro, “Discutindo o capitalismo”. No texto, o autor, que não passa de uma sombra de Olavo de Carvalho, fala coisas tão infundadas sobre Weber e Marx que não é possível dizer que se trata de um texto sério. Ele diz que o cristianismo fundou o princípio da igualdade jurídica quando lançou a máxima do “amar ao próximo como a si mesmo”. A noção de igualdade do Cristianismo primitivo não era jurídica, mas espiritual, não é à toa que suas verdades permaneceram no nível da dogmática por muitos séculos, apenas tardiamente ganhando elaboração intelectual. A moderna noção de igualdade jurídica remonta aos pensadores deístas do Iluminismo e, com base em suas ideias, à subsequente separação entre Estado e religião. A Igreja Católica não poderia tê-la desenvolvido na Idade Média porque sua cosmovisão estava ancorada no tomismo e na Escolástica, que preconizavam a subordinação do Estado à Igreja, como a ordem natural estava subordinada à sobrenatural. No Antigo Regime da era moderna, o Estado, em aliança com a Igreja, exercia o poder a partir do princípio do direito divino dos reis, uma das características a que posteriormente se opôs o pensamento liberal, de matriz protestante. O que ele fala sobre “amor ao próximo” sequer pode ser considerado um argumento porque não tem fundamento histórico. A noção de igualdade jurídica é um anacronismo se aplicado à Idade Média. A atuação dos Tribunais da Inquisição também o provam. Durante séculos, dezenas de milhares de pessoas foram torturadas e executadas por divergirem ou serem suspeitas de divergirem dos dogmas oficiais da Igreja. Os tribunais não tinham preocupações com provas, qualquer acusação do tipo “ouvi dizer que fulano…” já era suficiente para levar alguém a se tornar réu. Uma vez nessa condição, não havia possibilidade de absolvição. Depois ele diz que “sem a mensagem salvadora de Cristo ainda estaríamos vivendo formas imperiais e/ou tribais de organização social”. Será que o senhor Nivaldo Cordeiro não sabe o que foi o feudalismo, o cesaropapismo, a servidão que subsistiu por mais de um milênio após a queda do Império Romano? Claro que sabe, mas omite isso.


Depois ele diz que Weber cometeu vários erros, como “associar a eclosão do capitalismo ao protestantismo” e que ele fez isso por ser protestante e ter uma visão depreciativa do catolicismo e diz que houve uma “explosão de produtividade agrícola na Idade Média pelo talento dos monges católicos”. Parece que o autor nunca leu nem Weber nem autores renomados como Jacques Le Goff, Henri Pirenni e outros. Só faltou ele dizer que a Revolução Industrial começou nos mosteiros medievais. Ora, Weber não associou a origem do capitalismo ao protestantismo, mas mostrou a diferença entre o ascetismo católico (extramundano) e o protestante (intramundano), demonstrando como a mentalidade deste último foi essencial para o desenvolvimento do comércio e, posteriormente, da indústria. E isso nada tinha a ver com o fato de ele ser protestante ou não gostar do catolicismo. No texto, “Rejeições Religiosas do mundo e suas direções”, Weber retoma o assunto, acrescentando outros elementos importantes, que Nivaldo Cordeiro sequer se deu o trabalho de ler, assim como não leu o capítulo de “Sociologia da Religião” na obra “Economia e Sociedade”, também do Weber. Não é por acaso que as análises de Weber sobre o tema continuam não apenas atuais e insuperadas, como também não houve críticas capazes de mostrar qualquer falsidade nelas.


No parágrafo seguinte ele diz que a Igreja adquiriu uma “herança imperial maldita” de Roma. “Herança maldita?” O uso de tal juízo de valor, depreciativo e absolutamente desnecessário para algo que pretendia ser uma discussão histórica, já é suficiente para despacharmos o texto para o lixo. Aqui ele prova sua falta de seriedade, de distanciamento do objeto, sua ignorância histórica. Ele está analisando a origem do capitalismo não com base numa pesquisa ou discussão teórica, mas com base em seus sentimentos pessoais de aversão ao protestantismo, em seu fanatismo religioso. Ele utiliza autores como Paul Johnson, mas numa apropriação ingênua. Ele quer mostrar que o protestantismo não foi importante para o capitalismo, associando isso à herança clássica apropriada pela Igreja. Trata-se de uma interpretação completamente falsa de Weber e da retomada da herança clássica no Renascimento. Não vou entrar em detalhes sobre Weber porque em minhas publicações já discuti isso. Além disso, há uma farta bibliografia sobre o assunto disponível inclusive na internet que o leitor pode usar para se informar, como os artigos do falecido sociólogo da USP Antonio Flavio Pierucci, um dos principais divulgadores da obra de Weber no Brasil, que ainda ajudou a traduzir e organizou a publicação de  “A Ética Protestante…” para o português para a editora Companhia das Letras. Vale ainda indicar a biografia intelectual de Weber de Reinhard Bendix, uma das melhores já produzidas. A estratégia de Olavo e seguidores é a seguinte: eles pegam alguns autores católicos ou de extrema direita, reafirmam o que eles dizem abrindo mão do diálogo com qualquer outro autor ou vertente, depois posam de grandes intelectuais e sabichões. Se a pessoa não for atenta cai na armadilha porque eles argumentam bem, usam a dialética erística pra enganar os incautos. São pessoas inescrupulosas e que não têm comprometimento com a investigação científica, só com a militância e não se envergonham de fraudar os fatos para se colocarem como arautos da razão.


Uma vez, enquanto apresentava seu programa de rádio True Outspeak, um ouvinte telefonou e perguntou a Olavo o que ele achava da filosofia de Paul Ricoeur. Olavo respondeu diminuindo a importância da obra dele e dizendo que não tiraria três meses de sua vida pra ler Paul Ricoeur. Quem já teve contato com a obra de Ricoeur sabe que foi um dos mais importantes filósofos do século passado, principalmente por seus estudos sobre narrativa histórica e de ficção, hermenêutica e sobre a memória. É muito estranho Olavo ignorar sua obra e se recusar a estudá-la. Mas logo compreendi o porquê: Ricoeur não era um teórico da conspiração nem um militante anti-comunista e, para Olavo, não interessam discussões fora desse campo. Ricoeur era um intelectual cristão de confissão protestante, mas não um extremista. Também me causa muita estranheza o fato de os seguidores de Olavo não perceberem sua desonestidade intelectual: ele se tornou obcecado pra combater o marxismo e faz isso a partir de posturas tacanhas como o fanatismo religioso, facilmente assimilável por jovens com pouca leitura de livros e de mundo.


Muitos outros exemplos poderiam ser citados, mas o que foi exposto já serve como amostra de quem se trata o homem que considera a si mesmo “o maior representante da alta cultura” no Brasil. Olavo de Carvalho não é filósofo, é um tagarela anticomunista, teórico da conspiração, ex-astrólogo revoltado por não ter encontrado espaço na universidade brasileira para suas logomaquias megalomaníacas e obsedado por sua intelectualidade imaginária. Um ogro da extrema direita brasileira.


P.S. 1: Minha divergência com Olavo começou quando ele respondeu a um e-mail de minha autoria em um programa True Outspeak de fevereiro de 2012. Furioso com alguns questionamentos, ele partiu para o ataque pessoal e a difamação. Posteriormente, respondi e refutei cada ponto do vídeo. O leitor pode conferir tudo no texto Olavo de Carvalho e a Pieguice intelectual brasileira.

P.S. 2: Algum tempo depois, Olavo voltou incomodado com meus textos e iniciou nova discussão, dessa vez tomando como foco a participação americana no golpe militar de 1964, novamente lançando mão do insulto e de sórdida argumentação para impressionar seus claques. Mas o astrólogo foi novamente refutado e o leitor pode conferir no texto Resposta a Olavo de Carvalho (em três partes).


P.S. 3.: Se não bastasse ser um vigarista intelectual, Olavo ainda foi acionado judicialmente por estelionato . CLIQUE AQUI e saiba por quê.


P.S. 4: Uma das mentiras mais disseminadas por olavetes é o argumento de que o fascismo e o nazismo foram ideologias e movimentos políticos de esquerda. Por causa das refutações que fiz a Olavo neste blog, vários leitores me mandaram e-mails expressando dúvidas em relação a isso e me pedindo esclarecimentos. Por isso, escrevi um artigo embasado em renomados historiadores para deixar para os leitores como texto propedêutico e como fundamentação. Para compreender por que o nazismo era de direita, leia o texto Socialismo e Nacional-socialismo.


Leia também neste blog:

A Confusão mental dos seguidores de Olavo de Carvalho

Fascismo e Comunismo: resposta a um blogueiro histérico

Um perfil de Olavo de Carvalho

Olavo de Carvalho faz apologia ao crime e à ditadura militar na internet.

Outros textos sobre o assunto podem ser acessados no Tema “Olavo de Carvalho”, no menu do blog.




https://bertonesousa.wordpress.com/2012/10/28/olavo-de-carvalho-um-filosofo-para-racistas-e-idiotas/comment-page-1/


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Laicismo, Política e Economia / Re:Os estragos do chavismo na Venezuela
« Última Mensagem: por El Elyon Online Ontem às 22:29:14 »
Citação de: -Huxley-
Eu acrescentaria outro fato estranho e notável. Essa propagação da versão "coxinha" da história acerca da crise na Venezuela tem cúmplices na militância partidária e mídia de extrema esquerda, justamente aqueles que tem bom acesso aos "blogs independentes de esquerda que desmascaram o imperialismo estadunidense". Gente do PSOL-RJ e da Carta Capital:

Não tão estranho - o da Carta Capital é uma tradução de um artigo do Deutsche Welle, na qual eles provavelmente tem alguma parceria - além disso, tais instituições não são blocos monolíticos e não tem leitores apenas de um segmento específico da Esquerda Brasileira.
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