Autor Tópico: "Ciência, Má Ciência e Pseudociência" - Uma Demarcação Pela Filosofia da Ciência  (Lida 6272 vezes)

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O que é ciência, o que é má ciência, o que não é ciência, o que é pseudociência, e os problemas de demarcação e delimitação, para definir umas das outras. Uma visão esclarecedora através da filosofia da ciência!

Ciência e Pseudociência


Publicado pela primeira vez em: Quarta-feira, 03 de setembro de 2008, a revisão substantiva em: Segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014.


Copyright © 2014 by Sven Ove Hansson (autor do artigo)
Tradução do Inglês para o Português: Roberto das Neves



Resumo

A demarcação entre ciência e pseudociência é parte da tarefa maior para determinar quais crenças são epistemicamente justificadas. A entrada esclarece a natureza específica da pseudociência em relação a outras formas de doutrinas e práticas não-científicas. Os principais critérios de delimitação propostas, são analisados e algumas de suas fraquezas são apontadas. Em conclusão, ressalta-se que há muito mais consenso sobre questões específicas de demarcação do que sobre os critérios gerais, que tais julgamentos devem ser baseados.

Esta é uma indicação de que, ainda há muito trabalho filosófico importante a ser feito sobre a demarcação entre ciência e pseudociência.


Índice

1. O objetivo das demarcações
2. A "ciência" da pseudociência
3. O "pseudo" da pseudociência
3.1 Não pseudociência
3.2 Não-ciência posando como ciência
3.3 O componente doutrinal
3.4 Um sentido mais amplo da pseudociência
3.5 Os objetos de demarcação
3.6 A demarcação com prazos
4. Critérios de delimitação alternativos
4.1 Os positivistas lógicos
4.2 Falsificacionismo
4.3 O critério do quebra-cabeças
4.4 Os critérios baseados no progresso científico
4,5 Normas epistêmicas
4.6 abordagens multi-criteriológicas
5. Unidade na diversidade
Bibliografia
Bibliografia da literatura, filosoficamente informado sobre pseudociências e doutrinas contestadas.
Fontes


1. O objetivo das demarcações

Demarcações da ciência e da pseudociência podem ser feitas por razões teóricas e práticas (Mahner de 2007, 516). De um ponto de vista teórico, a questão de demarcação é uma perspectiva esclarecedora, que contribui para a filosofia da ciência, da mesma forma que o estudo de falácias, contribui para o estudo da lógica informal e argumentação racional.

De um ponto de vista prático, a distinção é importante para a orientação da decisão, tanto na vida privada quanto na pública. Desde que a ciência é a nossa fonte mais confiável de conhecimento em uma ampla variedade de áreas, é preciso distinguir o conhecimento científico de seus sósias. Devido ao elevado status da ciência na sociedade atual, as tentativas de exagerar o status científico de várias reivindicações, ensinamentos e produtos, são comuns o suficiente, para fazer a questão de demarcação, urgentemente em muitas áreas. A questão de demarcação é importante em muitas aplicações práticas, tais como os seguintes:

Saúde: A ciência médica desenvolve e avalia os tratamentos de acordo com a evidência de sua eficácia. Atividades pseudocientíficas nesta área dão origem a intervenções ineficazes e às vezes perigosas. Os profissionais de saúde, seguradoras, autoridades governamentais, e o mais importante, os pacientes, precisam de orientação sobre como distinguir entre ciência médica e pseudociência médica.

Testemunho de especialista: É essencial para o Estado de direito, que os tribunais obtenham os fatos de forma correta. A confiabilidade dos diferentes tipos de provas, deve ser determinada corretamente, e prova pericial, deve ser baseada no melhor conhecimento disponível. Às vezes, é do interesse dos litigantes, para apresentar alegações não científicas como a ciência sólida. Portanto, tribunais devem ser capazes de distinguir entre ciência e pseudociência. Os filósofos muitas vezes, tiveram papéis de destaque na defesa da ciência contra a pseudociência em tais contextos. (Hansson 2011)

As políticas ambientais: Para estar no lado seguro contra possíveis desastres, pode ser legítimo, para tomar medidas preventivas, quando há evidência válida, mas ainda insuficiente de um perigo ambiental. Este deve ser distinguido de: tomar medidas contra um suposto perigo para o qual não há nenhuma evidência válida em tudo. Por isso, os tomadores de decisão na política ambiental, devem ser capazes de distinguir entre afirmações científicas e pseudocientíficas.

A educação científica: Os promotores de algumas pseudociências (nomeadamente criacionismo) tentam introduzir seus ensinamentos nos currículos escolares. Os professores e autoridades escolares precisam ter critérios claros de inclusão, que protejam os alunos contra os ensinamentos pouco confiáveis ​​e refutados.

O trabalho sobre o problema da demarcação parece ter diminuído após Laudan (1983) uma certidão de óbito muito notável, segundo a qual, não há esperança de encontrar um critério de algo necessário e suficiente tão heterogêneo quanto a metodologia científica. Em anos mais recentes, o problema foi revitalizado. Filósofos atestando sua vitalidade sustentam que, o conceito pode ser esclarecido por outros meios que não uma definição necessária e suficiente (Pigliucci 2013; Mahner 2013) ou, que tal definição é de fato possível, embora tenha de ser complementado com os critérios específicos de cada disciplina, a fim de tornar-se pleno em funcionamento. (Hansson 2013)


2. A "ciência" da pseudociência

O mais antigo uso conhecido da palavra "pseudociência" data de 1.796, quando o historiador James Pettit Andrew se refere à alquimia como uma "fantástica pseudo-ciência" (Dicionário de Inglês Oxford). A palavra está em uso frequente desde a década de 1880. "Ao longo de sua história, a palavra tem um significado claramente difamatório” (Laudan 1983, 118; Dolby 1987, 204). Seria tão estranho para alguém descrever orgulhosamente suas próprias atividades como pseudociência, como vangloriar-se de que eles são má ciência. Desde a conotação pejorativa é uma característica essencial da palavra "pseudociência", uma tentativa de libertar uma definição livre de valor do termo, não seria significativa. Um termo essencialmente carregado de valor tem que ser definido em termos de valor carregado. Este é muitas vezes difícil, uma vez que, a especificação do componente de valor tende a ser controverso.

Este problema não é específico da pseudociência, mas segue diretamente a partir de um problema paralelo, mas, um pouco menos visível, com o conceito de ciência. O uso comum do termo "ciência" pode ser descrito como: parte descritiva e parte normativa. Quando uma atividade é reconhecida como ciência, geralmente isso envolve um reconhecimento de que, ele tem um papel positivo nos nossos esforços para o conhecimento. Por outro lado, o conceito de ciência, foi formado através de um processo histórico, e muitas contingências influenciaram o que chamamos e não chamamos ciência.

Neste contexto, a fim de não ser excessivamente complexa a definição de ciência, ela tem que ir, em uma de duas formas. Ela pode se concentrar no conteúdo descritivo, e especificar como o termo é usado realmente. Como alternativa, pode-se concentrar no elemento normativo, e esclarecer o significado mais fundamental do termo. A última abordagem tem sido a escolha da maioria dos filósofos que escrevem sobre o assunto, e vai estar em foco aqui. Ela envolve, necessariamente, algum grau de idealização, em relação ao uso comum do termo "ciência".

No Inglês, a palavra "ciência", é principalmente usada sobre as ciências naturais e outras áreas de pesquisa, que são consideradas para ser semelhantes a eles. Assim, a economia política e a sociologia são contadas como ciências, ao passo que, os estudos de literatura e história geralmente não são. A correspondente palavra alemã "Wissenschaft" tem um significado muito mais amplo e inclui todas as especialidades acadêmicas, incluindo as ciências humanas. O termo alemão tem a vantagem de delimitar, de forma mais adequada, o tipo de conhecimento sistemático que está em jogo, no conflito entre ciência e pseudociência.

As deturpações da história apresentadas por negadores do Holocausto e outros pseudo-historiadores, são muito semelhantes em sua origem, para as deturpações das ciências naturais promovidas pelos criacionistas e homeopatas.

Mais importante ainda, as ciências naturais, sociais e as humanas, são todas partes de um mesmo esforço humano, ou seja, sistemática e investigações críticas, visando adquirir a melhor compreensão possível do funcionamento da natureza, das pessoas e da sociedade humana. As disciplinas que compõem esta comunidade de disciplinas de conhecimento são cada vez mais interdependentes (Hansson 2007). Desde a segunda metade do século 20, as disciplinas integradoras, como a astrofísica, biologia evolutiva, bioquímica, ecologia, química quântica, as neurociências, a teoria dos jogos, e tem-se desenvolvidas a uma velocidade dramática, e contribuiu para amarrar juntas as disciplinas previamente desconectadas. Este aumento de interconexões, também ligaram as ciências e as humanidades mais próximas umas das outras, como pode ser visto, por exemplo, como o conhecimento histórico, depende cada vez mais, da análise científica avançada sobre achados arqueológicos.

O conflito entre a ciência e a pseudociência é mais bem compreendido com este sentido amplo da ciência. De um lado do conflito, encontramos a comunidade de disciplinas de conhecimento, que inclui as ciências naturais, sociais e as humanas. Por outro lado, encontramos uma grande variedade de movimentos e doutrinas, como o criacionismo, a astrologia, a homeopatia, e a negação do Holocausto, que estão em conflito com os resultados e métodos, que são geralmente aceitos na comunidade de disciplinas de conhecimento.

Outra maneira de expressar isso é que, o problema da demarcação, tem uma preocupação mais profunda, do que a de demarcar a seleção das atividades humanas, que temos por vários motivos, escolhido para chamar de "ciências". A questão final é "como determinar quais crenças são epistemicamente justificadas" (Fuller 1985, 331).


3. O "pseudo" da pseudociência


3.1 Não pseudociência

As frases "de demarcação da ciência" e "de demarcação da ciência de pseudociência", são muitas vezes usadas ​​como sinônimos, e muitos autores parecem ter considerado, como iguais em significado. Em suas opiniões. A tarefa de desenhar os limites exteriores da ciência é essencialmente, a mesma que, a de desenhar a fronteira entre ciência e pseudociência.

A imagem é muito simplificada. Todos os não-ciência, não é pseudociência e, a ciência tem fronteiras não-triviais, para outros fenômenos não-científicos, tais como a metafísica, a religião e vários outros tipos de conhecimento sistematizados como não-científica. (Mahner (2007, 548) propôs o termo "paraciência", para cobrir as práticas não científicas, que não são pseudocientíficas.) A ciência tem também, o problema de demarcação interna, de distinguir entre a boa e a má ciência.

Uma comparação entre os termos negados, relacionados com a ciência, pode contribuir para esclarecer as distinções conceituais. "Unscientifc" é um conceito mais restrito do que o "não-científico" (e não científica), já que, o primeiro, mas não o último termo, implica alguma forma de contradição ou conflito com a ciência. "Pseudocientífica" é por sua vez, um conceito mais restrito do que o "não científico". O último termo difere do anterior, na cobertura das medidas inadvertidas, erros de cálculo e outras formas de má ciência, realizada por cientistas que são reconhecidos como tentando, mas não produzindo boa ciência.

A Etimologia nos fornece um ponto de partida óbvio para esclarecer quais as características a pseudociência tem, além de ser meramente não ciência, ou não-científica. "Pseudo-" (ψευδο-) significa falso. De acordo com isso, o Dicionário de Inglês Oxford (OED) define pseudociência como se segue:

"A pretensa ciência ou espúria; um conjunto de crenças relacionadas sobre o mundo erroneamente considerado como sendo baseado em método científico ou, como tentando ter o status que as verdades científicas têm agora."


3.2 A Não-ciência posando como ciência

Muitos escritores sobre a pseudociência têm enfatizado que: pseudociência não é ciência posando como ciência. O clássico moderno, acima de tudo, sobre o assunto (Gardner 1957) traz o título “Modismos e Falácias em nome da ciência”. De acordo com Brian Baigrie (1988, 438), "[w] uma cobertura censurável sobre essas crenças, é que: eles mascaram seus protegidos, como genuinamente científicos." Estes e muitos outros autores, assumem que, para ser pseudocientífica, uma atividade ou um ensinamento, tem de satisfazê-lo, seguindo dois critérios (Hansson, 1996):

  • (1)          não é científico, e
  • (2)          seus principais defensores tentam criar a impressão de que é científico.


O primeiro destes dois critérios é fundamental para as preocupações da filosofia da ciência. Tem sido objeto de controvérsias importantes entre os filósofos (que será discutido a seguir, na Seção 4). O segundo critério, é filosoficamente menos importante, mas ele precisa receber um tratamento cuidadoso, não menos importante, uma vez que, muitas discussões de pseudociência (dentro e fora da filosofia) têm sido confundidas, devido a pouca atenção a ela.


3.3 O componente doutrinal

Um problema imediato, com a definição baseada em (1) e (2) é que, é muito ampla. Há fenômenos que satisfazem ambos os critérios, mas, não são comumente chamadas de pseudocientíficas. Um dos exemplos mais claros disso é fraude na ciência. Esta é uma prática, que tem um alto grau de pretensão científica, e ainda, não está de acordo com a ciência, satisfazendo, assim, ambos os critérios. No entanto, a fraude, em ramos de outro modo legítimos da ciência, é raramente, se alguma vez o foi, chamada de "pseudociência". A razão para isto pode ser esclarecida com os seguintes exemplos hipotéticos (Hansson, 1996).

Caso 1: Um bioquímico realiza um experimento, que ele interpreta como: mostrando que uma determinada proteína, tem um papel essencial na contração muscular. Há um consenso entre os seus colegas, que o resultado é um mero artefato, devido a um erro experimental.

Caso 2: Um bioquímico continua realizando um experimento desleixado após o outro. Ele consistentemente interpreta como: mostrando que uma determinada proteína tem um papel na contração muscular, não aceito por outros cientistas.

Caso 3: Um bioquímico realiza vários experimentos desleixados em diferentes áreas. Um deles,  a experiência referida no caso 1. Muito do seu trabalho é da mesma qualidade. Ele não propaga qualquer teoria não ortodoxa particular.

De acordo com o uso comum, 1 e 3 são considerados como casos de má ciência, e apenas 2 como um caso de pseudociência. O que está presente no caso 2, mas ausente nos outros dois, é uma doutrina desviante. Isolados incumprimentos das exigências da ciência, não são comumente considerados como pseudocientífica. A pseudociência, como é comumente concebida, envolve um esforço sustentado, para promover ensinamentos diferentes daqueles que têm legitimidade científica na época.

Isso explica por que a fraude na ciência não é geralmente considerada como pseudocientífica. Tais práticas não são, em geral, associadas a uma doutrina desviante ou heterodoxa. Ao contrário, o cientista fraudulento, está ansioso para que seus resultados estejam de acordo com as previsões das teorias científicas estabelecidas. Desvios deles levá-las-iam lá, a um risco muito maior de divulgação.

O termo "ciência" tem tanto uma individualização e um sentido “unindividuated”. (No sentido individualizado), bioquímica e a astronomia são diferentes ciência s, uma das quais, inclui estudos de contração muscular e outro, estudos de supernovas. O Dicionário de Inglês Oxford (OED) define este sentido da ciência como "um determinado ramo do conhecimento ou estudo; um departamento reconhecido de aprendizagem". No sentido “unindividuated”, o estudo de proteínas musculares e de supernovas, são partes de "uma e a mesma" ciência. Nas palavras do OED, ciência “unindividuated” é o tipo de conhecimento, ou atividade intelectual, de que, as várias "ciências” "são exemplos".

A pseudociência é uma antítese da ciência não individualizada, ao invés do sentido “unindividuated”. Não há, corpus unificado de pseudociência correspondente ao corpus da ciência. Para um fenómeno ser pseudocientífico, deve pertencer a uma ou a outra das pseudociências particulares. A fim de acomodar esta característica, a definição acima pode ser modificada, substituindo (2) pelo seguinte (Hansson, 1996):

(2 ')        é parte de uma doutrina não-científica, cujos proponentes importantes, tentam criar a impressão de que é científica.
A maioria dos filósofos da ciência, e a maioria dos cientistas, preferem considerar a ciência, como constituída por métodos de investigação, e não por particulares doutrinas. Há uma tensão evidente entre (2 ') e esta visão convencional da ciência. Isso, no entanto, pode ser como deveria, desde pseudociência, muitas vezes, envolve uma representação da ciência como uma doutrina fechada e acabada, e não como uma metodologia de investigação em aberto.


3.4 Um sentido mais amplo da pseudociência

Algumas vezes o termo "pseudo" é utilizado no sentido mais amplo do que aquele que é capturado na definição constituída de (1) e (2 '). Ao contrário do que (2 '), as doutrinas que estão em conflito com a ciência, às vezes são chamadas de "pseudocientífica" apesar de não ser, ou ter, avançado como científica.

Assim, Grove (1985, 219) incluídos entre as doutrinas pseudocientíficas, aquelas que "pretendem oferecer visões alternativas aos da ciência, ou, a pretensão de explicar o que a ciência não pode explicar." Da mesma forma, Lugg (1987, 227-228) sustentou que "as  previsões por clarividência são pseudocientíficas, ou, não estão corretas ", apesar do fato de que, a maioria dos clarividentes não professam ser praticantes da ciência. Nesse sentido, a pseudociência é assumida para incluir não apenas doutrinas contrárias à ciência proclamadas a ser científica, mas doutrinas contrárias à ciência “tout court”, ou, não são apresentadas em nome da ciência. Para cobrir este sentido mais amplo de pseudociência, (2 ') pode ser modificado como se segue (Hansson 1996, 2013):

(2 ")       é parte de uma doutrina, cujos proponentes tentam criar a impressão de que, ele representa o conhecimento mais confiável no seu assunto.

O uso comum, parece vacilar entre as definições (1) + (2 ') e (1) + (2 "), e isso, de uma forma interessante: em seus comentários sobre o significado do termo, os críticos da pseudociência tendem a endossar um definição perto de (1) + (2 '), mas a sua utilização efetiva é muitas vezes mais perto de (1) + (2 ").

Os exemplos seguintes servem para ilustrar a diferença entre as duas definições e também para esclarecer por cláusula (1) é necessária:

Um livro criacionista dá um relato correto da estrutura do DNA.
Um livro de química, de outra forma confiável, dá conta incorreta da estrutura do DNA.
Um livro criacionista, nega que as partes de espécies humanas ancestrais, são comuns com outros primatas.
Um pregador que nega que a ciência pode ser confiável, também nega que as partes de espécies humanas ancestrais são comuns com outros primatas.

(A) não satisfaz (1), e não é, portanto, pseudocientífica por sua conta. (B) satisfaz (1), mas nem (2 '), nem (2 ") e não é, portanto, pseudocientífica por sua conta. (C) satisfaz todos os três critérios, (1), (2 ') e (2 "), e por isso é pseudocientífica em ambas as contas. Finalmente, (d) satisfaz (1) e (2 ") e é, portanto, pseudocientífica de acordo com (1) + (2"), mas não é de acordo com (1) + (2 '). Como os dois últimos exemplos ilustram, pseudociência e anti-ciência, são às vezes, difíceis de distinguir. Promotores de algumas pseudociências (nomeadamente homeopatia) tendem a ser ambíguos entre oposição à ciência e afirmar que eles próprios representam o melhor da ciência.


3.5 Os objetos de demarcação

Várias propostas foram apresentadas sobre o que exatamente são os elementos em ciência ou pseudociência, critérios de demarcação devem ser aplicados. As propostas incluem que, a demarcação deve referir-se a um programa de pesquisa (Lakatos 1974a, 248-249), um campo epistêmico ou disciplina cognitiva, ou seja, um grupo de pessoas com conhecimento comum aos objetivos e suas práticas (Bunge 1982, 2001; Mahner 2007), uma teoria (Popper 1962, 1974), uma prática (Lugg 1992; Morris, 1987), um problema científico ou pergunta (Siitonen 1984), e um inquérito específico (Kuhn, 1974; Mayo 1996). É provavelmente justo, dizer que os critérios de demarcação podem ser significativamente aplicados, em cada um destes níveis de descrição. Um problema muito mais difícil é se, um desses níveis, é o nível fundamental para que, as avaliações sobre os outros níveis são redutíveis.

Derksen (1993) difere da maioria dos outros escritores, sobre o assunto de: colocar a ênfase na demarcação no pseudocientista, ou seja, o indivíduo conduzindo pseudociência. Seu principal argumento para isso é que, a pseudociência tem pretensões científicas, e tais pretensões são associadas com uma pessoa, não uma teoria, prática ou campo inteiro. No entanto, como foi observado por Settle (1971), é a racionalidade e a atitude crítica construída em instituições, ao invés de os traços intelectuais pessoais dos indivíduos, que distingue a ciência de práticas não-científicas como a magia. O indivíduo praticante de magia em uma sociedade pré-letrada, não é necessariamente, menos racional do que o cientista, indivíduo na sociedade ocidental moderna. O que lhe falta é um ambiente intelectual da racionalidade coletiva e crítica mútua. "É quase uma falácia da divisão, insistir que cada cientista individualmente seja criticamente disposto” (Settle 1971, 174).


3.6 A demarcação com prazos

Alguns autores sustentam que a demarcação entre ciência e pseudociência, deve ser atemporal. Se isso fosse verdade, então, seria contraditório para rotular algo como pseudociência em um, mas não outro ponto no tempo. Por isso, depois de mostrar que o criacionismo é, em alguns aspectos, semelhante a algumas doutrinas do início do 18º século, um autor sustentou que "se tal atividade era descritível como a ciência, então, não é um motivo de descrevê-la como a ciência" (Dolby 1987, 207). Este argumento baseia-se num equívoco fundamental da ciência. É uma característica essencial da ciência que metodicamente se esforça para melhorar, através de testes empíricos, a crítica intelectual, e na exploração de novos terrenos. Um ponto de vista ou teoria, não pode ser científico, a menos que, se relaciona de forma adequada a este processo de melhoria, o que significa, no mínimo, que as rejeições bem fundamentadas de pontos de vista científicos anteriores são aceitos. A demarcação da ciência não pode ser atemporal, pela simples razão de que, a própria ciência não é intemporal.

No entanto, a mutabilidade da ciência é um dos fatores a que presta a demarcação entre ciência e pseudociência, difícil. Derkson (1993, 19) justamente, salientou três principais razões pelas quais, a demarcação às vezes é difícil: a ciência muda ao longo do tempo, a ciência é heterogênea, e da própria ciência estabelecida, não está livre dos defeitos característicos de pseudociência.
"Che non men che saper dubbiar m'aggrada."
"E, não menos que saber, duvidar me agrada."

Dante, Inferno, XI, 93; cit. p/ Montaigne, Os ensaios, Uma seleção, I, XXV, p. 93; org. de M. A. Screech, trad. de Rosa Freire D'aguiar

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4. Critérios de delimitação alternativos

As tentativas de definir o que hoje é a ciência, têm uma longa história, e as raízes do problema da demarcação, remontam a Aristóteles (Posterior Analytics) (Laudan 1983). No entanto, não foi até o 20 º século, que as definições influentes da ciência, têm contrastado contra a pseudociência.


4.1 Os positivistas lógicos

Por volta de 1930, os positivistas lógicos do Círculo de Viena, desenvolveram diversas abordagens verificacionistas para a ciência. A ideia básica era que: uma afirmação científica poderia ser distinguida de uma declaração metafísica, por ser, pelo menos em princípio, possível de verificar. Este ponto de vista foi associado com a visão de que o significado de uma proposição é o seu método de verificação (veja a seção sobre Verificacionismo na entrada no Círculo de Viena ). Esta proposta tem sido frequentemente incluída nas contas da demarcação entre ciência e pseudociência. No entanto, isso não é historicamente muito preciso, já que as propostas verificacionistas tinham o objetivo de resolver um problema de demarcação bem diferente, ou seja, entre a ciência e a metafísica.


4.2 Falsificacionismo

Popper descreveu o problema da demarcação, como: a "chave para a maioria dos problemas fundamentais da filosofia da ciência" (Popper 1962, 42). Ele rejeitou a verificabilidade como critério para uma teoria científica ou hipótese, de ser científica ao invés de pseudocientífica ou metafísica. Em vez disso, ele propôs como critério, que a teoria é falsificável ou falseável, ou mais precisamente, que "declarações ou sistemas de declarações, a fim de serem classificados como científico, devem ser capazes de entrar em conflito com possíveis ou imagináveis ​​observações" (Popper 1962, 39).

Popper apresentou esta proposta como uma maneira de traçar a linha entre as declarações pertencentes às ciências empíricas e "todas as outras declarações  - sejam elas de um religioso, ou de um caráter metafísico, ou simplesmente pseudocientífico" (Popper 1962, 39; cf Popper 1974. , 981). Era tanto uma alternativa para critérios de verificação dos positivistas lógicos, quanto um critério para a distinção entre ciência e pseudociência. Apesar de Popper não enfatizar a distinção, estes são naturalmente duas questões diferentes. ( Bartley) (1968). Popper admitiu que as declarações metafísicas podem ser "longe de ser sem sentido" (1974, 978-979), mas não mostrou tal apreciação das demonstrações pseudocientíficas.

O critério de demarcação de Popper tem sido criticado, tanto para a exclusão de ciência legítima (Hansson 2006) quanto para algumas pseudociências, o status de ser científica (Agassi 1991; Mahner de 2007, 518-519). Estritamente falando, o seu critério exclui a possibilidade de que, pode haver uma alegação pseudocientífica que é refutável. De acordo com Larry Laudan, (1983, 121), ele: "tem a consequência perversa do consentimento, como científica”, a cada reivindicação de nivelamento que torna “aceitável, afirmações falsas". A astrologia, justamente feita por Popper, como um exemplo extraordinariamente claro de ser ela uma pseudociência, tem de fato, sido testada e completamente refutada (Culver e Ianna 1988; Carlson 1985). Da mesma forma, as principais ameaças ao status científico da psicanálise, outro de seus principais alvos, não vêm de reivindicações que é intestável, mas, a partir de alegações de que ela foi testada e falhou nos testes.

Defensores de Popper têm afirmado que essa crítica se baseia em uma interpretação inclemente de suas ideias. Eles afirmam que ele não deve ser interpretado no sentido de que a falseabilidade é uma condição suficiente para demarcar a ciência. Algumas passagens parecem sugerir que ele a toma como apenas uma condição necessária (Feleppa 1990, 142). Outras passagens sugerem que, para uma teoria ser científica, Popper requer (além de falseabilidade) que as tentativas energéticas sejam feitas para colocar uma teoria em teste, e que, os resultados negativos dos testes são aceitos (Cioffi 1985, 14-16). Um critério de demarcação com base em falsificação, que inclui estes elementos, vai evitar os mais óbvios contra-argumentos sobre um critério baseado na falseabilidade sozinha.

No entanto, no que parece ser a sua última declaração de sua posição, Popper declarou que falseabilidade é tanto uma necessidade e um critério suficiente. "A frase (ou uma teoria) é empírico-científica, se e somente se é falsificável". Além disso, ele enfatizou que a falseabilidade referida aqui, "só tem a ver com a estrutura lógica de sentenças e classes de sentenças" (Popper [1989] 1994, 82). A sentença (teórica), diz ele, é falsificável se e somente se ela contradiz logicamente algumas sentenças (empíricas) que descrevem logicamente um possível evento, que seria logicamente possível observar (Popper [1989] 1994, 83). A declaração pode ser falsificável, nesse sentido, embora não seja na prática possível falsificá-la. Parece seguir a partir desta interpretação, que o status de uma declaração como científica ou não-científica, não muda com o tempo. Em ocasiões anteriores, ele parece ter interpretado a falseabilidade de forma diferente, e sustentou que "o que era uma ideia metafísica de ontem, pode se tornar amanhã, uma teoria científica testável, e isso acontece com frequência" (Popper 1974, 981, 984 cf.).

Falseabilidade Lógica é um critério muito mais fraco do que falseabilidade prática. No entanto, mesmo falseabilidade lógica pode criar problemas em demarcações práticas. Popper, uma vez adotada a visão de que, a seleção natural não é uma teoria científica adequada, argumentando que ela chega perto de, apenas dizendo que "os sobreviventes sobrevivem", que é tautológica. "O darwinismo não é uma teoria científica testável, mas um programa de pesquisa metafísica" (Popper 1976, 168). Esta afirmação tem sido criticada por cientistas evolucionistas que apontaram que ele deturpa a evolução. A teoria da seleção natural tem dado origem a muitas previsões que resistiram a testes, tanto em estudos de campo quanto em laboratório (Ruse 1977; 2000).

Em uma palestra em Darwin College em 1977, Popper retratou sua visão anterior de que a teoria da seleção natural é tautológica. Ele admitiu que agora ela fosse uma teoria testável, apesar de "difícil de testar" (Popper 1978, 344). No entanto, a despeito de sua retratação bem fundamentada, seu ponto de vista anterior, continua sendo propagado em desafio as evidências acumuladas, a partir de testes empíricos da seleção natural.


4.3 O critério de quebra-cabeças

Thomas Kuhn é um dos muitos filósofos para quem, a visão de Popper sobre o problema da demarcação, era um ponto de partida para o desenvolvimento de suas próprias ideias. Kuhn criticou Popper para a caracterização de "todo o empreendimento científico, em termos que se aplicam apenas as suas ocasionais peças revolucionárias" (Kuhn 1974, 802). O foco de Popper sobre falsificações das teorias levaram a uma concentração nos casos raros, em que, em vez toda uma teoria que está em jogo. Segundo Kuhn, a maneira na qual a ciência funciona em tais ocasiões, não pode ser utilizado para caracterizar toda a atividade científica. Em vez disso, está em "ciência normal", a ciência que tem lugar entre os momentos incomuns de revoluções científicas, onde encontramos as características pelas quais, a ciência pode ser diferenciada de outros empreendimentos (Kuhn 1974: 801).

Na ciência normal, a atividade do cientista, consiste em resolver quebra-cabeças, em vez de testar teorias fundamentais. Nos quebra-cabeças, a teoria atual é aceita, e o quebra-cabeça é de fato, definido em seus termos. Na visão de Kuhn, "é a ciência normal, em que, tipos de testes de Sir Karl não ocorrem, ao invés de, a ciência extraordinária, que a maioria quase distingue a ciência de outras empresas", e, portanto, um critério de demarcação deve referir-se ao funcionamento da ciência normal (Kuhn 1974, 802). O próprio critério de demarcação de Kuhn é a capacidade de quebra-cabeças, que ele vê como uma característica essencial da ciência normal.

A visão de Kuhn de demarcação é mais claramente expressa em sua comparação da astronomia com a astrologia. Desde a antiguidade, a astronomia tem sido uma atividade de resolução de quebra-cabeças e, portanto, uma ciência. Se a previsão de um astrônomo falhasse, então este era um quebra-cabeça que ele poderia esperar para resolver, por exemplo, com mais medidas ou com os ajustes da teoria. Em contraste, o astrólogo não tinha tais quebra-cabeças já que em que a disciplina "fracassos particulares não deram origem a enigmas a pesquisar, pois nenhum homem, porém hábil, poderia fazer uso deles em uma tentativa construtiva de rever a tradição astrológica" (Kuhn 1974 804). Portanto, de acordo com Kuhn, a astrologia nunca foi uma ciência.

Popper desaprovou completamente o critério de demarcação de Kuhn. De acordo com Popper, astrólogos estão envolvidos na resolução de quebra-cabeças, e, consequentemente, o critério de Kuhn compromete-o a reconhecer a astrologia como uma ciência. (Ao contrário de Kuhn, Popper definiu os enigmas como "pequenos problemas que não afetam a rotina".) Em sua opinião, a proposta de Kuhn leva à "catástrofe de grandes proporções" de uma "substituição de um critério racional da ciência por um sociológico" (Popper 1974, 1146-1147).


4.4 Os critérios baseados no progresso científico

O critério de demarcação de Popper, diz respeito à estrutura lógica das teorias. Imre Lakatos descreveu este critério como "um tanto surpreendente”. A teoria pode ser científica, mesmo se não há um pingo de evidências a seu favor, e pode ser pseudocientífica, mesmo que todas as evidências disponíveis seja há seu favor. Ou seja, o caráter científico, ou não científico, de uma teoria, pode ser determinado de forma independente dos fatos “(Lakatos 1981, 117)”.

Em vez disso, Lakatos (1970, 1974a; 1974b; 1981) propôs uma modificação do critério de Popper, que ele chamou de "sofisticado (metodológico) falsificacionismo". Nesta visão, o critério de demarcação não deve ser aplicado a uma hipótese isolada ou teoria, mas sim, para um programa de pesquisa do todo, que é caracterizada por uma série de teorias substituindo sucessivamente uns aos outros. Em sua opinião, um programa de pesquisa é progressivo, se as novas teorias fazem previsões surpreendentes que estão confirmadas. Em contraste, um programa de pesquisa em degeneração é caracterizado por teorias sendo fabricadas apenas com o fim de acomodar os fatos conhecidos. O progresso na ciência, só é possível, se um programa de pesquisa atende ao requisito mínimo, que cada nova teoria que é desenvolvida no programa, tem um conteúdo empírico maior do que seu antecessor. Se um programa de pesquisa não satisfaz este requisito, então é pseudocientífica.

De acordo com Paul Thagard, uma teoria ou disciplina é pseudocientífica, se satisfaz dois critérios. Uma delas é que, a teoria não consegue progredir, e a outra que "a comunidade de praticantes, faz poucas tentativas de desenvolver a teoria para soluções dos problemas, não mostra nenhuma preocupação com as tentativas de avaliar a teoria, em relação as outras, e é seletiva ao considerar as confirmações e não considerar as desconfirmações "(Thagard 1978, 228). Uma das principais diferenças entre a sua abordagem e a de Lakatos é que, Lakatos classificaria uma disciplina não progressiva como pseudocientífica, ainda que seus praticantes trabalhem duramente, para melhorá-la e transformá-la em uma disciplina progressiva.

Em uma veia semelhante, Daniel Rothbart (1990) enfatizou a distinção entre as normas a serem utilizadas ao testar uma teoria, e os que a utilizam para determinar se uma teoria deve em tudo ser testada. No último, os critérios de elegibilidade, que incluem a teoria, devem encapsular o sucesso do número de motivos, da sua rival, e que, devem produzir implicações testáveis, ​​que são incompatíveis com as da rival. De acordo com Rothbart, uma teoria é científica se for fidedignamente testável neste sentido.

George Reisch propôs que a demarcação poderia basear-se na exigência de que, uma disciplina científica deve estar devidamente integrada nas outras ciências. As várias disciplinas científicas têm interligações fortes que são baseadas em metodologia, a teoria, a semelhança dos modelos, etc. Criacionismo, por exemplo, não é científica, porque os seus princípios e crenças básicas são incompatíveis com aqueles que se conectam e unificam as ciências. De um modo geral, diz Reisch, um campo epistêmico é pseudocientífico, se não puder ser incorporado na rede existente de ciências estabelecidas (Reisch 1998;. Cf Bunge 1982, 379).


4,5 Normas epistêmicas

Uma abordagem diferente, ou seja, os critérios de demarcação, com base sobre o valor da ciência, foi proposta pelo sociólogo Robert K. Merton ([1942] 1973). De acordo com Merton, a ciência é caracterizada por um "etos", que pode ser resumido como: quatro conjuntos de imperativos institucionais. A primeira delas, o universalismo, afirma que quaisquer que sejam suas origens, reivindicações de verdade devem ser submetidas a critérios pré-estabelecidos, impessoais. Isto implica que, a aceitação ou rejeição dos pedidos, não devem depender das qualidades pessoais ou sociais de seus protagonistas.

O segundo imperativo, o comunismo, diz que, os resultados substantivos da ciência, são os produtos de colaboração social e, portanto, pertencem à comunidade, ao invés de ser propriedade de indivíduos ou grupos. Isto é, como Merton apontou, é incompatível com as patentes que reservam direitos exclusivos de uso para inventores e descobridores. O termo "comunismo" é um pouco infeliz, "comunalidade" provavelmente capta melhor o que Merton visa.

Seu terceiro imperativo, o desinteresse, impõe um padrão de controle institucional que se destina a reduzir os efeitos de motivos pessoais ou ideológicos que os cientistas individuais possam ter.
O quarto imperativo, organizado ceticismo, implica que a ciência permite a análise isolada de crenças, que são ternamente detidas (embaladas) por outras instituições. Isto é, o que às vezes, coloca a ciência em conflito com religiões e outras ideologias.

Merton descreveu esses critérios como pertencentes à sociologia da ciência, e, assim como as declarações empíricas sobre as normas em ciência real, em vez de declarações normativas sobre como a ciência deve ser conduzida (Merton [1942] 1973, 268). Seus critérios foram muitas vezes rejeitados pelos sociólogos como simplistas, e eles só tiveram influência limitada em discussões filosóficas sobre a questão de demarcação (Dolby 1987; Ruse, 2000). O seu potencial no último contexto, não parece ter sido suficientemente explorado.


4.6 abordagens multi-criteriológicas

O método de demarcação de Popper consiste essencialmente, de um único critério de falseabilidade (embora alguns autores queiram combiná-lo com os critérios adicionais, os testes que são efetivamente realizados e seus resultados respeitados (positivos), ver a Secção 4.2). A maioria dos outros critérios discutidos acima são igualmente mono-criteriais, e é claro, a proposta de Merton, sendo uma grande exceção.

A maioria dos autores que propuseram critérios de delimitação, pelo contrário, apresentou uma lista de tais critérios. Um grande número de listas publicadas, que consistem em (normalmente 5-10) critérios que podem ser utilizados em combinação, para identificar uma ou mais pseudo práticas pseudocientificas. Isso inclui listas de Langmuir ([1953] 1989), Gruenberger (1964), holandês (1982), Bunge (1982), Radner e Radner (1982), Kitcher (1982, 30-54), Hansson (1983), Grove ( 1985), Thagard (1988), Glymour e Stalker (1990), Derkson (1993, 2001), Vollmer (1993), Ruse (1996, 300-306) e Mahner (2007). Muitos dos critérios que aparecem em tais listas se relacionam intimamente com os critérios acima discutidos nas seções 4.2 e 4.4. Tal lista é a seguinte:

A crença na autoridade: Argumenta-se que alguma pessoa ou pessoas, têm uma habilidade especial para determinar o que é verdadeiro ou falso. Os outros têm que aceitar seus julgamentos.

Experiências irrepetíveis : A confiança é colocada em experimentos que não podem ser repetidos por outros com o mesmo resultado.

Exemplos escolhidos a dedo: exemplos escolhidos a dedo são usados, embora eles não sejam representativos da categoria geral de que a investigação se refere.

Falta de vontade de teste: Uma teoria não é testada, embora seja possível testá-la.

Desconsideração da informação refutada : Observações ou experiências que entram em conflito com a teoria são negligenciados.

Subterfúgio embutido: O teste de uma teoria é de tal forma que, a teoria só pode ser confirmada, nunca refutada, com o resultado.

As explicações são abandonadas sem substituição. Explicações defensáveis são dadas acima, sem serem substituídas, de modo que, a nova teoria, deixa muito mais inexplicada, do que a anterior. (Hansson, 1983)

Alguns dos autores que propuseram demarcações multicriteriais, têm defendido esta abordagem, como sendo superior a qualquer demarcação mono-criterial. Por isso, Bunge (1982, 372) afirma que muitos filósofos não conseguiram fornecer uma definição adequada da ciência, uma vez que, já pressupunha que um único atributo vai, em sua opinião, possuir a necessária a combinação de vários critérios. Dupré (1993, 242) propôs que a ciência é mais bem entendida como: um conceito de semelhança familiar de Wittgenstein. Isto significa que, há um conjunto de características que são característicos da ciência, mas, nem toda  parte da ciência, terá algumas destas características, não devemos esperar que qualquer parte da ciência tenha todos eles.

No entanto, uma definição multicriterial da ciência não é necessária para justificar uma conta multicriterial de como a pseudociência desvia da ciência. Mesmo que a ciência possa ser caracterizada por uma única característica definidora, diferentes práticas pseudocientíficas podem desviar-se da ciência, de formas muito divergentes. Assim, a caracterização de sete itens, acima mencionada de pseudociência, foi proposta como representando sete maneiras comuns, para se desviar de um mínimo (necessário, mas não suficiente) critério da ciência, a saber: A ciência é uma busca sistemática de conhecimento, cuja validade não depende de determinado indivíduo, mas sim, é aberto para que todos possam verificar ou redescobrir.


5. Unidade na diversidade

Kuhn observou que, apesar de seus próprios critérios e os de  Popper, na demarcação, são profundamente diferentes, eles levam a essencialmente as mesmas conclusões, sobre o que deve ser considerado como ciência, e respectivamente como pseudociência (Kuhn 1974, 803). Esta convergência de critérios de delimitação teoricamente divergentes é um fenômeno bastante geral. Filósofos e outros teóricos da ciência diferem amplamente em suas opiniões sobre o que é ciência. No entanto, há praticamente unanimidade na comunidade de disciplinas de conhecimento, na maioria das questões particulares de demarcação. Existe um consenso generalizado, por exemplo, que o criacionismo, a astrologia, a homeopatia, a fotografia Kirlian, a radiestesia, a ufologia, a teoria do antigo astronauta, a negação do Holocausto, o catastrofismo Velikovsky, e a mudança climática, são delineados como pseudociências. Existem alguns pontos de controvérsia, por exemplo, sobre o estatuto da psicanálise freudiana, mas, o quadro geral é de consenso, em vez de controvérsia, em questões específicas de demarcação.

É em certo sentido paradoxal, sobre como foi alcançado tanto acordo, em questões específicas, apesar do desacordo quase total, sobre os critérios gerais que estas decisões deverão ser presumivelmente baseadas. Este quebra-cabeça é uma indicação segura de que ainda há muito trabalho filosófico importante a ser feito, sobre a demarcação entre ciência e pseudociência.

A reflexão filosófica sobre a pseudociência, tem trazido outras áreas problemáticas interessantes, além da demarcação entre ciência e pseudociência. Exemplos incluem demarcações relacionadas, tais como, entre ciência e religião, a relação entre a ciência e o conhecimento não-científico confiável (para conhecimento cotidiano por exemplo), a possibilidade de simplificações justificáveis, ​​em educação científica e da ciência popular, a natureza e a justificação do naturalismo metodológico na ciência (Boudry et al 2010), e o sentido ou de sentido, do conceito de um fenômeno sobrenatural. Várias dessas áreas problemáticas não receberam ainda, muita atenção filosófica.

"Che non men che saper dubbiar m'aggrada."
"E, não menos que saber, duvidar me agrada."

Dante, Inferno, XI, 93; cit. p/ Montaigne, Os ensaios, Uma seleção, I, XXV, p. 93; org. de M. A. Screech, trad. de Rosa Freire D'aguiar

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Fontes

Versão original em inglês por Sven Ove Hansson
Versão traduzida do Inglês para o Português por Roberto das Neves
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Universidade de Johns Hopkins
Tradução de Paulo Sousa
Publicado em Crítica na Rede
4 de Setembro de 2004 ⋅ Filosofia da ciência



O problema da demarcação

O problema da demarcação consiste em distinguir a ciência das disciplinas não científicas que também pretendem fazer afirmações verdadeiras sobre o mundo. Os filósofos da ciência foram propondo vários critérios, incluindo o de que a ciência, diferentemente da não-ciência, 1) é empírica, 2) procura certezas, 3) procede utilizando um método científico, 4) descreve o mundo observável, não um mundo não observável e 5) é cumulativa e progride.

Os filósofos da ciência apresentam-nos pontos de vista discordantes acerca destes critérios. Alguns rejeitam completamente um ou mais deles. Por exemplo, enquanto alguns aceitam a ideia de que a ciência é empírica, os racionalistas rejeitam-na, pelo menos no que toca aos princípios fundamentais acerca do espaço, da matéria ou do movimento. Surgem divergências até mesmo entre os empiristas; por exemplo, entre aqueles que advogam que os princípios científicos devem ser verificáveis e aqueles que negam esta possibilidade, exigindo apenas a sua falsificabilidade.

Algumas versões destes cinco critérios — considerados como metas a atingir — poderão ser defensáveis.

1. "Em que consiste o problema e quando se coloca?"

A expressão "problema da demarcação" foi introduzida por Popper para se referir "ao problema de se encontrar um critério que nos permitisse distinguir as ciências empíricas, por um lado, da matemática e da lógica, entendidos como sistemas metafísicos, por outro" ([1934] 1959: 34). Apesar de Popper se referir à matemática e à lógica, outros autores preocupam-se em distinguir a ciência da metafísica e da pseudociência.

Alguns filósofos, incluindo Popper, colocam o problema movidos por um desejo intelectual de clarificar esta distinção. Os positivistas lógicos tinham também o objectivo de deitar por terra as disciplinas não científicas, tais como a metafísica e a teologia, as quais parecem descrever o mundo físico mas que, por serem inverificáveis, são (alegam os positivistas lógicos) desprovidas de sentido. Outros têm objectivos mais práticos. Num país como os EUA, que oficialmente procura separar a igreja do estado, a religião não deve ser ensinada nas escolas públicas, mas a ciência pode sê-lo. Então, a questão prática passa a ser o que devemos considerar ciência (por exemplo, dizendo se o nome "ciência criacionista" está bem empregue).

2. "A ciência é empírica"

A metafísica, a filosofia e a teologia não o são. O significado disto, todavia, pode variar conforme os pontos de vista. Segundo uma concepção habitual, a ciência é formada por proposições (tais como a lei da conservação da energia), que ou são directamente observáveis através da observação sensorial, ou podem ser inferidas a partir de observações deste tipo por meio de um raciocínio indutivo (que parte de alguns casos observados para uma conclusão sobre todos os membros de uma mesma classe), ou delas derivadas de forma dedutiva. Por contraste, as proposições metafísicas (por exemplo, "os universais de Platão existem") não conseguem satisfazer estes critérios. Newton, que defendia esta concepção empirista, dizia ter derivado as suas três leis do movimento e a lei da gravidade a partir de fenómenos observados, utilizando a indução e a dedução. Muitos empiristas defendiam pontos de vista semelhantes, incluindo J. S. Mill e os positivistas lógicos. Uma concepção empirista significativamente diferente é aquela que Popper abraça. Este, de acordo com Hume, considera que o raciocínio indutivo carece de justificação lógica. Para Popper, apesar de as leis científicas não poderem ser indutivamente verificadas, elas podem ser falsificadas através da observação de um único caso negativo. Assim, a falsificabilidade baseada na observação, mais do que a verificabilidade, é aquilo que dá à ciência o seu carácter empírico.

Apesar de a grande maioria dos autores influentes que escreveram sobre a ciência terem defendido que as proposições científicas são empíricas, há excepções relevantes, especialmente no que toca aos princípios fundamentais acerca do espaço, da matéria e do movimento. Descartes acreditava que os princípios mais fundamentais da física (não menos que os da metafísica) podem ser conhecidos a priori, através do uso das intuições da razão e de deduções feitas a partir delas. Os outros aprioristas incluem Kant, que afirmava que estes princípios são sintéticos a priori, e Poincaré, que defendia que se tratam de convenções linguísticas. Whewell propõe uma concepção mista segundo a qual, apesar de as ciências terem primeiro que chegar à proposições pela via empírica, à medida que as suas ideias científicas se vão clarificando apercebem-se que estas proposições são necessárias e cognoscíveis a priori.

3. "A ciência procura certezas"

No que toca a este critério, a ciência parece-se com a matemática e é diferente da metafísica, da teologia e da astrologia, as quais, alegadamente, nunca poderão ser senão especulativas. Nas Regulae ad directionem ingenii (Regras para a direcção do espírito) (1620-c.9) a segunda regra de Descartes diz-nos que "importa lidar apenas com aqueles objectos para cujo conhecimento certo e indubitável os nossos espíritos parecem ser suficientes" . Os empiristas encontram-se mais divididos. Newton, que rejeitou a ideia de Descartes de que a ciência deveria procurar proposições indubitáveis, reconhece na sua quarta regra do método científico que qualquer proposição, por muito sustentada que seja, está sujeita a confrontar-se com excepções, à medida que novos fenómenos vão sendo observados. Ainda assim, os cientistas deveriam sempre esforçar-se por procurarem as maiores certezas que as suas investigações empíricas lhes permitissem. Essas certezas podem ser obtidas "deduzindo proposições a partir dos fenómenos e generalizando-as através da indução".

Entre os empiristas, no outro extremo oposto a Newton, estão Popper e Laudan. Para Popper, a ciência não pode ter um elevado grau de certeza, uma vez que a utilização de quaisquer generalizações indutivas que poderia gerar essa certeza carece de justificação. Tampouco é desejável, uma vez que os cientistas fariam as generalizações mais fortes possível, logo, as mais improváveis. Para Laudan (1977) a ciência procura oferecer soluções "adequadas" para problemas "interessantes", para os quais as questões da verdade, da certeza ou mesmo da probabilidade são irrelevantes.

Uma perspectiva empirista que se situa entre estes dois extremos é a de Carnap e de outros probabilistas. Os cientistas devem procurar provas empíricas que sustentem uma dada teoria, aumentando a sua probabilidade, mas sem que necessariamente esta probabilidade seja elevada (para uma crítica, veja-se Achinstein 1983).

4. "Os cientistas seguem um método científico"

Os praticantes das não ciências não o fazem. Um método científico é um conjunto de regras que os cientistas deveriam seguir para descobrir e testar leis e teorias. Se tais regras existem e, assim sendo, qual é a sua formulação, se são universais para todas as ciências ou dentro de uma dada ciência, se mudam de uma época para a outra, são questões calorosamente disputadas.

De acordo com uma perspectiva, existem regras destinadas a testar as teorias científicas que se aplicam a toda a ciência em todas as épocas. Esta perspectiva foi abraçada por Descartes, que propôs vinte e uma dessas regras; foi também defendida por Newton (1687), que propôs quatro "Regras de pensamento para a filosofia [natural]", consistindo em duas para inferir causas de coisas, e duas para produzir generalizações indutivas a partir de fenómenos observados.

As duas mais importantes posições empiristas empenhadas num método científico universal são o hipotético-dedutivismo e o indutivismo. Perante os dados e os problemas o cientista começa por propor uma hipótese, a qual não é indutiva ou dedutivamente inferida a partir dos dados ou de qualquer outra coisa, mas simplesmente apresentada como uma conjectura. Partindo dela e, possivelmente, de outras suposições, são deduzidas conclusões observáveis, geradas por via dedutiva, utilizando a lógica e, frequentemente, a matemática. Se as conclusões são confirmadas pela observação, a hipótese é provisoriamente aceite. Se se descobrir que são falsas, a hipótese é rejeitada e é proposta outra nova hipótese. Esta é a perspectiva de Popper.

Contrastando com ela, os indutivistas exigem mais um passo: um argumento indutivo que dê um apoio independente à hipótese ou à teoria. Este consiste em aplicar aquilo que se observou num número limitado de casos a todos os casos abrangidos por uma dada lei, ou em procurar causas semelhantes para efeitos semelhantes. Indutivistas como Newton ou Mill rejeitaram o método hipotético-dedutivo com a justificação de que diferentes hipóteses incompatíveis podem implicar os mesmos dados. Aquilo de que se necessita é que uma delas tenha um suporte indutivo independente.

A existência de um método científico universal tem sido contestada por vários autores do Século XX, especialmente a partir dos anos 60. Thomas Kuhn (1962), defendendo uma abordagem histórica e relativista, afirma que numa dada época os cientistas trabalham dentro de um "paradigma", o qual consiste num conjunto de conceitos, práticas, parâmetros de avaliação, regras de pensamento e métodos de observação que variam consideravelmente de uma ciência e de uma época para outra. O paradigma define os problemas que têm que ser resolvidos e os métodos para o fazer. Não há um método científico comum a todos os paradigmas.

Para terminar, foi advogada uma abordagem sociológica da ciência (veja-se, por exemplo, Pinch 1986), da qual existe uma versão forte que rejeita que se recorra às regras metodológicas para explicar os procedimentos dos cientistas. As teorias, sendo subdeterminadas pelos dados, não podem ser inferidas desses dados através de regras. Dever-se-ia, em vez disso, observar dentro da comunidade científica os factores sociais que explicam a forma como uma teoria científica se desenvolve e o grupo "negoceia" a sua aceitação.

5. "A ciência descreve apenas o mundo observável"

A metafísica, a teologia e, até, a matemática descrevem mundos que subjaze, ou que estão para além, ou que são independentes daquilo que pode ser observado. Este é um ponto de vista defendido pelos instrumentalistas e outros "anti-realistas", e rejeitada pelos realistas. Os anti-realistas consideram que o fito da ciência é "preservar os fenómenos" formulando teorias que preverão correctamente o que é observável. Alguns anti-realistas como, por exemplo, Duhem e Fraassen, acreditam na existência de um mundo não observável, mas negam que o objectivo da ciência seja descrevê-lo. Para Duhem, esse é o objectivo da metafísica e da teologia. Outros anti-realistas, como os positivistas lógicos dos anos 50 e 60, por exemplo, defendem uma posição instrumentalista forte, de acordo com a qual as afirmações que a ciência apresenta acerca de coisas não observáveis devem ser formuladas não como se se estivesse a falar de entidades reais, mas como instrumentos linguísticos de uma teoria destinados a gerar afirmações sobre coisas observáveis. Segundo estes autores, tanto a ciência como a metafísica introduzem termos que designam objectos não observáveis que não denotam objectos do mundo. A diferença entre estas duas disciplinas é que os cientistas, ao contrário dos metafísicos, ligam estes termos a objectos observáveis, de maneira a fazerem previsões observáveis.

Em contraste, os realistas afirmam que existe um mundo físico independente das nossas mentes, das nossas observações e das nossas teorias. Este mundo contém não apenas coisas e acontecimentos que os cientistas podem observar (por exemplo, os planetas), mas também outros que não podem ser observados (por exemplo, quarks). A tarefa do cientista é descrever tanto o mundo observável como o mundo não observável. A aceitação de uma teoria implica que se tome por verdadeiro aquilo que ela diz acerca de ambos. Para um realista, a distinção entre ciência e metafísica não pode ser traçada dizendo que a ciência, ao contrário da metafísica, fala daquilo que é observável.

6. "A ciência é cumulativa e progride"

O mesmo não acontece com a metafísica, a teologia e a filosofia. A história da filosofia, por exemplo, é apenas uma história de teorias que se sucedem. Quanto maiores são as diferenças da nova teoria em relação à anterior, quanto mais discorda dela, tanto maiores são as suas hipóteses de ser tida em conta. Pelo contrário, a ciência desenvolve-se de uma forma crescente e progressiva, preservando grande parte daquilo que já edificou e continuando a construir sobre essa base. Além disso, à medida que avança, a ciência detém mais e mais verdades acerca do mundo (ou preserva mais e mais fenómenos); a filosofia não o faz.

Esta ideia, energicamente defendida pelos positivistas lógicos, veio a ser fortemente contestada nos anos 60, em particular por Feyerabend e Kuhn. Ambos argumentaram que geralmente uma teoria predecessora não é derivável de uma teoria sucessora. Por vezes, notou Feyerabend, as duas nem são logicamente compatíveis. Por vezes as duas são "incomensuráveis": utilizam conceitos cujos significados dependem de teorias diferentes e não podem ser traduzidos de uma teoria para a outra. Para Kuhn isso acontece quando, como nos casos da mecânica newtoniana e na mecânica da relatividade, as teorias fazem parte de paradigmas diferentes.

7. "Poderá haver algum critério de demarcação?"

Poder-se-ia supor que não, tendo em conta estas controvérsias sobre o que é a ciência. De facto, até a necessidade de um critério de demarcação tem sido contestada por alguns filósofos, especialmente por aqueles que consideram que a filosofia é ou deveria ser desenvolvida como parte da ciência (por exemplo, Quine 173).

Ainda assim, tendemos a distinguir a ciência de outras disciplinas. A mecânica de Newton é uma teria científica, mas a sua teoria do método científico não o é; trata-se de uma teoria filosófica. Talvez nos fosse útil pegarmos numa determinada época da ciência, ou até numa ciência em particular, como a física de uma dada época, e fazer algumas afirmações sobre os objectivos comuns àqueles que nessa época a praticaram, ao mesmo tempo que se reconhece que estes objectivos podem mudar e que nem todos os cientistas os aceitam. Tendo isto em mente, poderíamos dizer que as referidas afirmações reflectiriam objectivos científicos que em dado momento haveria que atingir.

Por exemplo, na física moderna, tal como noutras ciências, um objectivo é o de apresentar ideias empiricamente testáveis — ainda que no momento (como acontece com a teoria dos supercondutores) não se saiba como testar empiricamente essas ideias. Quando em 1897 J. J. Thompson afirmou que os raios catódicos são partículas carregadas, e não ondas, não lhe bastava postular que assim era. Ele pretendeu mostrar como em princípio esta afirmação poderia ser empiricamente testada através da demonstração de que os raios podem ser deflectidos electronicamente — algo que antes não havia sido conseguido. O objectivo de formular hipóteses empiricamente testáveis é comummente partilhado pelos físicos, mas não pelos filósofos. Os físicos podem ser tão especulativos como os metafísicos, mas não podem sê-lo por demasiado tempo.

Outro objectivo é o de atingir certezas, pelo menos tanto quanto o possível, através da realização desses testes. Apesar de os filósofos, teólogos e matemáticos poderem ansiar por atingir certezas, o meio de que dispõem para as atingir é a argumentação a priori, em vez de testes empíricos. (Para um ponto de vista contrário acerca do estatuto da filosofia da ciência, veja-se Donovan et al. 1988) Este objectivo está relacionado com dois outros. Mesmo que tanto os físicos como os metafísicos postulem entidades "inobserváveis", um dos objectivos da física, que não da metafísica, é o de eventualmente torná-los "observáveis" — detectá-los e medi-los. Para Thomson não bastava postular a existência das partículas, ou mesmo descrever um processo experimental de os deflectir e de medir o ratio entre a sua massa e a sua carga eléctrica. Ele também tentou (com sucesso) levar a cabo o experimento. E o assunto não ficou por aqui. Thomson procurou demonstrar a sua teoria das partículas carregadas a partir dos resultados dos seus experimentos. Fê-lo, como Newton e Mill sugeriram, utilizando quer a dedução, quer a generalização indutiva. (veja-se Achinstein 1991). Para se obter tanta certeza quanto a possível através de testes empíricos é preciso utilizar argumentos lógicos, seguindo um "método científico". Sem este tipo de argumentos, a mera "negociação" no interior do grupo não é suficiente.

Para concluir, a física actual é mais cumulativa e progride mais do que a metafísica ou outras áreas da filosofia. Um físico pode surgir com ideias completamente novas, mas quando delas tenta retirar consequências é conveniente que utilize princípios gerais, tais como as leis da conservação, que têm uma base empírica sólida. Doutro modo, as deduções cujas conclusões podem ser testadas seriam muito mais raras do que já o são. Na filosofia contemporânea, pelo contrário, poucos ou nenhum princípios gerais são considerados pela maior parte dos filósofos como solidamente estabelecidos.

Admitindo que estes representam os objectivos de muitos físicos (mas não dos filósofos ou de outros "não-cientistas"), uma tarefa dos filósofos da ciência é fornecer uma análise crítica e sistemática dos mesmos. Os filósofos da ciência podem também tentar determinar até que ponto estes objectivos, assim classificados e sistematizados, podem ser os de outros cientistas de outras áreas e de diferentes momentos históricos.

Peter Achinstein

Referências e outras leituras

Achinstein, P. (1983) The Nature of Explanation, New York: Oxford University Press. (Uma defesa de um conceito pragmático de explicação. Os capítulos 10 e 11 discutem o conceito de prova científica. Veja-se §3.)

Achinstein, P. (1991) Particles and Waves, New York: Oxford University Press. (Esta obra discute questões metodológicas relativas à física do Século XIX, incluindo a descoberta do electrão por J. J. Thomson. Veja-se §7.)

Carnap, R. (1962) Logical Foundations of Probability, Chicago, IL: University of Chicago Press. (Uma obra importante e influente que defende uma noção a priori da probabilidade e uma definição de prova como probabilidade acrescida. Veja-se §3.)

Descartes, R. (1988) Selected Philosophical Writings, New York: Cambridge University Press. (Veja-se, em particular, "Rules for the Direction of the Mind" — Regras para a Direcção do Espírito, Tradução de João Gama, publicada por Edições 70, 1989. Veja-se §§2-4.)

Donovan, A., Laudan, L. and Laudan, R. (eds) (1988) Scrutinizing Science, Dordrecht: Kluwer. (Os colaboradores desta obra apresentam testes empíricos para avaliar o valor de diferentes métodos científico)

Duhem, P. (1991) The Aim and Structure of Physical Theory, Princeton, NJ: Princeton University Press. (Um clássico moderno da filosofia da ciência.)

Feyerabend, P. K. (1993) Against Method, London: Verso. Edição portuguesa: Contra o Método, Lisboa, Relógio de Água, 1993, tradução de Miguel Serras Pereira (Um ataque controverso mas sempre interessante a algumas oncepções tradicionais da racionalidade e da ciência.)

Fraassen, B. van (1980) The Scientific Image, Oxford: Oxford University Press. (defesa do anti-realismo.)

Kant, I. (1786) Metaphysical Foundations of Natural Science, Indianapolis, IN: Bobbs-Merrill, 1970. (Veja-se especialmente o capítulo 3: "fundamentação metafísica da mecânica".)

Kuhn, T. (1962) The Structure of Scientific Revolutions, Chicago, IL: University of Chicago Press. (Uma das mais influentes obras do século XX sobre a natureza da ciência.)

Laudan, L. (1977) Progress and its Problems, Berkeley, CA: University of California Press. (Uma muito acessível defesa da ciência como resolução de problemas.)

Mill, J.S. (1843) A System of Logic, London: Longmans, 1959. (O Livro III deste clássico contém a defesa que Mill faz da indução e o seu ataque ao método hipotético-dedutivo.)

Newton, I. (1687) Philosophiae Naturalis Principia Mathematica, Berkeley, CA: University of California Press, 1966. (O Livro III inicia-se com as quatro regras de Newton para o método científico.)

Pinch, T. (1986) Confronting Nature: The Sociology of the Solar-Neutrino Detection, Dordrecht: Kluwer. (Uma abordagem sociológica à descoberta científica e à mudança.)

Poincaré, H. (1902) Science and Hypothesis, New York: Dover, 1962. (Uma defesa clássica de uma abodagem convencional da ciência.)

Popper, K. (1934) The Logic of Scientific Discovery, London: Hutchinson, 1959. (A mais famosa defesa do hipotético-dedutivismo do século XX e a ideia de que a ciência é falsificável, mas não verificável.)

Quine, W.V. (1973) The Roots of Reference, La Salle, IL: Open Court. (The 1971 Paul Carus Lectures. )

Snyder, L. (1994) 'It's All Necessarily So: William Whewell on Scientific Truth', Studies in History and Philosophy of Science 25, 785-807. (Uma nova interpretação do apriorismo de Whewell's.)

Whewell, W. (1847) The Philosophy of the Inductive Sciences, New York: Johnson Reprint Corporation, 1967. (Uma das grandes obras do Século XIX sobre filosofia da ciência.)

Fonte:

Crítica na Rede
Tradução de Paulo Sousa
Publicado em Routledge Encyclopedia of Philosophy, org. Edward Craig (Londres: Routledge, 1998)
« Última modificação: 30 de Abril de 2014, 15:52:01 por Skeptikós »
"Che non men che saper dubbiar m'aggrada."
"E, não menos que saber, duvidar me agrada."

Dante, Inferno, XI, 93; cit. p/ Montaigne, Os ensaios, Uma seleção, I, XXV, p. 93; org. de M. A. Screech, trad. de Rosa Freire D'aguiar

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Tradução de Carlos Marques
Publicado em: Crítica na Rede
28 de Novembro de 2008, Filosofia da ciência


Indução e filosofia da ciência

A filosofia da ciência é uma das mais velhas subdivisões da filosofia, remontando pelo menos a Aristóteles. Está hoje em rápido crescimento, uma vez que os grandes avanços científicos do último século têm levado os filósofos a pensar mais cuidadosamente sobre a ciência. Estes filósofos poderão vir a influenciar o futuro da ciência.

A filosofia da ciência implica reflexão filosófica sobre a ciência. Os filósofos da ciência não colocam questões científicas — essa é a tarefa dos cientistas. Em vez disso, os filósofos da ciência enfrentam questões sobre a ciência. Por exemplo: o que é a ciência? O que distingue a ciência da não ciência? Qual o papel da observação na ciência? Como progride a ciência? Outras questões focam-se nos conceitos que a ciência aplica. Por exemplo, o que é uma lei da natureza? Outra preocupação filosófica é a de se saber até que ponto temos justificação para acreditar que as entidades inobservadas são reais. Devemos supor que os electrões existem realmente, ou são apenas "ficções" úteis?

O equilíbrio dos indícios

Algumas das questões mais centrais e importantes colocadas por filósofos da ciência dizem respeito ao problema da confirmação. Os cientistas constroem teorias que pensar ser confirmadas pelo que observam. Essa confirmação, no entanto, faz-se por graus. Uma teoria pode ser ligeiramente confirmada por alguma evidência ou pode ser confirmada mais fortemente. Supomos que quanto mais fortemente uma teoria científica for confirmada pela evidência disponível, mais racional se torna nela acreditar. Uma pergunta relativa à confirmação em que podemos pensar é a seguinte: o que faz uma teoria ser mais fortemente confirmada do que outra? Outra pergunta, mais fundamental, é a de saber se as nossas teorias científicas podem ser alguma vez confirmadas. O filósofo do século XVIII David Hume argumentou que apesar de supormos que aquilo que observámos até hoje confirma as nossas teorias científicas, tais observações não fornecem de facto qualquer confirmação. Se Hume tiver razão, todas as teorias, quer a teoria de que a Terra gira em torno do Sol, quer a teoria de que o núcleo da Terra é feito de queijo, são igualmente racionais. O problema que Hume levanta é conhecido como o "problema da indução". Trata-se de um problema que numerosos pensadores na filosofia tentaram enfrentar.

O problema da indução

Todos nos baseamos enormemente no raciocínio indutivo. Supomos que em virtude de o Sol ter nascido todos os dias no passado, temos boas razões para supor que nascerá amanhã. Porém, se o filósofo David Hume tiver razão, o passado não fornece qualquer espécie de pista para o que acontecerá no futuro.

Grandes esperanças

A forma de argumento mais fiável é a dedução. Num argumento dedutivo válido, as premissas implicam logicamente a conclusão. Tomando um exemplo simples:

Sócrates é homem.
Todos os homens são mortais.
Logo, Sócrates é mortal.

Se dizemos que as premissas são verdadeiras e a conclusão falsa é porque nos envolvemos numa contradição.

Num argumento indutivo, por contraste, as premissas não fornecem supostamente uma garantia de que a conclusão é verdadeira. Em vez disso, espera-se que as premissas forneçam apenas indícios de que a conclusão é verdadeira. Eis um exemplo:

O ganso 1 é branco.
O ganso 2 é branco.
O ganso 3 é branco.
O ganso 1000 é branco.
Portanto, todos os gansos são brancos.

Se observamos mil gansos e se todos eles são brancos, concluímos que todos os gansos são brancos. Supomos que as premissas do nosso argumento tornam razoável aceitar a conclusão. Porém, é claro que não há contradição lógica em supor que apesar de os primeiros mil gansos observados serem brancos, o próximo possa não sê-lo.

Baseamo-nos a toda a hora em argumentos indutivos. Quando fazemos uma previsão do que acontecerá no futuro ou acerca do que está a acontecer, ou aconteceu, em zonas do universo que não observámos, baseamo-nos no raciocínio indutivo para justificar as nossas posições.

Por exemplo, suponho que a cadeira onde estou sentado aguentará o meu peso. Que justifação tenho para acreditar nisso? Bem, a cadeira sempre aguentou o meu peso no passado. Portanto, concluo que aguentará também desta vez. É evidente que o facto de a cadeira ter aguentado comigo no passado não me dá garantia lógica de que agora aguentará. É possível que a cadeira se desmorone. Ainda assim, supomos que o facto de a cadeira ter sempre aguentado comigo me dá razões para acreditar que continuará a fazê-lo. Os cientistas também se baseiam enormemente no raciocínio indutivo. Constroem teorias que valem supostamente em toda a parte e em qualquer época, incluindo o futuro. Justificam as teorias apresentando as suas observações. Contudo, as afirmações acerca do que foi observado não implicam logicamente as afirmações acerca do que acontecerá no futuro. Assim, se os cientistas querem justificar estas teorias, não o podem fazer através de argumentação dedutiva. Em vez disso, têm de basear-se no raciocínio indutivo.

Não é, portanto, a razão o guia da vida, mas o hábito que por si só determina em todos os caso a mente a supor o futuro conforme ao passado.
David Hume, Tratado Sobre A Natureza Humana

É a natureza uniforme?

O filósofo David Hume coloca a questão de saber se podemos ou não justificar alguma vez este tipo de conclusões acerca do que não observámos. Hume afirma que quando raciocinamos indutivamente fazemos um pressuposto: pressupomos que a natureza é uniforme, pressupomos que existem os mesmos padrões gerais subjacentes à natureza. O que aconteceria se não partíssemos deste pressuposto? Nesse caso, não poderíamos tirar as conclusões que tiramos. Eu não concluiria que a cadeira onde me sento agora aguentará comigo, em virtude de ela ter sempre aguentado comigo no passado. É porque acredito que as mesmas regularidades gerais subjazem à natureza, incluindo no futuro, que suponho que a cadeira aguentará comigo da próxima vez que nela me sentar. Mas é aí que Hume detecta um problema. Sempre que raciocinamos indutivamente pressupomos que a natureza é uniforme. Porém, se queremos justificar a nossa crença de que a indução é um método fidedigno para chegar a crenças verdadeiras, temos de justificar este pressuposto.

Justificar as nossas crenças

Hume indica que há duas possibilidades. Podemos tentar justificar a ideia de que a natureza é uniforme recorrendo à experiência ou podemos justificá-la independentemente da experiência, afirmando porventura que se trata de uma verdade lógica. O problema com esta segunda sugestão é bastante óbvio. A ideia de que a natureza é uniforme não é claramente uma verdade lógica. Não há contradição lógica em supor que, embora a natureza tenha sido uniforme até agora, possa tornar-se de repente uma confusão caótica e desarrumada, onde as coisas se comportam ao acaso e de forma imprevisível.

Não resta senão uma possibilidade para justificar o pressuposto de que a natureza é uniforme. Temos de fazê-lo apelando à experiência. Uma forma de levar isso a cabo seria observar directamente tudo o que se passa na natureza. Desse modo poderíamos simplesmente observar que ela é uniforme em todas as suas partes. Mas é claro que não podemos fazer isto. Podemos observar directamente apenas uma pequena porção do universo. E é certo que não podemos observar directamente o futuro.

Portanto, a nossa justificação terá de recorrer a uma inferência baseada no que pode ser observado directamente. E por que não podemos testemunhar que a natureza é aqui e agora uniforme e, depois, concluir que a natureza é provavelmente uniforme em todas as outras circunstâncias?

O problema é, obviamente, que este raciocínio é ele próprio indutivo. Teríamos de nos basear num raciocínio indutivo para tentar mostrar que o raciocínio indutivo é fidedigno. Mas isto é certamente uma justificação circular inaceitável. Seria como confiar nas afirmações de um doente mental quando este assevera ser digno de confiança. Não é de modo algum uma justificação.

Hume conclui que embora raciocinemos indutivamente, não temos realmente qualquer justificação para supor que o raciocínio indutivo conduz provavelmente a conclusões verdadeiras. Não temos fundamentos para supor que as coisas continuarão a comportar-se como no passado. Sim, acredito que esta cadeira aguentará comigo da próxima vez que nela me sentar, que esta caneta cairá quando a largar e que o Sol nascerá amanhã, como sempre aconteceu. Mas, espantosamente, a verdade é que tenho tanta razão para supor que a cadeira se desmoronará, como para acreditar que a caneta se erguerá vagarosamente ou que amanhã de manhã um panda luminoso insuflável com milhões de quilómetros de largura se erguerá no horizonte.

A conclusão de Hume parece louca. Em condições normais, consideraríamos louca uma pessoa que acredita que um panda com milhões de quilómetros de largura tomará o lugar do Sol. Mas se Hume tiver razão, esta crença "louca" não é menos razoável do que a nossa própria crença de que será o Sol a erguer-se e não o panda. As previsões de um louco não são mais nem menos razoáveis do que as dos maiores cientistas.

"Porém, funciona"

Pode ser tentador responder ao problema da indução de Hume notando que o raciocínio indutivo tem tido um grande sucesso até agora. Baseando-se no raciocínio indutivo os cientistas alcançaram coisas extraordinárias, desde as lâmpadas eléctricas e computadores, às viagens espaciais e à manipulação genética. Todos estes feitos grandiosos da ciência e da engenharia dependem do raciocínio indutivo. Não é isto fundamento para supor que o raciocínio indutivo é um método fidedigno para alcançarmos crenças verdadeiras?

A dificuldade com esta justificação da indução é uma vez mais que ela própria é um raciocínio indutivo. Refere que o raciocínio indutivo tem sido extremamente bem-sucedido até hoje e conclui que continuará provavelmente a ser bem-sucedido no futuro. Estamos outra vez a cair no problema da circularidade: usar a indução para justificar a indução é como confiar no que diz um anúncio porque o próprio anúncio garante ser de confiança.

Baseando-se em raciocínios indutivos os cientistas alcançaram resultados estupendos. O Homem caminhou na Lua. Não mostra isto que a indução é fidedigna?

Apelo à racionalidade

Dado que acreditamos que temos justificação para tirar conclusões acerca do futuro e que as previsões dos grandes cientistas estão mais provavelmente próximas da verdade do que as de um louco, é espantoso que Hume tenha aparentemente mostrado que tais crenças são irracionais.

Os filósofos continuam de volta deste problema espinhoso. Alguns sugeriram o seguinte. Como a palavra "racional" significa "raciocionar dedutiva ou indutivamente", não precisamos de justificar a convicção "a indução é racional", tal como não precisamos de o fazer em relação à crença de que nenhum solteiro é casado ou de que todas as mães são mulheres. Estas proposições são, se quisermos, analíticas ou "verdadeiras por definição".

Uma dificuldade com esta manobra é que, ao aceitarmos que "a indução é racional" é "verdadeira por definição", estamos apenas a adiar o problema. Hume pergunta-nos como podemos saber que a indução nos pode conduzir fidedignamente a crenças verdadeiras acerca do futuro. Insistir na ideia de que a indução é racional porque é "verdadeira por definição" apenas faz levantar a questão: e que fundamento temos para supor que "ser racional" conduzirá fidedignamente a crenças verdadeiras acerca do futuro? Porquê supor que "racionalidade" será um guia mais fidedigno para o futuro do que as suposições de um louco?

O problema da indução levou alguns pensadores a procurarem formas alternativas de estabelecer verdades científicas.

A teoria de Hume é assim tão radical?

Para aqueles que só há pouco tiveram contacto com a filosofia não é fácil perceber quão radical é realmente a posição de Hume sobre a indução. A conclusão a que ele chega não é, como pode parecer à primeira vista, que não podemos estar completamente certos quanto ao que irá acontecer no futuro. Todos podemos ver que há pelo menos alguma margem de erro nas nossas previsões. A conclusão de Hume é que não temos fundamento para supor que as coisas continuem a comportar-se como até agora se comportaram. Se Hume tiver razão, a ciência é no seu todo uma actividade irracional e as previsões feitas pelos cientistas não são mais racionais do que as de um louco.

Os "cientistas loucos" só existem na ficção, mas de acordo com Hume, o raciocínio indutivo usado por todos os cientistas é de certa maneira louco, visto que não tem uma base racional.

Falsificacionismo

O filósofo Karl Popper oferece uma solução radical para o "problema da indução" de Hume e para a nuvem de dúvida que este problema lança sobre as teorias científicas. De acordo com Popper, a ciência não se baseia na indução, progredindo em vez disso através da "falsificação" de teorias.

Eliminar o erro

Suponhamos que acredito que todos os gansos são brancos. Mas depois, numa visita à Nova Zelândia, vejo um ganso negro. A minha observação de que existe um ganso negro falsifica — quer dizer, torna falsa — a minha teoria original de que todos os gansos são brancos.

Note-se que aqui o raciocínio é dedutivo e não indutivo. Observo que é verdadeiro que existe um ganso não branco. A verdade desta afirmação implica que a minha teoria "Todos os gansos são brancos." é falsa.

A perspectiva de Karl Popper é que a ciência, em vez de progredir através de teorias que são confirmadas indutivamente, progride na verdade através de teorias que são falsificadas por raciocínio dedutivo. Os cientistas constroem teorias a partir das quais deduzem certas consequências que podem ser submetidas a testes. As teorias que não são falsificadas pelos testes mantêm-se, as que são falsificadas põem-se de parte, construindo-se no seu lugar teorias que escapam a essa falsificação. Também estas são depois testadas e aquelas que se mostram falsas, postas de parte, e assim sucessivamente. Note-se que, como a falsificação não envolve raciocínio indutivo, o problema da indução de Hume é contornado. A concepção de Popper sobre o modo como a ciência funciona em vez de resolver o problema da indução, evita-o.

Encontrar boas teorias

A teoria de Popper não diz que são igualmente boas todas as teorias que ainda não foram falsificadas. Algumas teorias são melhores do que outras. O que faz uma teoria não falsificada ser preferível a outra é o facto de poder ser mais facilmente falsificada. Mas o que faz uma teoria ser mais facilmente falsificada do que outra? Uma forma de uma teoria ser mais facilmente falsificada deve-se à sua maior abrangência. Consideremos estas duas teorias acerca da gravidade:

Todos os objectos caem em direcção ao centro da Terra.
Em Londres todos os objectos caem em direcção ao centro da Terra.

A primeira teoria é mais abrangente. Prevê tudo o que a segunda prevê e prevê ainda muito mais. Sendo que prevê mais, é mais fácil de falsificar do que a segunda teoria.

Uma teoria é também mais facilmente falsificada se fizer previsões mais precisas. Consideremos a afirmação:

Todas as pessoas felizes usam cores brilhantes.

Trata-se de uma asserção bastante vaga. O que é exactamente a felicidade e como podemos medi-la? Onde está precisamente a fronteira entre ser feliz e não o ser? O que se deve considerar brilhante? Estas e outras questões levantam-se assim que resolvemos testar a afirmação. E é claro, dada a sua vagueza, alguém que esteja interessado em defendê-la pode sempre fugir ao que parece uma falsificação, dizendo "Bem, não era propriamente isso que queria dizer com "brilhante"", ou "Esta pessoa não é propriamente alguém que eu consideraria "feliz"". A vagueza faz uma afirmação ser muito mais difícil de falsificar.

Uma teoria que faz previsões precisas e sem ambiguidades acerca de fenómenos quantificáveis e mensuráveis é muito mais fácil de falsificar. Por exemplo, a teoria de que todas as pedras pesam precisamente 500g pode ser facilmente falsificável com a ajuda de uma simples balança. Os instrumentos de medida, como os manómetros ou os termómetros, fornecem aos cientistas ferramentas eficazes para testar as suas teorias.

Karl Popper sobre a ciência genuína

De acordo com Karl Popper, qualquer teoria científica genuína será falsificável. Quer dizer, haverá uma possível observação que poderá falsificá-la. Na opinião de Popper, uma teoria verdadeiramente científica faz uma afirmação positiva acerca do modo como o mundo funcionará. Corre o risco de ser falsa — o mundo pode não funcionar como a teoria diz. As posições não falsificáveis não permitem fazer este tipo de afirmações, pois são compatíveis com qualquer modo de ser do mundo, seja ele qual for. Por isso, carecem de qualquer conteúdo empírico. Por exemplo, dizer que "As esmeraldas são verdes ou não são verdes" é uma afirmação não falsificável — o que quer que seja que observemos será compatível com a sua verdade. Portanto, não é genuinamente científica. Popper sugere que esta é a maneira de distinguir entre as teorias que são genuinamente científicas e as que são apenas pseudocientíficas. As teorias genuinamente científicas são falsificáveis. Teorias que dizem ser científicas, mas que não são falsificáveis, são falsa ciência. De acordo com Popper, nem a teoria da história de Marx, nem a teoria do inconsciente de Freud podem ser sujeitas ao teste da falsificabilidade. Popper argumenta que qualquer que sejam os contra-indícios que possamos recolher contra as teorias de Marx ou de Freud, há sempre uma maneira de a teoria se lhes acomodar. Segundo Popper, estas teorias não são más teorias científicas. Não são sequer teorias científicas.

Evitar o "ad hoc"

Suponhamos que acredito que "toda a madeira arde". Faço então uma encomenda de lenha e nenhum tronco arde. Esta observação falsifica a minha teoria de que toda a madeira arde. Como posso ripostar? Uma possibilidade seria emendar a minha teoria original para:

Toda a madeira arde excepto a que foi encomendada no último Domingo.

Contrariamente à minha teoria original, esta nova teoria não pode ser falsificada pela lenha recebida no Domingo. Mas os falsificacionistas não consideram desejável este género de modificação.

Quanto mais falsificável melhor. Uma teoria não falsificável que faz previsões precisas e mensuráveis é melhor do que uma que é vaga e confusa. Instrumentos calibrados ajudam-nos a falsificar algumas teorias.

E a razão disso é que se trata de uma solução ad hoc (um termo do latim que significa "para este propósito"). É inaceitável porque nada acrescenta à teoria original em termos de consequências futuras testáveis — não posso, na verdade, dispor de outra encomenda de lenha entregue no mesmo Domingo de modo a fazer um teste.

Porém, nem todas as modificações são ad hoc. Suponhamos que observo que a madeira que não arde está molhada. Posso testar amostras de madeira seca e molhada para examinar se a minha nova hipótese é correcta.

Um exemplo concreto de um desses raciocínios ad hoc liga-se à teoria de Aristóteles de que todos os corpos celestes são perfeitamente esféricos. Galileu desenvolveu um telescópio que mostrava a existência de montanhas e vales na superfície lunar. Esta observação parecia falsificar a teoria de Aristóteles, visto que parecia provar que pelo menos a Lua não era perfeitamente esférica. Mas alguns tentaram defender a teoria de Aristóteles modificando-a ligeiramente. Afirmaram que tem de existir uma substância invisível que preencha os vales lunares até ao topo das montanhas. Portanto, a Lua é, afinal de contas, esférica. Este desenvolvimento da teoria de Aristóteles foi ad hoc porque nada acrescentou a essa teoria em termos de possíveis consequências que pudessem ser testadas. Ninguém podia fazer o que quer que fosse na altura para testar a existência ou não da dita substância invisível. De modo algo sarcástico, Galileu afirmou então que essa substância realmente existia, só que em cima das montanhas, fazendo com que a lua fosse ainda mais acidentada do que parece.

Onde falha a falsificação

Uma dificuldade óbvia que se pode levantar ao falsificacionismo é a sua aceitação da ideia de que não temos quaisquer justificação para supor qualquer teoria científica como verdadeira. Esta ideia é, no mínimo, altamente contra-intuitiva. Não seria preferível se pudéssemos divisar outra solução para o problema da indução, uma solução que nos permitisse evitar esta conclusão bizarra? É claro que, em resposta, o falsificacionista pode insistir que não há uma solução melhor.

Outra dificuldade é que o falsificacionismo não fornece uma descrição adequada do modo como a ciência progride ou deve progredir. Tomemos, por exemplo, a teoria de Copérnico de que a Terra se move em redor do Sol. Quando foi pela primeira vez proposta, os críticos apontavam duas observações que pareciam falsificar a teoria de Copérnico. Primeiro, se a Terra se move, um objecto que cai de uma torre alta devia cair fazendo um ângulo e não a direito, pois se a Terra se move durante o período da queda, o objecto devia cair a uma distância equivalente relativamente ao ponto exactamente abaixo de foi largado. Porém, é claro que os objectos caídos de torres caem sempre na vertical. Esta observação parece imediatamente falsificar a teoria copernicana.

Segundo, se a Terra anda em volta do Sol, as estrelas fixas deviam ter um movimento aparente para trás e para diante ao longo do nosso campo de visão durante o período de um ano (do mesmo modo que se olhássemos directamente para norte andando à volta de um poste de iluminação, as casas ao longo da rua se moveriam para trás e para diante ao longo do nosso campo de visão). Mas nenhum movimento desse género, a paralaxe, foi observado. A não observação da paralaxe também parece falsificar a teoria copernicana. Alguns tentaram defender a teoria copernicana insistindo que as estrelas estão demasiado longe para que a paralaxe seja detectada pelos instrumentos da época (o que se mostrou ser verdade). Mas, é claro, foi um argumento ad hoc. Não havia nesse tempo maneira de poder falsificar esta nova ideia sobre a distância das estrelas fixas.

Apesar disso, a teoria de Copérnico não foi rejeitada e ainda bem. Os cientistas provaram nos anos seguintes que Copérnico estava certo e que ambas as objecções eram infundadas. Uma vez que o falsificacionismo implica que a teoria de Copérnico devia ter sido rejeitada, parece que o próprio falsificacionismo está errado, pois não consegue descrever correctamente o modo como a ciência funciona.

Mesmo que o falsificacionismo não forneça uma descrição correcta do modo como a ciência procede ou deve proceder, o teste da falsificação mantém a sua importância. Muitos teorizadores que se afirmam "científicos" são dificilmente falsificados porque não fazem previsões claras e sem ambiguidades. Como resultado, aconteça o que acontecer, podem sempre afirmar que as suas teorias não foram falsificadas. Os astrólogos, por exemplo, podem habitualmente sustentar que se mostrou que a sua previsão é verdadeira.

Stephen Law

Retirado de Philosophy (Londres, 2007, pp. 179-189). Tradução Carlos Marques. Versão brasileira, versão portuguesa.
"Che non men che saper dubbiar m'aggrada."
"E, não menos que saber, duvidar me agrada."

Dante, Inferno, XI, 93; cit. p/ Montaigne, Os ensaios, Uma seleção, I, XXV, p. 93; org. de M. A. Screech, trad. de Rosa Freire D'aguiar

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Este é um link autorizado do e-book de A. F. CHALMERS: O QUE É CIÊNCIA AFINAL?, e-book este sugerido pelo membro Feliperj, em resposta ao tópico "Como a ciência funciona?". Abaixo o sumário do livro:

A. F. CHALMERS - O QUE É CIÊNCIA AFINAL?

SUMÁRIO

Obs. Nº das páginas no original registrado no lado superior de cada página

Prefácio à primeira edição..................................................... ...................... 11
Prefácio à segunda edição..................................................... ..................... 15
Introdução................................................. ................................................. 17

I. Indutivismo: ciência como conhecimento derivado
 dos dados da experiência................................................ .......................... 23
1. Uma concepção de senso comum da ciência amplamente aceita............ 23
2. Indutivismo ingênuo.................................................... ............................ 24
3. Raciocínio lógico e dedutivo................................................... .................. 28
4. Previsão e explicação no relato indutivista.............................................. 30
5. A atração do indutivismo ingênuo.................................................... ........ 34

II. O problema da indução.................................................... ....................... 36
1. O princípio de indução pode ser justificado?............................................ 36
2. O recuo para a probabilidade.............................................. .................... 40
3. Respostas possíveis ao problema da indução......................................... 43

III. A dependência que a observação tem da teoria.................................... 46
l. Uma explicação popular de observação................................................. ... 47
2. Experiências visuais não determinadas pelas imagens sobre a retina.... 48
3. As proposições de observação pressupõem teoria.................................. 53
4. Observação e experimento orientam-se pela teoria................................ 58
5. Indutivismo não conclusivamente refutado.............................................. 60

IV. Apresentando o falsificacionismo.......................................... ................... 64
1. Uma particularidade lógica para apoiar o falsificacionista......................... 64
2. A falsificabilidade como um critério para teorias........................................ 65
3. Grau de falsificabilidade, clareza e precisão.............................................. 69
4. Falsificacionismo e progresso.................................................. .................. 73

V. Falsificacionismo sofisticado, novas previsões e
o crescimento da ciência.................................................... ........................... 78
1. Graus de falsificabilidade relativos ao invés de absolutos........................ 78
2. Aumentando a falsifìcabilidade e modificações ad hoc.............................. 79
3. A confirmação na explicação falsificacionista da ciência............................ 82
4. Ousadia, novidade e conhecimento prévio............................................... 85
5. Comparação das visões indutivista e falsificacionista
de confirmação................................................ ............................................. 86

VI. As limitações do falsificacionismo.......................................... .................. 90
1. A dependência que a observação tem da teoria e a
falibilidade das falsificações.............................................. ........................... 90
2. A defesa inadequada de Popper..................................................... ......... 91
3. A complexidade das situações de teste realistas.................................... 94
4. O falsificacionismo é inadequado em bases históricas............................. 97
5. A Revolução Copernicana................................................ ......................... 99

VII. Teorias como estruturas: programas de pesquisa................................109
1. As teorias devem ser consideradas como um todo estruturado..............109
2. Os programas de pesquisa de Lakatos...................................................1 12
3. Metodologia em um programa de pesquisa.............................................117
4. A comparação de vrogramas de pesquisa...............................................119

VIII. Teorias como estruturas: os paradigmas de Kuhn..............................123
1. Comentários introdutórios.............................................. ........................123
2. Paradigmas e ciência normal..................................................... ..............125
3. Crise e revolução.................................................. ..................................129
4. A função da ciência normal e das revoluções..........................................133
 
IX. Racionalismo versus relativismo................................................ .............137
1. Racionalismo............................................... ............................................137
2. Relativismo................................................ ..............................................138
3. Lakatos como racionalista............................................... ........................140
4. Kuhn como relativista................................................ ..............................145
5. Para uma mudança dos termos do debate.............................................148
X. Objetivismo................................................ .............................................151
1. Individualismo............................................. ............................................151
2. Objetivismo................................................ .............................................154
3. A ciência como uma prática social..................................................... ......158
4. O objetivismo apoiado por Popper, Lakatos e Marx...............................16O
 
XI. Um relato objetivista das mudanças teóricas na física .........................163
1. As limitações do objetivismo de Lakatos................................................163
2. Oportunidades objetivas.................................................. ......................165
3. Um relato objetivista das mudanças teóricas na física ..........................169
4. Alguns comentários de advertência................................................ .......172

XII. A teoria anarquista do conhecimento de Feyerabend.........................174
1. Vale-tudo...............................................................................................174
2.Incomensurabilidade...................................... ........................................177
3. A ciência não é necessariamente superior a outras
áreas do conhecimento............................................... ................................181
4. Liberdade do indivíduo.................................................. ..........................184

XIII. Realismo, instrumentalismo e verdade................................................188
1. Comentários introdutórios.............................................. ........................188
2.Instrumentalismo......................................... ............................................190
3. A teoria da correspondência da verdade................................................193
4. Problemas com a noção de verdade do senso comum............................197
5. Popper a respeito da aproximação da verdade.......................................201

XIV. O realismo não-representativo.............................................................205
1. A relação entre as teorias e suas sucessoras.........................................205
2. O realismo não-representativo................................................................207
3. O que é ciência, afinal?........................................................... .................210
4. O relativismo em perspectiva................................................ ...................211
5. Por que se incomodar?........................................................... .................214
Bibliografia............................................... ....................................................217
Índice onomástico................................................. .......................................223

Link para o e-book: http://charlezine.com.br/wp-content/uploads/2012/10/O-Que-%C3%A9-a-Ci%C3%AAncia-Afinal-A.-Chalmers.pdf

Tenham uma boa leitura.

Abraços!
« Última modificação: 09 de Maio de 2014, 16:05:08 por Skeptikós »
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Mais outro tópico sobre a mesma ladainha infinda?

O Cientista vai repetir mais uma vez: a questão não é "a ciência" ("má, boa, pseudo, não..."), mas a *máquina científica*. Você pega um desperdício de papel e tinta ou de bytes, como o livro acima, como exemplo, olha para o índice e vê nada mais que a catalogação de tudo o que já se pensou de errado sobre o que já nem se sabe mais o que é, e...  nada, absolutamente NA-DA se aborda sobre as características do sistema em que tudo se passa. Tudo isso aí é lixo puro, quase (porque nunca foi exatamente) como tecnologia (bem) passada, não serve para mais nada, ainda que tivesse servido para alguma coisa, no passado.

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O Cientista vai repetir mais uma vez: a questão não é "a ciência" ("má, boa, pseudo, não..."), mas a *máquina científica*. Você pega um desperdício de papel e tinta ou de bytes, como o livro acima, como exemplo, olha para o índice e vê nada mais que a catalogação de tudo o que já se pensou de errado sobre o que já nem se sabe mais o que é, e...  nada, absolutamente NA-DA se aborda sobre as características do sistema em que tudo se passa. Tudo isso aí é lixo puro, quase (porque nunca foi exatamente) como tecnologia (bem) passada, não serve para mais nada, ainda que tivesse servido para alguma coisa, no passado.

Citação de: Sven Ove Hansson
1. O objetivo das demarcações

Demarcações da ciência e da pseudociência podem ser feitas por razões teóricas e práticas (Mahner de 2007, 516). De um ponto de vista teórico, a questão de demarcação é uma perspectiva esclarecedora, que contribui para a filosofia da ciência, da mesma forma que o estudo de falácias, contribui para o estudo da lógica informal e argumentação racional.

De um ponto de vista prático, a distinção é importante para a orientação da decisão, tanto na vida privada quanto na pública. Desde que a ciência é a nossa fonte mais confiável de conhecimento em uma ampla variedade de áreas, é preciso distinguir o conhecimento científico de seus sósias. Devido ao elevado status da ciência na sociedade atual, as tentativas de exagerar o status científico de várias reivindicações, ensinamentos e produtos, são comuns o suficiente, para fazer a questão de demarcação, urgentemente em muitas áreas. A questão de demarcação é importante em muitas aplicações práticas, tais como os seguintes:

Saúde: A ciência médica desenvolve e avalia os tratamentos de acordo com a evidência de sua eficácia. Atividades pseudocientíficas nesta área dão origem a intervenções ineficazes e às vezes perigosas. Os profissionais de saúde, seguradoras, autoridades governamentais, e o mais importante, os pacientes, precisam de orientação sobre como distinguir entre ciência médica e pseudociência médica.

Testemunho de especialista: É essencial para o Estado de direito, que os tribunais obtenham os fatos de forma correta. A confiabilidade dos diferentes tipos de provas, deve ser determinada corretamente, e prova pericial, deve ser baseada no melhor conhecimento disponível. Às vezes, é do interesse dos litigantes, para apresentar alegações não científicas como a ciência sólida. Portanto, tribunais devem ser capazes de distinguir entre ciência e pseudociência. Os filósofos muitas vezes, tiveram papéis de destaque na defesa da ciência contra a pseudociência em tais contextos. (Hansson 2011)

As políticas ambientais: Para estar no lado seguro contra possíveis desastres, pode ser legítimo, para tomar medidas preventivas, quando há evidência válida, mas ainda insuficiente de um perigo ambiental. Este deve ser distinguido de: tomar medidas contra um suposto perigo para o qual não há nenhuma evidência válida em tudo. Por isso, os tomadores de decisão na política ambiental, devem ser capazes de distinguir entre afirmações científicas e pseudocientíficas.

A educação científica: Os promotores de algumas pseudociências (nomeadamente criacionismo) tentam introduzir seus ensinamentos nos currículos escolares. Os professores e autoridades escolares precisam ter critérios claros de inclusão, que protejam os alunos contra os ensinamentos pouco confiáveis ​​e refutados.

O trabalho sobre o problema da demarcação parece ter diminuído após Laudan (1983) uma certidão de óbito muito notável, segundo a qual, não há esperança de encontrar um critério de algo necessário e suficiente tão heterogêneo quanto a metodologia científica. Em anos mais recentes, o problema foi revitalizado. Filósofos atestando sua vitalidade sustentam que, o conceito pode ser esclarecido por outros meios que não uma definição necessária e suficiente (Pigliucci 2013; Mahner 2013) ou, que tal definição é de fato possível, embora tenha de ser complementado com os critérios específicos de cada disciplina, a fim de tornar-se pleno em funcionamento. (Hansson 2013)

Estes são segundo Sven Ove Hansson, motivos e objetivos suficientes para justificarem a importância das demarcações feita pelos filósofos da ciência do que é ou não a ciência e o conhecimento cientifico.
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E?

Segundo Skeptikós, é o que o Cientista quereria saber.

O Cientista aponta o lixo puro, e o Sketpikós mostra mais do lixo para dizer...   que não é lixo?

O Cientista não teceu nada que se relacione com isso, falou de outra coisa totalmente diferente. Não falou de "razões" para nada, falou de fatos. Se há razão, há subjetividade, a qual não tem razão em si. Num tribunal, filosofia não auxilia na "melhor prova científica", só na derrota do menos labiosamente-intelectualmente dotado, esse o único fato concernente. Se não se pode ter um resultado científico, nenhuma razão é mais científica que outra, não importa quão bonitinha a filosofia. Não dá para ter ciência sem ciência, tal a tautologia intransponível.

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E?

Segundo Skeptikós, é o que o Cientista quereria saber.

O Cientista aponta o lixo puro, e o Sketpikós mostra mais do lixo para dizer...   que não é lixo?

O Cientista não teceu nada que se relacione com isso, falou de outra coisa totalmente diferente. Não falou de "razões" para nada, falou de fatos. Se há razão, há subjetividade, a qual não tem razão em si. Num tribunal, filosofia não auxilia na "melhor prova científica", só na derrota do menos labiosamente-intelectualmente dotado, esse o único fato concernente. Se não se pode ter um resultado científico, nenhuma razão é mais científica que outra, não importa quão bonitinha a filosofia. Não dá para ter ciência sem ciência, tal a tautologia intransponível.
Ok cientista, já que para você filosofia não é de nenhuma importante para os cientistas, como sabermos se estamos produzindo conhecimento cientifico, o que é a ciência afinal (E quero uma definição da ciência que não possa ser classificada como filosófica de forma alguma)?
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Seis Sinais de Cientificismo - Susan Haack, este artigo não só apresenta uma definição com exemplos do que venha a ser cientificismo hoje em dia, como também em meio aos sinais característicos desta postura, apresenta os problemas da demarcação de ciência, pseudo-ciência e ciência ruim. Fala do falsificacionismo de Popper, e sua problemática, assim como o método de indução, dedução e também a anarquia de Paul Feyerabend também com suas respectivas problemáticas.
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Este é um link autorizado do e-book de A. F. CHALMERS: O QUE É CIÊNCIA AFINAL?, e-book este sugerido pelo membro Feliperj, em resposta ao tópico "Como a ciência funciona?". Abaixo o sumário do livro:



Seis Sinais de Cientificismo - Susan Haack, este artigo não só apresenta uma definição com exemplos do que venha a ser cientificismo hoje em dia, como também em meio aos sinais característicos desta postura, apresenta os problemas da demarcação de ciência, pseudo-ciência e ciência ruim. Fala do falsificacionismo de Popper, e sua problemática, assim como o método de indução, dedução e também a anarquia de Paul Feyerabend também com suas respectivas problemáticas.


Legal. Valeu pelos links, Skeptikós.     :ok:

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Seis Sinais de Cientificismo - Susan Haack, este artigo não só apresenta uma definição com exemplos do que venha a ser cientificismo hoje em dia, como também em meio aos sinais característicos desta postura, apresenta os problemas da demarcação de ciência, pseudo-ciência e ciência ruim. Fala do falsificacionismo de Popper, e sua problemática, assim como o método de indução, dedução e também a anarquia de Paul Feyerabend também com suas respectivas problemáticas.


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A Ameaça do Cientificismo

Escrito por Owen Flanagan
Traduzido por Luan de Oliveira (Bule Voador)
Tempo aproximado de leitura: menos de 4 minutos

Nota introdutória: O texto a seguir é um trecho do livro The Really Hard Problem, de Owen Flanagan, que explora a busca por sentidos na vida a partir de um ponto de vista não sobrenatural. Nesse trecho, ele explica porque as pessoas não precisam temer que a ausência de crença em algo sobrenatural leve ao cientificismo.

O cientificismo é a fonte de um tanto do mal-estar com relação à ciência contemporânea. Cientificismo é a doutrina ousada e extrapladora de que tudo que é digno de ser dito ou expresso pode ser dito ou expresso num idioma científico. Seria possível dizer que alguns dos positivistas lógicos europeus dos anos 1920 e 1930 chegaram perto de abraçar o cientificismo.

A afirmação de que a ciência pode, em princípio, explicar tudo que pensamos, dizemos e fazemos – que pode, em princípio, oferecer um relato causal do ser humano (um relato causal do Dasein) – deve ser distinguida da afirmação de que tudo pode ser expresso cientificamente. Considere a arte e a música. É, evidentemente, loucura dizer que as obras de Michelangelo, Da Vinci, Van Gogh, Cezanne, Picasso, Mozart, Chopin, Schönberg, Ellington, Coltrane, Dylan ou Nirvana poderiam ser expressas cientificamente. Presumindo algo como o melhor cenário para a ciência, poderíamos querer dizer que produções artísticas e musicais podem ser analisadas nos termos de suas manifestações físicas – pintura em termos de química e geometria e música em termos de ondas sonoras e relações matemáticas.

Além disso, alguma combinação bem complexa da cultura, da vida individual e do cérebro de algum ou alguma artista pode permitir algo como um esboço de explicação de por que este ou esta artista produziu as obras que produziu. Kay Redfield Jamison (1993) produziu um trabalho interessante sobre a alta incidência de transtorno bipolar entre grandes poetas e músicos dos séculos xix e xx. Esse trabalho pode nos levar a entender mais profundamente no que consiste a imaginação comum e criativa. Mas um trabalho desses não substitui ou revela o que Walt Whitman, T. S. Eliot, W. B. Yeats, Dylan Thomas, Sylvia Plath ou Seamus Heaney dizem, querem dizer ou fazem na linguagem da poesia.

Não há nada remotamente estranho a respeito desses tipos de investigação científica da arte e da música, ou dos próprios processos criativos. Mas, embora tal investigação tome a produção artística e musical como algo a ser explicado, ela não toma a produção em si como expressando algo que possa ser declarado cientificamente. A afirmação de que nem tudo pode ser expresso cientificamente não é uma afirmação de que a arte, a música, a poesia, a literatura e as experiências religiosas não podem em princípio ser explicadas cientificamente, ou que estas produções envolvem poderes mágicos ou misteriosos. Seja o que for que expressem, é algo perfeitamente humano, mas o idioma apropriado não é um idioma científico. O idioma científico requer palavras e, com frequência, fórmulas matemáticas. Pintura, escultura e música não requerem nenhuma destas. De fato, não podem em princípio expressar o que expressam em palavras ou fórmulas matemáticas. Logo, seja o que for que expressem não é exprimível cientificamente. Sem dúvida, a poesia, a literatura e a música usam palavras. Mas seu idioma não é um idioma científico. E há duas razões para isso: Muitas das relações exploradas não são exploradas causalmente (a relação na qual a ciência se destaca). Uma boa canção de amor pode fazer você sentir amor, mas nunca o faz entrando na “feromônica” e na neurobiologia do amor. As artes trabalham nossas imaginações com todos os truques lúdicos da linguagem, alegoria, metáfora e metonímia com os quais a ciência, por seus propósitos, não se importa muito.

Os historiadores da literatura e da arte frequentemente nos contam coisas úteis sobre a arte – por exemplo, sobre como poetas e artistas foram influenciados por ideias científicas – e os psicólogos podem explicar coisas importantes sobre a psicologia da percepção. Apesar da iluminação provida, nenhum deles oferece nada que se aproxime de uma explicação completa ou satisfatória do que qualquer obra artística interessante significa ou faz. O ponto simples e óbvio é que nem tudo que vale a pena expressar pode ou deve ser expresso cientificamente. O cientificismo é descritiva e normativamente falso. Isso, eu gosto de pensar, abrandará um pouco da ansiedade. Essa consequência me agrada, pois faz parte do meu temperamento não gostar que as pessoas fiquem ansiosas. Se houvesse uma base legítima para sentir temor e tremor, doença até a morte, e coisas do tipo, teríamos que dizer. Mas não há, então não digo.

Texto de Owen Flanagan, The Really Hard Problem, Traduzido por por Luan de Oliveira.
Fonte: http://www.bulevoador.com.br/2013/12/ameaca-cientificismo/
"Che non men che saper dubbiar m'aggrada."
"E, não menos que saber, duvidar me agrada."

Dante, Inferno, XI, 93; cit. p/ Montaigne, Os ensaios, Uma seleção, I, XXV, p. 93; org. de M. A. Screech, trad. de Rosa Freire D'aguiar

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Uma pergunta ao Skeptikós. Qual é a figura que faz alguém que tem coragem para se despir de todas as suas convicções mais encarnadas a favor da descoberta da simplicidade e da objetividade das coisas que são como são?

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Uma pergunta ao Skeptikós. Qual é a figura que faz alguém que tem coragem para se despir de todas as suas convicções mais encarnadas a favor da descoberta da simplicidade e da objetividade das coisas que são como são?
Primeiramente eu não sei se é possível para alguém descobrir de forma objetiva como as coisas são em si mesmas. Portanto eu não sei se alguma "figura" é capaz de tal "inspiração".
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Primeiramente eu não sei se é possível para alguém descobrir de forma objetiva como as coisas são em si mesmas. Portanto eu não sei se alguma "figura" é capaz de tal "inspiração".
Caro Skeptikós, as coisas que são como são, já o são objetivamente. Uma pedra é uma pedra e um sapato é um sapato, assim como a chuva é a chuva. E a "descoberta" já é a descoberta.

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Primeiramente eu não sei se é possível para alguém descobrir de forma objetiva como as coisas são em si mesmas. Portanto eu não sei se alguma "figura" é capaz de tal "inspiração".
Caro Skeptikós, as coisas que são como são, já o são objetivamente. Uma pedra é uma pedra e um sapato é um sapato, assim como a chuva é a chuva. E a "descoberta" já é a descoberta.
"Uma pedra é uma pedra porque uma pedra é uma pedra?", isso me parece um raciocínio circular.
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Primeiramente eu não sei se é possível para alguém descobrir de forma objetiva como as coisas são em si mesmas. Portanto eu não sei se alguma "figura" é capaz de tal "inspiração".
Caro Skeptikós, as coisas que são como são, já o são objetivamente. Uma pedra é uma pedra e um sapato é um sapato, assim como a chuva é a chuva. E a "descoberta" já é a descoberta.
"Uma pedra é uma pedra porque uma pedra é uma pedra?", isso me parece um raciocínio circular.
Mas é num sentido de circular redondo, o que é uma bola caso se trate de 3 dimensões, porém das dimensões materiais obnubilatórias da concernência cognitiva antilogicamente, dentro do fluído autopositivo como efeito de um eflúvio social metamagneficente pluriconcessional; o eu subdividido no ethos holístico, sob os auspícios da virtude do thelos original.

Samba lê tá duente, tá cum a cabeça quebrada" é a dogmatização corresapondente eufemisticamente circunferencial deste paradigma paradoxal, pleonasticamente de sí mesmo enquanto subjunção proto pélvica da entumescência do profano. Se é que pode abrogar disso.

Offline Geotecton

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Primeiramente eu não sei se é possível para alguém descobrir de forma objetiva como as coisas são em si mesmas. Portanto eu não sei se alguma "figura" é capaz de tal "inspiração".
Caro Skeptikós, as coisas que são como são, já o são objetivamente. Uma pedra é uma pedra e um sapato é um sapato, assim como a chuva é a chuva. E a "descoberta" já é a descoberta.
"Uma pedra é uma pedra porque uma pedra é uma pedra?", isso me parece um raciocínio circular.

Uma "pedra" é uma "pedra" porque representa um fragmento da astenosfera (provavelmente da crosta continental) composta de um ou mais minerais (provavelmente é polimineral).
Foto USGS

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Uma pergunta ao Skeptikós. Qual é a figura que faz alguém que tem coragem para se despir de todas as suas convicções mais encarnadas a favor da descoberta da simplicidade e da objetividade das coisas que são como são?
Primeiramente eu não sei se é possível para alguém descobrir de forma objetiva como as coisas são em si mesmas. Portanto eu não sei se alguma "figura" é capaz de tal "inspiração".
Caro Skeptikós, as coisas que são como são, já o são objetivamente. Uma pedra é uma pedra e um sapato é um sapato, assim como a chuva é a chuva. E a "descoberta" já é a descoberta.
"Uma pedra é uma pedra porque uma pedra é uma pedra?", isso me parece um raciocínio circular.

Uma "pedra" é uma "pedra" porque representa um fragmento da astenosfera (provavelmente da crosta continental) composta de um ou mais minerais (provavelmente é polimineral).
Isso não é o mesmo que dizer que "uma pedra é uma pedra". Me parece sensato concordarmos que dizer que "uma pedra é uma pedra" não acrescenta nenhuma informação nova ou útil sobre a definição de pedra. Diferente da definição apresentada por você, Geotecton, a definição apresentada por nosso colega sergio se encaixa como um raciocínio circular, neste caso mais especificamente como uma definição circular por incluir o termo a ser definido na própria definição.

Abraços!
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Uma pergunta ao Skeptikós. Qual é a figura que faz alguém que tem coragem para se despir de todas as suas convicções mais encarnadas a favor da descoberta da simplicidade e da objetividade das coisas que são como são?
Primeiramente eu não sei se é possível para alguém descobrir de forma objetiva como as coisas são em si mesmas. Portanto eu não sei se alguma "figura" é capaz de tal "inspiração".
Caro Skeptikós, as coisas que são como são, já o são objetivamente. Uma pedra é uma pedra e um sapato é um sapato, assim como a chuva é a chuva. E a "descoberta" já é a descoberta.
"Uma pedra é uma pedra porque uma pedra é uma pedra?", isso me parece um raciocínio circular.
Mas é num sentido de circular redondo, o que é uma bola caso se trate de 3 dimensões, porém das dimensões materiais obnubilatórias da concernência cognitiva antilogicamente, dentro do fluído autopositivo como efeito de um eflúvio social metamagneficente pluriconcessional; o eu subdividido no ethos holístico, sob os auspícios da virtude do thelos original.

Samba lê tá duente, tá cum a cabeça quebrada" é a dogmatização corresapondente eufemisticamente circunferencial deste paradigma paradoxal, pleonasticamente de sí mesmo enquanto subjunção proto pélvica da entumescência do profano. Se é que pode abrogar disso.


O tópico que o Skeptikós criou é sério.  Conversa fiada é noutro lugar.   |(


Se não gosta do tópico, não é obrigado a ler ou postar.

Offline JJ

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Uma pergunta ao Skeptikós. Qual é a figura que faz alguém que tem coragem para se despir de todas as suas convicções mais encarnadas a favor da descoberta da simplicidade e da objetividade das coisas que são como são?
Primeiramente eu não sei se é possível para alguém descobrir de forma objetiva como as coisas são em si mesmas. Portanto eu não sei se alguma "figura" é capaz de tal "inspiração".
Caro Skeptikós, as coisas que são como são, já o são objetivamente. Uma pedra é uma pedra e um sapato é um sapato, assim como a chuva é a chuva. E a "descoberta" já é a descoberta.
"Uma pedra é uma pedra porque uma pedra é uma pedra?", isso me parece um raciocínio circular.

Uma "pedra" é uma "pedra" porque representa um fragmento da astenosfera (provavelmente da crosta continental) composta de um ou mais minerais (provavelmente é polimineral).
Isso não é o mesmo que dizer que "uma pedra é uma pedra". Me parece sensato concordarmos que dizer que "uma pedra é uma pedra" não acrescenta nenhuma informação nova ou útil sobre a definição de pedra. Diferente da definição apresentada por você, Geotecton, a definição apresentada por nosso colega sergio se encaixa como um raciocínio circular, neste caso mais especificamente como uma definição circular por incluir o termo a ser definido na própria definição.

Abraços!



Skeptikós,


O Sérgio já começou a fazer troça no seu tópico.   |(   


:no:
« Última modificação: 14 de Junho de 2014, 20:36:32 por JJ »

Offline Skeptikós

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JJ, ele deve ter lido o Manual do Cara de Pau e agora esta tentando por em prática o que aprendeu. Porque há muito que ele fica de implicância e enrolação nos meus tópicos,  :(.

Seus textos são tão confusos que quase sempre esta é a cara que faço quando leio os comentários do sergio:  :hein:

Abraços!
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