Autor Tópico: Quem gosta de poesia?  (Lida 34939 vezes)

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Offline Südenbauer

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Re: Quem gosta de poesia?
« Resposta #50 Online: 09 de Outubro de 2006, 02:55:07 »
 ;P

Offline Quereu

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Re: Quem gosta de poesia?
« Resposta #51 Online: 10 de Outubro de 2006, 13:04:28 »
Versos íntimos

Augusto dos Anjos



Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro da tua última quimera.
Somente a ingratidão -- essa pantera --
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-se à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!
A Irlanda é uma porca gorda que come toda a sua cria - James Joyce em O Retrato do Artista Quando Jovem

Offline Quereu

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Re: Quem gosta de poesia?
« Resposta #52 Online: 13 de Outubro de 2006, 11:00:58 »
Poemastro em Louvor da Altaneria Nacional


Nossas campanhas   são populares
Nossas seguranças   são sociais
Nossos transportes   são de massa
Nossas iniciativas
   são privadas
Nossas sociedades   são anônimas
Nossas informações   são sigilosas
Nosso sistema é   pluripartido
Nossa democracia é   cardiovascular
E nossas empresas   são todas Brás.

Millôr
A Irlanda é uma porca gorda que come toda a sua cria - James Joyce em O Retrato do Artista Quando Jovem

Offline Ego

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Re: Quem gosta de poesia?
« Resposta #53 Online: 19 de Outubro de 2006, 19:38:04 »
Eu não li todo o tópico, mas respondendo a pergunta: gosto muito de poesia.

Sabe, já li muitos livros de auto-ajuda, outros livros que queriam explicar o sentido da vida, o amor e etc. Mas, não achei nada mais eficaz que a poesia. As vezes a poesia diz tudo que você não sabe dizer e te faz evoluir.

Também faço muita poesia. E sabe, minha vida fica otimizada com poesia.
Visite meu blog, "Fat Free: A Vida Com Um Exaustor":

http://fatfree.jubiiblog.co.uk/



Quero práticar o cérebro.

Offline Quereu

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Re: Quem gosta de poesia?
« Resposta #54 Online: 21 de Outubro de 2006, 18:26:56 »
Antifamília

Affonso Ávila

"... o inveterado costume da sensualidade destas Minas."

Dom Frei Antônio de Gaudalupe
(determinação pastoral de 2 de dezembro de 1726)
       


Com seus responsos
          (com seus esconsos
de missa e beatismo
          de omisso batismo
de sons velados e glórias
          de sonegada história
as filhas de Maria
          os filhos de Marília)


Com seus brasões
           com seus bastardos
de terras e de franquias
           de secreta família
de empáfia e de ancestrais
           de ímpia mancebia
o pai dos Melo franco
           o padre Melo Franco)


Com seu morgadio
           (com seu moradio
de alta e ornada homilia
           de alternada comida
de reses e armada fama
           de revesada cama
o ar másculo de Joaquina
           os amásios de Joaquina)


Com sua reação
           (com suas relações
de perverso sarcasmo
           de controverso caso
de cínico escravismo
           de insinuado vício
o cérebro ágil de Vasconcelos
           o celibato de Vasconcelos)


Com sua docência
           (com sua ciência
de versados políticos
           de versáteis polacas
de óbvios humoristas
           de hábeis humanistas
as academias do Olimpo
           o cabaré da Olympia)


Com sua astúcias
            (com suas estufas
de espórtulas á Virgem
            de espoliadas virgens
de preço a cada homem
            de pregustados hímens
os votos de Luciano
            os ócios de Luciano)


Com sua fala-cívica
             (com sua lascívia
de metáforas e unguento
             de amestradas línguas
de arquicifras e ênfase
             de reversíveis fêmeas
a demagogia do presidente
             as orgias do presidente)


Com suas bandinhas
             (com suas blandícias
de aplausos e votos
             de falseada voz
de súplicas e séquito
             de suspeitoso sexo
os êfemeros ministros
             os efebos do ministro)


Com suas poses
              (com suas apostas
de pai-da-pátria
              de páreo a páreo
de cavaleiro-do-mérito
              de caviloso método
a roupa preta do senador
              a roleta do senador)


Com sua retórica
              (com suas retortas
de diz-que de urge-que
              de uísque e uísque
de eis-que e pois-que
              de uísque e uísque
o ar degas do deputado
              as adegas do deputado)


Com sua crosta
             (com sua crônica
de cera e diamantes
             de seriados amantes
de recintos balofos
             de reincidentes abortos
as deselegantes senhoras
             as deizmaiselegantes senhoras)


Com seus opostos
             (com seus opróbrios
de usura e abuso
             de usurário abuso
de clausura e uso
             de enclausurado uso
a família mineira
             a antifamília mineira)
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Offline Nyx

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Re: Quem gosta de poesia?
« Resposta #55 Online: 22 de Outubro de 2006, 15:13:17 »
Máscaras secretas

Ah, se as paredes falassem!
Revelariam faces ocultas
Quantas máscaras cairiam?
Quantos hipócritas calariam?
Será que seriamos os mesmos?

Ps: Não lembro o autor  :'(, mas eu gostaria de ter escrito  :ok:
www.bemviveronline.com

o/ o site do Thuuuuuuupac, dêeem uma força aí.

Offline Quereu

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Re: Quem gosta de poesia?
« Resposta #56 Online: 22 de Outubro de 2006, 19:20:36 »
E ela me beijou com os beijos de sua boca, e os seus amores foram mais deliciosos do que o vinho e ao olfato eram deliciosos os seus perfumes, e era belo o seu pescoço entre as pérolas e sua faces entre os pingentes, como és bela, amada minha, como és bela, os teus olhos são pomba (eu dizia), e deixa-me ver a tua face, deixa-me ouvir a tua voz, pois a tua voz é harmoniosa e a tua face encantadora, deixaste-me louco de amor, minha irmã, deixaste-me louco com um olhar teu, com um único adereço do teu pescoço, favo gotejante são os teus lábios, leite e mel são a tua língua, o perfume do teu hálito é como o dos pomos, os teus seios em cachos, os teus seios como cachos de uva, o teu palato um vinho precioso que atinge diretamente o meu amor e flui nos lábios e nos dentes... Fonte do jardim, nardo e açafrão, canela e cinamomo, mirra e aloés, eu comia o meu favo e o meu mel, bebia o meu vinho e o meu leite, quem era ela, que se erguia como a aurora, bela como a lua, fúlgida como o sol, terrível como colunas vexilárias?

Trecho de "O nome da rosa" de Umberto Eco
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Offline Nyx

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Re: Quem gosta de poesia?
« Resposta #57 Online: 22 de Outubro de 2006, 19:52:12 »
Bomba suicida
Gente sem rumo
Almas perdidas
Boca de fumo
Palmas sem vida
É o mundo,
em resumo.

No nome  :vergonha:
No autor  :oops:
www.bemviveronline.com

o/ o site do Thuuuuuuupac, dêeem uma força aí.

Offline Eremita

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Re: Quem gosta de poesia?
« Resposta #58 Online: 22 de Outubro de 2006, 22:52:42 »
Sou uma sombra! Venho de outras eras,
Do cosmopolitismo das moneras!
Pólipo de recônditas reentrâncias,
Larva de caos telúrico, procedo
Da escuridão do cósmico segredo,
Da substância de todas as substâncias!
Augusto dos Anjos, Monólogo de uma Sombra (só copiei 1 de 31 estrofes)



Amo o pedaço de terra que tu és,
porque das campinas planetárias
outra estrela não tenho. Tu repetes
a multiplicação do universo.

Teus amplos olhos são a luz que tenho
das constelações derrotadas,
tua pele palpita como os caminhos
que percorre na chuva o meteoro.

De tanta lua foram para mim tus quadris,
de todo o sol tua boca profunda e sua delícia,
de tanta luz ardente como mel na sombra

teu coração queimado por longos raios rubros,
e assim percorro o fogo de tua forma beijando-te,
pequena e planetária, pomba e geografia.
Pablo Neruda, sem nome



Sou como o rei sombrio de um país chuvoso,
Rico, mas incapaz, moço e no entanto idoso,
Que, desprezando do vassalo a cortesia,
Entre seus cães e os outros bichos se entedia.
Nada o pode alegrar, nem caça, nem falção,
Nem seu povo a morrer defronte do balcão.
Do jogral favorito a estrofe irreverente
Não mais desfranze o cenho deste cruel doente.
Em tumba se transforma o seu florido leito,
E as aias, que acham todo príncipe perfeito,
Não sabem mais que traje erótico vestir
Para fazer este esqueleto enfim sorrir.
O sábio que ouro lhe fabrica desconhece
Como extirpar-lhe ao ser a parte que apodrece,
E nem nos tais banhos de sangue dos romanos,
De que se lembram na velhice os soberanos,
Pôde dar vida a esta carcaça, onde, em filetes,
Em vez de sangue flui a verde água do Letes.
Baudelaire, Spleen (parte LXXVII)

Se vocês forem legais e prometerem sinceridade nas opiniões, posto uma das minhas ;)
Monoteísmo é a hidra de Lerna. Con Kolivas estava certo sobre o desktop. Prozac não deixa tudo melhor. Aquiles devia ter escolhido os dois destinos, juntos. Coração sentimental + mente cética = aflição. Sou responsável pelo que digo, não pela sua interpretação sobre o que digo.

Offline Südenbauer

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Re: Quem gosta de poesia?
« Resposta #59 Online: 24 de Outubro de 2006, 23:38:05 »
Em um tópico sobre poesia não poderia faltar:

Tabacaria

Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)

    Não sou nada.
    Nunca serei nada.
    Não posso querer ser nada.
    À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.


    Janelas do meu quarto,
    Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
    (E se soubessem quem é, o que saberiam?),
    Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
    Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
    Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
    Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
    Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
    Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.


    Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
    Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
    E não tivesse mais irmandade com as coisas
    Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
    A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
    De dentro da minha cabeça,
    E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.


    Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu.
    Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
    À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
    E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.


    Falhei em tudo.
    Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
    A aprendizagem que me deram,
    Desci dela pela janela das traseiras da casa,
    Fui até ao campo com grandes propósitos.
    Mas lá encontrei só ervas e árvores,
    E quando havia gente era igual à outra.
    Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?


    Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
    Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
    E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
    Génio? Neste momento
    Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,
    E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
    Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
    Não, não creio em mim.
    Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
    Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
    Não, nem em mim...
    Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
    Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?
    Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
    Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
    E quem sabe se realizáveis,
    Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
    O mundo é para quem nasce para o conquistar
    E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
    Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
    Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
    Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
    Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
    Ainda que não more nela;
    Serei sempre o que não nasceu para isso;
    Serei sempre só o que tinha qualidades;
    Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta
    E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
    E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
    Crer em mim? Não, nem em nada.
    Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
    O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
    E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
    Escravos cardíacos das estrelas,
    Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
    Mas acordámos e ele é opaco,
    Levantámo-nos e ele é alheio,
    Saímos de casa e ele é a terra inteira,
    Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.


    (Come chocolates, pequena;
    Come chocolates!
    Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
    Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
    Come, pequena suja, come!
    Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
    Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folhas de estanho,
    Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)


    Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
    A caligrafia rápida destes versos,
    Pórtico partido para o Impossível.
    Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
    Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
    A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas,
    E fico em casa sem camisa.


    (Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas,
    Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
    Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
    Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
    Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
    Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
    Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -,
    Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
    Meu coração é um balde despejado.
    Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
    A mim mesmo e não encontro nada.
    Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
    Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
    Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
    Vejo os cães que também existem,
    E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
    E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)


    Vivi, estudei, amei, e até cri,
    E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
    Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
    E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
    (Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
    Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
    E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.


    Fiz de mim o que não soube,
    E o que podia fazer de mim não o fiz.
    O dominó que vesti era errado.
    Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
    Quando quis tirar a máscara,
    Estava pegada à cara.
    Quando a tirei e me vi ao espelho,
    Já tinha envelhecido.
    Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
    Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
    Como um cão tolerado pela gerência
    Por ser inofensivo
    E vou escrever esta história para provar que sou sublime.


    Essência musical dos meus versos inúteis,
    Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse,
    E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
    Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
    Como um tapete em que um bêbado tropeça
    Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.


    Mas o dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
    Olhou-o com o desconforto da cabeça mal voltada
    E com o desconforto da alma mal-entendendo.
    Ele morrerá e eu morrerei.
    Ele deixará a tabuleta, e eu deixarei versos.
    A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
    Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
    E a língua em que foram escritos os versos.
    Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
    Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
    Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
    Sempre uma coisa defronte da outra,
    Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
    Sempre o impossível tão estúpido como o real,
    Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
    Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.


    Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?),
    E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
    Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
    E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.


    Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
    E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
    Sigo o fumo como uma rota própria,
    E gozo, num momento sensitivo e competente,
    A libertação de todas as especulações
    E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.


    Depois deito-me para trás na cadeira
    E continuo fumando.
    Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.


    (Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
    Talvez fosse feliz.)
    Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.


    O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
    Ah, conheço-o: é o Esteves sem metafísica.
    (O dono da Tabacaria chegou à porta.)
    Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
    Acenou-me adeus gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
    Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da Tabacaria sorriu.


Offline Südenbauer

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Re: Quem gosta de poesia?
« Resposta #60 Online: 24 de Outubro de 2006, 23:40:36 »
Ah, recomendo o áudio em que o Antônio Abujamra recita esse poema.

Offline Alegra

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Re: Quem gosta de poesia?
« Resposta #61 Online: 28 de Outubro de 2006, 15:22:50 »
Gosto muito.
E particularmente deste poema.

 :cavalheiro:

CIDADANIA
(ao Fausto Boavida)

a decisão tem a sofrença cáustica da volúpia
a guerra       um beijo          e dois amores
uma pessoa nasce e começa logo a doer-lhe tudo
só depois é que se sabe
o que vale a pena
o que val-de-vinos
o que val-passos
o que val-de-caixa
o que val-de-lobos
o que val-do rio
o que vale da morte
o que vale nada
o que vale tudo
o que val'a vida
o que vale de besteiros
o que val-ido
o que val-ente
o que val-então
o que val-perdido
...então a sociedade toma conta da gente
ganha-se dinheiro para comprar comida
respira-se com direito a voto          independente
uma pessoa renasce e recomeça a doer-lhe tudo


De José Luis Ferreira ( do livro de sua autoria "Construção Civil") dedicado ao meu sogro que era artista plástico, lisboeta e morreu "prematuramente" em 1973 em Lisboa.
Já sinto sua falta. Vá em paz meu lindo!

Offline Quereu

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Re: Quem gosta de poesia?
« Resposta #62 Online: 29 de Outubro de 2006, 02:58:10 »
A bunda, que engraçada

Carlos Drummond de Andrade
[/i]


A bunda, que engraçada.
Está sempre sorrindo, nunca é trágica.

Não lhe importa o que vai
pela frente do corpo. A bunda basta-se.
Existe algo mais? Talvez os seios.
Ora -- murmura a bunda -- esses garotos
ainda lhes falta muito que estudar.

A bunda são duas luas gêmeas
em rotundo meneio. Anda por si
em cadência mimosa, no milagre
de ser duas em uma, plenamente.

A bunda se diverte
por conta própria. E ama.
Na cama agita-se. Montanhas
avolumam-se, descem. Ondas batendo
numa praia infinita.

Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz
na carícia de ser e balançar.
Esferas hormoniosas sobre o caos.

A bunda é a bunda,
redunda.
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Offline Atomic Garden

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Re: Quem gosta de poesia?
« Resposta #63 Online: 29 de Outubro de 2006, 04:52:27 »
Ah, recomendo o áudio em que o Antônio Abujamra recita esse poema.

Não conheço esse cara, mas ouvir Tabacaria recitada deve arrepiar completamente. Minha poesia preferida! Passe para mim no MSN se lembrar.

Aliás, tenho umas poesias escritas aqui (não zoem):

Do silêncio

O som que escoa pela janela
incita-me asco, fúria, tristeza
invade o meu quarto escuro lentamente
e abafa meus gritos antes mesmo de saírem da minha boca

O som, confunde-se entre motores, vozes, movimento e quedas
não respeita a privacidade alheia
trata minha solidão com indiferença
e nem ao menos nota as lágrimas no travesseiro
 
O som, cuja fonte não me é estranha
ultrapassou as barreiras da minha infelicidade
e expulsou meu mundo a bofetões

O som, é onipresente
possui músicos displicentes
e instrumentos desafinados


Offline Südenbauer

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Re: Quem gosta de poesia?
« Resposta #64 Online: 29 de Outubro de 2006, 14:30:03 »
Quando eu consegui entrar no MSN eu te passo o áudio.

Offline Quereu

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Re: Quem gosta de poesia?
« Resposta #65 Online: 31 de Outubro de 2006, 10:50:03 »
Sinto vergonha de mim!

Ruy Barbosa
"Por ter sido educador de parte desse povo,
por ter batalhado sempre pela justiça,
por compactuar com a honestidade,
por primar pela verdade
e por ver este povo já chamado varonil
enveredar pelo caminho da desonra.

Sinto vergonha de mim
por ter feito parte de uma era
Que lutou pela democracia,
pela liberdade de ser
e ter que entregar aos meus filhos,
simples e abominavelmente,
a derrota das virtudes pelos vícios,
a ausência da sensatez
no julgamento da verdade,
a negligência com a família,
célula-mater da sociedade,
a demasiada preocupação
com o "eu" feliz a qualquer custo,
buscando a tal "felicidade"
em caminhos eivados de desrespeito
para com o seu próximo.

Tenho vergonha de mim
pela passividade em ouvir,
sem despejar meu verbo,
a tantas desculpas ditadas
pelo orgulho e vaidade,
a tanta falta de humildade
para reconhecer um erro cometido,
a tantos "floreios" para justificar
atos criminosos,
a tanta relutância
em esquecer a antiga posição
de sempre "contestar",
voltar atrás
e mudar o futuro.

'Tenho vergonha de mim
pois faço parte de um povo
que não reconheço,
enveredando por caminhos
que não quero percorrer...

Tenho vergonha da minha impotência,
da minha falta de garra,
das minhas desilusões
e do meu cansaço.
Não tenho para onde ir
pois amo este meu chão,
vibro ao ouvir meu Hino
e jamais usei a minha Bandeira
para enxugar o meu suor
ou enrolar meu corpo
na pecaminosa manifestação de nacionalidade.

Ao lado da vergonha de mim,
tenho tanta pena de ti, povo brasileiro!
De tanto ver triunfar as nulidades,
de tanto ver prosperar a desonra,
de tanto ver crescer a injustiça,
de tanto ver agigantarem-se os poderes
nas mãos dos maus,
o homem chega a desanimar da virtude,
a rir-se da honra,
a ter vergonha de ser honesto".

A Irlanda é uma porca gorda que come toda a sua cria - James Joyce em O Retrato do Artista Quando Jovem

Offline Quereu

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Re: Quem gosta de poesia?
« Resposta #66 Online: 02 de Novembro de 2006, 17:36:43 »
Argumento
Franscisco Alvim

Mas se todos fazem
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Offline Clarice

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Re: Quem gosta de poesia?
« Resposta #67 Online: 03 de Novembro de 2006, 21:22:52 »

Este aqui foi um devaneio meu para uma historinha que estou escrevendo:

EU, VAMPIRO

“Penso, logo, existo!”
Sofisma! Zotismo! Bobagem!
Nada sou, mas estou nisto
Puro instinto de voragem
Sensível e Indiferente: Misto
Sangue quente é meu apisto
Mitológico personagem
Penso sim, mas sou miragem…

Enquanto vivo, busquei-a incansável
Bela e irresistível figura feminina
Capturei-a, fera linda, indomável
Seria o fim daquela rotina
Não fosse seu poder inenarrável
De sedução; tornou-me vulnerável
Dominou-me rápida, à surdina
Desviando-se, assim, de sua sina

Na promessa de ser eterno
Entreguei minh’alma à morte
Sua destra em meu esterno
Sua arcada mostrou porte
Hauriu meu sangue, sugar terno
Boca gélida qual ártico inverno
Cobrou, destarte, o caro importe
Entregando-me a esta sorte

Não mais sinto das rosas o perfume
Por minhas narinas não entra mais ar
Meu coração não possui acume
Está cada dia a atrofiar
Tornei-me de mim mesmo nume,
Mas, nada além me vem a lume
De uma sede mórbida saciar
E esta sede poder controlar

Poder sonhar é meu aloite
Posto que só almejo a cor berne
Quando me acorda a sonoite
Todos me negam, até o verme
Perpétuo recluso nas muralhas da noite
Assim, porque o Sol, pior que açoite
Aniquilar-me-ia, todo meu cerne
Após ter consumido minha derme

Sinto falta de sentimento
De como eu era antes de morrer
Mesmo que só por um momento
Eu gostaria poder renascer
Ter de novo amor, de volta alento
Não mais olhar como alimento
Aquelas que, antes de eu perecer,
Eram a razão do meu viver

 ::)
Ameeeeiii!!!!!!!
Linda! Inteligente!
Parabens!
 :oba:
Bravo! :clapping:
Nossa! me emocionei demais! :oops:
"Se o cerebro humano fosse simples o suficiente para que pudessemos entende-lo, seriamos tao burros que nao o entenderiamos!"

Offline Clarice

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Re: Quem gosta de poesia?
« Resposta #68 Online: 03 de Novembro de 2006, 21:27:07 »
Poeminha do Contra



Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão...
Eu passarinho!


Mario Quintana...

 :)
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Offline Quereu

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Re: Quem gosta de poesia?
« Resposta #69 Online: 05 de Novembro de 2006, 04:21:31 »
Soneto futebolístico

Glauco Mattoso



Machismo é futebol e amor aos pés.
São machos adorando pés de macho,
e nesse mundo mágico me acho
em meio aos fãs de alguma camisa dez.

Invejo os massagistas dos Pelés
nos lúdicos momentos de relaxo,
servido-lhes de chanca e de capacho,
levando a língua ali, do chão ao rés.

É lógico que um cego como eu
não pode convocar o titular
dum time brasileiro ou europeu.

Contento-me em chupar o polegar
do pé de quem ainda não venceu
sequer a mais local preliminar.
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Offline Fabulous

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Re: Quem gosta de poesia?
« Resposta #70 Online: 05 de Novembro de 2006, 21:32:13 »
Nunca gostei de poesias, para mim são simplesmente textos com junções de palavras combinativas e não utilizadas normalmente, sinceramente é um saco. Desculpem minha ignorância.
MSN: fabulous3700@hotmail.com

Offline Rodion

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Re: Quem gosta de poesia?
« Resposta #71 Online: 05 de Novembro de 2006, 21:34:53 »
gosto é gosto... eu gosto de uma ou outra, só; partido do pressuposto de que a única função aceitável para a poesia é externar o que quer que esteja angustiando, querendo ser posto pra fora, não vejo necessidade de capricho, e poesia tem muito de capricho. prefiro a prosa....
"Notai, vós homens de ação orgulhosos, não sois senão os instrumentos inconscientes dos homens de pensamento, que na quietude humilde traçaram freqüentemente vossos planos de ação mais definidos." heinrich heine

Offline Südenbauer

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Re: Quem gosta de poesia?
« Resposta #72 Online: 07 de Novembro de 2006, 00:13:56 »
Bilhete

Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda...

 Mário Quintana

Offline Quereu

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Re: Quem gosta de poesia?
« Resposta #73 Online: 07 de Novembro de 2006, 04:31:34 »
Nunca gostei de poesias, para mim são simplesmente textos com junções de palavras combinativas e não utilizadas normalmente, sinceramente é um saco. Desculpem minha ignorância.

A poesia é a mais alta forma de expressão artística onde as idéias podem ser expressadas com extrema economia de recursos.

Poeminha do Contra



Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão...
Eu passarinho!


Mario Quintana...

 :)


Veja o que diz esse poema. Ele brinca com o duplo sentido da palavra "passarão" e a opõe com a palavra "passarinho". O chiste nasce quase sempre dos trocadilhos quando as palavras adquirem significados inesperados. O verbo "passarão" virou o substantivo "pássaro grande" que se revelou quando surgiu a palavra "passarinho". Mas mais que um contraposição de palavras contrapuseram-se as idéias -- "passarão", os inimigos do poeta, aqueles que lhe causam adversidades, que o toldam, que o prendem, porque são grandes e poderosos, a esses o poeta se revela "passarinho", usa a imagem do passarinho, livre, ágil, e leve. Os grandes passarão e ele, pequenino, continuará. O poeta se identifica com os pequenos, se crê um deles, com os destituídos de poder e força. A antítese do grande e do pequeno, a luta pelo poder e liberdade.

Quão poucas palavras e tantos símbolos -- é a arte da poesia
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Offline Quereu

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Re: Quem gosta de poesia?
« Resposta #74 Online: 12 de Novembro de 2006, 10:43:19 »
O "adeus" de Teresa


Castro Alves
[/i]


A primeira vez que vi Teresa,
Como as plantas que arrasta a correnteza,
A valsa nos levou nos giros seus...
E amamos juntos... E depois na sala
"Adeus" eu disse-lhe a tremer co'a fala...

E ela, corando, murmurou-me: "adeus".]

Uma noite... entreabriu-se um reposteiro...
E da alcova saía um cavaleiro
Ida beijando uma mulher sem véus...
Era eu... Era a pálida Teresa!
"Adeus" lhe disse conservando-a presa...

E ela entre beijos murmurou-me "adeus"!

Passaram tempos... séc'los de delírio
Prazeres divinais... gozos do Empíreo...
... Mas um dia volvi aos lares meus.
Partindo eu disse -- "Voltarei!... descansa!..."
Ela, chorando mais que uma criança,

Ela em soluços murmurou-me: "adeus"!

Quando voltei... era o palácio em festa!...
E a voz d'Ela e de um homem lá na orquestra
Preenchiam de amor o azul dos céus.
Entrei!... Ela me olhou branca... surpresa!
Foi a última vez que eu vi Teresa!...

E ela arquejando murmurou-me: "adeus!"
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