Autor Tópico: Descoberto fóssil de baleia gigantesca  (Lida 1010 vezes)

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Offline Lion

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Descoberto fóssil de baleia gigantesca
« Online: 04 de Julho de 2010, 18:51:28 »
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Você ainda tem alguma ilusão como o mundo antigamente era tranquilo de se viver e o bicho-homem é o único a colocar medo em todo mundo, recentemente? Com certeza você não viveu no tempo de Leviatã, que longe de ser um ser mitológico, era bem real. E malvado. E ruim, e perverso e comedor de baleias! Leviatã era uma cachalote tão bad ass que faria Moby Dick sair correndo ao berros (sim, eu sei que baleia não berra. Sim, eu sei que baleia não corre). Mas, imagino que o maluco do Ahab seria doido suficiente para ir atrás dela, que arrancaria dele algo mais do que apenas uma perna sem graça.

Pesquisadores descobriram o fóssil de um verdadeiro monstro! Uma baleia antiga com enormes e assustadores dentes, que teria vivido há cerca de 12 milhões de anos. Como cientistas adoram usar nomes usuais para o povão demonstrar interesse, resolveram chamar aquela coisa monstruosa de uns 17 metros de Leviatã, um monstro imaginário que era temido pelos navegantes no início da época das Grandes Navegações. E eu já imagino um monte de gente pulando e berrando “Eu te disse! Eu te disse!”. Bem, calem esta buzina e continuem lendo.

Antes de prosseguirmos, uma ressalva: o monstrão marinho que serviu de inspiração para este nome tratava-se de uma figura mítica, que circulava entre os contos de marinheiros. A diferença é que eles não falavam de baleias e sim algo como uma lula imensa, com tentáculos poderosos. E, não. Eles não se inspiraram em nenhum mangá. Já na Bíblia, o Leviatã era descrito no livro de Jó (por sinal, o livro mais antigo da Bíblia), onde vem escrito:

   Jó 41:14-25 (versão João Ferreira de Almeida, Revisada e Fiel)

    Quem abrirá as portas do seu rosto? Pois ao redor dos seus dentes está o terror. As suas fortes escamas são o seu orgulho, cada uma fechada como com selo apertado. Uma à outra se chega tão perto, que nem o ar passa por entre elas. Umas às outras se ligam; tanto aderem entre si, que não se podem separar. Cada um dos seus espirros faz resplandecer a luz, e os seus olhos são como as pálpebras da alva. Da sua boca saem tochas; faíscas de fogo saltam dela. Das suas narinas procede fumaça, como de uma panela fervente, ou de uma grande caldeira. O seu hálito faz incender os carvões; e da sua boca sai chama. No seu pescoço reside a força; diante dele até a tristeza salta de prazer. Os músculos da sua carne estão pegados entre si; cada um está firme nele, e nenhum se move. O seu coração é firme como uma pedra e firme como a mó de baixo. Levantando-se ele, tremem os valentes; em razão dos seus abalos se purificam.


Podemos ver uma alegoria aqui, sobre como um monstro pode ser realmente assustador. Entretanto, reparem que ele fala de escamas (baleias não as possuem), tão grandes que o ar passa entre elas. Da boca saem faíscas e fogo e das narinas saem fumaça, e quando ele se ergue (coisa difícil para uma baleia fazer), os valentões ralam peito. O que isso nos diz? Que era uma visão alegórica de um medo comum entre marinheiros, frente o desconhecido. Assim, se você pensa que há algo com verdade literal aí, estude mais um pouco.

dentes-leviata.jpgVoltando ao mundo real, segundo o dr. Olivier Lambert - do Département de Paléontologie, Institut Royal des Sciences Naturelles de Belgique -, principal autor do estudo, este seria o maior fóssil de cachalote já encontrado, possuinte do que pode ser considerado como uma incrível coletânea de dentes bem poderosos; alguns com até cerca de 36 cm de comprimento, 10 cm maior que os dentes dos maiores cachalotes atuais, que também não são pequenos. A imagem ao lado traz um comparativo entre dentes do Leviatã, das cachalotes e das orcas (clique para ampliar)

O fóssil do “Leviatã” foi descoberto em novembro de 2008, no deserto costeiro da região de Ica, no sul do Peru, por uma equipe de paleontólogos de diversos museus de história natural, como o de Roterdã, Paris, Pisa, Lima e Bruxelas, numa pesquisa que começou em 2006. AQUI http://www.naturalsciences.be/active/expeditions/desertwhales/index_html/ vocês podem ver o site oficial da pesquisa. Um artigo sobre o Leviatã foi publicado na Nature http://www.nature.com/nature/journal/v466/n7302/full/nature09067.html nesta semana que passou.

Estima-se que o monstrengo tinha mais de 17 metros de comprimento, mas obviamente não era a maior baleia existente, pois perde fácil para as imensas baleias azuis, que chegam a ter mais de 30 metros de comprimento, sendo o maior animal da face da Terra. Assim, a imagem que abre o artigo é exagerada, e o ilustrador deveria ter consultado os cientistas antes de ter desenhado o que parecia uma baleia que poderia ser engolida pelo nosso amiguinho Leviatã, que recebeu o nome científico de Leviathan melvillei. O nome homenageia Herman Melville, autor de Moby Dick, que também era uma cachalote (Physeter catodon), cujo nome em inglês é sperm whale, mas que não tem nada a ver com baleias-espermas, e sim com o espermacete, uma substância cerosa de cor clara, presente em óleos de baleia e de outros cetáceos, que foi o responsável pela caça e quase extermínio de muitas espécies de baleias, dado seu valor econômico. Daí, o maníaco capitão Ahab, comandante de um baleeiro, caça cachalotes, até que se depara com Moby Dick, a baleia branca. Sugiro a leitura do livro. Não se sabe, entretanto, a verdadeira finalidade do espermacete para as baleias. A melhor teoria sugere que ela serve para ajudar na flutuabilidade, bombeando água fria, solidificando a cera e aumentando a densidade de sua cabeça. No fundo, a energia gasta durante uma caçada aquece e derrete a cera novamente. Em outras palavras, o espermacete funcionaria como um sistema de lastro natural.

No caso do Leviatã, contudo, é um mistério, pois os pesquisadores não acreditam que ele fosse um animal que mergulhava muito fundo e, longe do que as histórias pregam, baleias e lulas gigantes não vivem saindo na porrada meio do oceano. Deixemos isso mais para histórias ficcionais.

Nem todas as baleias possuem dentes, só as que pertencem à subordem Odontoceti (ordem Cetacea) como as cachalotes, que pertencem à família Physeteridae e são primos próximos dos golfinhos (família Delphinidae), como o golfinho-comum (também chamado de “nariz-de-garrafa”, pertencente ao gênero Tursiops) e a orca (pertencente ao gênero Orcinus). Sim, a orca é um golfinho e não uma baleia propriamente dita, também chamadas “baleias verdadeiras”. Estas pertencem à subordem Mysticeti.

Escrito por André.

http://ceticismo.net/2010/07/04/descoberto-fossil-de-baleia-gigantesca/

 

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