Autor Tópico: Manual do cético moderno - Em que todo cético deve acreditar?  (Lida 3284 vezes)

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Offline Skeptikós

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Re:Manual do cético moderno - Em que todo cético deve acreditar?
« Resposta #75 Online: 10 de Junho de 2016, 21:22:10 »
Quanto ao tópico, antes de se perguntar em que todo cético deve acreditar, é importante saber o que é ceticismo. Marcus Valério XR tem uma definição boa sobre o conceito: "(...) CETICISMO, que longe se ser uma simples incredulidade como o senso-comum gosta de pensar, trata-se na verdade de uma postura de 'suspensão de julgamento', só admitindo como válido algo que esteja apoiado em Evidência clara e confiável (...)": http://www.xr.pro.br/CIENCIA.html
Sexto Empírico apresenta uma definição diferente (na qual eu me baseio quando falo em ceticismo), que diferencia a posição do cético de outras duas possíveis:

Citação de: Sexto Empírico
O resultado natural de qualquer investigação é que aquele que investiga ou bem encontra aquilo que busca, ou bem nega que seja encontrável e confessa ser isto inapreensível, ou ainda, persiste em sua busca. O mesmo ocorre com as investigações filosóficas, e é provavelmente por isso que alguns afirmaram ter descoberto a verdade, outros que a verdade não pode ser apreendida, enquanto outros continuam buscando. Aqueles que afirmam ter descoberto a verdade são os "dogmáticos", assim são chamados especialmente Aristóteles, por exemplo, Epicuro, os estoicos e alguns outros. Clitômaco, Carnéades e outros acadêmicos consideram a verdade inapreensível, e os céticos continuam buscando. Portanto, parece razoável manter que há três tipos de filosofia: a dogmática, a acadêmica e a cética."

- Sexto Empírico, Hipotiposes Pirrônicas, Livro I, Tradução de Danilo Marcondes, Revista O que nos faz pensar, Página 117, nº 12, 1997.
É muito simples de entender, se você admite algo como verdadeiro, você simplesmente deixa de ser cético e torna-se dogmático, não importando qual tenha sido a sua justificativa para isso.
"Che non men che saper dubbiar m'aggrada."
"E, não menos que saber, duvidar me agrada."

Dante, Inferno, XI, 93; cit. p/ Montaigne, Os ensaios, Uma seleção, I, XXV, p. 93; org. de M. A. Screech, trad. de Rosa Freire D'aguiar

Offline -Huxley-

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Re:Manual do cético moderno - Em que todo cético deve acreditar?
« Resposta #76 Online: 10 de Junho de 2016, 21:46:01 »
Quanto ao tópico, antes de se perguntar em que todo cético deve acreditar, é importante saber o que é ceticismo. Marcus Valério XR tem uma definição boa sobre o conceito: "(...) CETICISMO, que longe se ser uma simples incredulidade como o senso-comum gosta de pensar, trata-se na verdade de uma postura de 'suspensão de julgamento', só admitindo como válido algo que esteja apoiado em Evidência clara e confiável (...)": http://www.xr.pro.br/CIENCIA.html
Sexto Empírico apresenta uma definição diferente (na qual eu me baseio quando falo em ceticismo), que diferencia a posição do cético de outras duas possíveis:

Citação de: Sexto Empírico
O resultado natural de qualquer investigação é que aquele que investiga ou bem encontra aquilo que busca, ou bem nega que seja encontrável e confessa ser isto inapreensível, ou ainda, persiste em sua busca. O mesmo ocorre com as investigações filosóficas, e é provavelmente por isso que alguns afirmaram ter descoberto a verdade, outros que a verdade não pode ser apreendida, enquanto outros continuam buscando. Aqueles que afirmam ter descoberto a verdade são os "dogmáticos", assim são chamados especialmente Aristóteles, por exemplo, Epicuro, os estoicos e alguns outros. Clitômaco, Carnéades e outros acadêmicos consideram a verdade inapreensível, e os céticos continuam buscando. Portanto, parece razoável manter que há três tipos de filosofia: a dogmática, a acadêmica e a cética."

- Sexto Empírico, Hipotiposes Pirrônicas, Livro I, Tradução de Danilo Marcondes, Revista O que nos faz pensar, Página 117, nº 12, 1997.
É muito simples de entender, se você admite algo como verdadeiro, você simplesmente deixa de ser cético e torna-se dogmático, não importando qual tenha sido a sua justificativa para isso.

Não vejo impasse. Quando os filósofos realistas contemporâneos falam em “verdades”, eles usualmente usam a “Teoria da Correspondência da Verdade” juntamente com a noção de verdade do senso comum. Ora, é claro que a noção de verdade do senso comum possui algum tipo de aplicabilidade, pois de outra forma não teríamos tal noção na linguagem e não seríamos capazes de fazer a distinção de verdades e mentiras. Aceitar isso é diferente de dizer que acredita em algo que é rigorosamente verdade, tipo uma verdade definitiva, inquestionável.
« Última modificação: 10 de Junho de 2016, 21:54:30 por -Huxley- »

Offline Pedro Reis

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Re:Manual do cético moderno - Em que todo cético deve acreditar?
« Resposta #77 Online: 11 de Junho de 2016, 02:01:06 »
Como o cético moderno avaliaria estas aparentes evidências de uma capacidade transcendente do cérebro humano de apreender informações do inconsciente coletivo?

Wishful thinking, auto-ilusão, fraude, ou outras fraquezas inerentes à mente crente.

[...]



Achei bonito o discurso sobre a insignificância, mas o julgamento a priori é uma expressão do preconceito e não do verdadeiro ceticismo.

Então qualquer hipótese que pareça a princípio estranha, diferente, esquisita, que soe como não científica ( seja lá o que isto queira dizer ) deve ser descartada automaticamente - sem consideração das evidências - como fraude, intenção de pensamento, ou qualquer outro pretexto e esta deveria ser a postura de um cético?

Se assim fosse a maioria das teorias científicas hoje mais firmemente estabelecidas sequer
chegariam a ser consideradas.

Até o Huxley postar este último comentário eu ainda não havia concordado com ninguém aqui, e é estranho que no Clube Cético poucos pareçam saber o que é realmente ceticismo científico.

E é algo muito simples, como o Huxley explicou. É uma mera questão de bom senso: trata-se de requerer que a força das evidências seja proporcional à extraordinariedade ( ou improbabilidade ) das alegações. Não é "acreditar na dúvida" nem o óbvio reconhecimento filosófico da impossibilidade da certeza. Mas alguém que é metodologicamente cético estabelece o grau de possibilidade de verdade de uma determinada hipótese balanceando a extraordinariedade da hipótese com a contundência das evidências apresentadas.

A extraordinariedade, por sua vez, é determinada pelo quanto a hipótese parece contrariar aspectos da realidade também aparentemente bem estabelecidos por evidências.

Um exemplo claro:

Em 1620 Francis Bacon propôs pela primeira vez que os continentes da África e América
estiveram unidos no passado. Ninguém levou muito a sério esta maluquice, e com toda razão. A hipótese se apoiava unicamente na observação de que as costas atlânticas desses continentes pareciam mais ou menos se encaixarem. No início do século XVII ninguém poderia imaginar imensas massas de terra se movimentando dessa forma.

No entanto em 1915 Alfred Wegener apresentou evidências fósseis, topográficas e geológicas de que realmente estiveram unidos. O ceticismo foi grande. Apesar das evidências serem impressivas a alegação ainda era muito estranha.

Na década de 40 os cientistas começaram a entender melhor a conformação dos fundos oceânicos e esse conhecimento pareceu corroborar a hipótese, o que levou a muitas pesquisas na década seguinte.

Mas somente no final da década de 60 do século passado surgiu uma teoria consistente propondo explicar o movimento das placas em que se apoiam os continentes.

Enfim, o que o bom senso dizia ser sandice total no século 17 é hoje uma teoria científica
muito bem estabelecida. E o bom senso nos diz que a sandice é duvidar dela.

O cético moderno é como o cético pós-moderno, a mesma coisa que o cético antigo porém não antiquado. Uma pessoa que usa de bom senso para fazer julgamentos sobre o mundo.
« Última modificação: 11 de Junho de 2016, 02:03:38 por Pedro Reis »

Offline Pedro Reis

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Re:Manual do cético moderno - Em que todo cético deve acreditar?
« Resposta #78 Online: 11 de Junho de 2016, 02:05:32 »
Ultimamente tem crescido cada vez mais o número de homens na religião, assim como tem aumentado o número de noveleiros com ''H''.

(OFF: e também a taxa de homens leitores de revistas como a ''Housekeeping Monthly''.)

hahahahahahahaha

Concordam???

Não sei a quem você está se referindo mas certamente à alguém que já fosse nascido quando publicavam esta revista.

Offline Skeptikós

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Re:Manual do cético moderno - Em que todo cético deve acreditar?
« Resposta #79 Online: 11 de Junho de 2016, 12:38:12 »
Quanto ao tópico, antes de se perguntar em que todo cético deve acreditar, é importante saber o que é ceticismo. Marcus Valério XR tem uma definição boa sobre o conceito: "(...) CETICISMO, que longe se ser uma simples incredulidade como o senso-comum gosta de pensar, trata-se na verdade de uma postura de 'suspensão de julgamento', só admitindo como válido algo que esteja apoiado em Evidência clara e confiável (...)": http://www.xr.pro.br/CIENCIA.html
Sexto Empírico apresenta uma definição diferente (na qual eu me baseio quando falo em ceticismo), que diferencia a posição do cético de outras duas possíveis:

Citação de: Sexto Empírico
O resultado natural de qualquer investigação é que aquele que investiga ou bem encontra aquilo que busca, ou bem nega que seja encontrável e confessa ser isto inapreensível, ou ainda, persiste em sua busca. O mesmo ocorre com as investigações filosóficas, e é provavelmente por isso que alguns afirmaram ter descoberto a verdade, outros que a verdade não pode ser apreendida, enquanto outros continuam buscando. Aqueles que afirmam ter descoberto a verdade são os "dogmáticos", assim são chamados especialmente Aristóteles, por exemplo, Epicuro, os estoicos e alguns outros. Clitômaco, Carnéades e outros acadêmicos consideram a verdade inapreensível, e os céticos continuam buscando. Portanto, parece razoável manter que há três tipos de filosofia: a dogmática, a acadêmica e a cética."

- Sexto Empírico, Hipotiposes Pirrônicas, Livro I, Tradução de Danilo Marcondes, Revista O que nos faz pensar, Página 117, nº 12, 1997.
É muito simples de entender, se você admite algo como verdadeiro, você simplesmente deixa de ser cético e torna-se dogmático, não importando qual tenha sido a sua justificativa para isso.

Não vejo impasse. Quando os filósofos realistas contemporâneos falam em “verdades”, eles usualmente usam a “Teoria da Correspondência da Verdade” juntamente com a noção de verdade do senso comum. Ora, é claro que a noção de verdade do senso comum possui algum tipo de aplicabilidade, pois de outra forma não teríamos tal noção na linguagem e não seríamos capazes de fazer a distinção de verdades e mentiras. Aceitar isso é diferente de dizer que acredita em algo que é rigorosamente verdade, tipo uma verdade definitiva, inquestionável.
No ceticismo chamam isso de viver de acordo com a aparência, sem no entanto chamar a essas aparências de verdade:

Citação de: Sexto Empírico
Those who say that the Sceptics reject what is apparent have not, I think, listened to what we say. As we said
before, we do not overturn anything which leads us, without our willing it, to assent in accordance with a passive
appearance - and these things are precisely what is apparent. When we investigate whether existing things are such as they appear, we grant that they appear, and what we investigate is not what is apparent but what is said about
what is apparent - and this is different from investigating what is apparent itself. For example, it appears to us
that honey sweetens (we concede this inasmuch as we are sweetened in a perceptual way); but whether (as far as the argument goes) it is actually sweet is something we investigate - and this is not what is apparent but something
said about what is apparent.

Sextus Empiricus, Outlines of Scepticism. Julia Annas and Jonathan Barnes (trans.) (Cambridge: Cambridge University Press, 2nd ed. 2000), page 8.
« Última modificação: 11 de Junho de 2016, 12:40:31 por Skeptikós »
"Che non men che saper dubbiar m'aggrada."
"E, não menos que saber, duvidar me agrada."

Dante, Inferno, XI, 93; cit. p/ Montaigne, Os ensaios, Uma seleção, I, XXV, p. 93; org. de M. A. Screech, trad. de Rosa Freire D'aguiar

Rhyan

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Re:Manual do cético moderno - Em que todo cético deve acreditar?
« Resposta #80 Online: 11 de Junho de 2016, 12:44:55 »
Libertário, essa dicotomia "instrospecção racionalista versus empirismo" não existe na ciência. Immanuel Kant sintetizou dialeticamente as ideias de Descartes e Locke argumentando que tanto o racionalismo quanto o empirismo têm seu lugar e que ambos trabalham juntos na busca pela verdade. Muitos cientistas - se não a maioria - aceita a síntese de Kant.

Já vi um filósofo - Nassim Nicholas Taleb - chamar a abordagem de construção de conhecimento rica em empirismo e pobre em teoria de "fenomenologia" (arquitetura e medicina da antiguidade, por exemplo), e não "teoria científica". Porém, a abordagem de construção de conhecimento rica em instropecção racionalista e pobre (ou ausente) em empirismo pode ser chamada só de "filosofia" mesmo.

Interessante. Descartes, Kant... esse pessoal tá muito longe da minha capacidade.

Ouvi dizer rola umas tretas atuais entre filósofos da ciência e cientistas em geral, não? Creio que o método científico nunca será uma algo acabado, completado.

 

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