Autor Tópico: Se esses 4 motivos não te convencerem quão estúpida é a guerra às drogas...  (Lida 18489 vezes)

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Rhyan

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11 DE JUNHO DE 2015
Se esses 4 motivos não te convencerem quão estúpida é a guerra às drogas, nada mais irá
RODRIGO DA SILVA


A discussão em torno da legalização das drogas é provavelmente um dos assuntos mais importantes da nossa geração.

Há pouco tempo, publiquei por aqui a história em quadrinhos “Guerra às Drogas“, do australiano Stuart McMillen. Foi um sucesso. No momento em que escrevo esse texto, mais de 145 mil pessoas já compartilharam a tirinha – do Gilberto Gil até o pessoal do Quebrando o Tabu. E os números continuam aumentando. As discussões são sempre apaixonadas. Ora a favor, ora contra, ora abrindo novas perspectivas e mudando de opinião, ora veementemente discordando.

Caso você ainda não tenha se convencido, ou caso nunca tenha parado pra pensar a respeito, tenho quatro bons motivos pra você ler esse texto antes de sair por aí defendendo essa guerra.

1) A GUERRA ÀS DROGAS É A PRINCIPAL RESPONSÁVEL POR CRIAR AS SUBSTÂNCIAS MAIS PERIGOSAS DE NOSSO TEMPO.


“A química é o demo e quer então nos destruir”

O mercado de drogas é indestrutível. Ao longo dos últimos anos, quanto mais gastamos em repressão, menos conseguimos diminuir seu consumo. Se há algo que podemos aprender com as longas quatro décadas de política de guerra às drogas é que a proibição simplesmente não funciona. As pessoas irão consumir o que querem independente do governo dizer se aquilo deve ser permitido ou não. Funcionou dessa forma quando o café era proibido, não foi diferente com o álcool, não será com outras substâncias.

Ainda assim, a proibição acarreta uma série de consequências diretas e indiretas. A principal delas é jogar todo mercado de drogas na marginalidade, atraindo o interesse de criminosos para o setor, deixando o mercado de forma integral nas mãos de empreendedores pouco preocupados com a qualidade dos produtos que comercializam ou em quebrar qualquer código do consumidor – o resultado disso, como afirma o Nobel de Economia, Milton Friedman, é o nascimento das piores drogas que a humanidade já viu, como o crack, que não teria surgido no último século não fossem as políticas proibicionistas. Além disso, por transformarmos esse mercado em ilegal, forçamos seus empreendedores a gastarem em excesso com segurança própria. O resultado é a criação de drogas com cada vez menor qualidade.

Imagine que você resolva atuar no setor. Além dos constantes subornos a policiais e juízes, terá também que sustentar uma grande e cara coleção de armas de fogo, além de altos salários a seus empregados – afinal de contas, muita grana no bolso é a única coisa que você conseguirá oferecer pra atrair mão de obra num setor com risco de morte e prisão a cada momento. Para manter as vendas, especialmente da população mais pobre, você será forçado a produzir drogas com cada vez pior qualidade. Ou então você quebra.

Não bastasse, como não há leis na ilegalidade, a única maneira de você impor o cumprimento de contratos é recorrendo à justiça com as próprias mãos. Por esse ser um mecanismo pouco efetivo, a tomada violenta de empresas concorrentes (as outras bocas de tráfico), fundamental para aumentar os lucros e o poder de proteção, acaba sendo uma prática comum, criando uma verdadeira guerra civil entre empreendedores. Ou seja, você terá que gastar para se proteger da polícia e de seus concorrentes. O preço final disso tudo será repassado aos que querem consumir o que você produz: drogas cada vez mais caras e de pior qualidade.

2) OLHE AO SEU REDOR, QUEM VOCÊ ACHA QUE PAGA A CONTA MAIS CARA POR ISSO TUDO?


“Não tem mole pro exército, civil nem pra PM”

Olhe ao seu redor, leia os noticiários, veja o que se passa na televisão; você certamente não terá dificuldade em entender quem paga a conta pela guerra às drogas. A proibição alimenta uma verdadeira roda de infortúnios, que atrapalham e estigmatizam uma classe social em especial no país: os mais pobres. E isso é fácil de explicar.

Para ajudar a ilustrar, vamos apelar para os clichês. É pra isso que eles servem, afinal.

Imagine que você mora numa favela no Rio de Janeiro. Sei lá, a Rocinha. Você tem vinte anos, mora com a mãe e pretende montar um negócio próprio. Talvez uma loja de peças automotivas usadas ou um pequeno hortifruti. No momento em que você encara a sopa de letrinhas de impostos e burocracias que tem pela frente, desiste. PIS, Cofins, IR, CSLL, IPI, ICMS, ISS, INSS… Você sequer sabia que tinha tantas letras no alfabeto. Mas aí você se dá conta: a burocracia está aí pra isso. Licenças, regulamentações, altos impostos e outras inúmeras exigências funcionam como grandes barreiras para a entrada dos mais pobres no empreendedorismo. O Estado definitivamente não quer você montando o seu próprio negócio.

E então você observa aquele imenso mercado ao seu redor. Jovens da sua idade banhados de ouro dos pés à cabeça, com status social, atuando num setor em que as imposições estatais são praticamente nulas e as possibilidades de ganho atinge as alturas. É inegável que recorrer a uma atividade ilícita torna-se uma opção viável quando você não sofre determinadas restrições morais.

(E dizer isso tudo não é afirmar que apenas os pobres comercializam drogas ou que não há vida possível longe desse cenário. Aqui, não estamos falando de regras absolutas, mas de incentivos econômicos. E incentivos importam – são eles que desembocam nas estatísticas do dia a dia.)

Mas você ainda é uma minoria aqui. Atualmente, mais de 11,4 milhões de brasileiros vivem num lugar muito parecido com o seu. A maioria esmagadora dessas pessoas não participam desse jogo. Não usam, não comercializam, não possuem qualquer relação direta com as drogas. Ainda assim, vivem no fogo cruzado de uma guerra. A violência policial e a dos envolvidos com as bocas, porém, as balas perdidas, as ameaças, as noites mal dormidas, são apenas um retrato desse cenário. A instabilidade social causada pela violência na favela graças, em parte, à guerra às drogas, carrega uma outra chaga: afasta empresas de montarem seus negócios nesses ambientes. Sem empresas sólidas, sem empregos sólidos. Os destinos são previsíveis: bicos, subempregos, negócios clandestinos sem proteção jurídica, longas horas num transporte coletivo deplorável em busca de empregos longe da favela… A violência e a falta de aparatos institucionais, que se misturam numa bomba econômica assassina, ajudam a transformar a pobreza num estigma da periferia.

As coisas certamente estão melhorando – você há de apontar, com razão. Há empreendedores em ebulição em cada periferia do país. Há grana sendo movimentada, impostos sendo pagos, negócios sendo montados, gente trabalhadora suando a camisa. Mas o jogo não irá mudar definitivamente até que a violência não cesse. E a violência na periferia não dará tréguas enquanto a guerra às drogas permanecer como uma ideia intocável.

3) AINDA NÃO INVENTAMOS UMA MÁQUINA QUE FAÇA NASCER UM POLICIAL DO CHÃO A CADA VEZ QUE UM CRIME É COMETIDO.


“É só tiro, porrada e bomba”

Você certamente sabe disso, mas talvez ainda não tenha se dado conta: o número de policiais em atividade na sua cidade não é infinito. Como ainda não inventamos uma máquina que faça nascer um policial do chão a cada vez que um crime é cometido, o que a guerra às drogas faz é realocar de modo improdutivo o combate ao crime.

Vamos supor que exista uma única força policial em atividade onde você mora, com duas situações acontecendo no mesmo horário em locais absolutamente distantes: a primeira é uma tentativa de assassinato, a segunda é uma denúncia contra um comércio de drogas. Qual caminho a polícia deve seguir? Nos grandes centros, num país com recordes de homicídios como o nosso, essas decisões estão sendo tomadas a cada momento. A guerra às drogas afasta a polícia de combater crimes como assassinatos, assaltos, estupros, sequestros. Não bastasse, a cada vez que um criminoso permanece impune após um ato delinquente, ele adquire incentivos para continuar cometendo esse crime. Imagine que de cada cem homicídios, apenas oito são resolvidos pela polícia. Temos um incentivo e tanto aqui.

A guerra às drogas paralisa a sociedade de diferentes maneiras: desperdiça bilhões em impostos numa luta que jamais atingiu seus objetivos, empodera criminosos através da concessão do monopólio de um mercado bilionário, aumenta de forma desenfreada a população carcerária, congestiona o sistema judiciário, corrompe policiais e juízes, estimula buscas e apreensões ilegais, realoca de modo improdutivo o combate ao crime, pune as populações mais pobres, atrasa o desenvolvimento de medicamentos fundamentais para determinados tratamentos, cria um Estado policial que acredita ter o domínio sobre aquilo que as pessoas ingerem. Não importa de que lado você enxergue esse quadro: os malefícios são mais visíveis que os hipotéticos benefícios.

4) TRAFICANTES NÃO SÃO DIVINDADES COM PODERES SUPERNATURAIS QUE OS PROTEGEM DAS CONSEQUÊNCIAS ECONÔMICAS.


“Vim pra sabotar seu raciocínio”

Aqui você deve estar se perguntando.

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“Ok, mas e os traficantes? A gente dá um fim nessa guerra e você tentará me convencer que eles irão procurar um emprego, estudar, frequentar a igreja?”

Provavelmente não. Mas eles não são divindades com poderes supernaturais que os protegem das consequências econômicas. A legalização da maconha no Colorado fez o preço da erva nos cartéis mexicanos cair mais de 65% e falir diversos traficantes. Um estudo da RAND Corporation aponta que, caso a maconha fosse legalizada em mais estados americanos, os lucros dos cartéis com a venda da droga poderiam sofrer uma queda de quase 85%, tornando a atividade impraticável economicamente. Em outras palavras: mais dinheiro no mercado legal significa menos dinheiro na mão de criminosos. Quanto menor o poder nas mãos do tráfico, menor a influência política do crime organizado, menor a corrupção policial, menor o poderio militar de grupos como o Comando Vermelho, o Primeiro Comando da Capital e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (não por acaso, grupos que não defendem a legalização das drogas). Quanto maior o poder nas mãos do mercado legal, mais transparente será o controle de qualidade, mais segura será a comunidade, mais responsável será a nossa relação com o convívio dessas substâncias.

Mas isso não funciona feito mágica. As consequências do uso de substâncias psicoativas guiam um assunto sério. Esse texto não é uma apologia ao uso das drogas. Também não pretende apresentar algo capaz de curar todos os males do mundo da noite para o dia ou defender o fim de punições para crimes como assassinato, assalto ou sequestro. Esse é um convite ao debate à guerra às drogas: sem sectarismos e preconceitos esdrúxulos, guiado pela razão e os incentivos econômicos, sem ignorar os resultados obtidos em regiões que apostaram numa nova fórmula para lidar com a questão.

É preciso amadurecer o debate, quebrar o tabu, entender – como na tirinha do australiano Stuart McMillen – quais dos nossos problemas vêm das drogas em si, e quais problemas vêm das drogas serem ilegais.

RODRIGO DA SILVA

Fonte: http://spotniks.com/guerra-as-drogas/

Offline Moro

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Re:Se esses 4 motivos não te convencerem quão estúpida é a guerra às drogas...
« Resposta #1 Online: 14 de Junho de 2015, 14:57:53 »
Citar
Provavelmente não. Mas eles não são divindades com poderes supernaturais que os protegem das consequências econômicas. A legalização da maconha no Colorado fez o preço da erva nos cartéis mexicanos cair mais de 65% e falir diversos traficantes. Um estudo da RAND Corporation aponta que, caso a maconha fosse legalizada em mais estados americanos, os lucros dos cartéis com a venda da droga poderiam sofrer uma queda de quase 85%, tornando a atividade impraticável economicamente

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Offline Terráqueo

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Re:Se esses 4 motivos não te convencerem quão estúpida é a guerra às drogas...
« Resposta #2 Online: 14 de Junho de 2015, 15:03:20 »
Por que as imagens não aparecem?
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Offline Sergiomgbr

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Re:Se esses 4 motivos não te convencerem quão estúpida é a guerra às drogas...
« Resposta #3 Online: 14 de Junho de 2015, 18:42:32 »
Guerra as drogas não é estupidez. Guerra as drogas é um Norte, é o que mantém uma sociedade emersa em um mar de certezas frias.

Offline Moro

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Re:Se esses 4 motivos não te convencerem quão estúpida é a guerra às drogas...
« Resposta #4 Online: 14 de Junho de 2015, 18:53:09 »
seria interessante se pudéssemos fazer análise sobre resoluções possíveis do problema sobre uma perspectiva econômica além das já manjadas perspectivas de repressão, educação e saúde.

Mas analisar o tema sobre perspectiva econômica significaria admitir que liberar a droga não seria o fim do mundo.
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Offline Buckaroo Banzai

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Re:Se esses 4 motivos não te convencerem quão estúpida é a guerra às drogas...
« Resposta #5 Online: 14 de Junho de 2015, 19:59:36 »
Acho que a "perspectiva econômica" (se bem que é meio impossível dissociar, se as questões de repressão, educação e saúde fazem parte da "conta") só é favorável com descriminalização/tolerância a comportamento menos destrutivo dos traficantes, do que com legalização propriamente dita.

Com produção industrial legal, há chances de se ferrar de vez com o nicho dos traficantes, mas isso não é necessariamente bom. O problema principal são os outros crimes que eles cometem, não só vender drogas. Se competidores legais acabam com esse nicho, não seria de se surpreender que eles se dedicassem mais a crimes "não-transacionais", em vez disso ser só uma parte da renda ou um acessório.

Ao mesmo tempo, o consumo de drogas traz problemas de saúde e sociais mesmo descontando os crimes associados ao tráfico, e então é algo que idealmente não é incentivado, e a industrialização cria esse incentivo.

Com apenas tolerância a tráfico menos destrutivo têm-se o "menos pior" dos dois lados.

Vou postar aqui também uma seleção dos trechos que postei em outro tópico.


Trechos  selecionados do texto do Mark Kleiman, sublinhados e negritos por minha conta:




Dopey, Boozy, Smoky—and Stupid
[...]

Thirty-five years into the “war on drugs”, the United States still has a huge drug abuse problem, with several million problem users of illicit drugs and about 15 million problem users of alcohol. Illicit drug-dealing industries take in about $50 billion per year. [...]

On top of all that, we have a highly intrusive and semi-militarized drug enforcement effort that is often only marginally constitutional and sometimes more than marginally indecent.1 That enforcement effort keeps about 500,000 Americans behind bars at any one time for drug law violations, about 25 percent of the total U.S. prison and jail population. A larger proportion of U.S. residents is doing time for drug law violations than is behind bars for all offenses put together in any country to which we’d like to be compared.


[...]


 O link atualizado para esse texto completo é:

http://www.the-american-interest.com/2007/01/01/dopey-boozy-smoky-and-stupid/



Offline Moro

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Re:Se esses 4 motivos não te convencerem quão estúpida é a guerra às drogas...
« Resposta #6 Online: 14 de Junho de 2015, 21:35:49 »
Buck, concordo com o que você disse, mas o poder financeiro que eles têm hoje e que permitem escalar os problemas para níveis imaginários como judiciário e político, além de permitir a importação de armas que dão inveja as nossas forças armadas, seria fortemente atingida se eles fossem para uma atuação alternativa de crimes.

Menos capacidade de se armar, de corromper policiais, juízes e até o executivo.. e tendo que praticar uma modalidade de crime menos rentável e muito mais arriscada.

Além disso, iria desonerar enormemente as polícias do país, que ficam literalmente enxugando gelo.
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Offline Pedro Reis

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Re:Se esses 4 motivos não te convencerem quão estúpida é a guerra às drogas...
« Resposta #7 Online: 14 de Junho de 2015, 22:16:01 »
5º ( e principal ) motivo:

Esta guerra não pode ser vencida.

Eu acho que nenhum argumento a favor de se manter ou aumentar o atual aparato estatal mobilizado no combate ao tráfico de entorpecentes se sustenta perante a constatação realista de que todo este aparato tem se mostrado completamente inútil.

Se tomarmos como exemplo os Estados Unidos não podemos deixar de entender o quão fútil é a chamada "guerra às drogas" no Brasil. Com todo o dinheiro e recursos tecnológicos que os americanos possuem, além de uma polícia e um judiciário menos corrupto que o nosso, nenhum país se empenhou mais na repressão ao tráfico e consumo de entorpecentes. Inclusive indo além de suas fronteiras.

Décadas depois de R. Reagan ( um conhecido usuário de cocaína ) ter declarado guerra às drogas o saldo é inteiramente negativo. Os Estados Unidos são o maior mercado consumidor de drogas do mundo e o negócio só cresceu dos anos 90 para cá. Com todos os recursos e um orçamento estratosférico os EUA não conseguem diminuir o consumo interno, não conseguem evitar o tráfico e sequer são capazes de impedir que as drogas entrem no país.

O Plano Colômbia, embora possa esconder outras intenções geopolíticas, é um reconhecimento do irremediável fracasso da política anti-drogas norte-americana. Mas é também um esforço fútil: se for um dia possível extinguir a produção de coca na Colômbia será apenas para ver o mercado ser abastecido por outros tipos de drogas, já que hoje existem drogas muito populares que podem ser produzidas até mesmo em casa.

O que já está provado desde os tempos de Al Capone é que enquanto existir demanda vai existir mercado.

Droga é um problema de saúde pública? É, e dos mais sérios. Drogas contribuem para outros problemas sociais? Sim. Mas já estamos sendo obrigados a lidar com estas consequências nefastas hoje, e ainda com o ônus de ter esse mercado bilionário controlado por facções de facínoras.

Offline Buckaroo Banzai

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Re:Se esses 4 motivos não te convencerem quão estúpida é a guerra às drogas...
« Resposta #8 Online: 14 de Junho de 2015, 22:28:30 »
Buck, concordo com o que você disse, mas o poder financeiro que eles têm hoje e que permitem escalar os problemas para níveis imaginários como judiciário e político, além de permitir a importação de armas que dão inveja as nossas forças armadas, seria fortemente atingida se eles fossem para uma atuação alternativa de crimes.

Menos capacidade de se armar, de corromper policiais, juízes e até o executivo.. e tendo que praticar uma modalidade de crime menos rentável e muito mais arriscada.

Além disso, iria desonerar enormemente as polícias do país, que ficam literalmente enxugando gelo.

Os problemas decorrem todos da política de "guerra" contra as drogas.

Se o microtraficante é deixado de lado, em vez de priorizado para "mostrar serviço", eles é que tem um efeito análogo ao que a concorrência legal teria, então no mínimo deve dar no mesmo, para esse fim. Talvez até com vantagens, já que essa produção é de certa forma mais desonerada do que seria a legal. E um produto do qual se intenciona reduzir a oferta/consumo, vai ter a demanda suprimida pela produção já existente, em vez de se aumentar a produção e concorrência. A tática me parece meio como naquele episódio dos Simpsons, em que para se livrar de uma peste de lagartos, pretendem usar mangustos, depois para se livrar dos mangustos, jaguatiricas, para se livrar das jaguatiricas, babuínos, e para se livrar dos babuínos, gorilas...

Os grandes traficantes tem mais incentivo para serem só fornecedores dos menores, e se envolver menos com meios envolvendo violência, ou outros crimes.


Se você só seca a fonte de um exército armado até os dentes, sem dar uma alternativa plausível de renda sem usar de violência (bolsa ex-traficante violento?), não acho que o resultado tenderá a ser positivo.

Se o nicho de drogas não é visto por eles como definitivamente perdido, vão tender a atacar os concorrentes, ao estilo máfia. Se é visto como perdido, se fazer isso é menos lucrativo do que simplesmente usar o arsenal para roubar outras coisas em vez de manter esse comércio, então farão isso.

Não criar um concorrente legal me parece o único caminho possível de conduzir os traficantes ao comportamento menos danoso possível.


De quebra, reduz-se tremendamente a população carcerária, que tem como maior grupo os microtraficantes (réus primários, sem arma, sem afilação a gangue, em posse de pequenas doses de droga), tidos por muito pesquisadores por perto de inofensivos, apesar das ressalvas do DiegoJaf. Esses devem ser também "desviados" dessa tendência a se aprofundar mais ainda na criminalidade, que é a tendência com a prisão.

Offline Buckaroo Banzai

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Re:Se esses 4 motivos não te convencerem quão estúpida é a guerra às drogas...
« Resposta #9 Online: 14 de Junho de 2015, 22:33:42 »
Décadas depois de R. Reagan ( um conhecido usuário de cocaína )

alexjones.info?

Certos "fatos" são tidos como "largamente conhecidos" mas apenas dentro de círculos relativamente pequenos de pessoas... mas essas geralmente sabem de todas as maquinações nos bastidores do poder mundial/intergaláctico.

Offline Pedro Reis

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Re:Se esses 4 motivos não te convencerem quão estúpida é a guerra às drogas...
« Resposta #10 Online: 14 de Junho de 2015, 22:40:14 »
Décadas depois de R. Reagan ( um conhecido usuário de cocaína )

alexjones.info?

É só o que Holywood inteira sabia. E que foi dito muitas vezes por vários ex-"colegas".

Agora, isto é apenas um detalhe irônico da história. Tivesse ou não o Reagan um nariz de platina o ponto principal é que ele provou mais do que ninguém o desperdício e a inutilidade dessa tal guerra ás drogas.

Certos "fatos" são tidos como "largamente conhecidos" mas apenas dentro de círculos relativamente pequenos de pessoas... mas essas geralmente sabem de todas as maquinações nos bastidores do poder mundial/intergaláctico.

Offline Pedro Reis

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Re:Se esses 4 motivos não te convencerem quão estúpida é a guerra às drogas...
« Resposta #11 Online: 14 de Junho de 2015, 23:37:42 »
Leonel Brizola fez dois acordos estratégicos para vencer a eleição para governador do RJ.

Com os bicheiros, que tinham muita força na época na zona norte, e com o Comando Vermelho, que controlava a maior parte das favelas. Se eleito não haveria repressão nem ao jogo do bicho e nem ao tráfico.

Foi eleito e cumpriu o acordo. Em alguns morros do Rio as chamadas filas do pó se estendiam por mais de um quarteirão em plena luz do dia. Muitas vezes, estacionada ao lado, uma patrulha da PM.

Mas o Brizola teve inimigos poderosos que não o queriam presidente da república, entre eles o Roberto Marinho, e iniciou-se uma campanha para minar a imagem do Brizola que na época se lançava com certa força naquelas eleições em que fabricaram um Collor para enfrentar tanto o próprio Brizola quanto o Lula.

O calcanhar de Aquiles mais óbvio do governo do estado era a sua óbvia complacência com o tráfico, e era então um tal de Globo Repórter, Jornal Nacional, matérias de jornais, etc... todas mostrando como o tráfico atuava livremente no RJ. Uma foto do O Globo ficou famosa com a fila do pó no Dona Marta e uma patrulhinha estacionada ao lado.

Os traficantes, muito burros, não entendiam como estavam sendo usados em um jogo político e adoravam aparecer na televisão dando entrevistas, mostrando o arsenal, os viciados, e davam declarações do tipo: "Essas armas aqui é a própria polícia que vende pra nós", ou então, "Em polícia não se dá tiro, isso é pros inimigos. Polícia só vem aqui pra pegar o dinheiro deles."

Resultado: o Brizola, para não se desmoralizar eleitoralmente, foi obrigado a romper o pacto e iniciar a sua própria guerra contra as drogas. A partir daí iniciou-se uma escalada de criminalidade no Rio de Janeiro que persiste até os dias de hoje. Os traficantes,  pertados pela repressão, viram seus lucros diminuírem e passaram a praticar e financiar
outros tipos de crimes. Como roubo de carros, assalto a bancos, roubo a carros fortes. Foi também quando teve início uma onda de sequestros no RJ que depois se espalhou para outros estados.

É muito provável que se não tivessem incomodado estes caras eles iriam continuar vendendo o bagulho deles numa boa, na tranquilidade, como já vinham fazendo, já que tráfico de drogas é mais rendoso que todos estes outros crimes juntos.

Então, isso pode parecer um argumento no sentido de "ah, então não vamos reprimir esses caras, porque nesse caso vão usar seu exército e arsenal para ações mais violentas". É um raciocínio errado e perigoso! Se o governo ainda estivesse fazendo vista grossa ao tráfico e este faturando milhões ( sem pagar imposto nem INSS ) desde os anos 90, hoje nós teríamos no Rio de Janeiro, não um Pablo Escobar, mas possivelmente vários "Plabos Escobar", criminosos riquíssimos e extremamente influentes na sociedade, a exemplo do que ocorreu na Colômbia.

De modo que, a longo prazo, o dano seria ainda maior que o preço que a sociedade paga hoje por esse irresolvível conflito com os traficantes.

É preciso lembrar que se os traficantes tem um arsenal poderoso foi o dinheiro das drogas que tornou possível. E também estas organizações só se constituíram e cresceram como uma consequência da própria logística necessária ao tráfico, desnecessária a outros tipos de criminalidade.

É de se imaginar sim, que, em um primeiro momento, se estas facções forem privadas de sua principal fonte irão direcionar seus recursos para outros tipos de atividades criminosas, e aí inicia-se um outro tipo de guerra. A diferença é que ESTA é uma guerra que pode ser vencida. Fechando-se a torneira do dinheiro do tráfico o crime organizado está com os dias contados. Talvez não "dias", mas pelo menos anos.

A guerra contra às drogas, ao contrário, é eterna.

Offline Pedro Reis

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Re:Se esses 4 motivos não te convencerem quão estúpida é a guerra às drogas...
« Resposta #12 Online: 14 de Junho de 2015, 23:51:13 »
Matéria da Revista Fórum

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O fracasso de uma guerra sem sentido

Políticas de viés proibicionista e repressivo estão sendo colocadas em xeque em diversos países do mundo e evidenciam a necessidade de se discutir as drogas de forma racional

Um negócio bilionário, estimado em 320 bilhões de dólares. A mais lucrativa atividade ilegal do planeta, o comércio de drogas, fatura dez vezes mais que o tráfico de pessoas, o segundo negócio ilícito mais rentável, de acordo com dados do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (Unodc). Em alguns locais, o tráfico molda relações sociais, trabalhistas, tem conexões com o mundo político institucional e com outros ramos do poder público, a despeito de haver uma “guerra às drogas” que se manifesta de forma distinta na maioria dos países que contam com legislações proibicionistas. Um combate insólito que já custou, somente nos Estados Unidos, 1 trilhão de dólares nos últimos 40 anos, ao se propor a idealizar um mundo no qual substâncias deixariam de ser consumidas apenas por serem ilícitas. E, na prática, resultando em um empoderamento de redes ilegais, que conseguem lucros estratosféricos em parte devido a essa proibição, configurando um cenário global no qual as drogas circulam muito mais livremente do que as próprias informações sobre elas.

A discussão sobre políticas de drogas no Brasil e em outras partes do mundo tem tido avanços consideráveis nos últimos anos, conseguindo mobilizar pessoas que veem como a repressão não funcionou para tratar a questão. Em novembro de 2012, nas últimas eleições realizadas nos Estados Unidos, parte da população deixou evidente seu descontentamento. No Colorado, foi aprovada a Emenda 64 com 55% de votos favoráveis, proporção similar à votação em que o estado de Washington aprovou a iniciativa número 202. Ambos se tornaram as primeiras unidades federativas no mundo a adotarem a regulamentação, a taxação e o controle da maconha de forma semelhante ao que acontece com as bebidas alcoólicas.

As legislações dos dois estados legalizam a posse de até uma onça (28,34 gramas) de maconha para maiores de 21 anos, sendo que a norma do Colorado permite outorgar licenças para cultivo e produção de derivados da planta. No mesmo processo eleitoral, Massachusetts se tornou o 18º estado do país, além do distrito de Columbia, a habilitar a maconha para uso medicinal. Mesmo em regiões mais conservadoras politicamente, como o Arkansas, em que emenda semelhante foi rejeitada, a margem foi estreita: 48% dos eleitores no estado se mostraram favoráveis à norma. E isso parece ser uma tendência no país, já que, de acordo com pesquisa do instituto Gallup feita em março, 49% dos norte-americanos aprovam a legalização da maconha, um número que é quase o dobro do apoio dado em 1995 (25%).

Tais vitórias por si só seriam relevantes para aqueles que lutam contra o proibicionismo, mas o caráter simbólico que representam, por terem acontecido no país que mais empunhou nas últimas décadas a bandeira das políticas repressivas, as torna ainda maiores. A mobilização social também proporciona mudanças de outra ordem. Em agosto, o procurador-geral dos Estados Unidos, Eric Holder, passou a orientar os promotores para que, ao registrarem as acusações de porte de substâncias ilegais, não façam menção à quantidade em posse do acusado, evitando assim que seja acionada automaticamente a sentença mínima obrigatória de prisão. O objetivo é fazer com que pessoas detidas que tenham comportamento não violento e não possuam ligações com gangues ou cartéis recebam penas alternativas, como prestação de serviços comunitários e cumprimento de programas de reabilitação.

“Ronald Reagan construiu seu caminho para a Presidência com a promessa de combater as drogas e endurecer a guerra contra elas. Sua esposa, Nancy Reagan, fez a campanha Just Say No, e naquela época isso foi um grande sucesso. Ser linha dura contra as drogas era interessante para a classe política”, lembra Tarso Araújo, jornalista e autor do livro Almanaque das Drogas. “Já nas ultimas eleições, várias vezes jornalistas perguntaram para o Obama e para o Mitt Romney a respeito de plebiscitos como os do Colorado e de Washington, e os dois ficaram quietos, não deram declarações mais contundentes. Há 20 anos, se perguntassem ao cara, ele diria ‘isso é um absurdo’, pois teria certeza que a maioria iria votar contra a legalização. Mas o silêncio deles mostra que os políticos não sabem se é melhor ser linha dura ou liberal contra as drogas, por isso ficaram em cima do muro, o que demonstra uma mudança.”

E no Brasil? Aqui, além de diversas Marchas da Maconha e encontros antiproibicionistas terem sido realizados, crescendo em número e importância ano a ano, o tema passou a ter um destaque maior, mesmo por parte da mídia tradicional, a partir da repercussão de filmes como Cortina de fumaça, de Rodrigo Mac Niven, lançado em 2010, e Quebrando o tabu, de 2011, dirigido por Fernando Grostein Andrade. Mesmo assim, a política de drogas ainda é um tema cuja discussão é carregada de poderosos (pré) conceitos morais que dificultam uma discussão racional, tal como pedem movimentos e ONGs.

“Algo que a mídia ainda faz muito é moralizar totalmente a questão das drogas entre bem e mal, associando, por exemplo, a ideia de que se você enrola um baseado numa faculdade está armando um garoto no narcotráfico”, argumenta Andrea Rangel Ribeiro, professora de Antropologia do Instituto de Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense (Inest-UFF). “O fato de a opinião pública ter desenvolvido, nos últimos anos, uma sensibilidade maior a questões relacionadas à justiça social não se reverteu em algo parecido na questão das drogas, porque ela vem amarrada à imagem do narcotráfico. Pode se trabalhar políticas educacionais para criar uma consciência maior, mas sem essa carga moral; é preciso que as pessoas tenham clareza que o problema das drogas é como outros tantos. Enquanto o tráfico de drogas não for visto como um comércio ilegal como outro qualquer, aquela visão do filme Tropa de elite, moralista, vai prevalecer. Temos de lidar com os dados de maneira objetiva, racional, e isso não foi feito em nenhum lugar do mundo ainda”, explica Andrea.

Muito do moralismo que cerca o tema das drogas está ligado à ideia de que alterar seu próprio estado de consciência é errado, um conceito arraigado no imaginário de muitas pessoas. “Ethan Nadelmann costuma dizer que a cada dia surgem novas drogas psicoativas e sempre vão surgir. Não adianta a lei correr atrás da próxima droga, é preciso mudar a maneira de lidar com essa questão. Parte dos adultos tem a tendência de querer experimentar estados de alteração da consciência, e aceitar isso é a primeira maneira de remover a névoa de moralismo sobre o tema”, sustenta Renato Malcher-Lopes, mestre em Biologia Molecular pela Universidade de Brasília e PhD em Neurociências pela Universidade Tulane. “Por mais que existam leis contra cada substância nova que surge, sempre vai existir uma grande quantidade de pessoas que não vai aceitar dividir sua autonomia, a soberania do seu próprio corpo com aqueles que elaboraram as leis.”

« Última modificação: 14 de Junho de 2015, 23:54:35 por Pedro Reis »

Offline Buckaroo Banzai

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Re:Se esses 4 motivos não te convencerem quão estúpida é a guerra às drogas...
« Resposta #13 Online: 14 de Junho de 2015, 23:56:23 »
Então, isso pode parecer um argumento no sentido de "ah, então não vamos reprimir esses caras, porque nesse caso vão usar seu exército e arsenal para ações mais violentas". É um raciocínio errado e perigoso! Se o governo ainda estivesse fazendo vista grossa ao tráfico e este faturando milhões ( sem pagar imposto nem INSS ) desde os anos 90, hoje nós teríamos no Rio de Janeiro, não um Pablo Escobar, mas possivelmente vários "Plabos Escobar", criminosos riquíssimos e extremamente influentes na sociedade, a exemplo do que ocorreu na Colômbia.

Não-repressão não precisa ser absoluta, o mais importante é ser voltada mais contra o comportamento mais danoso do que quanto a venda da droga em si, até mesmo quantidade. Bem como atuar na "repressão"/redução da demanda.

Se as drogas são legalizadas, essa ascenção ao poder não deixa de existir -- é facilitada, legalizada. E se torna mais difícil legitimar os esforços em reduzir a demanda, ao mesmo tempo em que haverá lobbies contrários atuando, legalmente (ou não).

Se Monsanto é o mal do mundo produzindo soja, imagine então se pudesse produzir cocaína e maconha trasngênicas.  ::)

Offline Pedro Reis

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Re:Se esses 4 motivos não te convencerem quão estúpida é a guerra às drogas...
« Resposta #14 Online: 15 de Junho de 2015, 00:23:44 »
No mundo inteiro houve uma drástica redução no consumo de tabaco. Uma droga legalizada e explorada comercialmente por corporações poderosas.

O fato de ser legalizada possibilitou uma discussão mais aberta ( e sem o viés moral ) assim como legislações de restrição e informação obrigatórias que inegavelmente surtiram efeito.

A demanda, e é a realidade que mostra, existe independentemente de as drogas serem proibidas ou não. O exemplo da Lei Seca nos Estados Unidos é clássico: os americanos não passaram a beber mais porque a lei foi abolida. A única diferença foi que a indústria do álcool não financiava mais quadrilhas de criminosos como as de Al Capone.

Ora, grandes corporações são e serão sempre influentes, e este é um problema nada desprezível da democracia. Mas esta influência decorre não de serem empresas legalizadas, mas do poder econômico. Poder econômico = influência política = poder simplesmente.

É assim que as coisas funcionam no mundo real, não em um mundo infantil, cor de rosa e faz de conta da ingenuidade de muitos.

Portanto não faz o menor sentido, é tudo menos inteligente, deixar instrumentos que possibilitam alçar colossal poder econômico justamente nas mãos de organizações à margem de qualquer controle legal por parte da sociedade e comandadas por criminosos facínoras. Já que ser criminoso e facínora não é um atributo para dirigir uma organização dessa natureza, É UMA
IMPOSIÇÂO do cargo.

Offline Buckaroo Banzai

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Re:Se esses 4 motivos não te convencerem quão estúpida é a guerra às drogas...
« Resposta #15 Online: 15 de Junho de 2015, 02:17:29 »
No mundo inteiro houve uma drástica redução no consumo de tabaco. Uma droga legalizada e explorada comercialmente por corporações poderosas.

Sim, tabaco foi historicamente legal, e, a muito custo, após muito tempo, conseguiu-se gradualmente reduzir o consumo, apesar da resistência da indústria.

Então vamos repetir isso de novo, liberar para essa indústria explorar viciados com novos produtos, mais viciantes, mais nocivos.

Torcer para que o consumo não aumente -- o que é desejado pela indústria que tiver isso como produto, eles querem o aumento em massa dos viciados, e que os traficantes violentos todos apenas pensem, "meh, agora acho que vou ter que trabalhar para viver. Vou entregar as armas na campanha do desarmamento e olhar os classificados".


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A demanda, e é a realidade que mostra, existe independentemente de as drogas serem proibidas ou não. O exemplo da Lei Seca nos Estados Unidos é clássico: os americanos não passaram a beber mais porque a lei foi abolida.

Acho que não se tem dados exatos disso, mas é mais certo que sim, tenham passado a beber mais. Maior oferta geralmente resulta em maior consumo.

Apesar da violência das gangues ter se reduzido, também não se sabe se a violência não aumentou, em absoluto, com a liberação, como efeito do uso de álcool.



Com a legalização da indústria de outras drogas não deve haver algo muito comparável em termos de aumento (ou de violência, no caso da maconha ao menos) por ter sido historicamente bem mais estigmatizado, mas não é também inesperado. "Oferta cria sua própria demanda".


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Portanto não faz o menor sentido, é tudo menos inteligente, deixar instrumentos que possibilitam alçar colossal poder econômico justamente nas mãos de organizações à margem de qualquer controle legal por parte da sociedade e comandadas por criminosos facínoras. Já que ser criminoso e facínora não é um atributo para dirigir uma organização dessa natureza, É UMA
IMPOSIÇÂO do cargo.

Com a legalização esse poder não é necessariamente tirado deles -- a legalização não "efetiva" a proibição ao tráfico mais do que a "guerra". Apenas tenta ganhar a "guerra" no campo econômico, aumentando a oferta e demandas que se pretendia reduzir (para tentar reduzir mais tarde, e considerando poder cuidar tranqüilamente dos problemas sociais e de saúde adicionais enquanto isso).

Ainda existe produção e venda ilegal de drogas legais. Comércio e venda de drogas ilegais (ou legais) ao mesmo é tempo algo preferível ser relegado a eles se comparado às alternativas (crimes não-transacionais) que buscarão se não for possível/compensador coibir o comércio legal.



Acho que Portugal é apontado como um dos maiores sucessos no "combate" às drogas (com quase 15 anos disso já), combinando a não-repressão ao usuário, que é encaminhado para tratamento, mas mantendo proibição sobre produção e venda. Provavelmente um esforço nesse sentido combinado a uma relativa negligência (ou penas não-prisionais) de traficantes inofensivos é a melhor adaptação da coisa que o Brasil e países parecidos podem fazer. "Trata-se" a demanda, reduzindo-a a longo prazo, ao mesmo tempo em que se reduz o apecto "militar" da coisa, também mandando menos gente para a "faculdade do crime".


Offline Pedro Reis

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Re:Se esses 4 motivos não te convencerem quão estúpida é a guerra às drogas...
« Resposta #16 Online: 15 de Junho de 2015, 05:00:10 »
Citação de: Buckaroo Banzai
Sim, tabaco foi historicamente legal, e, a muito custo, após muito tempo, conseguiu-se gradualmente reduzir o consumo, apesar da resistência da indústria.

Talvez a vírgula mais importante aí não seja "apesar da resistência da indústria", mas o quanto o fato do cigarro ser uma droga legalizada ( e até o fato de não ser enxergado socialmente com o estigma de ser uma droga ) contribuiu para ser possivel a efetividade das campanhas e ações que de fato vêm reduzindo o número de fumantes.

Repare que você não encontra nenhum paralelo com isso ( nem um caso sequer ) nas campanhas e ações para reduzir o uso de substâncias ilícitas. É um dado de realidade que todas estas iniciativas sempre se mostram inócuas.

Ora, onde está a diferença? A diferença, por exemplo, é que não tem como obrigar o traficante a estampar em uma trouxinha de maconha a foto de um impotente alertando sobre um dos possíveis riscos do consumo. Outra diferença é que por não ser um hábito estigmatizado a sociedade, os médicos, as pessoas comuns, os pais com os filhos, etc, discutiam normalmente, clara e objetivamente os malefícios associados ao cigarro, o que provavelmente ajudou muito mais na conscientização das pessoas que qualquer campanha institucional.

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Então vamos repetir isso de novo, liberar para essa indústria explorar viciados com novos produtos, mais viciantes, mais nocivos.

Torcer para que o consumo não aumente -- o que é desejado pela indústria que tiver isso como produto, eles querem o aumento em massa dos viciados, e que os traficantes violentos todos apenas pensem, "meh, agora acho que vou ter que trabalhar para viver. Vou entregar as armas na campanha do desarmamento e olhar os classificados".

Não sei se propositalmente mas acho que você está forçando um pouco a barra aí. Como se a única opção possível ao comércio ilegal de drogas fosse permitir que qualquer um obtivesse um CNPJ para fabricar o entorpecente que quisesse, na quantidade que pudesse oferecer e pôr no mercado da maneira que quisesse, ao melhor preço que pudesse vender.

Isto é o que ocorre precisamente hoje - tirando a parte do CNPJ - mas não é o que acontece com produtos regulamentados. Até quem vende coxinhas de galinha está sujeito ao controle e fiscalização da Vigilância Sanitária, evidentemente o objetivo é impossibilitar aos criminosos, especialmente ao crime organizado, sua fonte principal de financiamento, e não criar uma indústria altamente lucrativa de narcóticos.

A legislação poderia e deve ser muito bem pensada. Muito mais restritiva e controlada do que o nenhum controle que exite hoje.

Eu também duvido muito que os traficantes então pensem em procurar emprego, mas não é o que os criminosos querem fazer que realmente importa, e sim o que eles PODEM fazer. Eu não tenho os números do Brasil, mas diz-se que esse mercado movimenta mais de US$300 bilhões anualmente, em termos globais. Mais de 300 bilhões todo ano que saem da sociedade produtiva para financiar o crime, o tráfico de armas, a corrupção policial, do judiciário, de políticos, os esquemas trans-nacionais de lavagem de dinheiro e o empoderamento de organizações criminosas cada vez mais sofisticadas que por consequência exploram não apenas o comércio de drogas em si, mas empregam seus recursos e sua rede ilícita em uma infinidade de atividades criminosas.

Priva-los do dinheiro do narcotráfico é priva-los de todo este poder. Sim, é claro, eu até já disse antes, logo ali em cima, que que se os caras lá do Complexo do Alemão não puderem mais vender crack e cocaína vão usar os fuzis para assaltar banco, sequestrar,o diabo... mas para começar eles nem teriam estes fuzis se não existisse o narcotráfico. Quase com absoluta certeza estas facções sequer existiriam da forma que existem hoje se não fossem organizações de narcotraficantes.

Então sou obrigado a repetir, esta outra guerra seria uma guerra que poderia ser pelo menos parcialmente vencida. Porque até pra guerra - principalmente pra guerra - é preciso dinheiro.

Já a guerra contra as drogas, quer queiramos ou não, a experiência demonstrou que está perdida.

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Acho que não se tem dados exatos disso, mas é mais certo que sim, tenham passado a beber mais. Maior oferta geralmente resulta em maior consumo.

Na verdade há.

Daniel Okrent é autor de “Last Call: The Rise and Fall of Prohibition”, justamente sobre a falência e impossibilidade da atual política de combate às drogas, traçando um paralelo com o que ocorreu nos EUA na época da Lei Seca.

Em entrevista que pode ser lida no link abaixo ele traz alguns dados:

http://m.noticias.uol.com.br/midiaglobal/freakonomics/2011/05/24/o-que-a-lei-seca-dos-anos-20-pode-ensinar-a-legalizacao-da-maconha.htm

O consumo de bebida alcoólica, com a lei, continuou em 70% do que era em 1914, mas com o fim da lei seca, apenas em 1973 os americanos voltaram aos níveis de consumo de 1914. Mesmo assim o consumo vem decrescendo um pouco ( consumo per capita ) desde então.

Ou seja, estes dados sugerem que, assim como os usuários de drogas, a maioria dos usuários de alcool são ocasionais. É verdade que alguns tem uma propensão maior ao alcoolismo, mas a maioria não enterra sua vida na bebida só porque não é crime comprar cerveja no bar da esquina. Não deve ser diferente com outros tipos de drogas.

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Apesar da violência das gangues ter se reduzido, também não se sabe se a violência não aumentou, em absoluto, com a liberação, como efeito do uso de álcool.

Se nem o consumo aumentou com o fim da proibição é obvio que os casos de violência relacionados ao uso de álcool também não.

Mas, em relação a realidade que particularmente nos interessa, é indiscutível que o grande problema de violência urbana e segurança pública que enfrentamos hoje não está relacionado com o uso direto de entorpecentes, mas sim com a indústria da criminalidade que este uso gera e alimenta.

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Com a legalização esse poder não é necessariamente tirado deles -- a legalização não "efetiva" a proibição ao tráfico mais do que a "guerra". Apenas tenta ganhar a "guerra" no campo econômico[...]

A guerra SÓ pode ser ganha no campo econômico. O narcotráfico ilegal é muito dispendioso e não tem como competir. Você conhece alguém que fabrique ou venda cigarros ilegais? Mesmo com todos os impostos que a indústria do tabaco é taxada?

A sociedade por acaso tem algum problema sério com traficantes de bebidas alcoólicas?

Fatos que respondem as suas dúvidas.

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Ainda existe produção e venda ilegal de drogas legais. Comércio e venda de drogas ilegais (ou legais) ao mesmo é tempo algo preferível ser relegado a eles se comparado às alternativas (crimes não-transacionais) que buscarão se não for possível/compensador coibir o comércio legal.

Se existem, em números, é desprezível comparado aos problemas que temos hoje. E de forma alguma pode ser preferível "relegar" 350 bilhões de dólares/ano ao narcotráfico. Estas alternativas que você teme tendem a minorar justamente pela extinção desse enorme financiamento que narcotráfico injeta não só na criminalidade no Brasil, mas em todo o mundo. Certamente nós já convivemos mais com estas "alternativas" hoje, e que já existem relacionadas com o tráfico, do que a sociedade teria que conviver sem esta enorme inversão de recursos para o crime.

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Acho que Portugal é apontado como um dos maiores sucessos no "combate" às drogas (com quase 15 anos disso já), combinando a não-repressão ao usuário, que é encaminhado para tratamento, mas mantendo proibição sobre produção e venda. Provavelmente um esforço nesse sentido combinado a uma relativa negligência (ou penas não-prisionais) de traficantes inofensivos é a melhor adaptação da coisa que o Brasil e países parecidos podem fazer. "Trata-se" a demanda, reduzindo-a a longo prazo, ao mesmo tempo em que se reduz o apecto "militar" da coisa, também mandando menos gente para a "faculdade do crime".

Não conheço muito o caso de Portugal, mas o grande problema que eu vejo na sua solução, ou melhor, na abordagem que você considera preferivel, é que ela justamente não ataca em nada a raiz do problema, especialmente do nosso problema aqui no Brasil: que é o financiamento de organizações criminosas extremamente violentas com o dinheiro proveniente do comércio ilegal de drogas.

Essas organizações, ou facções, não possuem condições, capacidade, konw-how, por mais que queiram ou tentem, para desenvolver qualquer outro tipo de atividade criminosa que sequer se aproxime da rentabilidade que o tráfico proporciona.

Pense: o que aconteceu com a máfia de Chigaco com o fim da Lei Seca?

Drogas são um problema? Ninguém está dizendo que não. Legais ou ilegais continuam sendo um sério problema.

Mas reconhecer que existe um problema não nos impede de sermos pragmáticos.

1 - Alguém conhece alguma fórmula repressiva capaz de eliminar o tráfico e/ou consumo?  Não.

2 - Os enormes lucros desse mercado estão sendo vertidos para organizações criminosas? Sim.

3 - O surgimento e o crescimento destas facções estão diretamente relacionados com o crescimento dos índices de criminalidade geral? Sim.

4 - Há razão para crer que o fim do narcotráfico irá conduzir a um nível muito maior de consumo, ou, mais importante, de dependentes químicos? O que ocorreu com o fim da Lei Seca nos EEEUU sugere que não.

Então, a meu ver, não a solução porque solução não tem, mas a abordagem mais pragmática que a sociedade poderia adotar seria a de fechar a torneira de dinheiro do narcotráfico.

Rhyan

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Re:Se esses 4 motivos não te convencerem quão estúpida é a guerra às drogas...
« Resposta #17 Online: 15 de Junho de 2015, 11:12:10 »
Por que as imagens não aparecem?

Não tenho ideia, quando criei o tópico apareceram.

Rhyan

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Re:Se esses 4 motivos não te convencerem quão estúpida é a guerra às drogas...
« Resposta #18 Online: 15 de Junho de 2015, 11:22:01 »
Quando o álcool voltou a ser liberado depois da lei seca americana, as máfias do álcool perderam sua galinha de ouro e partiram para outras atividades ilícitas menos lucrativas.

Se todas as drogas fossem legalizadas, de preferência sem regulações que estimulariam o mercado negro, o tráfico seria completamente inviável. O crime organizado sentiria um duro golpe, não teria como sustentar tal organização em outras atividades ilícitas. Nenhuma atividade seria tão lucrativa. Achar que todos sairiam das bocas assaltando e sequestrando é ignorar o risco, o alto lucro da droga ilegal, e os incentivos econômicos.

Pra melhorar ainda mais, crimes sem vítimas como ligados a prostituição e jogos de azar também deveriam ser legalizados. Atividades criminosas só seriam aquelas que tivessem vítimas, e a polícia estaria focada em proteger a população (se bem ou mal já é outra história).

Por fim, legalizar o porte de armas também seria ótimo.

Essa seria uma política de segurança pública liberal/libertária.

Offline Buckaroo Banzai

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Re:Se esses 4 motivos não te convencerem quão estúpida é a guerra às drogas...
« Resposta #19 Online: 15 de Junho de 2015, 21:45:13 »
Citação de: Buckaroo Banzai
Sim, tabaco foi historicamente legal, e, a muito custo, após muito tempo, conseguiu-se gradualmente reduzir o consumo, apesar da resistência da indústria.

Talvez a vírgula mais importante aí não seja "apesar da resistência da indústria", mas o quanto o fato do cigarro ser uma droga legalizada ( e até o fato de não ser enxergado socialmente com o estigma de ser uma droga ) contribuiu para ser possivel a efetividade das campanhas e ações que de fato vêm reduzindo o número de fumantes.

Repare que você não encontra nenhum paralelo com isso ( nem um caso sequer ) nas campanhas e ações para reduzir o uso de substâncias ilícitas. É um dado de realidade que todas estas iniciativas sempre se mostram inócuas.

Parece que não é o caso com Portugal, tido como exemplo mundial nisso, e bem provavlemente até mais eficaz do que a campanha contra tabagismo e álcool.



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Ora, onde está a diferença? A diferença, por exemplo, é que não tem como obrigar o traficante a estampar em uma trouxinha de maconha a foto de um impotente alertando sobre um dos possíveis riscos do consumo.

Política essa que na verdade reduz as chances do fumante deixar de fumar. Tem maior efeito em prevenir a começar a fumar.

http://www.medicaldaily.com/why-warning-labels-may-increase-cigarette-sales-psychological-scientists-explain-how-side-effect
http://www.iamexpat.nl/read-and-discuss/lifestyle/news/tobacco-warning-labels-ineffective-may-actually-backfire

Não poder isso não impede de fazer outras campanhas que seriam vistas, ainda que não estivessem embutidas no produto.

É uma esperança muito ilusória achar que crack com avisos do ministério da saúde de que crack faz mal fossem ter um efeito significativo por si sós.


Como exemplo da inefetividade dessa "parceria", é de se perguntar: por que bebidas alcoólicas ainda só agora que vão ter avisos similares? E olha que o álcool já deve matar mais do que o tráfico: http://g1.globo.com/brasil/noticia/2011/02/oms-alcool-mata-mais-que-aids-violencia-e-tuberculose.html

Então, se a legalização fosse rumo para uma redução do consumo problemático, o álcool deveria ser o "garoto propaganda". Mas é o maior vilão da história, deveria servir é de exemplo contrário, do que JAMAIS queremos fazer com as outras drogas.




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Outra diferença é que por não ser um hábito estigmatizado a sociedade, os médicos, as pessoas comuns, os pais com os filhos, etc, discutiam normalmente, clara e objetivamente os malefícios associados ao cigarro, o que provavelmente ajudou muito mais na conscientização das pessoas que qualquer campanha institucional.

Na verdade a não-estigmatização tanto ajuda quanto atrapalha (bem, pode ajudar mais do que atrapalhar em algumas coisas, e vice versa em outras, seja lá qual for o total).

Ajuda muito a formar o vício, a droga ser socialmente aceitável, como são produtos legais, industrializados, vendido em qualquer padaria ou bar. Também ajuda em algo a manter, já que é algo "normal", algo divertido, ou charmoso, ou másculo, que sempre se fez antes de tudo ser politicamente correto, ou só não se faz mais por que a sociedade é politicamente correta.

A estigmatização, significando uma "impopularidade" dessas perspectivas positivas do vício, é positiva, mas pode ser negativa para deixar o vício no que isso parecer criar algum obstáculo até o tratamento. Mas parece que as coisas vem dando certo em Portugal apesar disso.



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Então vamos repetir isso de novo, liberar para essa indústria explorar viciados com novos produtos, mais viciantes, mais nocivos.

Torcer para que o consumo não aumente -- o que é desejado pela indústria que tiver isso como produto, eles querem o aumento em massa dos viciados, e que os traficantes violentos todos apenas pensem, "meh, agora acho que vou ter que trabalhar para viver. Vou entregar as armas na campanha do desarmamento e olhar os classificados".

Não sei se propositalmente mas acho que você está forçando um pouco a barra aí. Como se a única opção possível ao comércio ilegal de drogas fosse permitir que qualquer um obtivesse um CNPJ para fabricar o entorpecente que quisesse, na quantidade que pudesse oferecer e pôr no mercado da maneira que quisesse, ao melhor preço que pudesse vender.

Isto é o que ocorre precisamente hoje - tirando a parte do CNPJ - mas não é o que acontece com produtos regulamentados. Até quem vende coxinhas de galinha está sujeito ao controle e fiscalização da Vigilância Sanitária, evidentemente o objetivo é impossibilitar aos criminosos, especialmente ao crime organizado, sua fonte principal de financiamento, e não criar uma indústria altamente lucrativa de narcóticos.

A legislação poderia e deve ser muito bem pensada. Muito mais restritiva e controlada do que o nenhum controle que exite hoje.

Na verdade eu só me referi a coisas elementares e tautológicas sobre mercado (exceto pela ironia dos traficantes regenerados por perderem para a concorrência).

Quem produz, quer vender. Quanto mais, melhor. Logo, interessa a quem vende drogas viciantes, aumentar o número de viciados, explorar o vício ao máximo possível. Isso maximiza os lucros, isso simplesmente "é" o ramo, por definição.

A menos que você caia numa engabelação como, "nós da Felipe Móris nos vemos como encarregados da missão de, com a ajuda e orientação do estado, conduzir a sociedade a se livrar do vício no tabaco, através da impressão de avisos informativos sobre os males que esse hábito causa impressos em suas embalagens". Como se tivessem a "falência"/abandono da produção de cigarros pré-planejada para 25 anos, numa série de etapas que planejam cuidadosamente com a orientação do ministério da saúde.


O que se pode tentar fazer com regulamentações é apenas colocar rédeas nisso, que é simplesmente o ímpeto capitalista da coisa.

Isso só teoricamente poderia ser realmente contornado se a coisa não é legalizada como empreendimento capitalista, mas como uma política de saúde, do estado, que conceba produzir e fornecer a droga aos usuários, que são "ao mesmo tempo" encorajados a se tratarem para deixarem gradualmente de se drogar. Em tese isso seria preferível à legalização da indústria de uma outra droga, mas não sei se não poderia dar margem a uma corrupção das mais baixas na saúde. Ainda que, não sei, mas talvez de certa forma seja até uma necessidade para tratamentos realmente eficientes, uma redução gradual do consumo da droga, em vez de parada brusca. Mas não sei se é sempre o caso/melhor.



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Eu também duvido muito que os traficantes então pensem em procurar emprego, mas não é o que os criminosos querem fazer que realmente importa, e sim o que eles PODEM fazer. Eu não tenho os números do Brasil, mas diz-se que esse mercado movimenta mais de US$300 bilhões anualmente, em termos globais. Mais de 300 bilhões todo ano que saem da sociedade produtiva para financiar o crime, o tráfico de armas, a corrupção policial, do judiciário, de políticos, os esquemas trans-nacionais de lavagem de dinheiro e o empoderamento de organizações criminosas cada vez mais sofisticadas que por consequência exploram não apenas o comércio de drogas em si, mas empregam seus recursos e sua rede ilícita em uma infinidade de atividades criminosas.

Esse poder todo existe pelo combate aos moldes de "guerra" (que apenas agrava toda a situação, em todo aspecto imaginável), e por não haver ação suficiente na redução da demanda com políticas como a de Portugal.



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Priva-los do dinheiro do narcotráfico é priva-los de todo este poder. Sim, é claro, eu até já disse antes, logo ali em cima, que que se os caras lá do Complexo do Alemão não puderem mais vender crack e cocaína vão usar os fuzis para assaltar banco, sequestrar,o diabo... mas para começar eles nem teriam estes fuzis se não existisse o narcotráfico. Quase com absoluta certeza estas facções sequer existiriam da forma que existem hoje se não fossem organizações de narcotraficantes.

Então sou obrigado a repetir, esta outra guerra seria uma guerra que poderia ser pelo menos parcialmente vencida. Porque até pra guerra - principalmente pra guerra - é preciso dinheiro.

Já a guerra contra as drogas, quer queiramos ou não, a experiência demonstrou que está perdida.


Parece que não para Portugal, que só usa uma estratégia mais inteligente.

A coisa chegou a esse ponto porque as políticas do estado fizeram com que fosse muito compensador formar exércitos violentos em vez atuar de forma mais "sossegada", e fez muito pouco para tentar reduzir a demanda.

Na medida em que se reduz a necessidade/incentivo de "ação militar" para o tráfico, é mais lucrativo investir cada vez menos nisso. Por aí se reduz a violência associada ao tráfico. Do outro lado, tenta-se mais ativamente fornecer tratamento aos viciados.




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Daniel Okrent é autor de “Last Call: The Rise and Fall of Prohibition”, justamente sobre a falência e impossibilidade da atual política de combate às drogas, traçando um paralelo com o que ocorreu nos EUA na época da Lei Seca.

Em entrevista que pode ser lida no link abaixo ele traz alguns dados:

http://m.noticias.uol.com.br/midiaglobal/freakonomics/2011/05/24/o-que-a-lei-seca-dos-anos-20-pode-ensinar-a-legalizacao-da-maconha.htm

O consumo de bebida alcoólica, com a lei, continuou em 70% do que era em 1914, mas com o fim da lei seca, apenas em 1973 os americanos voltaram aos níveis de consumo de 1914. Mesmo assim o consumo vem decrescendo um pouco ( consumo per capita ) desde então.

Você está considerando o consumo sem lei seca antes e sem lei seca depois, não com a lei seca, e depois. É praticamente inevitável que a lei seca tenha reduzido o consumo, e a violência relacionada ao uso de álcool, que atualmente é pior do que a de toda "violência em geral", e, naquela época, talvez fosse até algo pior, mais "abafado" pela sociedade, sob menor atenção policial/legal.



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Ou seja, estes dados sugerem que, assim como os usuários de drogas, a maioria dos usuários de alcool são ocasionais. É verdade que alguns tem uma propensão maior ao alcoolismo, mas a maioria não enterra sua vida na bebida só porque não é crime comprar cerveja no bar da esquina. Não deve ser diferente com outros tipos de drogas.

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Apesar da violência das gangues ter se reduzido, também não se sabe se a violência não aumentou, em absoluto, com a liberação, como efeito do uso de álcool.

Se nem o consumo aumentou com o fim da proibição é obvio que os casos de violência relacionados ao uso de álcool também não.

Mas deve-se comparar proibição e não-proibição, e não não-proibição e não-proibição seguindo a liberação.


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Mas, em relação a realidade que particularmente nos interessa, é indiscutível que o grande problema de violência urbana e segurança pública que enfrentamos hoje não está relacionado com o uso direto de entorpecentes, mas sim com a indústria da criminalidade que este uso gera e alimenta.


E que as políticas de combate atuais tendem a perpetuar ou fortalecer, desnecessariamente.



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A guerra SÓ pode ser ganha no campo econômico. O narcotráfico ilegal é muito dispendioso e não tem como competir. Você conhece alguém que fabrique ou venda cigarros ilegais? Mesmo com todos os impostos que a indústria do tabaco é taxada?


São moldes diferentes de produção, a produção das drogas atual já existe às escondidas o suficiente para poder continuar produzindo tanto quanto produz e abastecendo a demanda que abastece, livre de impostos. A vantagem da produção legal só existiria se fosse tremendamente subsidiada ou se planejassem aumentar muito o mercado, o que "nós" não queremos, embora seja desejado pelos produtores.

Mas talvez haja sim ainda algum análogo com o contrabando de cigarro, e há também produção ilegal de bebida alcoólica.

Putz, bem maior do que imaginava, se este site estiver correto:

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http://www.antidrogas.com.br/mostraartigo.php?c=3572&msg=20%%20da%20bebida%20alco%F3lica%20consumida%20no%20Brasil%20tem%20origem%20em%20com%E9rcio%20ilegal

A pesquisa entrevistou vendedores de bebidas não registradas, maiores de 18 anos, que trabalham em diferentes ambientes das cidades de São Paulo e Diadema. O levantamento apontou que 20% chegou a declarar que compravam a bebida para a revenda de produtos informais e 6,5% tinham produção própria das bebidas que vendiam. Dos entrevistados, 81,4% declararam vender bebidas alcoólicas não-registradas, de alambiques (cachaça – 14,3%); batidas/cachaça/pinga (45,7%) e/ou bebidas contendo plantas (11,4%).

Apenas 39,5% declararam conhecer as fontes como fabriquetas; fundos de quintal instalados em residências. Quase a metade dos vendedores não têm conhecimento de origem destas bebidas e não sabem como elas são fabricadas, principalmente as bebidas falsificadas e quase 30% obtinham as bebidas de produtores informais e/ou produziam diretamente.



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A sociedade por acaso tem algum problema sério com traficantes de bebidas alcoólicas?

Não por estes "não existirem", mas aparentemente por haver outras estratégias de lidar com o problema, menos contraproducentes.

Outro aspecto não-análogo é que, sem dar uma relativa trégua aos vendedores de drogas inofensivos, não se tem o análogo ao comércio legal das drogas lícitas, fazendo concorrência. Boa parte do "problema sério" com os traficantes é simplesmente prender os que não causam problemas sérios.



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Não conheço muito o caso de Portugal, mas o grande problema que eu vejo na sua solução, ou melhor, na abordagem que você considera preferivel, é que ela justamente não ataca em nada a raiz do problema, especialmente do nosso problema aqui no Brasil: que é o financiamento de organizações criminosas extremamente violentas com o dinheiro proveniente do comércio ilegal de drogas.

Essas organizações, ou facções, não possuem condições, capacidade, konw-how, por mais que queiram ou tentem, para desenvolver qualquer outro tipo de atividade criminosa que sequer se aproxime da rentabilidade que o tráfico proporciona.

A violência existe pelo incentivo, pelo enfrentamento político do problema se dar nessa forma, não simplesmente pela droga ser ilegal.

O que a legalização da indústria de outras drogas faria, idealmente, seria só vencer economicamente aos traficantes, sem ser ao mesmo tempo violentos. Pois bem, uma tolerância aos traficantes não-violentos faz o mesmo, sem precisar se fomentar uma indústria para tentar obter isso, com alto risco de aumentar a demanda (para "depois" tentar reduzir ao máximo essa indústria, eventualmente).

Pode-se se focar só em políticas de redução da demanda e no incentivo ao comportamento menos socialmente danoso da "indústria" atual. Da mesma forma que os donos dos alambiques informais/ilegais não precisam ser criminosos violentos, os produtores/vendedores de outras drogas também não.

Offline Brienne of Tarth

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Re:Se esses 4 motivos não te convencerem quão estúpida é a guerra às drogas...
« Resposta #20 Online: 15 de Junho de 2015, 21:56:18 »
Antes de mais nada, a estúpida hipocrisia que condena o "baseado", e libera a Dipirona...

A Humanidade se droga há milênios, porquê deveríamos transformar a necessidade de alguns (tá bom, bilhões), em entorpecer ainda que temporariamente o cérebro para não dar tilt (um dos motivos) em caso de polícia, quando se trata obviamente de caso de saúde, como o câncer que ainda precisa da quimioterapia?
GNOSE

Offline Barata Tenno

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Re:Se esses 4 motivos não te convencerem quão estúpida é a guerra às drogas...
« Resposta #21 Online: 16 de Junho de 2015, 03:11:53 »
Buckaroo, procure ler sobre os efeitos da regulamentação no Colorado e diga o que acha.
He who fights with monsters should look to it that he himself does not become a monster. And when you gaze long into an abyss the abyss also gazes into you. Friedrich Nietzsche

Offline Johnny Cash

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Re:Se esses 4 motivos não te convencerem quão estúpida é a guerra às drogas...
« Resposta #22 Online: 16 de Junho de 2015, 07:40:03 »
Em linhas gerais eu sou pró legalização/regulamentação/descriminalização/liberação(?) das drogas, mas tenho algumas dúvidas das mais básicas tipo essa:

- Suponhamos que rapidamente seja possível o fornecimento de drogas pelo estado e/ou empresas privadas e a tal torneira de dinheiro do tráfico seja fechada, o que fariam os traficantes daí em diante? Focar em outro tipo de atividade criminal? Continuar oferecendo drogas ilegais, contrabandeada(?) mais baratas ou mais potentes?

- O que aconteceu nos locais famosos já conhecidos como Portugal, Colorado e outros?

Offline Buckaroo Banzai

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Re:Se esses 4 motivos não te convencerem quão estúpida é a guerra às drogas...
« Resposta #23 Online: 16 de Junho de 2015, 12:31:07 »
Buckaroo, procure ler sobre os efeitos da regulamentação no Colorado e diga o que acha.



Muito bom!



Não exatamente bom, mas talvez um efeito colateral menos pior do que o custo de não ter isso, e talvez ainda algo que possa ser contornado de alguma forma.


Achava que era quase que parte implícita do que eu estava dizendo, deixar o produtor "artesanal", para consumo praticamente só próprio/traficante inofensivo relativamente livre, em vez de "dar" novos produtos para a Felipe Móris e Ambebe brigarem pelo mercado. Mas acho preferível mesmo esse nível anterior de maior informalidade ao de "lojas de maconha/etc", que acho que é engatinhar na direção de uma indústria maior de drogas. A experiência mais tímida portuguesa tem mais tempo e então é uma linha menos arriscada de se apostar antes de ver no que isso vai dar em longo prazo, e sem ter como saber se há diferenças significativas de um lugar para o outro, supondo que dê certo em Denver.

Não estou certo quanto a proibição de consumo em público, mas talvez seja a brecha necessária para que uma autoridade sugira a pessoa a ir se tratar, como fazem os portugueses.





Rhyan

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Re:Se esses 4 motivos não te convencerem quão estúpida é a guerra às drogas...
« Resposta #24 Online: 16 de Junho de 2015, 18:24:50 »
Não entendi, tem gente sendo preso por causa de maconha no Colorado ainda?

Esse negócio de regulamentação é tão ridículo. A pessoa pode, p.e., portar 28g de maconha, se portar 29g ou 30g é um criminoso perigoso. A pessoa pode plantar 6 pés de maconha, se plantar 7 é um serial killer.

Quem é o governo pra determinar qual substâncias um indivíduo pode usar?

 

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