Autor Tópico: Ciência eficiente por Suzana Herculano-Houzel  (Lida 2035 vezes)

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Offline SnowRaptor

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Re:Ciência eficiente por Suzana Herculano-Houzel
« Resposta #25 Online: 01 de Junho de 2016, 20:27:52 »
Texto prolixo e confuso.

Acho que uma tradução possível seria: "Insistir na divulgação de ciência e tecnologia pode ameaçar os alicerces de nossa ideologia. E isso não é bom, nã nã. Inaceitável!"
E que diabos é um retorno à tecnocracia? A tecnocracia é uma ideologia esquecida e que jamais foi popular. Parece mais um espantalho. E eu bem gostaria de ver a definição do autor para "exercício pleno da democracia". Bloquear estradas e depredar prédios públicos está incluído no pacote?

Existe também o argumento de que a ciência é excludente e que "só os iniciados" têm acesso a ela, e isso é inadmissível.

Porque o resultado dos papers é democrático, né? A solução de uma equação diferencial é decidida em assembleia.
Elton Carvalho

Antes de me apresentar sua teoria científica revolucionária, clique AQUI

“Na fase inicial do processo [...] o cientista trabalha através da
imaginação, assim como o artista. Somente depois, quando testes
críticos e experimentação entram em jogo, é que a ciência diverge da
arte.”

-- François Jacob, 1997

Offline Buckaroo Banzai

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Re:Ciência eficiente por Suzana Herculano-Houzel
« Resposta #26 Online: 01 de Junho de 2016, 21:11:43 »
De um texto trabalhado em aula:
https://dl.dropboxusercontent.com/u/21006364/tecnocracia.jpg
Vamos liberar a fosfoetalonamina pelo bem da democracia!!!


Me fez pensar naquelas coisas de como que na verdades alguns povos indígenas teriam uma outra visão sobre a "ótica", sem todas esses cientificismos eurocentristas de "ondas" de "luz", etc, e que na verdade é no mínimo igualmente válida e tal; e mesmo suas narrativas sobre criação, não são mais "mitos" do que a narrativa da doutrina evolucionista concebida por europeus como Lamarck e Darwin. E que é de se questionar por que "e=mc²" privilegia a velocidade da luz em detrimento de velocidades mais próximas do social. A física em si, deve dar peso igual à preocupação com formulações sobre corpos em estado sólido (estereotipicamente masculino) e estados de maior maciez ou mesmo fluidez (atributos estereotipicamente femininos).

Pós-modernismo, Foulcaut e/ou algo assim.



Mas o mais curioso é a lógica subjacente de que menos divulgação de informação seria algo menos propício a perpetuação de mitos.


Só se for "mitos" no sentido negacionista científico do termo, onde você só rotula de "mito" arbitrariamente qualquer coisa que seja incompatível com sua ideologia. Como "mito que o homem é físicamente mais alto e mais forte que a mulher", "o mito da inexistência/existência de raças humanas", etc.

Offline Donatello

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Re:Ciência eficiente por Suzana Herculano-Houzel
« Resposta #27 Online: 02 de Junho de 2016, 06:28:51 »
De um texto trabalhado em aula:


 :olheira: :olheira: :olheira: :olheira: :olheira: :olheira: :olheira: :olheira: :olheira: :olheira: :olheira: :olheira: :olheira: :olheira: :olheira:

Tenho que arrumar uma licença do LeroLero GeneratorTM Professional Edition. A versão free não está mais dando conta.

Offline JJ

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Re:Ciência eficiente por Suzana Herculano-Houzel
« Resposta #28 Online: 02 de Junho de 2016, 08:39:40 »
Texto prolixo e confuso.

Acho que uma tradução possível seria: "Insistir na divulgação de ciência e tecnologia pode ameaçar os alicerces de nossa ideologia. E isso não é bom, nã nã. Inaceitável!"
E que diabos é um retorno à tecnocracia? A tecnocracia é uma ideologia esquecida e que jamais foi popular. Parece mais um espantalho. E eu bem gostaria de ver a definição do autor para "exercício pleno da democracia". Bloquear estradas e depredar prédios públicos está incluído no pacote?

Existe também o argumento de que a ciência é excludente e que "só os iniciados" têm acesso a ela, e isso é inadmissível.
Porque o resultado dos papers é democrático, né? A solução de uma equação diferencial é decidida em assembleia.


Certamente que o autor não pensou em solução de uma equação diferencial ou outro problema matemático quando escreveu sobre a tecnocracia. Certamente que também não se referia a problemas de mecânica, eletromagnetismo, termodinâmica, ótica ou outro de física. O mais provável é que tenha a ver com áreas de humanas como a administração e economia.

Não me parece que os matemáticos, físicos e químicos precisem se preocupar com isso.   

« Última modificação: 02 de Junho de 2016, 08:43:08 por JJ »

Offline JJ

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Re:Ciência eficiente por Suzana Herculano-Houzel
« Resposta #29 Online: 02 de Junho de 2016, 08:52:21 »
O modelo tecnocrata

Publicado em 21/08/2014 por arthurmaximus

Vez por outra, aparecem na mídia referências à ascensão de governos “tecnocratas”. Quem ouve o termo, tem a ligeira impressão de que se cuida de algo referente a governo, mas não tem bem idéia do que se trata. Afinal, o que é uma “tecnocracia”?

No seu sentido etimológico, tecnocracia remete a uma forma de governo dominada técnicos ou cientistas ( Téchne = técnica; Krátos = governo). A tecnocracia, portanto, é a manifestação política de uma corrente doutrinária já analisada aqui: o cientificismo. Segundo ela, a tendência natural da evolução humana seria abandonar a política tal como ela é, em privilégio de formas “técnicas” de governo, livres das “influências espúrias” do mundo político.

A origem do termo é bastante controversa. Alguns chegam a imputar sua invenção a Adam Smith, pai da moderna Economia. Outros atribuem sua existência a doutrinadores franceses, enquanto americanos reivindicam a originalidade do termo. Seja como for, a verdadeira tecnocracia só teve lugar a partir do século XX. É possível identificar suas raízes nos governos totalitários dos anos 30 e até mesmo em governos democráticos depois disso, como nos Estados Unidos. Robert McNamara, por exemplo, é um típico exemplo de tecnocrata dos anos 50/60.

Segundo a ordem tecnocrata, técnicos e cientistas dos mais diversos ramos do conhecimento passariam a ocupar, paulatinamente, espaços no organograma estatal. Com o tempo, a burocracia se elevaria naturalmente a posições de maior relevo, até conquistar por completo o poder político. Uma vez instalada nos altos círculos da República, a tecnocracia se encarregaria de conduzir a Nação ao desenvolvimento pleno, pois suas opções sempre seriam guiadas por critérios técnicos, imunes a pressões de qualquer ordem.

No Brasil, a tecnocracia começou a se insinuar no Período Vargas e se estendeu mais timidamente até o governo João Goulart. Como Jango foi apeado do poder, não teve tempo de implementar seu projeto de socialismo científico. Isso, contudo, não impediu os tecnocratas de reinarem no período seguinte.

Quando deram o golpe em 64, os militares tinham como pretexto afastar a “ameaça comunista” e combater a corrupção. Sabiam eles, no entanto, que só isso não seria suficiente para garantir-lhes o poder por muito tempo. Afinal, se o propósito era apenas impedir que o Brasil se tornasse uma Cuba 2.0 e cassar políticos corruptos, seis meses dariam conta do recado. Para se perpetuarem no poder, os militares tinham de encontrar outra fonte de legitimidade: a economia.

Foi aí que entraram os tecnocratas. Sem as limitações impostas pelo sistema democrático, intelectuais oriundos do mundo acadêmico encontraram a perfeita janela de oportunidade para implementar seus projetos técnicos. O exemplo mais bem acabado do típico tecnocrata da ditadura não é outro senão Delfim Netto.

Economista da USP, com bom trânsito nas entidades de classe industriais, Delfim foi catapultado do virtual anonimato a secretário da Fazenda de São Paulo em 1966. No ano seguinte, daria seu maior salto: seria o Ministro da Fazenda do governo Costa e Silva. No cargo, usaria das “virtudes” de um governo ditatorial para implementar uma série de medidas que resultariam no “Milagre Econômico” do final dos anos 60 e começo dos anos 70.

O que a tecnocracia oferece de mais vantajoso é justamente aquilo que representa seu maior risco: o abandono completo das opções políticas. Como o burocrata não atende a nenhum mestre senão à sua cabeça, dane-se o que pensa o resto do mundo. Ao contrário do político, que tem de dar satisfações ao seu eleitor a cada quatro anos, o tecnocrata fará o que entender certo, mesmo que isso conduza ao desastre, pois não depende do povo para ocupar o seu cargo.

Portanto, um governo verdadeiramente democrático não pode se cercar de tecnocratas. Toda vez que essa carta for jogada no baralho político, desconfie. No final das contas, o que se pretende é uma coisa só: alijar você das decisões do país.



https://blogdomaximus.com/2014/08/21/o-modelo-tecnocrata/

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Muito provavelmente o autor do texto criticado nos posts anteriores fazia referência a coisas desse tipo, que como eu já afirmei tem muito mais a ver com economia, administração, e semelhantes.


« Última modificação: 02 de Junho de 2016, 08:56:04 por JJ »

Offline JJ

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Re:Ciência eficiente por Suzana Herculano-Houzel
« Resposta #30 Online: 02 de Junho de 2016, 09:20:51 »


E já que o tema do tópico tem a ver com produção/produtivismo  segue um um artigo interessante que encontrei e que discute a questão:


Autoria em tempos de "produtivismo acadêmico"

 
No Brasil, a expressão "produtivismo acadêmico", segundo o Professor João Zanetic (2012), presidente da Associação dos docentes da USP (Adusp), está relacionada a uma matéria publicada pelo Jornal Folha de S. Paulo em 21/2/1988, intitulada "A lista dos improdutivos". Nessa matéria o jornal dedicou várias páginas à temática da produção acadêmica e publicou uma lista fornecida pela Reitoria da USP em que são apresentados os nomes daqueles professores que nada tinham produzido nos anos de 1985 e 1986, o que correspondia a 1/4 dos docentes daquela instituição. O critério adotado de produção para definir docentes improdutivos foi apenas quantitativo e incluía: publicações (revistas, jornais, livros, capítulos de livro, anais de congresso), comunicações em congressos científicos e audiovisuais. Na época a matéria foi alvo de protestos e debates e a questão da avaliação de docentes por critérios apenas quantitativos, prática já comum entre outros países, como os Estados Unidos, passou a ocupar mais espaço em nosso do país.


Atualmente, cada vez mais a quantidade de publicações, especificamente de artigos científicos, é utilizada como o principal critério para avaliar a produtividade de um pesquisador. Por outro lado, é atingindo e superando metas de produtividade que se tem acesso aos parcos recursos disponíveis para o financiamento de pesquisas, principalmente no campo das ciências humanas. A cobrança e a pressão para publicar fazem parte do cotidiano dos pesquisadores, e neste contexto, existem aqueles que usam de estratégias nada éticas para cumprir e superar metas. Entre estas estratégias está a autoria de artigos científicos em cuja elaboração, execução e redação não se teve uma participação efetiva. Segundo Garcia, Martrucelli, Rossilho e Denardin (2010), embora esta prática seja mais comum que o plágio, em geral não é punida, por ser considerada apenas "mau comportamento".

Monteiro, Jatene, Goldenberg, Población e Pellizzon (2004) destacam que, na área médica, a supervalorização da publicação de artigos científicos é acompanhada pelo aumento do número de autores por artigo. Isto pode refletir o aumento da especialização e da complexidade das pesquisas que envolvem múltiplos centros, porém não é suficiente e torna problemática a discussão sobre a autoria em ciência. Na Psicologia, pelo menos no que diz respeito às revistas brasileiras, desconheço a existência de artigos com mais de uma centena de autores, mas isto já acontece em outras áreas. Newman, citado por Garcia et al. (2010), relata que um artigo de Física foi assinado por 1.681 autores.

Diante de artigos com dezenas ou centenas de autores, o questionamento sobre autoria é inevitável. Como saber quem pode ser considerado autor de um artigo científico? Existem critérios objetivos para determinar quem pode ser considerado autor de um artigo científico? Diante de questionamentos como estes o International Committee of Medical Journal Editors (ICMJE) elaborou algumas recomendações, que foram traduzidas e apresentadas por Montenegro e Alves (1987), a saber:

Cada autor deve ter participado suficientemente do trabalho para poder assumir publicamente a responsabilidade pelo seu conteúdo. Sua participação deve incluir: a) concepção ou delineamento ou ainda análise e interpretação dos dados, ou ambos; b) redação do manuscrito ou sua revisão quando inclua crítica intelectual importante de seu conteúdo; c) aprovação final da versão a ser publicada. (...) Os editores podem requerer dos autores que justifiquem sua inclusão na autoria do trabalho (p.192).

Em 2011 a Comissão de Ética do CNPq elaborou um relatório sobre boas condutas na pesquisa científica que aborda, entre outras questões, a da autoria de artigos científicos. Entre suas recomendações estão: a discussão sobre quem serão os autores de um artigo deve ser feita antes de sua elaboração e seguir orientações já estabelecidas, como a do ICMJE, isto é, somente quem presta uma contribuição significativa à pesquisa deve ser incluído como autor, e todos os autores do trabalho são responsáveis pelo trabalho e devem ser capazes de descrever sua contribuição. Como a ideia do que seja uma "contribuição significativa" pode dar margens a diversas interpretações, a expressão é esclarecida no relatório:

Por contribuição significativa entende-se realização de experimentos, participação na elaboração do planejamento experimental, análise de resultados ou elaboração do corpo do manuscrito. Empréstimos de equipamentos, obtenção de financiamentos ou supervisão geral, por si só não justificam a inclusão de novos autores, que devem ser objetos de agradecimento (p. 4).

Por mais que orientações como estas do ICMJE e CNPq sejam difundidas e conhecidas pelos pesquisadores, elas não são isentas de possíveis diferentes interpretações. Por exemplo, um orientador de uma pesquisa de doutorado é um supervisor, e como tal, deve receber agradecimento quando da publicação da pesquisa, ou ele deve ser também considerado autor, uma vez que ele deve ter prestado uma contribuição significativa à pesquisa? Não defendo a ideia de que exista uma mesma resposta para todos os casos, mas tenho observado que, na área das ciências humanas, quando uma tese é publicada como livro, geralmente o orientador é mencionado e escreve o prefácio, mas não é apresentado como autor; já no caso de publicação de artigos científicos provenientes de tese, a situação é diferente e existe uma pressão no sentido de que o orientador seja apresentado como autor, e a essa pressão estão submetidos orientandos e orientadores, submetidos às exigências dos programas de pósgraduação e das agências financiadoras.

Considerando que orientações gerais sobre a autoria podem dar margens a diversas interpretações, Petroianu (2012) propõe um método numérico para identificar quem pode ser considerado autor de um artigo científico. Por seu método, diferentes atividades que compõem a elaboração, realização e redação da pesquisa científica são pontuadas e no final somente os pesquisadores que obtiveram uma determinada pontuação podem ser considerados autores. As atividades recebem diferentes valores de acordo com sua importância, por exemplo: "criar a ideia que originou o trabalho e elaborar hipóteses" recebe seis pontos, enquanto "trabalhar na rotina da função, sem contribuição intelectual", recebe um ponto. Somente pesquisadores que tenham obtido, no mínimo, sete pontos podem ser incluídos como autores. Petroianu sugere que a pontuação pode se utilizada para estabelecer a ordem dos autores no artigo, e aqueles com maior pontuação devem ser citados primeiro, inclusive para prevenir conflitos de interesse.

Assim, se podem existir dúvidas e polêmicas sobre quem deve ser autor de um trabalho científico, em algumas situações é muito claro que determinados pesquisadores não deveriam ser incluídos na coautoria. Petroianu (2012) cita o caso do "autor honorário" como a mais comum das situações de inclusão inapropriada de um autor. O "autor honorário" é aquele que, embora seja "alheio à pesquisa", foi nela incluído por uma das seguintes razões: para homenageá-lo por algum trabalho que tenha realizado; por sua notoriedade (a inclusão de seu nome pode facilitar a publicação do trabalho); para retribuir-lhe a gentileza de já ter incluído indevidamente algum dos autores em alguma de suas publicações e por sua baixa produção científica (Petroianu, 2012). Chamar de "autor honorário" alguém que não deveria ser incluído, por nem sequer ter participado da pesquisa, é um eufemismo exagerado (talvez proposital) do autor, pois se honorário significa "que tem honras, sem receber proventos ou desempenhar as funções de um cargo" (Ferreira, 1999, p.1060), neste caso não existiriam as honras, somente o não desempenho da função, e o "autor honorário" receberia indevidamente os proventos (com mais uma publicação acrescentada ao currículo).

Em sentido semelhante ao de "autor honorário", Montenegro e Alves (1987) empregam a palavra "cortesia" para referir-se à prática da inclusão de amigos e colegas como autores,  principalmente relacionada à política de troca de favores, e referem-se a esta prática como sendo imoral. Já Monteiro & cols., utilizam a expressão autoria "convidada" e, com base em outros estudos, acrescentam que este tipo de autoria pode ser encontrada "entre 17% e 33% dos artigos publicados" (p. IV).

Monteiro et al. (2004), em sua apresentação sobre padrões de autoria irregulares, incluem, além da autoria "convidada", a autoria "pressionada" e a autoria "fantasma". Se no primeiro caso poderíamos pensar em algum tipo de "reciprocidade", nos dois últimos o que vigora são, sobretudo, as relações de poder. Na autoria "pressionada" o responsável por um grupo impõe a inclusão de seu nome entre os autores. Este tipo de prática chega até mesmo a ser naturalizada e considerada "uma tradição departamental"; já na autoria "fantasma", pesquisadores que tiveram uma importante participação no estudo são excluídos da lista de autores, por diversos motivos. (Monteiro et al., 2004).

Quem tem seu nome indevidamente incluído como um autor assume a responsabilidade sobre o que está escrito, mas aparentemente os benefícios superariam os riscos e estes pesquisadores podem levar vantagem indevidamente na disputa pelos recursos disponíveis para pesquisa (Monteiro et al., 2004).

Recomendações e estratégias para tentar coibir práticas de autoria indevida não faltam, porém este tipo de prática está afinado com a lógica produtivista, que prioriza a quantidade em detrimento da qualidade, e com a ética do capitalismo, que, segundo Weber (1967/1904), é dúplice e permite o que não deveria ser permitido entre irmãos. Associar as práticas de autoria indevida com a lógica produtivista não significa que estas práticas não devam ser repreendidas, ao contrário, elas devem sê-lo, pois ferem a ética científica; no entanto, repreensões e orientações não resolvem um problema que é inerente à própria lógica produtivista.

Para um editor de um periódico científico é difícil identificar entre os autores de um artigo quais de fato podem ser considerados autores ou não. Diante desta dificuldade, algumas revistas apresentam uma definição de quem pode ser considerado autor de um artigo, e em suas normas limitam o número de autores de um artigo, ou mesmo solicitam que os autores especifiquem qual a sua participação individual no artigo. Se esta prática em algumas áreas do conhecimento já está consolidada e discussões sobre a autoria deram origem a diversos artigos, como os citados aqui (todos da área médica), na Psicologia brasileira esta discussão parece ser mais recente e também merece espaço. Por esta razão trouxe esta temática para este editorial e espero ter trazido contribuições para o debate na área.

 

Profª. Dra. Eliane Domingues
Editora de seção
edomingues@uem.br

 

REFERÊNCIAS

CNPq (2011) Relatório da comissão de integridade de pesquisa do CNPq. Recuperado em 20 maio, de 2013, de http://memoria.cnpq.br/normas/lei_po_085_11.htm.         [ Links ]

Garcia, C. C., Martrucelli C. R. N., Rossilho M. M. F, & Denardin, O. V. P. (2010). Autoria em artigos científicos: os novos desafios. Revista Brasileira de Cirurgia Cardiovascular, 25(4), 559-567. Recuperado em 20 maio, de 2013, de http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-76382010000400021&lng=en&tlng=pt.10.1590/S0102-76382010000400021.         [ Links ]

Ferreira, A. B. H. (1999) Aurélio século XXI: o dicionário da Língua Portuguesa (3ª ed. rev. e ampl.). Rio de Janeiro: Nova Fronteira.         [ Links ]

Monteiro R., Jatene F. B., Goldenberg S., Población D. A. & Pellizzon, R. de F. (2004). Critérios de autoria em trabalhos científicos: um assunto polêmico e delicado. Revista Brasileira de Cirurgia Cardiovascular, 19(4), III-VIII. Recuperado em 20 maio, de 2013, de http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-76382004000400002&lng=en&tlng=pt.10.1590/S0102-76382004000400002.         [ Links ]

Montenegro, M. R. & Alves V. A. F. (1987) Critérios de autoria e co-autoria em trabalhos científicos. Revista do Instituto de Medicina Tropical de São Paulo, 29(4), 191-193. Recuperado em 23 maio, de 2013, de http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0036-46651987000400001&lng=pt&tlng=pt.10.1590/S0036-46651987000400001.         [ Links ]

Petroianu, A. (2012). Distribuição da autoria em trabalhos científicos. ABCD. Arquivos Brasileiros de Cirurgia Digestiva (São Paulo), 25(1), 60-64. Recuperado em 20 maio, de 2013, de http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-67202012000100014&lng=en&tlng=pt.10.1590/S0102-67202012000100014.         [ Links ]

A lista dos improdutivos (1988, 21 de fevereiro). Folha de S. Paulo, São Paulo, p. A-28. Recuperado em 20 maio, de 2013, de http://acervo.folha.com.br/fsp/1988/02/21/2.         [ Links ]

Weber, M. (1967). A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo: Pioneira. (Original publicado em 1904)        [ Links ]
Zanetic, J. "Improdutivos". In Aduspnet. Debate "Produtivismo: a que veio? A quem serve?". Informativo nº 302.  Recuperado em 30 maio, de 2013, de http://www.adusp.org.br/index.php/180-defesa-da-universidade/condicoes-de-trabalho/produtivismo/953-choque-de-visoes-antagonicas-marca-debate-sobre-produtivismo-academico.         [ Links ]



http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-73722013000200001





Offline SnowRaptor

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Re:Ciência eficiente por Suzana Herculano-Houzel
« Resposta #31 Online: 02 de Junho de 2016, 11:26:16 »
Não me parece que os matemáticos, físicos e químicos precisem se preocupar com isso.   

Esse texto é parte de uma disciplina ministrada no curso de Bacharelado em Ciências e Tecnologia.
Elton Carvalho

Antes de me apresentar sua teoria científica revolucionária, clique AQUI

“Na fase inicial do processo [...] o cientista trabalha através da
imaginação, assim como o artista. Somente depois, quando testes
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Offline JJ

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Re:Ciência eficiente por Suzana Herculano-Houzel
« Resposta #32 Online: 02 de Junho de 2016, 11:35:37 »
Não me parece que os matemáticos, físicos e químicos precisem se preocupar com isso.   

Esse texto é parte de uma disciplina ministrada no curso de Bacharelado em Ciências e Tecnologia.


Já imaginava que fosse, e eu já baixei um arquivo PDF com o assunto.  Mas reitero que alterar a forma da solução de uma equação diferencial certamente não está sendo discutida nesta matéria.   


« Última modificação: 02 de Junho de 2016, 11:59:03 por JJ »

Offline JJ

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Re:Ciência eficiente por Suzana Herculano-Houzel
« Resposta #33 Online: 02 de Junho de 2016, 11:41:36 »


E novamente voltando ao assunto original do tópico segue um artigo interessante que achei sobre o tema relacionado que é o produtivismo acadêmico:


ARTIGOS DE OPINIÃO

A mercantilização da ciência e o lema “publicar ou perecer”: os interesses que encobrem e suas consequências.1


"Privatizaram sua vida, seu trabalho, sua hora de amar e seu direito de pensar.

É da empresa privada, o seu passo em frente,

seu pão e seu salário. E agora, não contentes, querem

privatizar o conhecimento, a sabedoria,

o pensamento, que só à humanidade pertence.

(Privatizando, Bertold Brecht, 2007)

No ano de 2012, como editora assistente do periódico científico Psicologia em Estudo, senti-me compelida a enfocar este tema em um editorial, por dois motivos. O primeiro, porque na época, a psicologia completava cinquenta anos como profissão no Brasil, com todas as dificuldades existentes para uma área profissional jovem, respaldada em uma ciência que, desde seu nascimento, esteve atravessada por inúmeras contradições devido ao seu objeto de estudo: o psiquismo humano. O segundo motivo, vinculava-se à minha experiência prática como editora e pesquisadora no contexto árido que vinha se tornando a produção científica, sob o jugo dos sistemas de avaliação quantitativos exigidos. A escrita daquele editorial e a sua retomada neste texto de modo mais ampliado, demonstra que se passaram quatro anos e a indignação que me moveu anteriormente não desapareceu, mas, ao contrário, tem aumentado a cada ano, por verificar que finalidades a ciência vem cumprindo e suas consequências nefastas, tanto para a produção científica em geral, como para os pesquisadores em particular.

No caso da psicologia, devido ao seu objeto – o psiquismo ou consciência humana –, talvez caiba a ela uma responsabilidade ainda maior de denunciar o impacto de uma forma de produção científica que vem assumindo contornos de produção em série, com objetivos mercantilistas, cujo fim último não é “aliviar a miséria humana”, como defendia Bertold Brecht (1977), mas alimentar bancos de dados, curvas estatísticas e currículos individuais, alienando aqueles que mais deveriam denunciar a alienação, porém enriquecendo uma grande fatia do mercado

Em meu trabalho por três anos como editora geral da revista Psicologia em Estudo, foi comum o recebimento de mensagens de autores angustiados em saber sobre a tramitação de seus artigos, pois sua aprovação ou não, punha em risco a conclusão de sua pós-graduação (mestrado ou doutorado). Professores pesquisadores de séria produção científica também escreviam, preocupados com isso devido às pressões impostas pelos programas de pós-graduação a que estavam vinculados, pois tinham que atestar uma boa quantidade de artigos produzidos em um determinado triênio, sob pena de serem deles sumariamente desvinculados, a despeito da solidez de suas pesquisas e da qualidade de suas aulas ou orientações – estas últimas, fundamentais para a formação de profissionais e pesquisadores compromissados eticamente com a ciência.

Por outro lado, pesquisas apontavam um crescente adoecimento físico dos docentes pesquisadores, como, por exemplo, a pesquisa de Santana (2011). Nela o autor evidencia, de modo contundente, a correlação entre o aumento de produção científica e o número médio anual de orientandos por pesquisador com maiores ocorrências médicas relacionadas a intervenções cardíacas. Ao realizar uma nova busca para a ampliação desta discussão, me deparei com o estudo bibliográfico de Zandoná, Cabral e Sulzbach (2014), realizado entre 2004 e 2013, com base no descritor “produtivismo”. Os autores procuraram investigar de que modo a intensificação do trabalho no âmbito da pós-graduação vinha prejudicando a saúde dos professores brasileiros e chegaram à conclusão de que as consequências têm sido o sofrimento, o desgaste, a fragilização mental dos docentes, a síndrome de Burnout e o assédio moral. Os estudos analisados destacaram a intensificação do uso de álcool, tabaco e outras drogas, o aumento do consumo de ansiolíticos, hipnóticos, antidepressivos e neurolépticos, a crescente incidência de depressão e ansiedade crônica em professores, dados que corroboram as pesquisas realizadas por Sguissardi e Silva Júnior (2009) e Bernardo (2014).

A pesquisa de Bianchetti e Valle (2014) coletou dados com 74 coordenadores de programas stricto sensu avaliados pela Capes e orientadores, e com 16 investigadores ligados a universidades da União Europeia, após a adesão das mesmas ao “Pacto de Bolonha”2, investigando o impacto do chamado “produtivismo acadêmico” na vida profissional e pessoal dos pesquisados. Como resultados, alguns aspectos analisados merecem destaque: o desconforto manifestado pelos entrevistados com relação à aceleração da produção acadêmica, que interfere na qualidade e tem induzido ao uso de “artimanhas” e “imposturas intelectuais” (“amontoar fragmentos”, “requentar versões do mesmo texto”, etc.); o descontentamento com relação às condições de trabalho que prejudicam a qualidade de vida, afetando o lazer e o descanso, pois as atividades se estendem para as noites e madrugadas, fins de semana, feriados e férias; a interferência das tecnologias digitais no espaço-tempo dos orientadores, cuja exigência é de estarem sempre “conectados”, para não deixar o “fluxo” parar, e; o enfrentamento a tais condições estressantes tem se caracterizado por saídas individuais ou “micorresistências”, que vão desde as ironias, piadas e metáforas para descrever o processo doloroso de perda de sentido do trabalho ou negações pontuais a aderir às exigências como estratégias de sobrevivência, não havendo uma organização coletiva para uma negação na íntegra desse “capitalismo acadêmico”.

Deste modo, além de essas exigências numéricas tornarem-se um problema de saúde física e psíquica, essa lógica produtivista vem desencadeando uma competição desenfreada e uma “corrupção da personalidade humana”, como atesta Vigotski (1930/2004), em que os valores se colocam de modo invertido na consciência dos pesquisadores, sob a pressão ideológica que Schlendlindwein (2009) denomina de “sistema de recompensa científica”.

Procurando verificar o nível de adesão ou indignação quanto ao paradigma “publicar ou perecer”, que, como exposto, vem adoecendo pesquisadores e comprometendo a qualidade das pesquisas, em uma busca rápida no Google, usando como descritores esse slogan, para minha surpresa, encontrei diversos artigos em blogs e periódicos científicos, das mais diversas áreas, apontando os severos riscos dessa imposição à ciência. Infelizmente, no curto espaço de um texto, não teria condições de expor todas as críticas encontradas, mas darei destaque a algumas delas que, por serem elaboradas por pesquisadores de áreas distintas, indicam que é não somente no âmbito das ciências humanas que se evidencia a crítica a essa política. Neste sentido, trago para reflexão as argumentações de Schlendlindwein (2009), Blattman (2007), Katchburian (2008) e dados de Righeti (2012).

Schlendlindwein (2009), em seu artigo, expõe que essa perspectiva “publicista” encampada pelos pesquisadores tem gerado um reducionismo dos fins da ciência. Ele indaga qual é a necessidade de se ter um “sistema de recompensa” como o imposto aos pesquisadores. Requisita a todos que avancemos para discutir e revelar a gênese e as implicações de tal sistema, baseado na pressão constante para publicar, discutindo quem o engendra e por que o mantém, para avaliar quem dele se beneficia – portanto, a quem interessa sua manutenção. Destaca que tal sistema gera um “círculo vicioso” no qual “quem publica mais recebe mais recursos para pesquisa, que, por sua vez, possibilita aumentar o número de publicações, num ciclo de reforço contínuo”. Como resultado, tem-se que “os volumes mais expressivos de recursos para a pesquisa tendem a se concentrar cada vez mais por região, por instituição, por pesquisador”.

O autor adverte quanto à formação de uma indústria científica pautada por um “fordismo científico”, com artigos sendo produzidos em massa tal como “numa linha de montagem: do estudante de iniciação científica ao pós-doc, todos juntando partes para o mesmo resultado final: o artigo científico” (Schlendlindwein, 2009). Ele observa que, com essa lógica, se tem mais repetição e menos criação, mais cientistas e menos ciência. Por isso, acrescento às ideias do autor a reflexão de que atualmente temos no âmbito científico a mesma alienação que se produz no operário das demais indústrias de produção em larga escala.

O mesmo autor também denuncia a medida de produtividade calcada no Fator de Impacto (FI), uma vez que este pode ser facilmente fabricado ou forjado, e tem como maior preocupação o fato de que o FI tornou-se instrumento de política científica ou de um “sistema de recompensa”, estabelecendo-se o que ele denomina de “fundamentalismo científico”, “em que os meios para se fazer ciência, antes de serem valorizados, são desrespeitados”. Outra falácia, para Schlendlindwein (2009), está na argumentação de que a pressão imposta para publicar é um modo de fazer o pesquisador “prestar contas à sociedade”, ironizando que a “sociedade” não lê artigos científicos. Concordo com o autor, pois para a sociedade, interessa o resultado das pesquisas, isto é, aquilo em que a ciência pode “aliviar as misérias humanas”. De fato, o que vemos é a reprodução das misérias humanas na mesma velocidade da produção de “artigos científicos”.

É preocupante pensar que para muitos pesquisadores, essa tendência é “natural” ou fruto do desenvolvimento da ciência. Na direção contrária a esse conformismo, Rego (2014, p. 345) aponta que é necessário ultrapassar o momento de crítica, denúncias, desabafos e enfrentamentos individualizados para começar outra fase: “A política científica hoje em curso no Brasil e em vários outros países, baseada num produtivismo galopante, indica-nos que o momento é crítico, que exige profunda reflexão e, principalmente, mudança de rotas. E isso tem que ser feito antes que seja tarde”. Como saída, Schlendlindwein (2009) defende o movimento inverso, que vá na contramão dessa ciência aligeirada, propondo um “slowpublishing”3, acrescido por ele de “pensar mais, publicar menos e publicar melhor”.

Nesta mesma linha, Blattman (2007), a partir da resenha do livro de Lindsay Waters4 intitulado Inimigos da esperança: publicar, perecer e o eclipse da erudição, denuncia a lógica capitalista que imprime sua marca na produção científica. A autora denomina de “perversão das universidades” o que se produz a partir das agências de fomento, cuja moeda de troca para obtenção de financiamento advém da quantidade de publicação/ano do docente. Isso cria um “sistema desvairado de produção de celebridades” (p. 18, citado por Blattman, 2007, p. 1-2), no qual se glorifica a quantidade de publicações ao invés do ensino, investigação e escrita sérios. Com isso, se tem um “academicismo vazio emergente, mas cheio de forma na promoção do status quo acadêmico (na luta da preservação da própria espécie)” (Blattman, 2007, p.2-3).

Pelo viés da ironia crítica, Katchburian (2008) traz reflexões a respeito da crescente produção de lixo acadêmico descartável, gerada por essa exigência maciça de publicação em série, pautada na ideologia de que o “valor” da pesquisa está dado pela quantidade de acessos ao artigo publicado ou de suas citações em outros artigos. Expõe o jogo que se estabelece de “troca de favores” nas publicações científicas, além da exclusão do que não é publicado em inglês como de “menor valor”. Ironiza a rede de relações que se estabelece e, por conseguinte, os expedientes para elevar o índice de citações, utilizando autocitação ou citando colegas, independentemente da relação com sua pesquisa.

Como exemplos de investigações e descobertas científicas que causaram alto impacto social e que seriam completamente desprezadas, se analisadas sob os critérios atuais, o referido autor cita as de Mendel, cuja pesquisa com ervilhas identificou as leis fundamentais da herança genética, mas só foi reconhecida como tal quarenta anos depois. De acordo com Katchburian (2008), Mendel levou oito anos para desenvolver a pesquisa e publicou apenas dois artigos. Na sequência, traz a pesquisa de Fleming (Prêmio Nobel, 1945), que descobriu a penicilina, cuja importância foi reconhecida apenas doze anos mais tarde. Em sua área, ele ainda menciona as pesquisas de Marshal e Warren a respeito do tratamento de úlceras, e a de Watson e Crick sobre a hélice do DNA, as quais apenas nove anos mais tarde, em 1962, obtiveram o Prêmio Nobel. Esses importantes trabalhos foram recebidos com indiferença pela comunidade científica na época, e só tiveram seu valor social reconhecido depois de vários anos.

Os grandes teóricos e pesquisadores, de diversas áreas, hoje considerados clássicos, também realizaram suas investigações durante anos, aprofundando e verificando suas descobertas. É o caso de Karl Marx (1818-1883), que trabalhou durante quarenta anos na elaboração de sua principal obra, intitulada O capital. A Crítica da razão pura, publicada em 1781 e considerada a obra fundamental de Kant, resultou de dez anos de pensamento e meditação. As ideias de Darwin foram publicadas no ano de 1859 no livro A origem das espécies, e a teoria da evolução nele formulada foi fruto de uma viagem de cinco anos por diversos países, coletando inúmeros exemplares de organismos. Com Einstein não foi diferente: em 1905 ele publicou a Teoria da Relatividade Especial, e somente dez anos depois publicou a Teoria Geral da Relatividade, versão mais ampla da teoria anterior, amplamente reconhecida na atualidade. Pela lógica produtivista, todos seriam considerados candidatos a perecer no anonimato.

Além disso, o crescente mercantilismo que subjaz a essa lógica do “sistema de recompensa”, como diz Schlendlindwein (2009), já é evidente, tanto que cientistas de todo o mundo começam a se rebelar contra essa situação. Em nota publicada no jornal Folha de S. Paulo (Righetti, 2012), destaca-se o boicote coletivo à Elsevier, a maior editora de periódicos científicos. Nessa nota, a jornalista Righeti destaca que a iniciativa veio de um dos matemáticos mais conceituados, Timothy Gowers, da Universidade de Cambridge, sugerindo o boicote em seu blog, em janeiro daquele ano.

Outro matemático, Tyler Nylon, doutor pela Universidade de Nova York, organizou um abaixo-assinado online contra a Elsevier5, com quase 5.000 assinaturas de cientistas “que se comprometem a parar de submeter seus trabalhos às cerca de 2.000 publicações científicas da Elsevier”. Conforme a reportagem, o motivo da revolta é o custo que a Elsevier, como boa parte das editoras científicas comerciais, cobra para publicar um artigo aceito (após a "revisão por pares"), além da cobrança pelo acesso ao conteúdo dos periódicos.

Deste modo, cria-se um mecanismo de exploração pelo qual os pesquisadores não somente pagam para publicar, mas também para ler as revistas científicas com seus artigos. Se considerarmos que o acesso e as citações dos artigos são mensurados como “qualidade” do pesquisador, tem-se aí facilmente o quadro de que tais medidas estão beneficiando economicamente grandes grupos editoriais, e não promovendo o desenvolvimento científico sério e comprometido com o “alívio da miséria humana”.

A matemática simples apresentada por Righeti (2012) demonstra que só o governo brasileiro gastou R$ 133 milhões em 2011 para que 326 instituições de pesquisa do país tivessem acesso a mais de 31 mil periódicos científicos comerciais, tomando como base os dados da Capes (Portal de Periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), do Ministério da Educação. Se somado a esse valor o que os demais países devem desembolsar, com certeza as cifras crescem assustadoramente, o que demonstra a importância desse movimento coletivo de pesquisadores, fundamental para frear o mercantilismo científico, tendo-se clareza de que há muito ainda a ser realizado.

Como exemplo de que esta luta é e será árdua, Righeti (2012) destaca que o incremento do movimento contra a Elsevier deve-se ao apoio que esta tem dado ao "Research Works Act", projeto de lei que tramita no Congresso dos Estados Unidos desde dezembro de 2011, o qual visa impedir que as instituições de pesquisa divulguem de modo gratuito trabalhos de seus cientistas. Isso demonstra como há interesses econômicos e políticos fortíssimos sustentando as diretrizes científicas atuais, a despeito do discurso de “prestar contas à sociedade”. A jornalista destaca que “o proponente original do projeto de lei é o deputado republicano Darrell Issa, que tem como copatrocinadora a democrata Carolyn Maloney”, e que a Elsevier contribuiu para a campanha de ambos com grandes somas em dólares.

A partir do exposto, parece-me mais do que claro que estamos avançando de modo brutal para uma ciência cada vez mais mercantilizada. Como já dizia Marx (1985), “a desvalorização do mundo humano cresce em razão direta da valorização do mundo das coisas” (p. 105). Mais do que nunca, é necessária a indignação e a resistência, seja pelos movimentos “slow science” e “slow publishing”, seja por mecanismos coletivos de boicote a esse processo, sob pena de cairmos num obscurantismo científico sem precedentes.

Se a ciência hoje se conforma a uma produção em série, a um “fordismo científico”, nada mais atual do que atentarmos para a alienação a que, neste contexto, estamos submetidos nós, pesquisadores. Esse processo alienador me parece bem descrito pela expressão utilizada por Gajanigo (2013, p.6), com a qual muitos devem se identificar: “Num mar de projetos, relatórios, prazos todos definidos por esferas distantes de nossa vida cotidiana acadêmica, temos a sensação de que nossa formação só é possível quando conseguimos ‘driblar’ a avaliação. Aquele sentimento de terminar um relatório e pensar que agora está com tempo livre para estudar, aprender: essa parece ser a condição produtivista”. Marx (1985) destaca que, mesmo quando atuamos cientificamente, estamos sendo também sociais, porque atuamos enquanto homens, como parte do gênero humano. “Não só o material da minha atividade (como o idioma, à mercê do que opera o pensador) me é dado como produto social, senão que minha própria existência é atividade social, porque o que eu trago, o trago para a sociedade e com a consciência de ser um ente social” (p.146). Quando nos alienamos disso, também nos alienamos da humanidade que há em nós.

Essa luta por uma ciência que “alivie as misérias humanas” é a mesma que se coloca na contramão do processo de alienação da e na ciência, que vem se reproduzindo em benefício do capital. Desse modo, o lema deve ser: “Publicar menos e com qualidade”, um manifesto pela ciência e pela produção e reprodução ética do trabalho científico.

Silvana Tuleski é professora do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Estadual de Maringá.


Referências bibliográficas:

Bernardo, M. H. (2014). “Produtivismo e precariedade subjetiva na universidade pública: o desgaste mental dos docentes”. Psicologia & Sociedade, 26 (n. spe.), 129-139.

Bianchetti, L.; Valle, I. R. (2014). Produtivismo acadêmico e decorrências às condições de vida/trabalho de pesquisadores brasileiros e europeus. Ensaio: aval. pol. públ. Educ., Rio de Janeiro, v.22, n. 82, p. 89-110, jan./mar.

Blattmann, U. (2007). “Publicar ou perecer - quando menos é mais: resenha”. Revista ACB: Biblioteconomia em Santa Catarina, 12 (2), 352-354.

Brecht, B. (1977). Vida de Galileu. São Paulo: Abril Cultural.

Brecht, B. (2007). “Privatizando”. In A. Citelli. “Bertold Brecht: comunicação, poesia e revolução”. Comunicação & Educação. online. 12(2), 109-112. Recuperado em 24 de abril de 2011, de http://www.revistasusp.sibi.usp.br.

Gajanigo, P. (2013). “Ensino e democracia numa universidade sob a lógica produtivista: relato pessoal”. In: Revista Intratextos, vol 4, no1, p. 1-7. DOI: 10.12957/intratextos.2013.8520.

Katchburian, E. (2008). “Publish or perish: a provocation”. São Paulo Medical Journal.online, 126 (3), 200-203. Recuperado em 22 de abril de 2010, de http://dx.doi.org/10.1590/S1516-31802008000300013.

Marx, K. (1985). Manuscritos economia y filosofia (11a ed). Madri: Editorial Alianza.

Rego, T. C. (2014). “Produtivismo, pesquisa e comunicação científica: entre o veneno e o remédio”. Educação e Pesquisa, São Paulo, v.40, n.2, p.325-346, abr./jun.

Righetti, S. (2012). “Cientistas boicotam a maior editora de periódicos do mundo”. Recuperado em 24 de maio de 2012, de http://www1.folha.uol.com.br/ciencia/1046769.

Santana, O. A. (2011). “Docentes de pós-graduação: grupo de risco de doenças cardiovasculares”. Acta Scientiarum. Education, 33 (2), 219-226.

Schlendlindwein, S. L. (2009). “Viver e publicar”. Boletim Informativo da SBCS. p. 10-11.

Sguissardi, V.; Silva Júnior, J.R. (2009). Trabalho intensificado nas federais: pós-graduação e produtivismo acadêmico. São Paulo: Xamã.

Vygotsky, L. S. (2004). A transformação socialista do homem. (Marxists Internet Archive, english version, Nilson Dória, trad.). URSS: Varnitso, 1930. Recuperado em 12 de março, 2011, de http://www.marxists.org/.

Zandoná, C.; Cabral, F. B.; Sulzbach, C. C. (2014). Produtivismo acadêmico, prazer e sofrimento: um estudo bibliográfico. Perspectiva, Erechim. v. 38, n.144, p. 121-130, dezembro.

___________________________________________________________ _____

1 Este texto foi originalmente publicado como editorial na revista Psicologia em Estudo, em 2012 quando a autora era editora assistente do referido periódico. O texto atual é uma reprodução ampliada daquele, com autorização da revista Psicologia em Estudo. Tuleski, Silvana C. “A necessária crítica a uma ciência mercantilizada: a quem servem o publicismo, o citacionismo e o lema ‘publicar ou perecer’?” Psicologia em Estudo, Maringá, v. 17, n. 1, p. 1-4, jan./mar. 2012.

2 De acordo com Bianchetti e Valle (2014), o “Pacto de Bolonha”, subscrito em 1999 pelos ministros da Educação de 29 países europeus e atualmente adotado por 42 países, teve como objetivo aumentar a competitividade internacional do ensino superior europeu, adaptando-o às exigências de um mercado globalizado, o que levou a profundas transformações na formação com ênfase no produtivismo.

3 Até esta data, o manifesto “slow science” já possui 4000 assinaturas de pesquisadores de vários países: contact@slowscience.fr, http://www.univendebat.eu e http://www.appeldesappels.org.

4 Editor da Harvard University Press.

5 http://thecostofknowledge.com/.


Nota do Managing Editor - Este texto foi primeiramente veiculado no número 178 da revista mensal eletrônica de jornalismo científico ComCiência (www.comciencia.br), publicada pelo Labjor e pela SBPC. O tema desta edição é "Rumos da ciência".



http://www.lqes.iqm.unicamp.br/canal_cientifico/pontos_vista/pontos_vista_artigos_opiniao133-1.html


« Última modificação: 02 de Junho de 2016, 11:47:35 por JJ »

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Re:Ciência eficiente por Suzana Herculano-Houzel
« Resposta #34 Online: 02 de Junho de 2016, 19:27:08 »
Ainda é tudo muito amarrado, não se premia adequadamente a produtividade (falar disso é anátema em certos círculos de professores)

Isso é algo mais complicado do que pode parecer. As assunções psicológico-econômicas comuns são de que "as pessoas respondem a incentivos", então você premia produtividade, e as pessoas produzem mais. Mas uma série de achados recentes tem mostrado que isso é mais válido para trabalhos braçais/manuais/repetitivos, e não intelectuais. E para qualquer tipo de atividade, ao "premiar" a atividade você pode acabar sabotando/envenenando uma motivação inerente à atividade.

Parece que nos EUA, alguns projetos de premiação de produtividade escolar acabaram motivando quase "fraudes" na educação. Não exatamente, mas algo análogo à crítica de cursinhos de "adestramento" a vestibular* treinarem a passar no vestibular de forma que não se retém tanto como uma capacitação do aluno para além. Os cursos sendo voltados para maximizar a pontuação da escola nas avaliações do governo.

Não lembro de ter lido algo bem claro para uma "receita de sucesso". Acho que seria nas linhas de salários que dão tranqüilidade, segurança financeira, e "só". Sem incentivos financeiros a uma melhora na produtividade. Isso viria naturalmente das pessoas mais intrinsicamente engajadas na atividade, que talvez seja um importante filtro que se devesse buscar ter -- se não for algo já "automático" em 99% do tempo, em profissões não famosas por altas remunerações e boas condições de trabalho.



* o que talvez, no caso de cursinhos, seja uma limitação inerente ao que podem fazer no tempo necessário, combinado ao vestibular como objetivo, e não tanto apenas por um "design" perfeito para o objetivo, apenas.

Na verdade, os fatos discordam de você. Houve ao longo das últimas décadas um grande aumento no número de publicações científicas por autores brasileiros. Isso está intimamente relacionado à existência de bolsas de produtividade fornecidas pelo CNPq. Não é muito dinheiro: para um pesquisador nível 2 ela corresponde a R$ 1100 por mês. Um dos requisitos para a manutenção dessa bolsa é o pesquisador manter uma média de 2 artigos por ano durante um período de 3 anos (prazo para renovação da bolsa). Por outro lado, isso gera também suas próprias distorções - o número de publicações de brasileiros aumentou, mas a qualidade dos artigos (medida pelo número de citações) ainda deixa a desejar.



A qualidade de um artigo científico não me parece algo que possa ser fielmente medido por número de citações. Mesmo porque parece que pode haver coisas como "clubes de citadores recíprocos". 



Offline JJ

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Re:Ciência eficiente por Suzana Herculano-Houzel
« Resposta #35 Online: 02 de Junho de 2016, 20:12:01 »
Ainda é tudo muito amarrado, não se premia adequadamente a produtividade (falar disso é anátema em certos círculos de professores)

Isso é algo mais complicado do que pode parecer. As assunções psicológico-econômicas comuns são de que "as pessoas respondem a incentivos", então você premia produtividade, e as pessoas produzem mais. Mas uma série de achados recentes tem mostrado que isso é mais válido para trabalhos braçais/manuais/repetitivos, e não intelectuais. E para qualquer tipo de atividade, ao "premiar" a atividade você pode acabar sabotando/envenenando uma motivação inerente à atividade.


Particularmente eu também não acredito que  incentivos  em dinheiro ou honrarias possam ter peso significativo para que surjam trabalhos científicos de destaque,  de longe o que considero mais importante de tudo para que isso aconteça é o entusiasmo que o cientista tenha pelo seu objeto de estudo, quanto maior o entusiasmo, maior a possibilidade de que surja alguma pesquisa de maior qualidade*. E isso é algo interno, é algo inerente a psique da pessoa, não adianta querer forçar isso mediante estratégias de recompensas e castigos, ou coisas semelhantes.


*É claro que os recursos e meios para fazer as pesquisas são fundamentais, pois ter muito entusiasmo e não ter recursos e meios não é condição necessária e suficiente.


« Última modificação: 02 de Junho de 2016, 20:14:58 por JJ »

Offline Geotecton

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Re:Ciência eficiente por Suzana Herculano-Houzel
« Resposta #36 Online: 02 de Junho de 2016, 20:19:19 »
Citar
Autoria em tempos de "produtivismo acadêmico"
[...]

Ao que parece a acadêmica é uma esquerdista anti-capitalismo. Mais uma aliás e, para variar, do setor de humanas, o que já era esperado, com citações de Vygotsky e Marx. É patético quando ela alega falhas no atual modelo, citando por exemplo, o caso em que pesquisadores fazem 'citações cruzadas' para aumentar o Fator de Impacto. Até parece que tal procedimento não é uma falha de caráter das pessoas envolvidas.

Mas o mais interessante é a notória falta de autocrítica. Em momento algum ela se questiona se o que está sendo produzido por ela, por seus pares ou pelas universidades em geral tem algum proveito para aqueles que bancam este tipo de pessoa: a população e as empresas.
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Offline Euler1707

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Re:Ciência eficiente por Suzana Herculano-Houzel
« Resposta #37 Online: 02 de Junho de 2016, 20:21:14 »
Ainda é tudo muito amarrado, não se premia adequadamente a produtividade (falar disso é anátema em certos círculos de professores)

Isso é algo mais complicado do que pode parecer. As assunções psicológico-econômicas comuns são de que "as pessoas respondem a incentivos", então você premia produtividade, e as pessoas produzem mais. Mas uma série de achados recentes tem mostrado que isso é mais válido para trabalhos braçais/manuais/repetitivos, e não intelectuais. E para qualquer tipo de atividade, ao "premiar" a atividade você pode acabar sabotando/envenenando uma motivação inerente à atividade.

Parece que nos EUA, alguns projetos de premiação de produtividade escolar acabaram motivando quase "fraudes" na educação. Não exatamente, mas algo análogo à crítica de cursinhos de "adestramento" a vestibular* treinarem a passar no vestibular de forma que não se retém tanto como uma capacitação do aluno para além. Os cursos sendo voltados para maximizar a pontuação da escola nas avaliações do governo.

Não lembro de ter lido algo bem claro para uma "receita de sucesso". Acho que seria nas linhas de salários que dão tranqüilidade, segurança financeira, e "só". Sem incentivos financeiros a uma melhora na produtividade. Isso viria naturalmente das pessoas mais intrinsicamente engajadas na atividade, que talvez seja um importante filtro que se devesse buscar ter -- se não for algo já "automático" em 99% do tempo, em profissões não famosas por altas remunerações e boas condições de trabalho.



* o que talvez, no caso de cursinhos, seja uma limitação inerente ao que podem fazer no tempo necessário, combinado ao vestibular como objetivo, e não tanto apenas por um "design" perfeito para o objetivo, apenas.

Na verdade, os fatos discordam de você. Houve ao longo das últimas décadas um grande aumento no número de publicações científicas por autores brasileiros. Isso está intimamente relacionado à existência de bolsas de produtividade fornecidas pelo CNPq. Não é muito dinheiro: para um pesquisador nível 2 ela corresponde a R$ 1100 por mês. Um dos requisitos para a manutenção dessa bolsa é o pesquisador manter uma média de 2 artigos por ano durante um período de 3 anos (prazo para renovação da bolsa). Por outro lado, isso gera também suas próprias distorções - o número de publicações de brasileiros aumentou, mas a qualidade dos artigos (medida pelo número de citações) ainda deixa a desejar.



A qualidade de um artigo científico não me parece algo que possa ser fielmente medido por número de citações. Mesmo porque parece que pode haver coisas como "clubes de citadores recíprocos".
A "qualidade" (não se fala explicitamente sobre o artigo em si, mas do que ele trata e como as coisas foram feitas) se mede através de fatores de impacto. Embora isso o que você falou esteja certo, é fato que revistas com os melhores fatores de impacto são aquelas que possuem sua reputação baseada em dois fatores: possuem um ótimo sistema de revisão por pares e são aquelas onde os melhores cientistas publicam, e o motivo de publicarem nelas é que elas tem maior visibilidade. Essa crítica estúpida do texto que você publicou à dois tópicos atrás se esvaiu se considerarmos que essas revistas precisam pagar os cientistas e seus equipamentos na hora dos experimentos da parte da revisão por pares, sem falar na impressão dos jornais, no pagamento dos editores e corretores, etc... Não há almoço grátis, por mais que nossos "intelectuais" acadêmicos pensem que há, basta o estado imprimir mais dinheiro.
Aliás, parte do problema estrutural e financeiro das universidades brasileiras são causadas por essa militância irracional esquedísta. Sempre que se tenta fazer uma parceira público-privada entre empresas e universidades, há uma  uma trupe de idiotas que saem dos departamentos de humanas, picham as paredes da universidade, coagem outros aluno, fazem um estardalhaço e impedem o acordo. Ironicamente, os menos afetados por esse acordo são os departamentos de humanas, e os mais beneficiados seriam os departamentos de engenharia, e isso lembra muito o que está acontecendo com o Brasil.

Offline JJ

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Re:Ciência eficiente por Suzana Herculano-Houzel
« Resposta #38 Online: 02 de Junho de 2016, 20:27:30 »

Ao que parece a acadêmica é uma esquerdista anti-capitalismo. Mais uma aliás e, para variar, do setor de humanas, o que já era esperado, com citações de Vygotsky e Marx. É patético quando ela alega falhas no atual modelo, citando por exemplo, o caso em que pesquisadores fazem 'citações cruzadas' para aumentar o Fator de Impacto. Até parece que tal procedimento não é uma falha de caráter das pessoas envolvidas.

Mas o mais interessante é a notória falta de autocrítica. Em momento algum ela se questiona se o que está sendo produzido por ela, por seus pares ou pelas universidades em geral tem algum proveito para aqueles que bancam este tipo de pessoa: a população e as empresas.



A ideia de proveito pode ser  bastante subjetiva, por exemplo, poderíamos perguntar qual proveito a maioria da população e a maioria das empresas tem com a pesquisa em astronomia ? E aí ?   



« Última modificação: 02 de Junho de 2016, 20:30:49 por JJ »

Offline JJ

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Re:Ciência eficiente por Suzana Herculano-Houzel
« Resposta #39 Online: 02 de Junho de 2016, 20:44:08 »
A qualidade de um artigo científico não me parece algo que possa ser fielmente medido por número de citações. Mesmo porque parece que pode haver coisas como "clubes de citadores recíprocos".
A "qualidade" (não se fala explicitamente sobre o artigo em si, mas do que ele trata e como as coisas foram feitas) se mede através de fatores de impacto. Embora isso o que você falou esteja certo, é fato que revistas com os melhores fatores de impacto são aquelas que possuem sua reputação baseada em dois fatores: possuem um ótimo sistema de revisão por pares e são aquelas onde os melhores cientistas publicam, e o motivo de publicarem nelas é que elas tem maior visibilidade.


Mas, a questão que me parece ser realmente a mais importante é: qual o  objetivo final da atividade científica ? Por acaso é publicar o maior número possível de artigos em revistas famosas ?  Este é o grande objetivo da atividade científica ? 



Offline Euler1707

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Re:Ciência eficiente por Suzana Herculano-Houzel
« Resposta #40 Online: 02 de Junho de 2016, 21:06:24 »
A qualidade de um artigo científico não me parece algo que possa ser fielmente medido por número de citações. Mesmo porque parece que pode haver coisas como "clubes de citadores recíprocos".
A "qualidade" (não se fala explicitamente sobre o artigo em si, mas do que ele trata e como as coisas foram feitas) se mede através de fatores de impacto. Embora isso o que você falou esteja certo, é fato que revistas com os melhores fatores de impacto são aquelas que possuem sua reputação baseada em dois fatores: possuem um ótimo sistema de revisão por pares e são aquelas onde os melhores cientistas publicam, e o motivo de publicarem nelas é que elas tem maior visibilidade.


Mas, a questão que me parece ser realmente a mais importante é: qual o  objetivo final da atividade científica ? Por acaso é publicar o maior número possível de artigos em revistas famosas ?  Este é o grande objetivo da atividade científica ?
A atividade científica é um fim em si mesmo. Os cientistas fazem ciência porque gostam de fazer ciência, mas além disso, procuram algo que todo ser-humano quer: reconhecimento. Querem ficar na história por seu trabalho, e pra isso precisam publicar seus trabalhos em revistas de alta circulação. Querem ser os novos Newton's, os novos Eistein's, e isso é comum à todos, sem exceção. Creio que você também já fantasiou com algo do tipo, assim como eu também já fantasiei.
Não se mede a importância da obra de um cientista por meio do número de artigos publicados, se mede pelo impacto que sua obra causou na comunidade cientifica. As revistas cientificas são somente um meio de se espalhar informação e obter reconhecimento, e só.
« Última modificação: 02 de Junho de 2016, 21:08:34 por Euler1707 »

Offline JJ

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Re:Ciência eficiente por Suzana Herculano-Houzel
« Resposta #41 Online: 02 de Junho de 2016, 21:15:29 »
A qualidade de um artigo científico não me parece algo que possa ser fielmente medido por número de citações. Mesmo porque parece que pode haver coisas como "clubes de citadores recíprocos".
A "qualidade" (não se fala explicitamente sobre o artigo em si, mas do que ele trata e como as coisas foram feitas) se mede através de fatores de impacto. Embora isso o que você falou esteja certo, é fato que revistas com os melhores fatores de impacto são aquelas que possuem sua reputação baseada em dois fatores: possuem um ótimo sistema de revisão por pares e são aquelas onde os melhores cientistas publicam, e o motivo de publicarem nelas é que elas tem maior visibilidade.


Mas, a questão que me parece ser realmente a mais importante é: qual o  objetivo final da atividade científica ? Por acaso é publicar o maior número possível de artigos em revistas famosas ?  Este é o grande objetivo da atividade científica ?
A atividade científica é um fim em si mesmo. Os cientistas fazem ciência porque gostam de fazer ciência, mas além disso, procuram algo que todo ser-humano quer: reconhecimento. Querem ficar na história por seu trabalho, e pra isso precisam publicar seus trabalhos em revistas de alta circulação. Querem ser os novos Newton's, os novos Eistein's, e isso é comum à todos, sem exceção. Creio que você também já fantasiou com algo do tipo, assim como eu também já fantasiei.
Não se mede a importância da obra de um cientista por meio do número de artigos publicados, se mede pelo impacto que sua obra causou na comunidade cientifica. As revistas cientificas são somente um meio de se espalhar informação e obter reconhecimento, e só.



Mas, algumas ou muitas pessoas acham que deveria ter algum proveito para aqueles que bancam este tipo de pessoa: a população e as empresas. 




Offline Lakatos

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Re:Ciência eficiente por Suzana Herculano-Houzel
« Resposta #42 Online: 02 de Junho de 2016, 21:19:01 »
Cruzem o dedo para ideologias primitivistas não "pegarem" pelas faculdades.

"O avanço tecnológico apenas trouxe mais desemprego, violência, mais doenças, blablablá agricultura familiar, blablablá globalização ...".

Tarde demais. Esse é o discurso de uma disciplina chamada "Ciência, Tecnologia e Sociedade", ministrada para alunos do Bacharelado de Ciências e Tecnologia, um ciclo básico para várias engenharias.

Fiz esse curso e essa disciplina na UFABC e não rolou esse discurso na minha turma não. Inclusive achei uma matéria bem enriquecedora de forma geral.
« Última modificação: 02 de Junho de 2016, 21:21:43 por Lakatos »

Offline Euler1707

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Re:Ciência eficiente por Suzana Herculano-Houzel
« Resposta #43 Online: 02 de Junho de 2016, 21:38:10 »
A qualidade de um artigo científico não me parece algo que possa ser fielmente medido por número de citações. Mesmo porque parece que pode haver coisas como "clubes de citadores recíprocos".
A "qualidade" (não se fala explicitamente sobre o artigo em si, mas do que ele trata e como as coisas foram feitas) se mede através de fatores de impacto. Embora isso o que você falou esteja certo, é fato que revistas com os melhores fatores de impacto são aquelas que possuem sua reputação baseada em dois fatores: possuem um ótimo sistema de revisão por pares e são aquelas onde os melhores cientistas publicam, e o motivo de publicarem nelas é que elas tem maior visibilidade.


Mas, a questão que me parece ser realmente a mais importante é: qual o  objetivo final da atividade científica ? Por acaso é publicar o maior número possível de artigos em revistas famosas ?  Este é o grande objetivo da atividade científica ?
A atividade científica é um fim em si mesmo. Os cientistas fazem ciência porque gostam de fazer ciência, mas além disso, procuram algo que todo ser-humano quer: reconhecimento. Querem ficar na história por seu trabalho, e pra isso precisam publicar seus trabalhos em revistas de alta circulação. Querem ser os novos Newton's, os novos Eistein's, e isso é comum à todos, sem exceção. Creio que você também já fantasiou com algo do tipo, assim como eu também já fantasiei.
Não se mede a importância da obra de um cientista por meio do número de artigos publicados, se mede pelo impacto que sua obra causou na comunidade cientifica. As revistas cientificas são somente um meio de se espalhar informação e obter reconhecimento, e só.



Mas, algumas ou muitas pessoas acham que deveria ter algum proveito para aqueles que bancam este tipo de pessoa: a população e as empresas.
Mas não há? Você está falando de proveito direto por parte da população? Se for este o caso, então não há praticamente nada que tenha sido desenvolvido para o "bem estar" da sociedade, com exceção das pesquisas médicas e farmacológicas, mas veja bem, até essas pesquisas requerem um alto custo e os produtos resultantes delas nunca saem de graça. A maior parte da tecnologia que temos hoje em nossas casas são resultados de empresas ou pessoas que viram um potencial mercadológico em coisas que a principio, não deveriam ser usada por pessoas comuns. A sua internet e seu computador são exemplos disso. O papel da livre-iniciativa é achar meios de baratear o custo dessas tecnologias, e então criar uma demanda para esses produtos. Acho que esse é o melhor meio de democratizarmos os resultados da ciência, e não vejo jeito no socialismo puro um meio mais eficiente do que este.
« Última modificação: 02 de Junho de 2016, 21:41:28 por Euler1707 »

Offline Geotecton

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Re:Ciência eficiente por Suzana Herculano-Houzel
« Resposta #44 Online: 02 de Junho de 2016, 23:10:18 »
Ao que parece a acadêmica é uma esquerdista anti-capitalismo. Mais uma aliás e, para variar, do setor de humanas, o que já era esperado, com citações de Vygotsky e Marx. É patético quando ela alega falhas no atual modelo, citando por exemplo, o caso em que pesquisadores fazem 'citações cruzadas' para aumentar o Fator de Impacto. Até parece que tal procedimento não é uma falha de caráter das pessoas envolvidas.

Mas o mais interessante é a notória falta de autocrítica. Em momento algum ela se questiona se o que está sendo produzido por ela, por seus pares ou pelas universidades em geral tem algum proveito para aqueles que bancam este tipo de pessoa: a população e as empresas.
A ideia de proveito pode ser  bastante subjetiva, por exemplo, poderíamos perguntar qual proveito a maioria da população e a maioria das empresas tem com a pesquisa em astronomia ? E aí ?   

Mesmo que não existisse nenhum retorno prático para a população na pesquisa astronômica, não afetaria o meu argumento central, que é o de mostrar a falta de autocrítica da acadêmica, que prima por utilizar uma forma de pensamento anacrônica para analisar o atual modelo de produção científica.
Foto USGS

 

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