Autor Tópico: A Negação da Tragédia  (Lida 1631 vezes)

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Offline Res Cogitans

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A Negação da Tragédia
« Online: 08 de Julho de 2005, 00:30:24 »
A Negação da Tragédia: A Tentação de Acusar

Robert Solomon (filósofo) em "Espiritualidade para Céticos"

“Merda acontece”, diz um dos mais perpétuos e conhecidos slogans estampados em camisetas e pára-choques entre a moçada da high school e dos primeiros anos de faculdade. Afora a vulgaridade, ele é chocante por ser tão óbvia, inegável, inevitavelmente verdadeiro. No entanto, essa compreensão desmorona quando a merda realmente acontece. A tragédia é negada – até por aqueles que têm (com relação a si mesmos) uma noção muito fraca ou até insignificante de responsabilidade pessoal- procurando-se alguém para acusar. A tragédia simplesmente não acontece, em outras palavras. Ela é ocasionada, é produto de ação, e alguém, ou alguma coisa, deve ser considerado responsável.

A negação da tragédia começa numa tese filosófica aparentemente inocente: Tudo que acontece, acontece por uma razão. Voltando a Aristóteles, essa noção de razão (ou causa) deve ser entendida em última análise em termos de intenções, propósitos, teleologia (de telos, finalidade). De maneira mais imediata, procuramos alguém, alguém responsável ou, como pode ser o caso, irresponsável: o motorista, o fabricante, o médico ou o hospital, os pais. Ou, um pouquinho menos diretamente, acusamos a instituição, a constituição, o país, a cultura. Personificamos a natureza, criando assim alguém que pode ser responsabilizado. (Os chineses ainda se referem a terremotos como “a ira da terra”. Evolucionistas de segunda categoria ou criacionistas transigentes ainda falam sobre a seleção natural como se fosse um processo funcional e inteligente.) E, é claro, personificamos máquinas – chutando nossos carros, esbofeteando nossos computadores. Em desespero, culpamos “o sistema”. Mas se nada mais tangível se apresenta como candidato mais plausível, há sempre Deus.

Desastres naturais são reveladoramente identificados como “atos de Deus”. Até pessoas que nunca pensam em agradecer a Deus ou dar-Lhe crédito por suas realizações parecem não hesitar em culpá-Lo por seus infortúnios. “É a vontade de Deus” é um resumo de múltiplas finalidades de uma filosofia que se recusa a aceitar a tragédia e insiste na racionalização. Mesmo sem esse apelo divino, procuramos o bem, a razão, em tudo. Aqui, poderíamos dizer, é a razão que é irracional. Editamos nossas narrativas em conformidade com nossa noção de como as coisas deveriam ser. E onde não conseguimos encontrar um propósito, inventamos o nosso. Perdas são “experiências de aprendizado” e uma morte na família “ensina uma lição a todos nós”.

Teóricos da conspiração, trabalhando no lado mais escuro do raciocínio, vão sempre insistir num réu: alguma cabala secreta, o comunismo, o Departamento de Defesa, a Máfia, os banqueiros internacionais, os judeus, os árabes, o capitalismo, o patriarcado masculino, a CIA, ou o favorito absoluto, visitantes extraterrestres vindo do espaço exterior. “Circunstancial” é algo que não existe nessa concepção. A acusação deve cair sobre qualquer alvo fácil de suspeita ou crítica que se apresente e que poderia simplesmente ter um motivo, se não os meios, para levar a coisa a cabo. Poderíamos dizer que os teóricos da conspiração são pessoas com imaginações hiperativas mas faculdades críticas limitadas. Tudo que acontece, eles acreditam também, acontece por uma razão. Por acaso se trata de uma razão malévola, algo para inspirar não nossa gratidão ou nossa adoração mas nosso medo, aversão e ódio. Não obstante, a lógica é a mesma.

Segundo a “responsabilidade estrita”, culpa e responsabilidade parecem andar separadas. Pode-se ser considerado responsável na ausência de qualquer tipo de culpa. A posição de praxe aqui é que não pode haver acidentes no sentido literal, isto é, acontecimentos sem uma causa, um agente e uma finalidade, sem que haja alguém a acusar. A dimensão prática dessa posição nos Estados unidos envolve, segundo estimativas, US$ 300 bilhões por ano. É a permanente crise dano-responsabilidade, que é, numa síntese filosófica, nossa insistência em culpar outrem por nossos infortúnios, por vezes sem ligação com qualquer noção razoável de transgressão, e exigir compensação (“justiça”) em troca. O que se perde, além de bilhões de dólares, milhões de horas nos tribunais e ansiedade, é toda a noção da vida trágica. Um prejuízo nunca é apenas um prejuízo. Transforma-se rapidamente em litígio. “Alguém vai pagar por isto!”.

O Problema do dano-responsabilidade revela um outro feio aspecto da negação da tragédia, que está ligada na insistência em culpar –isto é, culpar, outrem. É o fenômeno do direito. Há uma ironia aqui, para não mencionar uma espécie de incoerência radical. Acusamos outros prontamente por nossos infortúnios, mas com a mesma facilidade negamos nossa própria responsabilidade, tanto por nossos infortúnios quanto pelo que infligimos a outrem, direta ou indiretamente. Quando sofremos, nossos sofrimentos não são responsabilidade nossa, e por isso merecemos compensação. Quando se revela que a culpa cabe a nós, há sempre circunstâncias atenuantes, desculpas a serem dadas, e uma outra pessoa que é realmente responsável.

A suposição subjacente é que temos direito a uma vida boa, uma vida feliz, saudável, confortável. (Mesmo a Declaração de Independência afirma apenas que temos direito à busca da felicidade.) Se não conseguimos encontrar esta felicidade, então alguém mais deve ser o culpado. No caso de um acidente ou (nos dias de hoje) até uma doença, deve haver alguma pessoa ou alguma organização que possa ser apontada como nos tendo privado da boa vida que merecemos, e que ele, ela ou a organização nos deve. A lógica de tais reivindicações revela-se nos termos chave merecimento, direito, compensação e dívida. Essa pode ser a linguagem da justiça, mas não é a linguagem da tragédia.

No quadro gral, nenhum de nós tem direito a coisa alguma, muito menos à felicidade. Isso não significa o que é muito diferente, que não valha a pena ter e promover a felicidade. Mas significa que a linguagem da justiça perde seu lugar em face as questões mais amplas da tragédia, e a tragédia, não a justiça, é o desfecho final da vida.

Contudo a idéia de compensação custa a morrer conosco, mesmo – especialmente- nas circunstâncias de uma tragédia. Uma pessoa mutilada em um acidente de carro naturalmente processa o outro motorista, mesmo que tenha ocorrido, literalmente, um acidente, (Ninguém estava bêbado, foi imprudente ou notavelmente desatento.) como um caso de engenharia social- um instrumento para assegurar que os gravemente incapacitados tenham meios de ajuda financeira- a meta é indiscutível, ainda que o mecanismo seja ineficaz. Mas não é isso que acontece aqui. A idéia de que se poderia simplesmente ter má sorte não nos convém. Embora achemos melhor ter má sorte a ser responsáveis por nossos próprios infortúnios, ainda preferiríamos de longe acusar outrem. E se eles também simplesmente tiverem tido má sorte? Bem, nesse caso podem com certeza pagar por isso. Caso aconteça de “eles” ser uma empresa ou um profissional que tenha tido sorte o bastante para lucrar com o produto ou a prática envolvida, tanto melhor. Como dizia Platão, cada cidadão merece o que lhe é devido, ou pelo menos o seu dia de tribunal.

Algumas coisas estão sob nosso controle, e essa é a esfera própria da justiça. Vivemos com outras pessoas numa sociedade tal que elas podem ser responsabilizadas pelo que fazem. Nesse contexto social, temos o direito de nos sentir ofendidos, irados, ressentidos e até vingativos quando eles nos ludibriam. Mas também vivemos em um universo indiferente e por vezes somos confrontados por ele. Esse é um contexto muito diferente. Dizemos que a natureza nos engana, mas nos damos conta de que passamos para a terra da metáfora. A natureza não engana. Não há ninguém a quem acusar. Até os mais piedosos reconhecem que alguns atos de deus não são atos de Deus. Na pior das hipóteses, são omissões de Deus, ainda censuráveis ou teologicamente desconcertantes, mas não danos diretos pelos quais se esperam razões ou uma explicação próxima. Não é claro, portanto, a quem poderíamos culpar ou a que teríamos direito.

A tragédia é real e, por sua própria natureza, não pode ser explicada. Assim, espiritualmente, ela envolve o encontrar ou dar sentido ao que não pode ser explicado ou justificado. Apesar disso, recusamos obstinadamente essa sugestão e insistimos em explicações, quando não em justificações, em alguém em quem lançar a culpa. Mas aqui nossa tão acalentada racionalidade mostra um de seus aspectos mais embaraçosos: nossa capacidade de racionalizar e a propensão a fazê-lo. Como Nietzsche disse, um universo que é explicado mesmo com más razões é melhor que um sem explicação nenhuma. Em face da tragédia, porém, mesmo as explicações mais ambiciosas acabam se revelando não mais que negação, uma recusa a aceitar os duros fatos da vida.
"Conhecer a verdade não é o mesmo que amá-la, e amar a verdade não equivale a deleitar-se com ela" Confúcio

Offline Südenbauer

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Re.: A Negação da Tragédia
« Resposta #1 Online: 08 de Julho de 2005, 13:40:26 »
Ótimo texto. :ok:

Offline Res Cogitans

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Re: Re.: A Negação da Tragédia
« Resposta #2 Online: 09 de Julho de 2005, 15:42:48 »
Citação de: Fernando
Ótimo texto. :ok:


Ufa, pensei que ninguém tinha lido.
"Conhecer a verdade não é o mesmo que amá-la, e amar a verdade não equivale a deleitar-se com ela" Confúcio

Offline Rodion

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Re.: A Negação da Tragédia
« Resposta #3 Online: 09 de Julho de 2005, 17:49:46 »
eu li, mas eu sempre faço uns comentários tipo esse o do fernando. só que cansei hehe
não tenho muito o que comentar...
"Notai, vós homens de ação orgulhosos, não sois senão os instrumentos inconscientes dos homens de pensamento, que na quietude humilde traçaram freqüentemente vossos planos de ação mais definidos." heinrich heine

Offline Hugo

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A Negação da Tragédia
« Resposta #4 Online: 09 de Julho de 2005, 18:13:08 »
Detesto ler no vídeo. Vou imprimir e depois leio...
"O medo de coisas invisíveis é a semente natural daquilo que todo mundo, em seu íntimo, chama de religião". (Thomas Hobbes, Leviatã)

Offline Quasar

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Re.: A Negação da Tragédia
« Resposta #5 Online: 09 de Julho de 2005, 19:40:18 »
É, bom mesmo.
"Assim como são as pessoas, são as criaturas" -  Didi Mocó

Offline Res Cogitans

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Re.: A Negação da Tragédia
« Resposta #6 Online: 09 de Julho de 2005, 21:55:39 »


é uma leitura interessante.
"Conhecer a verdade não é o mesmo que amá-la, e amar a verdade não equivale a deleitar-se com ela" Confúcio

 

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