Autor Tópico: "Hipótese cultural" do subdesenvolvimento desmistificada  (Lida 946 vezes)

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Offline -Huxley-

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"Hipótese cultural" do subdesenvolvimento desmistificada
« Online: 24 de Dezembro de 2016, 14:37:27 »
Ver uma excelente resenha do excelente livro cujo trecho de texto porei abaixo:

http://www.mundorama.net/2012/12/07/resenha-de-por-que-as-nacoes-fracassam-as-origens-do-poder-da-prosperidade-e-da-pobreza-de-daron-acemoglu-e-james-robinson-por-gustavo-resende-mendonca/

Retirado do capítulo 2 do livro “Porque as Nações Fracassam” de James Robinson e Daron Acemoglu (Editora Elsevier):


HIPÓTESE CULTURAL

A segunda teoria que goza de ampla aceitação, a hipótese cultural,

correlaciona prosperidade e cultura. A hipótese cultural, do mesmo modo

que a geográfica, é de linhagem distinta, remontando no mínimo ao grande

sociólogo alemão Max Weber, que defendia que a Reforma Protestante e a

ética protestante dela decorrente desempenharam papel central na

facilitação da ascensão da moderna sociedade industrial na Europa

Ocidental. A hipótese cultural já não se baseia exclusivamente na religião,

mas enfatiza igualmente outros tipos de crenças, valores e éticas.

Por mais que não seja politicamente correto dizê-lo em público, ainda

há quem mantenha, e não são poucos, que os africanos são pobres por

serem desprovidos de uma boa ética de trabalho, insistindo em acreditar

em feitiçaria e magia ou resistindo às novas tecnologias ocidentais. Muitos

acreditam também que a América Latina jamais enriquecerá devido ao

caráter intrinsecamente libertino e carente de seu povo, que além disso

sofre do mal da cultura “ibérica”, a tendência a deixar tudo para mañana

(amanhã). Evidentemente, muitos já acreditaram que a cultura chinesa e o

confucionismo fossem incompatíveis com o crescimento econômico, muito

embora a importância da ética de trabalho chinesa como motor do

crescimento na China, Hong Kong e Cingapura seja agora alardeada.

Será que a hipótese cultural é útil para compreender a desigualdade

mundial? Sim e não. Sim, no sentido de que as normas sociais, que são

relacionadas à cultura, exercem profunda influência e podem ser difíceis

de mudar – além de, por vezes, darem sustentação às diferenças

institucionais que, segundo este livro, são o que explica as desigualdades

mundiais. Em sua maior parte, porém, não, à medida que os aspectos

culturais que se costuma enfatizar – religião, ética nacional, valores

africanos ou latinos – não têm importância para entendermos como

chegamos até aqui e por que as desigualdades do mundo persistem.

Outros aspectos, como até que ponto as pessoas confiam umas nas outras

ou são capazes de colaborar, são importantes, mas constituem basicamente

um resultado das instituições, não causas independentes.



Voltemos a Nogales. Como já observamos, diversos aspectos culturais

são idênticos, de um lado e de outro da cerca. Não obstante, detectam-se

certas diferenças marcantes de práticas, normas e valores, ainda que elas

sejam não causas, mas consequências da divergência entre os rumos do

desenvolvimento dos dois lugares. Por exemplo, nas pesquisas, os

mexicanos normalmente dizem confiar em outras pessoas menos do que os

cidadãos dos Estados Unidos declaram confiar nos outros. Contudo, a falta

de confiança dos mexicanos não surpreende, tendo-se em vista que seu

governo mostra-se incapaz de eliminar os cartéis de drogas ou assegurar

um sistema jurídico imparcial. O mesmo vale para as Coreias do Norte e do

Sul, como discutiremos no próximo capítulo. O Sul é um dos países mais

ricos do mundo, ao passo que o Norte enfrenta fomes periódicas e uma

pobreza abjeta. Embora, hoje, a “cultura” dos dois países seja muito

distinta, ela não fez a menor diferença nos destinos econômicos

divergentes dessas duas meias-nações. A península coreana tem um longo

período de história comum. Até a Guerra da Coreia e a divisão no paralelo

38, apresentava uma homogeneidade sem precedentes em termos de

idioma, etnicidade e cultura. Como em Nogales, o importante é a fronteira.

Ao norte fica um regime diferente, que impõe instituições singulares e cria

outros incentivos. Eventuais divergências culturais encontradas nas terras

ao sul e ao norte da fronteira que corta Nogales ou a Coreia em duas é,

pois, consequência, e não causa das diferenças nos níveis de prosperidade.

E a África e a cultura africana? Historicamente, a África subsaariana

sempre foi mais pobre do que a maior parte do resto do mundo e suas

civilizações antigas chegaram a desenvolver a roda, a escrita (exceto por

Etiópia e Somália) e o arado. Embora tais tecnologias não tivessem

utilização mais ampla até o advento da colonização formal europeia, no

final do século XIX e início do XX, as sociedades africanas tomaram

conhecimento de sua existência muito antes. Os europeus começaram a

circum-navegar sua costa ocidental no final do século XV, e embarcações

asiáticas chegavam à África Oriental já muito antes disso.


Podemos compreender por que essas tecnologias não foram adotadas

com base na história do Reino do Congo, na foz do Rio Congo, que deu seu

nome à moderna República Democrática do Congo. O Mapa 6 mostra a

localização do Congo em relação a outro importante Estado centro-africano,

o Reino Bacaba, que discutiremos mais à frente neste livro.

O Congo entabulou intensas relações com os portugueses após ser

visitado pela primeira vez pelo navegador Diogo Cão, em 1483. Na época, o

Congo era um reino altamente centralizado pelos padrões africanos, cuja

capital, Mbanza, contava com uma população de 60 mil habitantes, o que a

tornava mais ou menos do mesmo tamanho da capital portuguesa, Lisboa,

e maior do que Londres, com sua população de cerca de 50 mil habitantes

em 1500. O rei do Congo, Nzinga a Nkuwu, converteu-se ao catolicismo e

mudou de nome para João I. Mais tarde, o nome de Mbanza seria mudado

para São Salvador. Graças aos portugueses, os congolenses aprenderam

sobre a roda e o arado, cuja adoção foi mesmo incentivada por missões

agrícolas lusitanas em 1491 e 1512. Contudo, todas essas iniciativas

fracassaram. Não obstante, os congolenses estavam longe de ser avessos

às modernas tecnologias em geral; foram muito rápidos, por exemplo, em

adotar outra venerável inovação ocidental: a pólvora. Usaram essa nova e

poderosa ferramenta para responder a incentivos de mercado: a captura e

exportação de escravos. Não há nenhum indício de que a cultura ou os

valores africanos de alguma maneira concorressem para impedir a adoção

de novas tecnologias e práticas. À medida que se estreitavam seus laços

com os europeus, os congolenses adotariam outras práticas ocidentais: a

escrita, estilos de indumentária e arquitetura habitacional. No século XIX,

não poucas sociedades africanas tiraram proveito também das crescentes

oportunidades econômicas engendradas pela Revolução Industrial,

mudando seus padrões de produção. Na África Ocidental, verificou-se

rápido crescimento econômico com base na exportação de óleo de palma e

amendoim; em todo o sul do continente, os africanos desenvolveram

produtos a serem exportados para as áreas industriais e de mineração em

acelerada expansão no Rand,j na África do Sul. Contudo, esses promissores

experimentos econômicos foram obliterados, não pela cultura africana nem

pela incapacidade dos africanos comuns de tomar iniciativas em prol de

seus próprios interesses, mas pelo colonialismo europeu, em primeiro

lugar, e mais tarde pelos governos africanos pós-independência.

A verdadeira razão por que os congolenses não adotaram uma

tecnologia superior foi o simples fato de que lhes faltaram incentivos para

tanto. Enfrentavam elevado risco de expropriação e tributação de sua

produção pelo monarca todo-poderoso, houvesse ele se convertido ao

catolicismo ou não. Com efeito, a insegurança imperava, não só no que dizia

respeito à propriedade, mas a continuidade de sua própria existência

encontrava-se sempre por um fio. Muitos eram capturados e vendidos

como escravos – condições que dificilmente serviriam de estímulo para

investimentos que aumentassem a produtividade em longo prazo.

Tampouco o rei dispunha de incentivos para adotar o arado em larga

escala ou para fazer do aumento da produtividade agrícola sua maior

prioridade; a exportação de escravos era muito mais rentável.

Talvez se possa afirmar que, hoje, os africanos confiam menos uns nos

outros que outros povos, de outras partes do mundo – o que seria,

contudo, fruto de uma longa história de instituições que solaparam os

direitos humanos e de propriedade na África. A possibilidade de serem

capturados e vendidos como escravos sem dúvida exerceu alguma

influência sobre o grau de confiança dos africanos entre si ao longo do

tempo.


E a ética protestante de Max Weber? Embora seja verdade que países

predominantemente protestantes, como Holanda e Inglaterra, foram os

primeiros grandes sucessos econômicos da Era Moderna, há pouca ligação

entre religião e prosperidade econômica. A França, país

predominantemente católico, rapidamente reproduziu o desempenho

econômico dos holandeses e ingleses no século XIX, e a Itália é tão

próspera quanto qualquer desses países hoje. Olhando mais para o

Oriente, veremos que nenhum dos sucessos econômicos do Leste Asiático

guarda qualquer relação com a religião cristã, de modo que tampouco aí a

tese de uma conexão especial entre o protestantismo e o êxito econômico

encontra grande respaldo.


Voltemo-nos para uma das regiões favoritas dos entusiastas da

hipótese cultural: o Oriente Médio, onde os países são

preponderantemente islâmicos, e os que não produzem petróleo são muito

pobres, como já notamos. Os produtores de petróleo são mais ricos, mas

esse golpe de sorte pouco contribuiu para a instalação de economias

modernas e diversificadas na Arábia Saudita ou Kuwait. Esses fatos não

constituem uma demonstração cabal da influência da religião? Por mais

plausível que seja, esse argumento também não está correto. Sim, países

como Síria e Egito são pobres e suas populações são basicamente

muçulmanas. Contudo, apresentam outras peculiaridades bem mais

significativas para efeitos de prosperidade. Em primeiro lugar, todos foram

províncias do Império Otomano, o que afetou intensa e adversamente o

modo como se desenvolveram. Após o colapso do domínio otomano, o

Oriente Médio foi absorvido pelos impérios coloniais inglês e francês, que

continuaram tolhendo suas possibilidades. Após a independência, a

exemplo de boa parte do antigo mundo colonial, desenvolveram regimes

políticos hierárquicos e autoritários, de que faziam parte poucas das

instituições políticas e econômicas que, como mostraremos, são cruciais

para a geração de prosperidade econômica. Essa trajetória de

desenvolvimento foi moldada, em grande parte, pela história dos domínios

otomano e europeu. A relação entre religião islâmica e pobreza, no Oriente

Médio, é basicamente espúria.


O papel desses acontecimentos históricos, e não de fatores culturais,

na conformação do percurso econômico da região pode ser constatado

também no fato de que aquelas partes do Oriente Médio que escaparam

temporariamente ao jugo do Império Otomano e das potências europeias

(como o Egito, entre 1805 e 1848, sob Muhammad Ali) mostraram-se

capazes de enveredar por um caminho de acelerado crescimento.

Muhammad Ali usurpou o poder logo após a retirada das forças francesas

que haviam ocupado o país sob o comando de Napoleão Bonaparte.

Aproveitando-se da tibieza do controle exercido pelos otomanos sobre o

território egípcio na época, logrou fundar sua própria dinastia, que, de uma

forma ou de outra, governaria o país até a revolução encabeçada por

Nasser, em 1952. As reformas de Muhammad Ali, embora tenham sido

impostas por coerção, promoveram o crescimento do país à medida que a

burocracia estatal, o Exército e o sistema de arrecadação fiscal foram

modernizados, gerando crescimento na agricultura e na indústria. Não

obstante, tal processo de modernização e crescimento chegou ao fim com a

morte de Ali, quando o Egito voltou a cair sob influência europeia.

Todavia, essa talvez seja uma forma errada de considerar a presença

da cultura na equação. Talvez os fatores culturais mais importantes não

estejam ligados à religião, mas a “culturas nacionais” específicas. Quem

sabe a influência da cultura inglesa não seja importante e explique a

prosperidade de países como Estados Unidos, Canadá e Austrália? Por

mais sedutora que essa ideia possa parecer à primeira vista, também não

funciona. Sim, Canadá e Estados Unidos foram colônias britânicas, mas

Serra Leoa e Nigéria, também. As variações de prosperidade entre as ex-
colônias inglesas é tão grande quanto entre os demais países do mundo. O

legado britânico não é a causa do enriquecimento da América do Norte.

Entretanto, há ainda outra versão da hipótese cultural: talvez a

questão não seja ingleses versus não ingleses, mas europeus versus não

europeus. Será que os europeus são de algum modo superiores em virtude

de sua ética do trabalho, perspectiva de vida, valores judaico-cristãos ou

legado romano? É verdade que a Europa Ocidental e a América do Norte,

cuja população é primordialmente de ascendência europeia, são as regiões

mais ricas do mundo. Talvez o legado europeu e sua superioridade cultural

sejam as razões da prosperidade – e o derradeiro refúgio da hipótese

cultural. Infelizmente, essa versão da hipótese oferece tão pouca

capacidade de explicação quanto as demais. Argentina e Uruguai

apresentam descendentes de europeus em proporções maiores de sua

população total que o Canadá e os Estados Unidos, mas o desempenho

econômico tanto de uma quanto do outro deixa muito a desejar. Japão e

Cingapura nunca tiveram mais que uma gota de descendentes de

europeus entre seus habitantes, mas são tão abastados quanto muitas

áreas da Europa Ocidental.


A China, apesar de umas tantas imperfeições em seu sistema

econômico e político, tem sido o país de crescimento mais rápido nas três

ultimas décadas. Sua pobreza até a morte de Mao Tsé-Tung nada tinha a

ver com a cultura chinesa, mas com o modo desastroso como Mao

organizou a economia e conduziu a política. Na década de 1950, ele

promoveu o Grande Salto Adiante, drástica política de industrialização que

acarretou fome em massa. Nos anos 1960, propagou a Revolução Cultural,

que levou à perseguição maciça de intelectuais e eruditos – qualquer um

cuja fidelidade ao partido pudesse ser posta em dúvida –, o que mais uma

vez provocou enorme desperdício dos talentos e recursos da sociedade. Da

mesma forma, o atual crescimento chinês nada tem a ver com os valores ou

mudanças na cultura local; é fruto de um processo de transformação

econômica deflagrado pelas reformas implementadas por Deng Xiaoping e

seus aliados – que, após a morte de Mao Tsé-Tung, foram pouco a pouco

abandonando as instituições e políticas econômicas socialistas, primeiro na

agricultura, depois na indústria.


Como no caso de sua correlata geográfica, a hipótese cultural

tampouco tem serventia para explicar outros aspectos do atual estado de

coisas. Há, evidentemente, diferentes crenças, valores e atitudes culturais

entre Estados Unidos e América Latina; porém, assim como as que

separam Nogales, Arizona, e Nogales, Sonora, ou as Coreias do Sul e do

Norte, tais disparidades são consequências das diferentes instituições e

histórias institucionais distintas dos dois lugares. Fatores culturais que

enfatizem o modo como a cultura “hispânica” ou “latina” moldou o Império

Espanhol não dão conta das divergências no seio da própria América

Latina – por exemplo, por que Argentina e Chile são mais ricos que Peru e

Bolívia. Outros tipos de argumentos culturais – por exemplo, os que

salientam a cultura indígena contemporânea – saem-se igualmente mal.

Argentina e Chile tinham população nativa relativamente pequena, se

comparada ao Peru e Bolívia. Embora seja verdade, a cultura indígena

como explicação também não funciona. Colômbia, Equador e Peru têm

níveis de renda similares, mas a Colômbia hoje apresenta muito poucos

indígenas, ao contrário do Equador e Peru. Por fim, as atitudes culturais,

em geral de modificação tão lenta, dificilmente responderão por si pelos

milagres do crescimento no Leste Asiático e China. Por mais persistentes

que sejam as instituições, em determinadas circunstâncias podem

transformar-se rapidamente, como veremos.
« Última modificação: 25 de Dezembro de 2016, 00:53:02 por -Huxley- »

Offline -Huxley-

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Re:"Hipótese cultural" do subdesensolvimento desmistificada
« Resposta #1 Online: 24 de Dezembro de 2016, 14:42:12 »
Minha opinião...

As mudanças nas "crenças da sociedade" que geram as mudanças de prosperidade são, muitas vezes, não tanto as CAUSAS, mas sim as CONSEQUÊNCIAS dos fatores ambientais. Quais fatores ambientais? Eu respondo: acontecimentos históricos institucionais. Embora as crenças da sociedade façam parte daquilo que se chamam de "instituições", existem também os fatores institucionais "não crenças da sociedade"; crenças da sociedade é apenas UM dos componentes das instituições. As crenças da sociedade não são causas independentes (claro, e os fatores  institucionais "não crenças da sociedade" também não). E elas frequentemente têm pouca utilidade em explicar as atuais diferenças de prosperidade ao redor do mundo.

Em outro fórum já li que: "O Japão hoje é uma democracia porque isto foi IMPOSTO pelos americanos vencedores, caso contrário o Imperador ainda seria uma figura divina, como era até 1945. Esse exemplo do Japão que foi citado só reforça meu argumento, pois ajuda a entendê-lo melhor. Argumentou-se que as atuais boas crenças da sociedade japonesa acerca da liberdade resultaram de um acontecimento histórico institucional, não de mudanças na ética nacional. Ora, É EXATAMENTE ISSO que, muitas vezes, explica as diferenças de prosperidade que existem entre as nações do mundo e as diferenças de prosperidade que existem entre as nações do Ocidente (que não é tão homegenamente próspero; veja o caso dos países da América Latina com ascendência majoritariamente europeia como Argentina e Uruguai: eles são bem inferiores em desenvolvimento em relação ao Japão e os Tigres Asiáticos).

Por isso, vale a pena ler mais sobre a Teoria Institucionalista do Crescimento de James Robinson e Daron Acemoglu, cuja o link para uma resenha do mesmo foi posta no primeiro post.
« Última modificação: 24 de Dezembro de 2016, 15:36:20 por -Huxley- »

Offline Euler1707

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Re:"Hipótese cultural" do subdesenvolvimento desmistificada
« Resposta #2 Online: 25 de Dezembro de 2016, 14:02:22 »
Talvez vocês gostem de ler esse  texto. É sobre um Brasilianista que estudou o desenvolvimento econômico do Brasil, e que tem uma teoria interessante para o nosso atrasado desenvolvimento:
À procura de Leff

Offline Buckaroo Banzai

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Re:"Hipótese cultural" do subdesenvolvimento desmistificada
« Resposta #3 Online: 13 de Maio de 2017, 13:30:55 »
Citar
http://www.economist.com/news/finance-and-economics/21651261-north-limps-ahead-south-swoons-tale-two-economies

[...]

 Net migration from south to north between 2001 and 2013 was more than 700,000 people, 70% of whom were aged between 15 and 34; more than a quarter were graduates. Marco Zigon of Getra, a Neapolitan manufacturer of electric transformers, says finding engineers in Naples, or ones willing to move there, is becoming ever harder. According to Istat, Italy’s statistical body, over the next 50 years the south could lose 4.2m residents, a fifth of its population, to the north or abroad.

These demographic trends have tempered the gap in GDP per person with the north, according to SVIMEZ, an association for the development of the mezzogiorno. But the loss of human capital, coupled with low investment in the physical sort, is sucking the region dry of the resources it needs to recover. Investment in the north shrank by a quarter between 2008 and 2013; in the south it fell by a third.

[...]

Most of Italy lags behind Europe in terms of digital infrastructure, but the south is especially backward. The same is true of civil justice and the bureaucracy, both of which are generally slower in the south. Corruption is common enough in the north, says Antonio La Spina of LUISS university in Rome, but it is more diffuse in the south, even if sums involved tend to be smaller. That makes it harder to root out.

[...] The gulf between east and west Germany was much wider than that between northern and southern Italy in the 1990s; now it is smaller.  [...]




Citar
http://www.cnbc.com/id/49329160
Corruption Is Seen as a Drain on Italy’s South

...

The ties between organized crime and local politicians run deep. Today, 3 out of 51 members of Calabria’s regional council have been arrested on charges of Mafia ties. The president of the Calabria region, Giuseppe Scopelliti, is appealing a lower-court sentence in a corruption case and is under investigation on four charges (none related to the highway).

In an interview in his office in Catanzaro, Mr. Scopelliti denied any wrongdoing. Asked what his strategy was to improve the region’s dismal economic performance, he pointed only to his most recent request for financing from Brussels: $2.2 billion.

...

“The problem here is political,” said Mr. Varano, as he looked out at Sicily across the Strait of Messina from Reggio Calabria. “Once the South was a reservoir of manpower, but in the ’70s, there was an exchange: It became a big reservoir of consensus,” he added, referring to the votes from Calabria that have helped every government of the last 25 years stay in power.

To secure those votes, governments “needed to spend money, not for investment and development, but in a clientelistic way,” he said.

...




Citação de: Milton Friedman
Nós aprendemos sobre a importância da propriedade privada e do Estado de direito como base para liberdade econômica. Logo após a queda do Muro de Berlim e do colapso da União Soviética, costumavam me perguntar muito: "o que esses estados ex-comunistas devem fazer para que se tornem economias de mercado?" E eu costumava dizer: "Você pode descrever isso em três palavras: privatize, privatize, privatize." Mas, eu estava errado. Isso não foi o suficiente. O exemplo da Rússia mostra isso. Rússia privatizou mas de uma forma que criou monopólios privados de controle econômico que substituíram os controles centralizados do governo. Parece então que o Estado de direito é provavelmente mais básico que privatização. Privatização é insignificante se você não tem o Estado de direito. O que significa privatizar se você não tem segurança à propriedade, se você não pode usar sua propriedade como quiser?



<a href="https://www.youtube.com/v/2z5RAZlv2UQ" target="_blank" class="new_win">https://www.youtube.com/v/2z5RAZlv2UQ</a>

<a href="https://www.youtube.com/v/jsZDlBU36n0" target="_blank" class="new_win">https://www.youtube.com/v/jsZDlBU36n0</a>

<a href="https://www.youtube.com/v/qNVXeJR2Z1s" target="_blank" class="new_win">https://www.youtube.com/v/qNVXeJR2Z1s</a>

Tem ainda no youtube diversos vídeos bem mais longos.


Offline JJ

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Re:"Hipótese cultural" do subdesenvolvimento desmistificada
« Resposta #5 Online: 22 de Julho de 2017, 06:46:55 »
<a href="https://www.youtube.com/v/dHqw2Ayrcq4" target="_blank" class="new_win">https://www.youtube.com/v/dHqw2Ayrcq4</a>


Esse perfomance bond apresentado pelo Carvalhosa pode até ser uma coisa positiva,  entretanto ainda é uma proposta do tipo "mais lei".  E não toca no enorme problema que é a  ineficiência, excesso de Estado (excesso de gastos do Estado, incluindo aí o gravíssimo problema da previdência pública), ganhos excessivos e privilégios de algumas categorias de agentes estatais, e falta de liberdade econômica.  Sem mirar com veemência nestes problemas o Brasil  continuará empacado, ou pior ainda poderá regredir ainda mais  (haja vista problemas graves como o da previdência que vai drenar cada vez mais recursos orçamentários e financeiros).






Offline JJ

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Re:"Hipótese cultural" do subdesenvolvimento desmistificada
« Resposta #6 Online: 22 de Julho de 2017, 06:58:27 »
Citar
http://www.economist.com/news/finance-and-economics/21651261-north-limps-ahead-south-swoons-tale-two-economies


Citação de: Milton Friedman
Nós aprendemos sobre a importância da propriedade privada e do Estado de direito como base para liberdade econômica. Logo após a queda do Muro de Berlim e do colapso da União Soviética, costumavam me perguntar muito: "o que esses estados ex-comunistas devem fazer para que se tornem economias de mercado?" E eu costumava dizer: "Você pode descrever isso em três palavras: privatize, privatize, privatize." Mas, eu estava errado. Isso não foi o suficiente. O exemplo da Rússia mostra isso. Rússia privatizou mas de uma forma que criou monopólios privados de controle econômico que substituíram os controles centralizados do governo. Parece então que o Estado de direito é provavelmente mais básico que privatização. Privatização é insignificante se você não tem o Estado de direito. O que significa privatizar se você não tem segurança à propriedade, se você não pode usar sua propriedade como quiser?
 




Foi mais ou menos o que comentei noutro tópico sobre a PETROBRAS,  só privatizar não traria suficientes e significativos benefícios, se apenas mudássemos de  um quase monopólio público para um quase monopólio privado, se não houvesse ampla desregulamentação, e amplo respeito pela propriedade privada, com segurança jurídica, e ampla redução da interferência do Estado, e consequente ampla liberdade econômica , de modo que qualquer pessoa pudesse entrar facilmente (sem entraves estatais e sem jogadas de agentes privados poderosos que tentassem impedir) no mercado de petróleo e de derivados de petróleo, então realmente não seria uma mudança significativa.


« Última modificação: 22 de Julho de 2017, 07:00:57 por JJ »

Offline -Huxley-

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Re:"Hipótese cultural" do subdesenvolvimento desmistificada
« Resposta #7 Online: 22 de Julho de 2017, 10:34:12 »
Já que a suficiência da privatização é tão contestada, então é melhor usar o termo "desestatização". Pois embora se possa falar em "monopólio privatista", é inconcebível visualizar um "monopólio desestatizador" no setor petrolífero num mundo onde o Estado existe. Os problemas no setor petrolífero brasileiro não são causados essencialmente por subintervencionismo estatal, mas sim por superintervencionismo. Devemos nos concentrar em combater a iatrogenia daqueles que se acham médicos do sistema econômico.

Então, não adianta fugir da polêmica da Petrobrás pela via da rebelião semântica, pois sempre há maneira de formular a pergunta certa com a intenção certa: "Você é a favor que se faça com a Petrobrás e o setor petrolífero, a mesma coisa que fizeram com a Embraer e o seu setor de aviação?".
« Última modificação: 22 de Julho de 2017, 11:57:36 por -Huxley- »

Offline Buckaroo Banzai

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Re:"Hipótese cultural" do subdesenvolvimento desmistificada
« Resposta #8 Online: 22 de Julho de 2017, 15:54:59 »
Esse perfomance bond apresentado pelo Carvalhosa pode até ser uma coisa positiva,  entretanto ainda é uma proposta do tipo "mais lei".  E não toca no enorme problema que é a  ineficiência, excesso de Estado (excesso de gastos do Estado, incluindo aí o gravíssimo problema da previdência pública), ganhos excessivos e privilégios de algumas categorias de agentes estatais, e falta de liberdade econômica.  Sem mirar com veemência nestes problemas o Brasil  continuará empacado, ou pior ainda poderá regredir ainda mais  (haja vista problemas graves como o da previdência que vai drenar cada vez mais recursos orçamentários e financeiros).

...
<a href="https://www.youtube.com/v/nyGO2DSY-Ms" target="_blank" class="new_win">https://www.youtube.com/v/nyGO2DSY-Ms</a>

<img>carvalhosa-com-óculos-pixelado.jpg</img>

Offline Buckaroo Banzai

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Re:"Hipótese cultural" do subdesenvolvimento desmistificada
« Resposta #9 Online: 22 de Julho de 2017, 19:57:12 »
Citar
http://www.economist.com/news/finance-and-economics/21651261-north-limps-ahead-south-swoons-tale-two-economies


Citação de: Milton Friedman
Nós aprendemos sobre a importância da propriedade privada e do Estado de direito como base para liberdade econômica. Logo após a queda do Muro de Berlim e do colapso da União Soviética, costumavam me perguntar muito: "o que esses estados ex-comunistas devem fazer para que se tornem economias de mercado?" E eu costumava dizer: "Você pode descrever isso em três palavras: privatize, privatize, privatize." Mas, eu estava errado. Isso não foi o suficiente. O exemplo da Rússia mostra isso. Rússia privatizou mas de uma forma que criou monopólios privados de controle econômico que substituíram os controles centralizados do governo. Parece então que o Estado de direito é provavelmente mais básico que privatização. Privatização é insignificante se você não tem o Estado de direito. O que significa privatizar se você não tem segurança à propriedade, se você não pode usar sua propriedade como quiser?
 




Foi mais ou menos o que comentei noutro tópico sobre a PETROBRAS,  só privatizar não traria suficientes e significativos benefícios, se apenas mudássemos de  um quase monopólio público para um quase monopólio privado, se não houvesse ampla desregulamentação, e amplo respeito pela propriedade privada, com segurança jurídica, e ampla redução da interferência do Estado, e consequente ampla liberdade econômica , de modo que qualquer pessoa pudesse entrar facilmente (sem entraves estatais e sem jogadas de agentes privados poderosos que tentassem impedir) no mercado de petróleo e de derivados de petróleo, então realmente não seria uma mudança significativa.


Uma terra-sem-lei (ampla desregulamentação) não é também propício ao desenvolvimento. É argumentado justamente a importância das instituições para o desenvolvimento.

"Qualquer pessoa pudesse entrar facilmente no mercado de petróleo e derivados", tirando como acionista, é algo até meio engraçado de dizer. Faz imaginar um MSP, movimento dos trabalhadores sem petróleo, defendendo o extrativismo petrolífero familiar como alternativa mais justa à petroindústria.

Offline EuSouOqueSou

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Re:"Hipótese cultural" do subdesenvolvimento desmistificada
« Resposta #10 Online: 23 de Julho de 2017, 01:08:30 »
Talvez vocês gostem de ler esse  texto. É sobre um Brasilianista que estudou o desenvolvimento econômico do Brasil, e que tem uma teoria interessante para o nosso atrasado desenvolvimento:
À procura de Leff

So agora vim ler sobre esse artigo desse tal de Leff. Como é que um trabalho tão perspicaz com o dele passa despercebido até hoje? Muito bom.

"Uma  das  ideias  de  Leff  era  a  de  que  o  Brasil,  ao  longo  de  quase  cinco  séculos  de  história,  havia  se tornado  uma  máquina  de  produzir  gente  “barata”:  trabalhadores  em  número  abundante,  pouco qualificados  e  que  custavam  pouco."

O óbvio só se torna óbvio quando alguém fala sobre ele.
Qualquer sistema de pensamento pode ser racional, pois basta que as suas conclusões não contrariem as suas premissas.

Mas isto não significa que este sistema de pensamento tenha correspondência com a realidade objetiva, sendo este o motivo pelo qual o conhecimento científico ser reconhecido como a única forma do homem estudar, explicar e compreender a Natureza.

Offline JJ

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Re:"Hipótese cultural" do subdesenvolvimento desmistificada
« Resposta #11 Online: 23 de Julho de 2017, 06:34:01 »
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http://www.economist.com/news/finance-and-economics/21651261-north-limps-ahead-south-swoons-tale-two-economies


Citação de: Milton Friedman
Nós aprendemos sobre a importância da propriedade privada e do Estado de direito como base para liberdade econômica. Logo após a queda do Muro de Berlim e do colapso da União Soviética, costumavam me perguntar muito: "o que esses estados ex-comunistas devem fazer para que se tornem economias de mercado?" E eu costumava dizer: "Você pode descrever isso em três palavras: privatize, privatize, privatize." Mas, eu estava errado. Isso não foi o suficiente. O exemplo da Rússia mostra isso. Rússia privatizou mas de uma forma que criou monopólios privados de controle econômico que substituíram os controles centralizados do governo. Parece então que o Estado de direito é provavelmente mais básico que privatização. Privatização é insignificante se você não tem o Estado de direito. O que significa privatizar se você não tem segurança à propriedade, se você não pode usar sua propriedade como quiser?
 




Foi mais ou menos o que comentei noutro tópico sobre a PETROBRAS,  só privatizar não traria suficientes e significativos benefícios, se apenas mudássemos de  um quase monopólio público para um quase monopólio privado, se não houvesse ampla desregulamentação, e amplo respeito pela propriedade privada, com segurança jurídica, e ampla redução da interferência do Estado, e consequente ampla liberdade econômica , de modo que qualquer pessoa pudesse entrar facilmente (sem entraves estatais e sem jogadas de agentes privados poderosos que tentassem impedir) no mercado de petróleo e de derivados de petróleo, então realmente não seria uma mudança significativa.


Uma terra-sem-lei (ampla desregulamentação) não é também propício ao desenvolvimento. É argumentado justamente a importância das instituições para o desenvolvimento.



Ampla desregulamentação não significa necessariamente total desregulamentação.  Especificamente eu acredito que a mínima regulamentação necessária seria com relação a questão ambiental (mas nada que impedisse, em termos de custos, a atuação de pequenos produtores e  pequenos comerciantes neste mercado),  e com relação ao comércio em si,  regulamentação estatal também poderia ser amplamente reduzida (provavelmente para o mínimo,  com relação a questão de prevenção de poluição).


"Qualquer pessoa pudesse entrar facilmente no mercado de petróleo e derivados", tirando como acionista, é algo até meio engraçado de dizer. Faz imaginar um MSP, movimento dos trabalhadores sem petróleo, defendendo o extrativismo petrolífero familiar como alternativa mais justa à petroindústria.


Extrativismo familiar já é algo meio espantalhoso, pois uma família comum não teria meios financeiros para extrair petróleo.  Entretanto,  a  minha sugestão é que fosse  tão desregulamentado quanto a atividade de produzir  e/ou  comercializar  suco de laranja  (apenas com a ressalva já observada de que houvesse prevenção à poluição, e também observância de normas de segurança de produção numa indústria).

Porque na sua concepção (ou na concepção de qualquer outro aqui)  a atividade de  produzir e/ou  comercializar petróleo ou seus derivados  não poderia ser amplamente desregulamentada ?



« Última modificação: 23 de Julho de 2017, 07:09:24 por JJ »

Offline JJ

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Re:"Hipótese cultural" do subdesenvolvimento desmistificada
« Resposta #12 Online: 23 de Julho de 2017, 06:48:32 »
Minha opinião...

As mudanças nas "crenças da sociedade" que geram as mudanças de prosperidade são, muitas vezes, não tanto as CAUSAS, mas sim as CONSEQUÊNCIAS dos fatores ambientais. Quais fatores ambientais? Eu respondo: acontecimentos históricos institucionais. Embora as crenças da sociedade façam parte daquilo que se chamam de "instituições", existem também os fatores institucionais "não crenças da sociedade"; crenças da sociedade é apenas UM dos componentes das instituições. As crenças da sociedade não são causas independentes (claro, e os fatores  institucionais "não crenças da sociedade" também não). E elas frequentemente têm pouca utilidade em explicar as atuais diferenças de prosperidade ao redor do mundo.



Uma observação,  ao meu ver algumas crenças da sociedade (ideia que seja amplamente aceita, e geralmente sem a mínima reflexão necessária), pode  sim contribuir  para criar e/ou fortalecer/realimentar um ambiente que  dificulte a prosperidade. 

Para exemplificar eu lembro a crença bastante comum no Brasil de que as ações/intervenções  do governo ou Estado  seriam  o principal meio para se solucionar problemas sociais e econômicos.  A maioria das pessoas parecem concordar que se há um problema econômico e/ou social, então a solução deve ocorrer via intervenção do Estado.  E esta crença é  usada com habilidade por políticos  que aí veem uma oportunidade de se passarem por provedores  do  povo que clama por soluções. E deste modo, o sistema estatista/intervencionista é realimentado  constantemente.

« Última modificação: 23 de Julho de 2017, 06:53:30 por JJ »

Offline -Huxley-

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Re:"Hipótese cultural" do subdesenvolvimento desmistificada
« Resposta #13 Online: 23 de Julho de 2017, 10:58:30 »
Minha opinião...

As mudanças nas "crenças da sociedade" que geram as mudanças de prosperidade são, muitas vezes, não tanto as CAUSAS, mas sim as CONSEQUÊNCIAS dos fatores ambientais. Quais fatores ambientais? Eu respondo: acontecimentos históricos institucionais. Embora as crenças da sociedade façam parte daquilo que se chamam de "instituições", existem também os fatores institucionais "não crenças da sociedade"; crenças da sociedade é apenas UM dos componentes das instituições. As crenças da sociedade não são causas independentes (claro, e os fatores  institucionais "não crenças da sociedade" também não). E elas frequentemente têm pouca utilidade em explicar as atuais diferenças de prosperidade ao redor do mundo.



Uma observação,  ao meu ver algumas crenças da sociedade (ideia que seja amplamente aceita, e geralmente sem a mínima reflexão necessária), pode  sim contribuir  para criar e/ou fortalecer/realimentar um ambiente que  dificulte a prosperidade. 

Para exemplificar eu lembro a crença bastante comum no Brasil de que as ações/intervenções  do governo ou Estado  seriam  o principal meio para se solucionar problemas sociais e econômicos.  A maioria das pessoas parecem concordar que se há um problema econômico e/ou social, então a solução deve ocorrer via intervenção do Estado.  E esta crença é  usada com habilidade por políticos  que aí veem uma oportunidade de se passarem por provedores  do  povo que clama por soluções. E deste modo, o sistema estatista/intervencionista é realimentado  constantemente.



Mesmo essa crença da sociedade mencionada não é uma causa independente. Ela é uma crença compartilhada na maioria dos outros países, e onde isso acontece, existe alguma semelhança crucial na história institucional política (por exemplo, contiguidade temporal entre intervencionismo estatal e desenvolvimento, heranças institucionais do colonialismo, etc.).
« Última modificação: 23 de Julho de 2017, 11:02:15 por -Huxley- »

Offline -Huxley-

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Re:"Hipótese cultural" do subdesenvolvimento desmistificada
« Resposta #14 Online: 23 de Julho de 2017, 11:30:05 »
Sobre a regulamentação...

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REGULATION vs SKIN IN THE GAME

There are two ways to make citizens safe from large predators, say big powerful corporations. The first one is to enact regulations –but these, aside from restricting individual freedoms, lead to another predation, this time by the state, its agents and their cronies. More critically, people with good lawyers can game regulations (or, we will see, make it known that they hire former regulators, and overpay for them, which signals a bribe to those currently in office). And of course, regulations, once in, stay in and even when they are proven absurd, politicians are afraid of repealing them, under pressure from those benefiting from them. Given that regulations are additive, we soon end up tangled in complicated rules that choke enterprise. They also choke life.

For there are always parasites benefiting from regulation, thanks to what is called rent seeking. These are situations where the businessperson uses government to derive profits, often through protective regulations and franchises. The mechanism is called regulatory recapture.

The other solution is to put skin in the game in the transaction, in the form of legal liability, and the possibility of an efficient lawsuit. The Anglo-Saxon world has traditionally had a predilection for the legal approach instead of the regulatory one: if you harm me, I can sue you. This led to the very sophisticated, adaptive, and balanced common law, built bottom-up, via trial and error. When people transact, they almost always prefer to agree (as part of the contract) on a Commonwealth (or formerly British ruled) venue as a forum in the event of a dispute: Hong Kong and Singapore are the favorites in Asia, London and New York in the West.

If a big corporation pollutes your neighborhood, you can get together with your neighbors, and sue the hell out of it. Some greedy lawyer will have the paperwork ready. And the potential costs of the settlement would be enough of a deterrent for the corporation to behave.

Now, it doesn’t mean one should never regulate. Some systemic effects require regulation (say hidden risks of environmental ruins that show up too late). If you can’t effectively sue, regulate.

But beyond the convenience, I have a strong belief in deontic libertarianism: freedom is one’s first most essential good, including the freedom to make mistakes; it is sacred to the point that it must never be traded against economic or other benefits.

Skin in the Ruling

Now someone might ask: well, what do you do with the judge? He can make mistakes with impunity. Not quite. A friend, Daniel H. showed me a Dutch painting representing The Judgement of Cambyses. The scene is from the story reported by Herodotus, concerning the corrupt Persian judge Sisamnes. He was flayed alive on the order of King Cambyses, a a punishment for violating the rules of justice. The scene of the painting is Sisamnes' son dispensing justice from his father's chair, upholstered with the flayed skin as a reminder that judging comes with skin in the game.

Fonte: https://www.facebook.com/nntaleb/posts/10155078199478375

Offline Buckaroo Banzai

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Re:"Hipótese cultural" do subdesenvolvimento desmistificada
« Resposta #15 Online: 23 de Julho de 2017, 18:08:56 »
Ampla desregulamentação não significa necessariamente total desregulamentação.  Especificamente eu acredito que a mínima regulamentação necessária seria com relação a questão ambiental (mas nada que impedisse, em termos de custos, a atuação de pequenos produtores e  pequenos comerciantes neste mercado),  e com relação ao comércio em si,  regulamentação estatal também poderia ser amplamente reduzida (provavelmente para o mínimo,  com relação a questão de prevenção de poluição).

Infelizmente não é fácil resumir com um termo o que seria um "grau ótimo de regulamentação," acho que quase qualquer fraseamento tende a sugerir um pouco que "quanto mais, melhor", ou "quanto menos, melhor", sempre que não acompanhado de algum delineamento mais específico do "grau" idealizado.



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Porque na sua concepção (ou na concepção de qualquer outro aqui)  a atividade de  produzir e/ou  comercializar petróleo ou seus derivados  não poderia ser amplamente desregulamentada ?

Eu simplesmente ignoro muito o assunto. Não sei quão amplas são as regulamentações, e quais seriam as contraproducentes em termos de concorrência ou o que mais for relevante (como legislação ambiental).

Desregulamentação também pode favorecer cenários de pouca ou nenhuma concorrência, peso-pesado versus peso-pena.

Na ideologia pró-livre-mercado, concorrência é algo bom*; mas para o capitalista/empreendedor, na realidade prática, concorrência é algo ruim, da qual se tenta fugir, indo em direção ao monopólio.

É sempre preferível vender para o maior número possível, do que dividir o nicho em fatias, com outros que podem eventualmente reduzir a sua.

Conforme o nicho é dividido em fatias, o cartel deve passar a ser a segunda opção mais segura a todos os empreendedores. 



* bem, na verdade é capaz de alguns admitirem abertamente que consideram cartel também algo bom, talvez apontando como exemplo o modelo keiretsu japonês.

Os japoneses têm como traço cultural imitar o que existe de melhor no mundo. Acho que voltariam à economia de mercado em pouco tempo.

Li algumas vezes que o mercado deles tem diversos aspectos meio "comunistóides". Talvez não seja o melhor termo*, mas coisas como as empresas terem parcerias e muitos acionistas em comum, serem também diversificadas em atuação, e de certa forma, "assistencialistas" aos empregados e futuros empregados (que em contrapartida tiram poucas férias, trabalham mais do que americanos), com políticas de emprego permanente e até já arranjando os empregados enquanto ainda estão estudando.

A imitação parece ser mais específica a produtos industriais e algumas metodologias, não algo muito mais generalizado.


* até porque alternativamente talvez pudesse se dizer serem "anarco-capitalistóides do bem-estar social", ou algo assim.

 

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