Autor Tópico: Escrever de graça  (Lida 659 vezes)

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Offline Luiz Souto

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Escrever de graça
« Online: 31 de Março de 2012, 20:51:00 »
Uma coisa puxa outra.
Lendo o blog do Di Vasca a partir da referência em um tópico aqui do CC - acho que do Di Gaúcho - cheguei no excelente e hilário Manual de Bons Modos em Livrarias , daí no Bibliotecário de Babel onde está a referência ao artigo abaixo que compartilho com vocês.

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E enquanto os brasileiros escrevem os portugueses contam tostões
Alexandra Lucas Coelho
18 de Março de 2012

1. Sento-me com uma amiga a almoçar em Lisboa e ela conta-me que está a viver com 300 euros por mês. Transfere-os todos os meses da conta-poupança para a conta-corrente. Isto é possível porque, aos 35 anos, continua em casa dos pais, no seu quarto de rapariga, onde agora tem o computador, primeira coisa que liga todas as manhãs. Vive com muito pouco e sente-se uma sortuda por ter bom ambiente familiar. Durante anos aguentou-se num emprego que detestava, largou-o finalmente para tentar escrever e traduzir. Da escrita ganha nada, a tradução varia entre sete e oito euros e meio por página. Um livro de tamanho médio, que lhe leva três meses de trabalho, representa mil e tal euros de remuneração. É assim que a literatura estrangeira está a ser traduzida em Portugal. À custa desta falta de alternativa.

 

2. Sento-me com outros amigos em Lisboa que escrevem, entre outras coisas, algumas penosas e mal pagas, algumas nunca pagas, milhares de euros ao ar. Não vem da crise, é uma exploração antiga: escrever não é trabalho e o tempo de quem escreve não é tempo. O tempo dos gestores é dinheiro, como o dos canalizadores, mas quem escreve não paga luz, não tem fome, não tem família, não precisa de seguro, de segurança social, nem, mais à frente, de pagar o funeral. Uma espécie de sobrehumano ao serviço da cultura. Portugal é assim um país de poetas ricos, escreveu Nuno Moura, poeta que podia dizer sobre isto o que nem imagino.

Em Portugal, poetas e prosadores são certamente tão ricos que não precisam de ser pagos quando vão daqui para ali, e fazem textos para colóquios, para revistas, para jornais, e são chamados para debates, para badanas, para prefácios — montras, em suma, em que se podem mostrar e de que portanto beneficiam. O que escrevem não tem preço e o tempo deles não se mede.

— Não há dinheiro que me pague — remata aquele meu amigo que nem quando cede ao sarcasmo deixa de ser o mais elegante.

 

3. Porque somos um país de poetas ricos e elegantes. Morremos à fome mas com elegância. Depois toda a gente lamenta e entretanto é de bom tom não falar naquele assunto a que João César Monteiro chamaria o dinheirinho.

Por pudor perdemos a vida. Não é digno, é só obsceno, gente que não sabe como viver amanhã, que todos os dias sabe o que perde, que não está a fazer o que tem para fazer aqui. E aqui é um lugar cada vez mais pequeno, onde os cidadãos elegem um governo e esse governo depois os manda emigrar, como se a sua única razão de ser não fosse servir os cidadãos.

 

4. Entre o fim dos anos 1990 e o começo de 2000, este país pareceu acreditar que talvez lhe coubesse fazer algo pela sua literatura. Quebrando o protocolo do pudor, o então instituto do livro ousou instaurar bolsas de criação literária. Portugal foi país-tema de grandes feiras internacionais em anos sucessivos: Frankfurt 97, Rio de Janeiro 99, Paris 2000. Pelo meio houve o Nobel para Saramago, 98. As traduções portuguesas explodiram — e é com o dinheiro das traduções, mais que dos direitos em Portugal, que os escritores conseguem, enfim, pensar nessa coisa extraordinária: viver da escrita. Muito do que agora está a ser colhido foi plantado então. Vejam os nomes de quem recebeu essas bolsas.

 

5. Para muitos escritores, uma bolsa paralisa, constrange, cada um saberá de si. Mas a possibilidade tem de existir para quem quiser recorrer a ela. Devia ser dever do estado, governo central e autarquias. Mais, num país como Portugal, que pouco melhor tem para oferecer que os seus criadores, devia ser uma estratégia.

 

6. Sento-me com outra amiga em Lisboa e ela conta-me que recusou idas e vindas e textos por não serem pagos, mas que isso não constituiu problema para quem a convidava, porque havia sempre gente para aceitar — como agora há cronistas a escrever de graça.

Eu vejo duas boas razões para escrever de graça. A primeira é quando alguém próximo nos pede. A segunda é quando reverte a favor de quem precisa. No primeiro caso trata-se de amizade, no segundo de voluntariado. O resto chama-se abuso.

O abuso não só perpetua o estado das coisas como o acentua. Cada vez que alguém acha natural não pagar a quem escreve está a dizer que a literatura é acessória, e a contribuir para que ela desapareça.

 

7. Em 2012, o Brasil está a viver plenamente o que Portugal julgou viver há 15 anos. Em 2013 será protagonista na feira de Frankfurt, a maior do mundo, prepara inúmeros programas paralelos e não é por acaso: nos últimos anos, os incentivos a quem escreve multiplicaram-se. Além do apoio às traduções, as embaixadas do Brasil pelo mundo convidam escritores brasileiros para encontros locais, de Washington a Istambul. Dentro do Brasil, governo federal, estados e municípios promovem bolsas, festivais, residências, edições ou turnés. As instituições habituaram-se a pagar pelo que pedem mesmo que se trate da divulgação do último livro do autor. Pagam o tempo que ele podia usar para escrever.

O resultado disto é que mais do que uma geração de escritores brasileiros emergiu, os mais velhos largando empregos, os mais novos não tendo que os arranjar. As compras governamentais às editoras, para alunos e professores, reforçam substancialmente muitos direitos de autor. E tudo o mais tende a ser pago: escrever uma badana, um prefácio, ir a um colóquio, a um festival.

Muita gente talentosa fica fora deste circuito e falta fazer quase tudo: ler no Brasil ainda é um luxo de poucos; fora best-sellers, as tiragens são baixas; as boas livrarias estão concentradas no eixo São Paulo-Rio. Mas, num momento em que tudo parece crescer no Brasil, há muitos estímulos públicos e privados para que a literatura também cresça.

A Petrobrás tem bolsas de criação literária anuais. Não sei de nada remotamente semelhante em Portugal. A PT criou um prémio literário enorme para autores lusófonos com obra publicada no Brasil. E quem não chega a publicar no Brasil? Bolsas e residências literárias regulares, conhecem?

 

8. A crise podia ser o começo e não a precipitação do fim. De um governo que acha natural despachar cidadãos para o estrangeiro não vejo o que se possa esperar. Mas talvez pudéssemos começar por perder o pudor, porque vergonha é que quem convida não fale em dinheiro, indigno é partir do princípio de que os escritores dão o seu trabalho, a única coisa pela qual podem ser pagos.

 

(Pùblico, 18-3-2012)
http://blogues.publico.pt/atlantico-sul/2012/03/18/e-enquanto-os-brasileiros-escrevem-os-portugueses-contam-tostoes/
Se não queres que riam de teus argumentos , porque usas argumentos risíveis ?

A liberdade só para os que apóiam o governo,só para os membros de um partido (por mais numeroso que este seja) não é liberdade em absoluto.A liberdade é sempre e exclusivamente liberdade para quem pensa de maneira diferente. - Rosa Luxemburgo

Conheça a seção em português do Marxists Internet Archive

Offline Rocky Joe

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Re:Escrever de graça
« Resposta #1 Online: 01 de Abril de 2012, 23:42:01 »
É uma pena que leitura seja uma coisa tão de nicho a ponto de ser praticamente impossível viver de escrever sem incentivo estatal.

Fico pensando se isto não foi uma conseqüência dos próprios escritores não se preocuparem em vender seus livros, com o marketing da coisa. Isso, e outra coisa.

Alguém disse que, quando o livro é bom mesmo, você é absorvido e nunca pensa na técnica narrativa. O mesmo valeria para filmes, que você não pensaria na fotografia, etc… Isto é válido principalmente para o 'público-geral'. Pessoas que não lêem muitos livros por ano - seja por falta de incentivo ou falta de tempo.

Acredito que o ‘grande público’ não está interessado em técnica narrativa. Eles não estão interessados em livros por si mesmos. Estão mais interessados em conteúdo que não seja muito difícil de ser absorvido (seja o feminismo esquisito do Código da Vinci, seja a idéia do sul dos EUA de O Vento Levou, etc) ou em história, argumento (como livros policiais). Ou, ainda, o velho escapismo.

Talvez não seja de se estranhar que o público tenha abandonado os livros, já que o século XX foi o século da prestidigitação lingüística e do culto ao argumento mínimo, de livros sobre livros. De romances psicológicos. Eu gosto de tudo isso e é tudo muito bacana, mas dá para esperar que muita gente não vá estar interessada. Como muitas pessoas não gostam de ver filmes do Tarkovsky, de ouvir música clássica dodecafonista...

Um exemplo de que escritores no meio-termo entre literatura "popular" e literatura "erudita" podem vender bastante é um escritor com uma entrevista no link que vc passou, o Murakami.

Enfim, acho que o que eu estou dizendo é que sinto falta de literatura meio termo no Brasil. Só vejo livros extremamente ruins ou extremamente bons (para poucos). E que escritores que escrevem pela 'arte' e não ligam para o público, bem, não é de se estranhar que não consigam viver de escrever...

Offline Sergiomgbr

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Re:Escrever de graça
« Resposta #2 Online: 02 de Abril de 2012, 00:35:53 »
É uma pena que leitura seja uma coisa tão de nicho a ponto de ser praticamente impossível viver de escrever sem incentivo estatal.

Fico pensando se isto não foi uma conseqüência dos próprios escritores não se preocuparem em vender seus livros, com o marketing da coisa. Isso, e outra coisa.

Alguém disse que, quando o livro é bom mesmo, você é absorvido e nunca pensa na técnica narrativa. O mesmo valeria para filmes, que você não pensaria na fotografia, etc… Isto é válido principalmente para o 'público-geral'. Pessoas que não lêem muitos livros por ano - seja por falta de incentivo ou falta de tempo.

Acredito que o ‘grande público’ não está interessado em técnica narrativa. Eles não estão interessados em livros por si mesmos. Estão mais interessados em conteúdo que não seja muito difícil de ser absorvido (seja o feminismo esquisito do Código da Vinci, seja a idéia do sul dos EUA de O Vento Levou, etc) ou em história, argumento (como livros policiais). Ou, ainda, o velho escapismo.

Talvez não seja de se estranhar que o público tenha abandonado os livros, já que o século XX foi o século da prestidigitação lingüística e do culto ao argumento mínimo, de livros sobre livros. De romances psicológicos. Eu gosto de tudo isso e é tudo muito bacana, mas dá para esperar que muita gente não vá estar interessada. Como muitas pessoas não gostam de ver filmes do Tarkovsky, de ouvir música clássica dodecafonista...

Um exemplo de que escritores no meio-termo entre literatura "popular" e literatura "erudita" podem vender bastante é um escritor com uma entrevista no link que vc passou, o Murakami.

Enfim, acho que o que eu estou dizendo é que sinto falta de literatura meio termo no Brasil. Só vejo livros extremamente ruins ou extremamente bons (para poucos). E que escritores que escrevem pela 'arte' e não ligam para o público, bem, não é de se estranhar que não consigam viver de escrever...
O amplo acesso ao meios de informação de todos os segmentos da sociedade apenas expõe mais amiúde o que já é uma constatação histórica, que  existe uma relação constante entre abundância da mediocridade e raridade de obras primas e a presença dos ciclos de renovação que apenas retratam os mesmos ciclos de renovação dos paradigmas culturais da própria sociedade. Portanto, se um autor escreve como um Dostoiesvski, mesmo assim ainda será uma literatura que apenas estaria se repetindo. O mundo vive cada vez mais de novidade.

Há e sempre haverá o ciclo de esmaecimento dos valores de uma época anterior por determinados valores em função do novo, seja na música, no cinema, na literatura, ou qualquer outro ramo das artes. Saber se reinventar é a chave para conquistar reconhecimento em qualquer época.

A literatura veio pra ficar, assim como a música o cinema, os vídeos da internet, porém, democraticamente convivendo cada vez mais com outros novos espetáculos do "circo". Então, saber se inventar também é estar em sintonia com este processo.
Até onde eu sei eu não sei.

 

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