Autor Tópico: Camboja  (Lida 715 vezes)

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Offline JJ

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Camboja
« Online: 01 de Setembro de 2017, 06:34:43 »
Fogo sobre o Camboja


Novas informações revelam: bombardeios dos EUA sobre o país, entre 1965 e 73, foram cinco vezes mais intensos que se supunha, e possivelmente os mais pesados da História. Brutalidade entregou população ao extremismo genocida do Khmer Vermelho — presságio do que pode ocorrer no Iraque


Ben Kiernan , Taylor Owen

Diplô Biblioteca - 16/01/2008



Em novembro de 2000, vinte e cinco anos após o fim da guerra na Indochina, Bill Clinton tornou-se o primeiro presidente dos Estados Unidos, depois de Richard Nixon, a visitar o Vietnã. Enquanto a cobertura da viagem pela mídia tratava do paradeiro de cerca de dois mil soldados norte-americanos ainda classificados como desaparecidos em ação, um pequeno ato de grande significado histórico passou quase despercebido. Num gesto humanitário, Clinton liberou um amplo banco de dados da Força Aérea sobre a campanha de bombardeio promovida pelos Estados Unidos na Indochina entre 1964 e 1975. Gerado por um sistema de alta tecnologia desenvolvido pela IBM, o banco de dados proporciona informações abrangentes sobre as surtidas efetuadas no Vietnã, Laos e Camboja.


O presente de Clinton destinava-se a facilitar a busca de explosivos não-detonados deixados no rastro dos bombardeios de saturação que varreram a região. Espalhado pelo campo, frequentemente submerso em terrenos de cultivo alagados, esse material bélico continua a despertar graves preocupações de ordem humanitária. Ele tem causado mutilações e mortes entre os camponeses, além de tornar terras valiosas praticamente imprestáveis. As organizações de desenvolvimento e de remoção de minas fizeram bom uso dos arquivos da Força Aérea nos últimos seis anos, mas não chegaram a sondar toda a profundidade de suas abismais implicações.


O banco de dados, ainda incompleto (ele apresenta vários períodos “obscuros”), revela que, de 4 de outubro de 1965 a 15 de agosto de 1973, os Estados Unidos lançaram sobre o Camboja uma quantidade de bombas muito maior do que se estimava até agora: 2.756.941 toneladas, totalizando 230.516 surtidas sobre 113.716 locais. Mais de 10% desse bombardeio foi indiscriminado: 3.580 locais apresentavam alvos “desconhecidos” e 8.238, simplesmente não apresentavam alvos. O banco de dados revela, também, que o bombardeio começou durante a presidência de Lyndon Johnson e não de Richard Nixon – portanto, quatro anos antes do que geralmente se supunha.

O impacto do bombardeio, objeto de muita discussão nas últimas três décadas, mostra-se agora mais claro do que nunca. A matança de civis no Camboja jogou um povo exasperado nos braços de um movimento guerrilheiro que até então recebera um apoio relativamente limitado da população, provocando a expansão da guerra do Vietnã no interior do Camboja, um golpe de estado em 1970, a rápida ascensão do Khmer Vermelho e, em última instância, o genocídio cambojano.


Ponto comum com o Iraque: recurso ao poder aéreo para combater uma insurgência heterogênea e volátil


Os dados demonstram que a forma pela qual um país decide retirar-se de um conflito pode ter conseqüências desastrosas, consideração que também se aplica aos conflitos armados da atualidade, inclusive, as operações militares dos Estados Unidos no Iraque. Apesar de muitas diferenças, a guerra no Iraque e o conflito cambojano apresentam em comum um ponto crucial: o crescente recurso ao poder aéreo para combater uma insurgência heterogênea e volátil.


Em 9 de dezembro de 1970, o presidente Richard Nixon telefonou para o seu conselheiro em assuntos de segurança nacional, Henry Kissinger, a fim de discutir a campanha de bombardeio do Camboja, então em andamento. Teatro secundário da guerra do Vietnã, iniciada em 1965 durante a presidência de Johnson, o Camboja – um reino neutro até nove meses antes do telefonema de Nixon, quando o general pró-EUA Lon Nol tomou o poder – já tinha recebido quase meio milhão de toneladas de bombas naquela altura (475.515 t). A primeira série de bombardeios intensivos, a Operação Menu, desfechada contra alvos localizados nas proximidades da fronteira com o Vietnã – rotulados Breakfast, Lunch, Supper, Dinner, Dessert e Snack [1] pelos comandantes norte-americanos – tinha sido concluída em maio, pouco depois do golpe de estado que derrubou o príncipe Sihanouk.


Nixon enfrentava uma crescente oposição do Congresso às suas políticas para a Indochina. A invasão do Camboja por terra, realizada por uma força conjunta dos Estados Unidos e do Vietnã do Sul em maio-junho de 1970, fracassara em seu objetivo de destruir as forças comunistas vietnamitas e agora Nixon queria uma escalada secreta dos ataques aéreos, a fim de neutralizar o comando móvel do Viet Cong/Exército Norte-Vietnamita (VC/ENV) nas selvas cambojanas. Após ter dito a Kissinger que faltava espírito de iniciativa à Força Aérea, Nixon exigiu a escalada do bombardeio no interior do Camboja: “Eles têm de ir fundo, mas fundo mesmo... Mandem tudo o que possa voar para lá e arrebentem eles! Não há restrição de milhas, não há restrição de verbas. Ficou claro?”


Kissinger sabia que a ordem de Nixon atropelava a promessa feita por ele ao Congresso, de que os aviões dos EUA não iriam além de 18 milhas da fronteira vietnamita; as suas próprias assertivas à nação, de que nenhum alvo situado a menos de um quilômetro de qualquer povoado seria bombardeado, e o parecer de setores das forças armadas, segundo os quais os ataques aéreos equivaliam a cutucar uma caixa de marimbondos com uma vara. Titubeante, Kissinger respondeu: “O problema, senhor presidente, é que a Força Aérea foi organizada para travar uma batalha aérea contra a União Soviética. Ela não está preparada para esta guerra... na verdade, não está preparada para nenhuma das guerras que possivelmente teremos de lutar.”


"Ele [Nixon] quer uma campanha de bombardeio maciço no Camboja. É uma ordem, deve ser cumprida"


Cinco minutos depois de terminada a conversação com Nixon, Kissinger chamou o general Alexander Haig para transmitir-lhe as novas ordens do presidente: “Ele quer uma campanha de bombardeio maciço no Camboja. Ele não quer ouvir nada. É uma ordem, deve ser cumprida. Qualquer coisa que voe contra qualquer coisa que se mova. Entendeu bem?”. A resposta de Haig, a custo audível na gravação, soa como uma risada.


O bombardeio do Camboja pelos Estados Unidos continua sendo um tema polêmico e emblemático. Ele contribuiu para mobilizar os movimentos pacifistas e, ainda hoje, costuma ser mencionado como um exemplo dos crimes de guerra cometidos pelos Estados Unidos. Autores como Noam Chomsky, Christopher Hitchens e William Shawcross surgiram como intérpretes políticos influentes depois de terem condenado o bombardeio e a política externa que ele simbolizava.


Do final da guerra do Vietnã para cá, estabeleceu-se um certo consenso quanto à amplitude do envolvimento norte-americano no Camboja. Os detalhes são controvertidos, mas a história começa para valer em 18 de março de 1969, quando os Estados Unidos lançaram a operação Menu. Seguiu-se a ofensiva terrestre conjunta EUA-Vietnã do Sul. Nos três anos seguintes, os Estados Unidos continuaram com os ataques aéreos ordenados por Nixon, atingindo cada vez mais fundo o território do Camboja, inicialmente para destruir o VC/ENV, e, em seguida, para proteger o regime de Lon Nol contra um número crescente de forças comunistas cambojanas. O Congresso cortou o financiamento para a guerra e impôs a suspensão do bombardeio em 15 de agosto de 1973, em meio a pedidos de impeachment para Nixon por sua conduta fraudulenta ao ordenar a escalada da campanha.


Graças ao banco de dados, sabe-se, agora, que o bombardeio do Camboja começou em 1965, durante o governo Johnson, e não em 1969. Esse último ano assinalou não propriamente o início da campanha, mas a sua escalada sob a forma de bombardeios de saturação. Entre 1965 e 1968, os Estados Unidos já tinham lançado 2.565 surtidas e 214 toneladas de bombas no Camboja. Esses ataques iniciais tiveram provavelmente uma finalidade tática, de apoio às quase duas mil incursões terrestres realizadas em sigilo pela CIA e pelas Forças Especiais naquele período. A frota de B52 – bombardeiros de longo alcance, capazes de transportar uma potente carga de bombas – não foi acionada então, seja porque a sua utilização poderia pôr em risco vidas cambojanas e comprometer a neutralidade do país, seja porque a eficácia estratégica dos bombardeios de saturação era considerada limitada.


Nixon optou por um curso de ação diverso e, de 1969 em diante, a Força Aérea começou a enviar os B52 contra o Camboja. A nova justificativa apresentada para o bombardeio era a de que ele manteria as forças inimigas acuada durante o tempo suficiente para os Estados Unidos se retirarem do Vietnã. O general norte-americano Theodore Mataxis caracterizou a manobra como “uma ação de contenção... O grupo vai pela estrada, tendo os lobos no seu encalço; então, atiramos fora um troço qualquer e deixamos que eles mastiguem.” Como corolário, os cambojanos foram transformados em carne de canhão para proteger vidas norte-americanas.


Tiro pela culatra: os bombardeios dão ao pequeno Khmer Vermelho as condições para a chegada ao poder


A última fase da campanha, de fevereiro a agosto de 1973, teve por objetivo deter o avanço do Khmer Vermelho sobre a capital cambojana, Phnom Penh. Temendo a queda iminente do primeiro dominó do Sudeste Asiático, os EUA partiram para uma escalada da guerra aérea sem precedentes na história – um bombardeio maciço de B52 que se alastrou das cercanias densamente povoadas de Phnom Penh para quase todas as regiões do país. A verdadeira amplitude do bombardeio permanecia ignorada até agora.


Os dados liberados por Clinton mostram que a carga total de bombas lançadas durante o período em questão foi quase cinco vezes maior do que os números geralmente aceitos. A fim de situar em perspectiva o total retificado de 2.756.941 toneladas, os Estados Unidos lançaram pouco mais de 2 milhões de toneladas de bombas durante toda a II Guerra Mundial, incluídas as duas bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki (de 15 e 20 mil toneladas, respectivamente). O Camboja terá sido o país mais bombardeado em toda a história.


Um B52-D “Big Belly” comporta uma carga útil de até 108 bombas de 225 quilos, ou 42 bombas de 340 quilos, lançadas sobre um alvo de aproximadamente 500 x 1.500 metros. Em muitos casos, as aldeias cambojanas foram atingidas por dezenas de cargas durante horas a fio. O resultado foi a destruição quase total. Um oficial norte-americano afirmou na época: “Tinham-nos dito, como disseram a toda a gente... que os tapetes de bombas eram totalmente devastadores, que nada sobrevivia a um raide de B52.” Anteriormente, o total de vítimas civis provocadas pelo bombardeio era estimado entre 50 e 150 mil mortos. Diante, porém, da quintuplicação da tonelagem revelada pelo banco de dados, esse número foi seguramente maior.


A campanha de bombardeio do Camboja teve dois efeitos colaterais imprevistos que acabaram interagindo para produzir exatamente o efeito-dominó que a intervenção dos EUA no Vietnã pretendia impedir. Primeiro, ela obrigou os comunistas vietnamitas a embrenhar-se no Camboja, colocando-os em estreito contato com os insurgentes do Khmer Vermelho. Segundo, ela empurrou o povo cambojano para os braços do Khmer Vermelho, um movimento que a princípio parecia ter reduzidas chances de êxito revolucionário. O próprio Pol Pot [2] admitiu que o Khmer Vermelho se resumia então a “menos de cinco mil guerrilheiros mal armados... espalhados pelo território do Camboja, inseguros de sua estratégia, tática, lealdade e liderança.”


Anos depois do fim da guerra, o jornalista Bruce Palling perguntou a Chhit Do, um ex-comandante do Khmer Vermelho, se as suas forças tinham se utilizado do bombardeio para alimentar a propaganda anti-EUA. Chhit respondeu:


Depois de um bombardeio, eles sempre levavam a gente para ver as crateras, para ver como elas eram grandes e fundas, para ver como a terra ficava revolvida e estorricada... Às vezes, os pobres-diabos cagavam nas calças, literalmente, quando vinham as bombas e granadas mais pesadas. Eles simplesmente saíam do ar, ficavam mudos, andando sem destino durante três, quatro dias... Aterrorizado e um tanto abalado, o povo estava preparado para acreditar naquilo que lhe diziam. Foi por causa de sua revolta com o bombardeio que eles continuaram a colaborar com o Khmer Vermelho, a engrossar as suas fileiras, a mandar os filhos embora de casa para se apresentarem como voluntários... Quando as bombas caíam e matavam criancinhas de colo, seus pais aderiam em peso ao Khmer Vermelho.


O governo Nixon sabia que o Khmer Vermelho estava ganhando os camponeses para a sua causa. O Diretório de Operações da CIA, após investigações conduzidas ao sul de Phnom Penh, informou, em maio de 1973, que os comunistas estavam “utilizando os danos causados pelos ataques de B52 como peça principal de sua propaganda.” Mas esse fato parece não ter recebido prioridade nas considerações de ordem estratégica.


Impotência do Congresso: por meio da mentira, Nixon prolonga ataques e guerra durante anos anos


O governo Nixon manteve o bombardeio em segredo por tanto tempo, que as discussões sobre o seu impacto tiveram lugar tarde demais. Somente em 1973 o Congresso, irritado com a devastação causada pela campanha e com a fraude sistemática utilizada para acobertá-la, decretou a sua suspensão. Mas então, o estrago já tinha sido feito. O Khmer Vermelho, contando com mais de 200 mil soldados e milicianos por volta de 1973, tomou Phnom Penh dois anos depois. E não parou, submetendo o Camboja a uma revolução agrária maoísta e ao genocídio que matou mais de 1,7 milhão de pessoas.


A Doutrina Nixon partia do pressuposto de que os Estados Unidos poderiam suprir um regime aliado com os recursos necessários para enfrentar desafios internos ou externos, enquanto as suas tropas terrestres eram desengajadas ou, em certos casos, simplesmente se mantinham de prontidão nas proximidades. No Vietnã, ela implicou desenvolver a capacidade de combate do exército sul-vietnamita enquanto as unidades norte-americanas se retiravam gradualmente do terreno. No Camboja, Washington forneceu ajuda militar para sustentar o regime de Lon Nol de 1970 a 1975, enquanto a força aérea dos EUA executava a sua campanha de bombardeio maciço.


A estratégia dos Estados Unidos no Iraque poderá sofrer uma mudança de curso semelhante. Seymour Hersch, escrevendo na revista New Yorker em dezembro de 2005, notou que um aspecto fundamental dos planos de redução de tropas dos EUA seria a sua substituição pelo poder aéreo. “Pretendemos apenas modificar a proporção das forças empenhadas em combate – infantaria iraquiana com apoio dos Estados Unidos e maior utilização do poder aéreo,” afirmou Patrick Clawson, vice-diretor do Washington Institute for Near East Policy (WINEP).


Os críticos argumentam que a primazia do poder aéreo poderá causar um número ainda maior de vítimas civis, acabando por favorecer a insurgência no Iraque. Andrew Brookes, ex-diretor de estudos do poder aéreo da Escola do Estado-Maior da Real Força Aérea (RAF), disse a Hersch, “Não acho que o poder aéreo seja uma solução para os problemas enfrentados no Iraque, em absoluto. A substituição de tropas terrestres pela força aérea não funcionou no Vietnã, funcionou?”.


É verdade que os ataques aéreos são mais precisos hoje do que eram durante a guerra da Indochina — portanto, ao menos em teoria, alvos não-identificados seriam atingidos com menos freqüência e o número de vítimas civis tenderia a cair. No entanto, a morte de civis tem sido a norma nas campanhas do Iraque e do Afeganistão, e o mesmo se verificou durante o bombardeio do Líbano pelas forças de Israel em julho-agosto de 2006. Tal como sucedeu no Camboja, os prováveis beneficiários serão os movimentos de insurgência. Para citar um exemplo, em 13 de janeiro de 2006, um ataque desfechado por aviões teleguiados não-tripulados, Predator, contra uma aldeia situada na zona da fronteira paquistanesa matou dezoito civis, entre eles, cinco mulheres e cinco crianças. Essas mortes reverteram as expectativas favoráveis geradas pelos bilhões de dólares investidos naquela região do Paquistão após o terremoto devastador de meses antes. A questão vem a propósito: os bombardeios compensarão os riscos estratégicos?


Se a experiência do Camboja nos ensinou algo, foi que a subestimação da mortandade de civis resulta em parte de uma incapacidade de compreender como as insurgências se processam. Os motivos que levam a população local a colaborar com tais movimentos não se encaixam nas digressões estratégicas do tipo daquelas praticadas por Kissinger e Nixon. Aqueles que tiveram as suas vidas arruinadas não se preocupam com as razões de ordem geopolítica por trás dos ataques; eles tendem a responsabilizar os atacantes. O fracasso da intervenção dos Estados Unidos no Camboja reside não somente na mortandade de civis causada por uma campanha de bombardeio jamais vista em toda a história, mas também na sucessão de fatos que ela desencadeou, quando o regime do Khmer Vermelho se ergueu das crateras de bombas com trágicas conseqüências. A evolução dos acontecimentos no Iraque poderá tomar um rumo semelhante.

Tradução: Hugo Mader

[1] A tradução para o português sugere certa morbidez na escolha de nomes para os alvos a serem bombardeados: Café-da-manhã, Almoço, Sopa, Jantar, Sobremesa e Petisco (Nota da Redação brasileira)

[2] Principal dirigente do Partido Comunista Khmer (Khmer Vermelho) desde 1966, Pol Pot chegou ao poder em 1975 e comandou um governo marcado pela ruralização forçada da sociedade e pelo genocídio. Para mais informações, consultar verbetes da Wikipedia em português ou inglês (mais completo)




http://plutocracia.com/artigos/fogo_sobre_o_camboja.html


http://diplo.org.br/2008-01,a2153


« Última modificação: 01 de Setembro de 2017, 12:51:09 por JJ »

Offline JJ

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Re:Camboja
« Resposta #1 Online: 01 de Setembro de 2017, 12:41:13 »

O texto foi publicado originalmente no Le Monde Diplomatique:


HISTÓRIA

Fogo sobre o Camboja


Novas informações revelam: bombardeios dos EUA sobre o país, entre 1965 e 73, foram cinco vezes mais intensos que se supunha, e possivelmente os mais pesados da História. Brutalidade entregou população ao extremismo genocida do Khmer Vermelho — presságio do que pode ocorrer no Iraque

16 de janeiro de 2008

Por: Taylor Owen , Ben Kierna


http://diplomatique.org.br/fogo-sobre-o-camboja/



Offline Gauss

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Re:Camboja
« Resposta #2 Online: 01 de Setembro de 2017, 21:19:46 »
O anti-americanismo do JJ fez ele recorrer ao revisionismo histórico. Parabéns.
Citação de: Gauss
Bolsonaro é um falastrão conservador e ignorante. Atualmente teria 8% das intenções de votos, ou seja, é o Enéas 2.0. As possibilidades desse ser chegar a presidência são baixíssimas, ele só faz muito barulho mesmo, nada mais que isso. Não tem nenhum apoio popular forte, somente de adolescentes desinformados e velhos com memória curta que acham que a ditadura foi boa só porque "tinha menos crime". Teria que acontecer uma merda muito grande para ele chegar lá.

Offline JJ

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Re:Camboja
« Resposta #3 Online: 01 de Setembro de 2017, 22:55:50 »


Revisionismo coisa nenhuma, isto é a história real, as  informações constam do próprio banco de dados da Força Aérea sobre a campanha de bombardeio promovida pelos Estados Unidos na Indochina entre 1964 e 1975, mas parece que a  paixão de algumas pessoas  por certos dirigentes é maior.



« Última modificação: 02 de Setembro de 2017, 08:34:10 por JJ »

Offline Geotecton

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Re:Camboja
« Resposta #4 Online: 02 de Setembro de 2017, 09:23:50 »
Revisionismo coisa nenhuma, isto é a história real, as  informações constam do próprio banco de dados da Força Aérea sobre a campanha de bombardeio promovida pelos Estados Unidos na Indochina entre 1964 e 1975, mas parece que a  paixão de algumas pessoas  por certos dirigentes é maior.

E?
Foto USGS

Offline JJ

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Re:Camboja
« Resposta #5 Online: 02 de Setembro de 2017, 11:15:24 »
Revisionismo coisa nenhuma, isto é a história real, as  informações constam do próprio banco de dados da Força Aérea sobre a campanha de bombardeio promovida pelos Estados Unidos na Indochina entre 1964 e 1975, mas parece que a  paixão de algumas pessoas  por certos dirigentes é maior.

E?


E apesar de várias  pessoas ingênuas enxergarem bondades nas relações internacionais entre os muito diferentes, o que geralmente temos é algo muito diferente de bondade.



Offline JJ

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Re:Camboja
« Resposta #6 Online: 02 de Setembro de 2017, 11:20:25 »


Fogo, ondas de choque,  estilhaços de aço,  demolição, destruição, geralmente são os presentes mais comuns levados por invasores.



Offline Gauss

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Re:Camboja
« Resposta #7 Online: 02 de Setembro de 2017, 19:25:01 »
Revisionismo coisa nenhuma, isto é a história real, as  informações constam do próprio banco de dados da Força Aérea sobre a campanha de bombardeio promovida pelos Estados Unidos na Indochina entre 1964 e 1975, mas parece que a  paixão de algumas pessoas  por certos dirigentes é maior.
Os EUA de fato bombardearam o Camboja e mataram cerca de 200.000 cambojanos, muitos dos quais guerrilheiros comunistas, durante a Guerra do Vietnã. O revisionismo está em afirmar que a ascensão ou suposto apoio popular ao Khmer Vermelho se deu pelos bombardeios dos EUA (que eram apoiados pela República do Camboja durante a Guerra do Vietnã, diga-se). O Khmer Vermelho surgiu e foi financiado pela China, URSS e Vitenã do Norte. Ponto. Qualquer afirmação contrária é revisionismo.
Citação de: Gauss
Bolsonaro é um falastrão conservador e ignorante. Atualmente teria 8% das intenções de votos, ou seja, é o Enéas 2.0. As possibilidades desse ser chegar a presidência são baixíssimas, ele só faz muito barulho mesmo, nada mais que isso. Não tem nenhum apoio popular forte, somente de adolescentes desinformados e velhos com memória curta que acham que a ditadura foi boa só porque "tinha menos crime". Teria que acontecer uma merda muito grande para ele chegar lá.

Offline JJ

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Re:Camboja
« Resposta #8 Online: 02 de Setembro de 2017, 19:57:08 »
EUA contribuíram com ascensão de Pol Pot, diz réu do Khmer



O torturador-chefe do regime cambojano do Khmer Vermelho disse nesta segunda-feira a um tribunal especial que as políticas norte-americanas da década de 1970 no Sudeste Asiático contribuíram com a ascensão daquela cruel ditadura.
 
         
EK MADRA, REUTERS

06 Abril 2009 | 10h38

Kaing Guek Eav, o Duch, primeiro de cinco dirigentes do Khmer Vermelho a ser julgado pelas atrocidades cometidas durante o regime (1975-79) que matou 1,7 milhão de cambojanos, disse que o grupo do ditador Pol Pot teria sumido se os EUA não tivessem se envolvido no Camboja.

"(O presidente dos EUA) Richard Nixon e (o secretário de Estado) Henry Kissinger permitiram que o Khmer Vermelho agarrasse oportunidades de ouro", disse Duch, de 66 anos, no início da segunda semana do seu julgamento, em um tribunal promovido conjuntamente pela ONU e pelo governo do Camboja.

O réu dirigiu a célebre prisão S-21, onde mais de 14 mil "inimigos da revolução" foram torturados e mortos.

Na semana passada, ele pediu perdão por seus crimes. Acusado de crimes contra a humanidade, crimes de guerra, tortura e homicídio, Duch pode ser condenado à prisão perpétua.

Questionado pelo juiz sobre como aderiu ao Khmer Vermelho, Duch deu uma longa e errática explicação, que incluiu as referências a Nixon e Kissinger.

O Camboja se tornou um campo de batalha da Guerra Fria em 1969, quando o governo Nixon começou a bombardear rotas no leste do país que os norte-vietnamitas (pró-soviéticos) usavam para levar homens e suprimentos para seus combates no Vietnã do Sul, que tinha um governo aliado dos EUA.

Em 1970, o príncipe (hoje "rei-pai") do Camboja, Norodom Sihanouk, foi deposto por um golpe comandado pelo general pró-americano Lon Nol, que entrou em guerra contra os comunistas do Vietnã e do próprio Camboja.

Sihanouk posteriormente estabeleceu aliança com o Khmer Vermelho e conclamou os cambojanos a lutarem contra o regime de Lon Nol, derrubado em 1975 pelo Exército de Pol Pot.

"O príncipe Sihanouk convocou o povo cambojano a aderir ao Khmer Vermelho comunista na selva, e isso permitiu que o Khmer Vermelho acumulasse suas tropas entre 1970 e 75," disse ele.

Sem isso, alegou Duch, "acho que o Khmer Vermelho teria sido demolido."

O regime do Khmer Vermelho foi derrubado por uma invasão vietnamita em 1979. Após a morte de Pol Pot, em 1998, Kissinger defendeu a decisão de bombardear o Camboja como sendo parte da Guerra do Vietnã, e disse que o fato não teve relação com as atrocidades cometidas posteriormente no país.


http://www.estadao.com.br/noticias/geral,eua-contribuiram-com-ascensao-de-pol-pot-diz-reu-do-khmer,350769




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 :hihi:




« Última modificação: 02 de Setembro de 2017, 19:59:40 por JJ »

Offline Daniel_1993

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Re:Camboja
« Resposta #9 Online: 02 de Setembro de 2017, 22:26:36 »
O verdadeiro suporte ao governo comunista do Camboja veio da China, que inclusive entrou em guerra contra o Vietnã quando este derrubou o regime de Pol Pot.
“You will never be happy if you continue to search for what happiness consists of. You will never live if you are looking for the meaning of life.”
― Albert Camus

“The way to love anything is to realize that it may be lost.”
― G.K. Chesterton

“The first duty of a man is to think for himself”
― José Martí

Não sou mais um marxista-stalinista: http://clubecetico.org/forum/index.php?topic=30157.0

Offline JJ

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Re:Camboja
« Resposta #10 Online: 03 de Setembro de 2017, 06:26:21 »
O verdadeiro suporte ao governo comunista do Camboja veio da China, que inclusive entrou em guerra contra o Vietnã quando este derrubou o regime de Pol Pot.


Lá vem o escocês de verdade...


A questão colocada claramente no texto inicial deste tópico é que  o mega bombardeio  promovido pelo bombardeador mor do mundo,  contribuiu muito para que um fraco grupo comunista que tinha 5.000 membros se transformasse num grupo forte com 200.000 membros, e que assim teve condições de tomar o poder.

A China ter dado apoio (durante e/ou posteriormente)  é outra questão.



« Última modificação: 03 de Setembro de 2017, 07:09:32 por JJ »

Offline JJ

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Re:Camboja
« Resposta #11 Online: 03 de Setembro de 2017, 07:12:38 »


E lembrando que um mega bombardeio contra um país que nada estava fazendo  contra o bombardeador não é exatamente uma ação virtuosa merecedora de elogios.  E tampouco é uma ação insignificante que tenha tido consequências insignificantes.

« Última modificação: 03 de Setembro de 2017, 07:16:24 por JJ »

Offline Daniel_1993

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Re:Camboja
« Resposta #12 Online: 03 de Setembro de 2017, 11:52:46 »
O verdadeiro suporte ao governo comunista do Camboja veio da China, que inclusive entrou em guerra contra o Vietnã quando este derrubou o regime de Pol Pot.


Lá vem o escocês de verdade...


A questão colocada claramente no texto inicial deste tópico é que  o mega bombardeio  promovido pelo bombardeador mor do mundo,  contribuiu muito para que um fraco grupo comunista que tinha 5.000 membros se transformasse num grupo forte com 200.000 membros, e que assim teve condições de tomar o poder.

A China ter dado apoio (durante e/ou posteriormente)  é outra questão.

Os textos falam sobre chegada do Pol Pot ao poder e o apoio da China foi decisivo nessa caso, portanto faz parte do assunto. Afinal quem deu suporte financeiro, militar e teórico para essa guerrilha comunista vencer a guerra civil? sem esse apoio eles também não iam conseguir tantos membros. Querer jogar a subida de um regime comunista que foi apoiado por outros regimes comunistas (principalmente a China) ns costas dos EUA é sacanagem, não é? Sem intervenção dos EUA na região essas guerrilhas comunistas provavelmente teriam ainda mais poder e facilidades. 

Da Wiki:
Citar
David P. Chandler argues that the bombing "had the effect the Americans wanted – it broke the Communist encirclement of Phnom Penh".Peter Rodman and Eric Lind claimed that the US intervention saved the Lon Nol regime from collapse in 1970 and 1973. Craig Etcheson agreed that it was "untenable" to assert that US intervention caused the Khmer Rouge victory while acknowledging that it may have played a small role in boosting recruitment for the insurgents.
 
« Última modificação: 03 de Setembro de 2017, 12:15:32 por Daniel_1993 »
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― Albert Camus

“The way to love anything is to realize that it may be lost.”
― G.K. Chesterton

“The first duty of a man is to think for himself”
― José Martí

Não sou mais um marxista-stalinista: http://clubecetico.org/forum/index.php?topic=30157.0

Offline JJ

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Re:Camboja
« Resposta #13 Online: 03 de Setembro de 2017, 13:43:10 »

O verdadeiro suporte ao governo comunista do Camboja veio da China, que inclusive entrou em guerra contra o Vietnã quando este derrubou o regime de Pol Pot.


Lá vem o escocês de verdade...


A questão colocada claramente no texto inicial deste tópico é que  o mega bombardeio  promovido pelo bombardeador mor do mundo,  contribuiu muito para que um fraco grupo comunista que tinha 5.000 membros se transformasse num grupo forte com 200.000 membros, e que assim teve condições de tomar o poder.

A China ter dado apoio (durante e/ou posteriormente)  é outra questão.

Os textos falam sobre chegada do Pol Pot ao poder e o apoio da China foi decisivo nessa caso, portanto faz parte do assunto. Afinal quem deu suporte financeiro, militar e teórico para essa guerrilha comunista vencer a guerra civil? sem esse apoio eles também não iam conseguir tantos membros. Querer jogar a subida de um regime comunista que foi apoiado por outros regimes comunistas (principalmente a China) ns costas dos EUA é sacanagem, não é? Sem intervenção dos EUA na região essas guerrilhas comunistas provavelmente teriam ainda mais poder e facilidades. 




Não é "sacanagem",  é história  bem documentada.  Certamente que a China tem a sua (boa) parcela de culpa, mas querer inocentar os outros caras totalmente tendo em vista as informações históricas já informadas torna-se estranho,  fica parecendo uma apologia direcionada a um dos lados.




Offline Gauss

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Re:Camboja
« Resposta #14 Online: 03 de Setembro de 2017, 15:36:20 »
Não é "sacanagem",  é história  bem documentada.  Certamente que a China tem a sua (boa) parcela de culpa, mas querer inocentar os outros caras totalmente tendo em vista as informações históricas já informadas torna-se estranho,  fica parecendo uma apologia direcionada a um dos lados.
Os EUA bombardearam o Camboja à partir de 1969(possivelmente 1965, nas regiões fronteiriças com o Vietnã do Sul), após o surgimento do Khmer Vermelho e a pedido do Camboja, tendo como objetivo principal atacar as trilhas e posições norte-vietnamitas e militantes do Khmr Vermelho no país. É óbvio que muitos civis morreram, mas é unanimidade para os especialistas que esses bombardeios provavelmente atrasaram a queda da República do Khmer para o Khmer Vermelho. A ascensão do Khmer Vermelho é culpa quase que exclusiva da China e do Vietnã do Norte. Putz, parece que estou discutindo com um daqueles caras que fala que o Nazismo é de esquerda.

https://en.wikipedia.org/wiki/Operation_Menu

https://en.wikipedia.org/wiki/Operation_Freedom_Deal
Citação de: Gauss
Bolsonaro é um falastrão conservador e ignorante. Atualmente teria 8% das intenções de votos, ou seja, é o Enéas 2.0. As possibilidades desse ser chegar a presidência são baixíssimas, ele só faz muito barulho mesmo, nada mais que isso. Não tem nenhum apoio popular forte, somente de adolescentes desinformados e velhos com memória curta que acham que a ditadura foi boa só porque "tinha menos crime". Teria que acontecer uma merda muito grande para ele chegar lá.

Offline JJ

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Re:Camboja
« Resposta #15 Online: 17 de Outubro de 2019, 09:36:04 »
As bombas esquecidas que matam mais crianças do que adultos



Pablo Uchoa
BBC World Service
31 agosto 2018



A maioria dos civis mortos em 2017 pelas bombas de fragmentação não detonadas no mundo era criança

Em março do ano passado, uma menina de dez anos estava a caminho da escola no Laos quando encontrou um objeto metálico redondo e brilhante no chão.

Ela carregou o artefato pelas ruas e levou para uma festa de família em uma pequena vila na província de Xiangkhouang, no norte do país.

O objeto, que ela confundiu com um brinquedo, era na verdade uma bomba lançada no Laos durante ataques aéreos dos EUA entre 1964 e 1973.


E explodiu durante o evento, matando a menina e ferindo 12 de seus parentes – incluindo uma criança de 2 anos e um adulto de 57.


As bombas de fragmentação se parecem com uma bola e são do tamanho de laranjas

Longe de ser um caso isolado, o incidente foi um lembrete de quantos civis – grande parte, crianças – são mortos a cada ano por resquícios de bombas de fragmentação lançadas em zonas de guerra em todo o mundo.

Apesar do esforço internacional para proibi-los, esses artefatos ainda são usados em conflitos, como na Síria e no Iêmen, matando centenas de civis.

Erros mortais

As bombas de fragmentação carregam vários explosivos menores que, ao serem lançados, se espalham por uma vasta área, causando um estrago maior que uma bomba convencional.

Mas essa ação indiscriminada significa que 99% das vítimas são civis. E, como alguns artefatos não explodem, permanecendo intactos, acabam matando civis acidentalmente muito tempo depois que as bombas foram lançadas originalmente.


As crianças são especialmente vulneráveis às bombas de fragmentação, atraídas por sua aparência de brinquedo

Assim como as minas terrestres, esses artefatos são particularmente perigosos para as crianças, que são naturalmente curiosas e as confundem com brinquedos.

No ano passado, 289 pessoas foram mortas por ataques com bombas de fragmentação e, na sequência, pelos explosivos que não haviam sido detonados, de acordo com o relatório anual do Cluster Munition Monitor.

A maioria das vítimas estava na Síria (187) e no Iêmen (54), onde esses explosivos estão sendo ativamente usados.

O número de mortos foi muito menor do que no ano anterior, quando 857 pessoas foram mortas na Síria, elevando o número total de vítimas para 971.

Segundo o relatório, as bombas "esquecidas" também tiraram vidas no Camboja, Iraque, Laos, Líbano, Sérvia, Síria, Vietnã e Iêmen, assim como nos territórios de Nagorno-Karabakh e no Saara Ocidental.

Mas enquanto as crianças correspondiam a 36% das vítimas em geral, elas representavam 62% dos mortos por dispositivos remanescentes.



'País mais bombardeado'


Titus Peachey faz parte de um grupo de estrangeiros que conversou com sobreviventes após a explosão de março de 2017 no Laos.

Ele preside o conselho da ONG Legacies of War ("legados da guerra", na tradução literal para o português), criada em 2004 para buscar uma solução para o problema dos explosivos não detonados após o bombardeio americano.

O Laos detém o título de país mais bombardeado do mundo per capita. Durante a Guerra do Vietnã, os EUA lançaram cerca de 260-270 milhões de bombas em uma "batalha secreta" para combater a insurgência comunista.



Os EUA lançaram cerca de 270 milhões de bombas de fragmentação no Laos

Cerca de um terço dos artefatos não explodiu, e apenas uma fração foi removida.

Peachey diz que ainda existem de 75 a 80 milhões de bombas não detonadas espalhadas pelo Laos que precisam ser eliminadas.

Ele contou à BBC que, em sua última visita ao país, ele se encontrou com um homem que perdeu os dois filhos. Eles tinham saído para pegar o búfalo da família e encontraram um artefato intacto.

Apesar dos esforços para educar as crianças nas escolas sobre os riscos desses explosivos – por meio de campanhas, livros didáticos ilustrados e até teatro de marionetes –, ainda ocorrem incidentes fatais.


Crianças aprendem sobre bombas de fragmentação na escola no Laos

O relatório Cluster Munition Monitor de 2018 mostra que 26 países e outros três territórios ainda estão contaminados por resquícios de bombas de fragmentação.

E há uma preocupação especial com os civis na Síria e no Iêmen, onde foi registrado o uso do explosivo recentemente.

Nos últimos cinco anos, 77% das vítimas de bombas de fragmentação em todo o mundo estavam na Síria, onde o governo continuou a utilizar essas bombas com o apoio da Rússia, de acordo com o relatório.

Mas tanto a Síria quanto a Rússia negam deter bombas de fragmentação.

No Iêmen, a coalizão liderada pela Arábia Saudita usou bombas fornecidas pelos EUA em 2017.

Direito de imagemREUTERS
Image caption
Mais de 75% das mortes por bombas de fragmentação nos últimos cinco anos foram registradas na Síria
Mas a Cluster Munition Coalition afirma que novos ataques provavelmente não foram notificados.

Convenção da ONU
Dez anos após a convenção da ONU proibir o uso e armazenamento de bombas de fragmentação, 120 países assinaram o acordo – embora nem todos o tenham ratificado.

Juntos, esses países destruíram 99% de seus estoques de armas.

Mas esses esforços são limitados, já que países como os EUA, Rússia, Israel, Paquistão, Índia e Arábia Saudita não fazem parte do acordo.


Há campanhas para limpar as áreas onde há bombas não detonadas no norte do Laos

As forças armadas são relutantes em abrir mão do armamento, pois com ele um piloto pode atingir uma instalação militar com apenas uma tentativa – minimizando assim os riscos para o piloto.

Mas, com um histórico que sugere pouca confiabilidade, é provável que essas bombas continuem representando uma ameaça para os civis anos após serem lançadas.

"As bombas de fragmentação representam um perigo extremo para os civis no momento do uso, como os conflitos na Síria e no Iêmen mostram, mas os dispositivos remanescentes também oferecem uma ameaça significativa para os civis muito tempo após o conflito ter terminado, como revelam os casos registrados no Laos e em outros países", diz Jeff Abramson, coordenador do relatório.


https://www.bbc.com/portuguese/internacional-45366508



« Última modificação: 17 de Outubro de 2019, 09:38:14 por JJ »

Offline Pedro Reis

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Re:Camboja
« Resposta #16 Online: 08 de Novembro de 2019, 10:07:02 »

 

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