Autor Tópico: Paradigmas de Kuhn  (Lida 1640 vezes)

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Offline Sdelareza

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Paradigmas de Kuhn
« Online: 23 de Janeiro de 2016, 20:11:03 »
Gostaria discutir em detalhes sobre o conceito de paradigmas de Thomas Kuhn,
e como aquilo diverge do critério de falseabilidade proposto por Karl Popper.

Não li a "Estrutura das Revoluções Científicas" e o que li sobre Kuhn é geralmente meio evasivo.

Vamos ver o que entendo sobre suas ideias (me baseando sobretudo num artigo mais detalhado que achei sobre ele):

- a ciência não progride num ritmo linear ou progressivo. Historicamente, ela é determinada pela
existência de paradigmas, que são vigentes durante longos períodos. O surgimento de um novo paradigma corresponde
a uma nova revolução na ciência.

- um paradigma é uma "visão" como o cientista enxerga o mundo ou alguma área da ciência. Dentro desse paradigma,
são desenvolvidas teoria e ideias. Kuhn chama esse período de "ciência normal". Esse período dura até um ponto
em que se acumulam dúvidas e que leva ao surgimento de um novo paradigma.

- Kuhn afirma que os paradigmas são incomensuráveis. Eles são tão diferentes entre si que não podem ser comparados.
  Nesse ponto, Kuhn diverge de  Popper: um novo paradigma não é mais preciso ou mais perto da realidade. Ele é simplesmente diferente.  Um novo paradigma surge porque um grupo de cientistas consegui impor sua interpretação ou ponto de vista em relação aos outros cientistas (e não porque todos os cientistas concordaram  que ele é mais real).

- A visão de Kuhn que a ciência é algo subjetivo. Não há uma ciência "neutra". Um cientista sempre é sujeito à influências sociais, religiosas ou ideológicas.


Um exemplo de mudança de paradigma foi a passagem do modelo geocêntrico ao modelo heliocêntrico.

Para mim, fica difícil entender como a passagem do modelo geocêntrico ao modelo heliocêntrico não corresponde à uma visão mais precisa ou mais real, pois é algo que foi comprovado experimentalmente.
Para mandar satélites artificiais ao espaço, temos que nos basear nas leis de Kepler e seria impraticável nos basearmos num modelo geocêntrico.
Não vejo assim como um paradigma seria incomensurável (incomparável), pois entendo que ele deveria ser "falseável" de algum modo para ser substituído por outro paradigma. Me parece que um paradigma surge porque não há outra alternativa para outro.

Kuhn tinha sua própria ideia de como delimitar ciência e não-ciência? Que outras mudanças de paradigmas podemos destacar? (Penso que o mais recente foi o surgimento da mecânica quântica).


Se errei ou não fui preciso em algum ponto, me corrijam,por favor.
« Última modificação: 23 de Janeiro de 2016, 20:14:56 por Sdelareza »

Offline DDV

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Offline Buckaroo Banzai

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Re:Paradigmas de Kuhn
« Resposta #2 Online: 25 de Janeiro de 2016, 13:49:57 »
Tópicos interessantes. Dá vontade de ler até aos posts do Cientista, sem todo aquele "hahaha, eu, o grandíssissimo *ma* *ra* *vi* *lho* *so* é Ú-N-I-C-O Cientista, blablablá, eu eu eu, blablablá, pensamento mágico do crente, blablablá". :biglol:


Offline Sdelareza

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Re:Paradigmas de Kuhn
« Resposta #3 Online: 29 de Janeiro de 2016, 20:49:53 »
Exemplos de mudanças de paradigma citados na Wikipedia em inglês, que
teriam sidos propostos por Kuhn:

1543 - Passagem do modelo cosmológico de Ptolemeu ao de Copérnico.

1543 - Aceitação da obra sobre anatomia humana de Andreas Valius, que corrigiu erros dos trabalhos de Galeno

1687 - Transição da mecânica de Aristóteles para a mecânica clássica de Galileu, Newton.

1783 - Aceitação do trabalho de Lavoisier sobre reações químicas e combustão no lugar da teoria do flogisto.

1826 - Descobrimento da geometria hiperbólica, em oposição à geometria euclidiana.

1866 - Aceitação dos mecanismos de herança propostos por Mendel, no lugar da pangênese.

       Aceitação da biogênese (que a vida nasce da vida) em oposição à teoria da geração espontânea, confirmados
       graças aos trabalhos de Pasteur.

1905 - Desenvolvimento da mecânica quântica que substitui a mecânica clássica na escala microscópica.

1905 - Transição do éter para a radiação eletromagnética no espaço-tempo.

1920 - Transição da mecânica newtoniana para a teoria da relatividade proposta por Einstein.

1965 - Aceitação das placas tectônicas para explicar as mudanças geológicas em larga escala.


A Wikipedia em francês cita mais esses exemplos:

     - Estabelecimento do pensamento racional pelos filósofos pré-socráticos
     
     - Introdução do darwinismo.
   
     - Descoberta da estrutura em dupla hélice  do ADN

Eu veria também a teoria do Big Bang como um novo paradigma.



Offline Sdelareza

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Re:Paradigmas de Kuhn
« Resposta #4 Online: 29 de Janeiro de 2016, 20:51:17 »
https://en.wikipedia.org/wiki/Rabbit%E2%80%93duck_illusion

Kuhn usou a ilusão de ótica pato-coelho para demonstrar como uma mudança de paradigma permite alguém ver uma mesma informação
de um modo inteiramente diferente.

Offline DDV

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Re:Paradigmas de Kuhn
« Resposta #5 Online: 29 de Janeiro de 2016, 21:55:13 »
Lembro bastante dos exemplos que Kuhn dava em seu livro, dizendo que um mesmo objeto ou fenômeno é visto de maneira diferente por cada adepto de um paradigma. Onde Priestley via o flogisto, Lavoisier via o oxigênio. Onde um cientista vê um planeta outro vê uma estrela, etc.

O "popperiano" John Watkins rebateu esse argumento. Na verdade, os cientistas vêem a mesma coisa, mas interpretam de forma diferente (lógico!). Priestley não "via" o flogisto e nem Lavoisier o oxigênio: ambos viam um gás com determinadas características descritíveis, mas cada um chamava-o de um nome diferente e fazia previsões ligeiramente diferentes sobre o comportamento desse gás. Da mesma forma um cientista não "vê" um planeta e outro uma estrela, AMBOS vêem um objeto luminoso, de determinada cor e característica, mas chamam-no por nomes diferentes e propõe explicações (e previsões) diferentes sobre o mesmo.
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Offline DDV

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Re:Paradigmas de Kuhn
« Resposta #6 Online: 29 de Janeiro de 2016, 22:01:12 »
Toda a descrição oferecida por Kuhn para a atividade científica se encaixa no falsificacionismo (no real, não no "ingênuo").

Adotar uma atitude "normal" ou "revolucionária" frente a anomalias experimentais é prerrogativa pessoal dos cientistas. O falsificacionismo não proibe que cientistas continuem trabalhando e insistam em tentar aperfeiçoar uma teoria que não se saiu bem nos experimentos. Proíbe apenas que se use hipóteses ad hoc (que reduzam o grau de falseabilidade da teoria) ou que fique insistindo que a teoria "é a melhor" a despeito dos dados experimentais mostrando que não.

Se ele escolhe insistir trabalhando na teoria mais antiga para aperfeiçoá-la e compatibilizá-la com os dados experimentais, abrindo novas possibilidades e fazendo novas previsões, estará contribuindo com a progresso da ciência, nem que seja para demonstrar de forma mais convincente que a teoria anterior é falsa.

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Re:Paradigmas de Kuhn
« Resposta #7 Online: 29 de Janeiro de 2016, 22:08:27 »
Seria bom também ter cuidado ao se analisar a época de Galileu, quando ainda não havia um "método científico" e uma "comunidade científica" comprometida com o racionalismo, sem dogmas ou tradicionalismos baseados em metafísica ou religião.

Galileu não enfrentou colegas cientistas comprometidos com o racionalismo critico (ou seja, a possibilidade de aceitar que a teoria pode ser falsa e ter a mente aberta para aceitar novas idéias e respeitar os dados experimentais), ele enfrentou filósofos tradicionalistas e religiosos, por isso teve que usar propaganda e política também, pois era esse o método disponível para conseguir angariar algum apoio e "convencer" certos grupos.


É interessante notar que há uma relação inversa entre a quantidade de "sábias tradições" em um determinado campo e a velocidade com que esse campo se desenvolve. O eletromagnetismo não tinha nenhuma "sábia tradição" na área, começou do zero... e se densenvolveu numa velocidade vertiginosa (de Coulomb a Maxwell não se levou nem 150 anos). A química e a biologia, por outro lado, com seus 'flogistos' e 'vitalismos', penaram mais para chegar no padrão atual.

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Offline Buckaroo Banzai

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Re:Paradigmas de Kuhn
« Resposta #8 Online: 29 de Janeiro de 2016, 22:21:01 »
       Aceitação da biogênese (que a vida nasce da vida) em oposição à teoria da geração espontânea, confirmados
       graças aos trabalhos de Pasteur.

Essas coisas muitas vezes são mais graduais, menos revoluções de paradigmas do que as versões mais resumidas da história mostram.

Houve ainda quem aceitasse "geração espontânea" após Pasteur, embora se reduzindo gradualmente, e se não me engano ele próprio ainda aceitava uma outra "categoria" de fenômeno parecido, ironicamente na origem de vermes parasitas, devido a diferentes morfologias e complexos ciclos de vida, não totalmente conhecidos até então. Supunham se originar de alguma irritação no órgão parasitado, mas ainda de vida. "Heterogênese".

Também houve debate antes de Pasteur, não foi ele que chegou e falou, "vou provar que essa joça de idéia que todo mundo sempre aceitou incontestadamente não vale anda", mostrou, e todos ficaram quietos. Foi mais um episódio, e não o último, numa longa série de debates.

Talvez mais definitivo do que Pasteur no "descarte" à geração espontânea, tenha sido a continuidade de estudos (Oparin, Haldane, Miller, Urey, mais a descoberta da estrutura do DNA) que, meio paradoxalmente, reavivam a "geração espontânea" ou abiogênese em sua última encarnação, gradualmente desenvolvendo hipóteses/versões baseadas em novas descobertas, que permitem descartar aquelas hipóteses, mais do que os resultados empíricos de Pasteur e Tyndall.



Darwinismo e mendelismo também acho que não foram "tomadas de poder" tão avassaladoras de paradigmas. Inclusive parte dos Darwinistas se opunha aos mendelistas, e isso acabou entrando para alguns relatos da história como um "eclipse do darwinismo", embora alguns defendam que não seja bem assim.

Acho que o Big-Bang por outro lado foi algo bem mais brusco. Principalmente depois das observações empíricas, talvez não tanto se considerar a partir da hipótese de Lamaître. Uma coisa foi muito mais próxima da outra do que eu me lembrava.

https://en.wikipedia.org/wiki/History_of_the_Big_Bang_theory#Early_20th_century_scientific_developments

Offline Sdelareza

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Re:Paradigmas de Kuhn
« Resposta #9 Online: 29 de Janeiro de 2016, 22:53:47 »
É interessante notar que há uma relação inversa entre a quantidade de "sábias tradições" em um determinado campo e a velocidade com que esse campo se desenvolve. O eletromagnetismo não tinha nenhuma "sábia tradição" na área, começou do zero... e se densenvolveu numa velocidade vertiginosa (de Coulomb a Maxwell não se levou nem 150 anos). A química e a biologia, por outro lado, com seus 'flogistos' e 'vitalismos', penaram mais para chegar no padrão atual.


Para um novo paradigma se impor, ele deve enfrentar a resistência de uma comunidade de cientistas que insiste em manter as antigas tradições.
 Quando um novo campo é criado do zero, não há essa oposição (ou ela é bem menor)  e esse novo paradigma é aceito bem mais rapidamente.
« Última modificação: 29 de Janeiro de 2016, 23:13:42 por Sdelareza »

Offline Sdelareza

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Re:Paradigmas de Kuhn
« Resposta #10 Online: 04 de Fevereiro de 2016, 21:18:43 »
Como Popper, Kuhn concorda que marxismo, psicanálise e astrologia não são ciências, mas ele
chega a essa conclusão por outro caminho que a falseabilidade.

No caso da astrologia, ele considera que a astrologia não pode ser excluída da ciência da forma 
como suas previsões foram elaboradas (pois várias de suas previsões podem ser testáveis).

Para ele, há a presença nessas áreas de uma teoria compartilhada e plausível e regras fundamentadas para controlar a prática.

Se elas apresentam falhas, os argumentos usados pelos seus adeptos seriam similares à aqueles que explicam falhas na
medicina e meteorologia.

Porque então são considerados pseudo-ciências? Pelo fato de não terem que lidar com desafios ou quebra-cabeças.
Coisa que ocorre com os físicos e astrônomos, que devem realizar atividades de medição, cálculo e
correções de erro.

Para Kuhn, a medicina e a engenharia de um século e meio atrás podiam se encaixar na mesma situação (ausência de desafios).
Mas não fazia sentido rejeita-los, pois não havia outra alternativa.

http://www.ibamendes.com/2010/11/dialogo-entre-popper-e-kuhn-acerca-da.html

Então o que é ciência pode depender do contexto da época? Na Idade Média, fazia plenamente sentido considerar
a astrologia como uma ciência na ausência de uma melhor alternativa.
« Última modificação: 04 de Fevereiro de 2016, 22:49:00 por Sdelareza »

Offline Eremita

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Re:Paradigmas de Kuhn
« Resposta #11 Online: 11 de Fevereiro de 2016, 04:03:19 »
Popper e Kuhn respondem perguntas diferentes.

Popper: "Como o método científico deve funcionar?" "Falsificacionismo."
Kuhn: "Como a ciência feita por humanos funciona?" "Consenso de cientistas."
Monoteísmo é a hidra de Lerna. Con Kolivas estava certo sobre o desktop. Prozac não deixa tudo melhor. Aquiles devia ter escolhido os dois destinos, juntos. Coração sentimental + mente cética = aflição. Sou responsável pelo que digo, não pela sua interpretação sobre o que digo.

Offline DDV

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Re:Paradigmas de Kuhn
« Resposta #12 Online: 11 de Fevereiro de 2016, 22:08:21 »
Popper e Kuhn respondem perguntas diferentes.

Popper: "Como o método científico deve funcionar?" "Falsificacionismo."
Kuhn: "Como a ciência feita por humanos funciona?" "Consenso de cientistas."

Kuhn tentou responder, mas não conseguiu satisfatoriamente.

Mesmo Lakatos, que tentou mesclar a tese kuhniana com a popperiana, deixou lacunas e inconsistências facilmente refutadas por filósofos da linha "raciomaníaca".
Não acredite em quem lhe disser que a verdade não existe.

"O maior vício do capitalismo é a distribuição desigual das benesses. A maior virtude do socialismo é a distribuição igual da miséria." (W. Churchill)

Offline Eremita

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Re:Paradigmas de Kuhn
« Resposta #13 Online: 11 de Fevereiro de 2016, 23:24:14 »
Kuhn tentou responder, mas não conseguiu satisfatoriamente.
Na prática dá na mesma, Kuhn oferece uma visão melhor do processo social e Popper* fornece o método.

Quanto ao Lakatos: toda a idéia dele soa como falácia do meio termo, e a noção de "núcleo duro" duma teoria se complica toda quando você vai analisar p.ex. a evolução da gramática universal do Chomsky, em que até mesmo o "núcleo duro" é questionado e muda com o tempo.

*ou mesmo o positivismo - pode não ser tão "rigorosamente racional" quanto falsificacionismo, mas é prático.
« Última modificação: 11 de Fevereiro de 2016, 23:28:38 por Piast Grimani »
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Offline Sdelareza

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Re:Paradigmas de Kuhn
« Resposta #14 Online: 13 de Fevereiro de 2016, 01:36:21 »
Se a ciência é neutra e ela progride regularmente ao longo do tempo, podemos pensar que as
descobertas científicas representam um processo inevitável. Se um respectivo cientista
não tivesse realizado tal descoberta, outros certamente teriam o feito mais
ou menos na mesma época.

Ou então certas novas teorias seriam tão revolucionárias como uma nova religião e somente
poderiam ser fruto do seu criador?

É consenso que se Einstein não tivesse enunciado a teoria da relatividade restrita em 1905,
sua descoberta por outro seria mera questão de tempo pois vários físicos se debruçavam sobre
conceitos como invariância da velocidade da luz e inexistência de um sistema de referência absoluto.

Porém, muita gente diz que a teoria geral da relatividade, enunciada por Einstein oem 1915, provavelmente não teria
sido formulada por outra pessoa nessa época, e talvez nem hoje.

Procuro ver porque certas teorias são tão impactantes e acabam virando "dogmas".

Seria mais por uma combinação de fatores sociais e conservadorismo dos cientistas?

A teoria do Big-Bang seria em grande parte aceita por causa do seu aspecto criacionista?
 Por isso que ela sempre foi aceita pela Igreja Católica (e ela foi primeiro definida por um jesuíta).

Alfred Wallace havia descoberto os mecanismos de seleção natural na mesma época que Darwin.
Mas ele é menosprezado pela comunidade científica porque como era espírita, não acreditava
que a seleção natural explicava a formação da mente no homem. Talvez isso explica
a preponderância do darwinismo e dos neo-darwinistas?

E sobre a teoria geral da relatividade, que virou manchete agora com a descoberta das ondas gravitacionais?
Será que dizer que gravitação é um efeito da geometria do espaço-tempo virou um "dogma" que nenhum
cientista ousa contestar com medo de arruinar sua reputação?
« Última modificação: 13 de Fevereiro de 2016, 08:07:11 por Sdelareza »

Offline El Elyon

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Re:Paradigmas de Kuhn
« Resposta #15 Online: 13 de Fevereiro de 2016, 02:35:09 »
Sem querer me enfiar no debate epistemológico, mas:

Citar
Alfred Wallace havia descoberto os mecanismos de seleção natural na mesma época que Darwin.Mas ele é menosprezado pela comunidade científica porque como era espírita, não acreditava
que a seleção natural explicava a formação da mente no homem.

Curiosamente, essa me parece a explicação mais simplista possível quanto a preponderância de Charles Darwin a Alfred Wallace no desenvolvimento da biologia evolutiva, e curiosamente esquece de outros fatores sociais que levaram Darwin a ter mais preponderância como sua origem social, sua extensa rede de contatos com outros pesquisadores do mesmo período (T.H. Huxley, Charles Lyell, Asa Gray, Leonard Jenyns, Hooker, Richard Owen, Charles Galton) e ter escrito livros relativamente acessíveis a diversas pessoas (tanto o Origem das Espécies quanto a Descendência do Homem). É possível mesmo que Wallace tenha descoberto o princípio da Seleção Natural antes que Darwin, mas ninguém em seu período conseguiu escrever tanto quanto Darwin nesse tópico.

Sem contar que é bizarro clamar que Alfred Wallace seja "menosprezado pela comunidade científica" quanto ele tem um quadro de premiações tanto científicas (da Sociedade Geográfica Francesa logo em 1870, e de outros grupos após isso até sua morte em 1913) quanto sociais (Royal Medal) de se invejar.
"As long as the Colossus stands, Rome will stand, when the Colossus falls, Rome will also fall, when Rome falls, so falls the world."

São Beda.

Offline Sdelareza

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Re:Paradigmas de Kuhn
« Resposta #16 Online: 13 de Fevereiro de 2016, 10:09:53 »

Sem contar que é bizarro clamar que Alfred Wallace seja "menosprezado pela comunidade científica" quanto ele tem um quadro de premiações tanto científicas (da Sociedade Geográfica Francesa logo em 1870, e de outros grupos após isso até sua morte em 1913) quanto sociais (Royal Medal) de se invejar.


Mas hoje ele não é relegado para um segundo plano?
Será que ele tinha idéias distintas daquelas de Darwin que mal são divulgadas atualmente?

Eu mal entendo como ciências exatas seriam o resultado de influências sociais ou outras e não somente a comprovação de testes e experimentos.

Que eu saiba (se estou errado, corrijam-me), Einstein (antes da divulgação dos seus principais trabalhos em 1905) não era alguém pertencente a uma classe social alta, com uma ampla rede de contatos no meio acadêmico ou do tipo extrovertido e que curtia ser uma pessoa pública. Me parece também que ele não escreveu ou publicou livros sobre seus trabalhos para o público leigo.

Aquilo certamente seria mais o caso de outras ciências naturais como biologia.

O próprio Karl Popper considerou inicialmente a teoria da evolução das espécies como não-científica, mas voltaria atrás.
« Última modificação: 13 de Fevereiro de 2016, 12:13:41 por Sdelareza »

Offline Eremita

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Re:Paradigmas de Kuhn
« Resposta #17 Online: 14 de Fevereiro de 2016, 19:14:49 »
-snip-
A ciência é neutra como método, mas não como atividade humana; seu progresso vai depender da aceitação da comunidade científica. E embora os cientistas levem muito em conta "segue o método" quando aceitam ou recusam algo como científico, cientistas ainda são um bando de primatas tribais que vão procurar tolher hipóteses dos adversários em prol de suas próprias.

Isso fica especialmente claro em dois campos:
1. Ainda há gente que acha que mitos tribais são uma boa explicação para a origem da vida, criando debate onde não há;
2. Toda a discussão sobre mudança climática ser fruto da atividade humana ou não.

Quanto ao Wallace e a "inevitabilidade da descoberta": Wallace não foi "ignorado", só demorou demais para publicar seus resultados em relação a Darwin. Creio que a idéia básica de hereditariedade, mutação e seleção surgiria com ele, também. Para outras pesquisas, realmente, não sei dizer.

E o Popper considerou no começo a teoria da seleção natural como não-científica por crer não ser falseável. (Hoje sabemos que é.)
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Offline Sdelareza

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Re:Paradigmas de Kuhn
« Resposta #18 Online: 18 de Fevereiro de 2016, 22:11:29 »
Os cientistas podem até muito bem explicar COMO um fenômeno ocorre, mas não POR QUÊ ele ocorre.

Isso é que acho que Kuhn quis dizer igualmente com os paradigmas.

Se há a possibilidade de aplicar uma navalha de Ockham, penso que maior será a probabilidade de
encontrar uma causa que fará o consenso entre cientistas (que essa causa corresponde à uma explicação mais simples).

Offline Sdelareza

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Re:Paradigmas de Kuhn
« Resposta #19 Online: 23 de Dezembro de 2017, 16:53:38 »
Podemos dizer que por causa da incomensurabilidade dos paradigmas (ou impossibilidade de comparar paradigmas) conforme Kuhn,
aquilo justifica por quê ainda não existe uma teoria comprovada experimentalmente que une a teoria da relatividade
e a mecânica quântica.

Tem a teoria da cordas, mas ela não passou ainda da fase especulativa.
 

 

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