Autor Tópico: Diagnóstico psiquiátrico é “cientificamente insignificante”: estudo  (Lida 311 vezes)

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Offline Brienne of Tarth

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"Um novo estudo da Universidade de Liverpool, no Reino Unido, fez uma descoberta um tanto chocante: depois de examinar o manual que a maioria dos profissionais de psiquiatria utiliza para realizar diagnósticos, concluiu que ele é “cientificamente insignificante” no que se trata de identificar e diferenciar distúrbios mentais.

Inútil

Os pesquisadores examinaram cinco capítulos do mais recente “Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais” (também conhecido pela sigla em inglês DSM), utilizado por profissionais de todo o mundo. O objetivo do DSM é criar uma “linha comum” a ser seguida no diagnóstico de doenças mentais, e inclui listas de sintomas.
Os capítulos analisados se referiam às seguintes condições: esquizofrenia; transtorno bipolar; transtornos de depressão; transtornos de ansiedade; e transtornos relacionados a traumas.

Os pesquisadores descobriram que os diagnósticos psiquiátricos não seguem padrões – ao contrário, cada diagnóstico usa raciocínios diferentes para tomada de decisão.

Além disso, existe uma enorme quantidade de sobreposição nos sintomas e quase todos os diagnósticos não levam em conta o papel do trauma e de eventos adversos na vida do “doente”. Por fim, os diagnósticos dizem muito pouco sobre cada paciente como indivíduo e sobre qual tratamento este indivíduo necessita.

Em outras palavras, os diagnósticos do DSM “representam um sistema categórico falso”, de forma que ele é virtualmente inútil.
Destilando as conclusões

O que os pesquisadores querem dizer com raciocínios diferentes para tomada de decisão e grande sobreposição de sintomas?

Que “diagnósticos frequentes e não críticos relatados como ‘doenças reais’ são de fato feitos com base em inconsistências internas e padrões confusos e contraditórios de critérios amplamente arbitrários”. “O sistema de diagnóstico supõe erroneamente que todo sofrimento resulta de distúrbios e depende fortemente de julgamentos subjetivos sobre o que é normal”, explica Peter Kinderman, da Universidade de Liverpool.
Os pesquisadores acham que a abordagem diagnóstica biomédica em psiquiatria não é adequada ao seu propósito; pelo contrário, é superficial e enganadora.

“Embora os rótulos diagnósticos criem a ilusão de uma explicação, eles são cientificamente insignificantes e podem criar estigma e preconceito. Espero que esses resultados encorajem os profissionais de saúde mental a pensar além dos diagnósticos e considerar outras explicações de sofrimento mental, como trauma e outras experiências de vida adversas”, resume a principal autora do novo estudo, a Dra. Kate Allsopp.
“Talvez seja a hora de pararmos de fingir que os rótulos que soam médicos contribuem com alguma coisa para nossa compreensão das complexas causas do sofrimento humano ou sobre o tipo de ajuda precisamos quando aflitos”, concluiu John Read, da Universidade de East London.

Um artigo sobre o estudo foi publicado na revista científica Psychiatry Research. [MedicalXpress]" Fonte: https://hypescience.com/diagnostico-psiquiatrico-e-cientificamente-insignificante-descobre-estudo/


Eu li Freud e seu discípulo, Jung, e sempre perguntei sobre esses "métodos" à amigos da área, nada obtendo além de respostas acadêmicas rasas: há algum forista aqui no CC que pode ajudar?
Se for como diz o estudo, a Psicologia e a Psiquiatria são pseudociências?  :hein:
GNOSE

Offline Buckaroo Banzai

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Re:Diagnóstico psiquiátrico é “cientificamente insignificante”: estudo
« Resposta #1 Online: 23 de Agosto de 2019, 17:31:02 »
Eu não sei de detalhes, mas acho que o problema vai se reduzindo com diagnósticos múltiplos e talvez até correlatos de imageamento cerebral, embora isso não deva ser usado comumente como parte do diagnóstico, talvez até por falta de necessidade.

O problema de diagnosticar condições médicas não é exclusivo da psiquiatria. É mais ou menos comum mulheres morrerem do coração por seus sintomas de infarto serem bastante diferentes dos masculinos, e não só elas mesmas, mas também médicos, muitas vezes falharem em diagnosticar. Esse tipo de problema não pode embasar uma negação das condições. No máximo aponta a necessidade de maior rigor de diagnóstico, aprimoramento das técnicas.

Jung e Freud não devem poder ser colocados na mesma "categoria" de psiquiatria moderna, nem mesmo psicologia, embora vá haver uma considerável aceitação de suas perspectivas realmente pseudocientíficas.

https://universoracionalista.org/psicanalise-uma-pseudociencia-escondida-a-vista-de-todos/

Offline -Huxley-

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Re:Diagnóstico psiquiátrico é “cientificamente insignificante”: estudo
« Resposta #2 Online: 24 de Agosto de 2019, 11:19:31 »
http://clubecetico.org/forum/index.php?topic=30365.0

No tópico "Argumento de apelo à autoridade: quem decide quem é o especialista?", eu citei um psicólogo chamado James Shanteau, que já publicou estudo em que se detectou profissões em que os "especialistas" tendem a ser não especialistas. Na lista dele dessas profissões estavam os psiquiatras e o seus "parentes", os psicólogos clínicos.

No que diz respeito à psicologia, ela tem uma razoável capacidade preditiva, mas isso se refere à psicologia experimental. Psicologia clínica é outra coisa. Para entender isso, basta voltar a uma informação de um post que eu fiz no tópico cujo link já publiquei, que é o seguinte. Um esforço recente para reproduzir os cem trabalhos de psicologia em periódicos de “prestígio” de 2008 constatou que, de cem, apenas trinta e nove replicaram. Além disso, eu imagino que não seria uma estimativa arrojada crer que, destes trinta e nove, menos de dez são realmente robustos para serem transferidos para fora da estreiteza do experimento. No mundo acadêmico, pode-se cair no erro de achar que não existiria diferença entre o mundo do experimento e o mundo real. No mundo real, existe diferença sim entre os dois. As teorias de complexidade sugerem que existem domínios em que você não pode generalizar o conhecimento das partes, como já argumentei neste fórum.

Ademais, o desempenho fraco dos psicólogos clínicos em ambiente de muito ruído levou a uma sugestão acadêmica inusitada, como expôs Daniel Kahnemann no seu livro Rápido e Devagar. O psicólogo Paul Meehl constatou que os melhores algoritmos estatísticos superam de longe os humanos em tais ambientes. Em outras palavras, a combinação mecânica de algumas variáveis sobrepujam as habilidades em determinadas tarefas dos psicólogos clínicos.
« Última modificação: 24 de Agosto de 2019, 11:22:57 por -Huxley- »

Offline Buckaroo Banzai

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Re:Diagnóstico psiquiátrico é “cientificamente insignificante”: estudo
« Resposta #3 Online: 24 de Agosto de 2019, 13:28:14 »
Tem certeza que não é psicologia clínica que tem melhor "reprodutibilidade" que a experimental? Achava que já tivesse lido algo nesse sentido, ao mesmo tempo em que parece quase que necessariamente o mais provável simplesmente por "freqüência." Psicologia clínica e psiquiatria são "práticas," "indústrias" (sem carga pejorativa aqui), que repetidamente lidarão com condições que devem elas mesmas se repetir (assumindo existirem condições similares e repetidas de "má saúde mental", em vez de se desprezar isso como cientificismo capitalista patriarcal burguês eurocêntrico racista), enquanto a psicologia experimental é um bando de gente elaborando algumas "pegadinhas," que não vão ser regularmente repetidas.

Citar
https://en.wikipedia.org/wiki/Replication_crisis#In_psychology

[...] Because the reproducibility of experiments is an essential part of the scientific method,[5] the inability to replicate the studies of others has potentially grave consequences for many fields of science in which significant theories are grounded on unreproducible experimental work. The replication crisis has been particularly widely discussed in the field of psychology (and in particular, social psychology) and in medicine, where a number of efforts have been made to re-investigate classic results, and to attempt to determine both the reliability of the results, and, if found to be unreliable, the reasons for the failure of replication.[6][7] [...]


A maioria das instâncias de "clinical" parecem ser referentes a medicina e não psicologia. Não parece haver menção de psiquiatria.


Kinderman parece estar bem no limiar de anti-psiquiatria.


No blog de um dos apresentadores do "skeptic's guide to the universe," que é ele mesmo neurologista, falando sobre uma publicação anterior de Kinderman:

Citar
https://theness.com/neurologicablog/index.php/dsm-v-mental-illness-vs-normal-behavior/

[...]

Kinderman is saying that a mental illness diagnosis leads to the assumption of a biological cause and therefore to a medical (pharmacological) treatment. Rather, he argues:

Citar
It is relatively straightforward to generate a simple list of problems that can be reliably and validly defined. There is no reason to assume that these phenomena cluster into diagnostic categories or are the consequences of underlying illnesses.

We can then use medical and psychological science to understand how problems might have originated, and recommend therapeutic solutions.

But this is already the accepted approach to mental illness – except the bit about categories, but more on that in a moment. The DSM essentially is the practice of generating a list of problems that can be reliably and validly defined. Sorting such lists into categories does assume a certain amount of clustering of symptoms, and it is really that clustering that Kinderman is opposing. I do not think he has made his case, however.

In reality psychiatrists understand that the categories, or clusters of symptoms, with labels in the DSM are partly labels of convenience – for research, clinical reporting, and insurance coverage. I have personally never spoken to a psychiatrist who thinks that the categories in the DSM are iron clad, or that patients really sort cleanly into these diagnoses. They are at best a first approximation, a starting point, which then need to be individualized to the patient.

Further, I think there is some legitimacy to the clustering. There are syndromes, clusters of symptoms that do tend to occur together. Then there is a great deal of individual variation around the common themes represented by these clusters (which are DSM diagnostic categories).

Most importantly, the question as to which therapeutic approach is most effective can be completely disconnected to how we approach labeling symptoms. Here we should follow the clinical evidence wherever it leads. What I see in the literature, and with practitioners that I have interacted with, is that most take a blended approach – using medication and therapy in some combination as necessary. Some patients may need just therapy, while others require medication. As with all areas of medicine – practitioners can argue endlessly about the optimal balance based upon existing evidence, and different specialties will have their differing biases.

[...]


The diagnosis of mental illness remains complex and challenging. I am not arguing that any profession (psychiatry, psychology) has it exactly right, but I do think that the mental professions generally take a thoughtful approach to the question of what mental illness is and how it should be approached.

I disagree with attempts to restrict the debate on mental illness using semantics (usually taking the form of objecting to the term “mental illness”). I also think there are many common straw men brought up in this debate. I was disappointed in Kinderman’s review of the issues, and found that he was largely tilting at these common straw men.

But when you get past the turf-war posturing and semantic arguments, I find there is actually widespread agreement on the important issues. Human mood, thought, and behavior are complex, there is a wide range of variation in what constitutes human mental states, and any thoughtful approach must consider circumstances, environment, culture, and biological considerations, including their complex interactions. Further, therapeutic approaches should consider the full range of potential interventions and should ultimately be evidence-based.


Offline -Huxley-

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Re:Diagnóstico psiquiátrico é “cientificamente insignificante”: estudo
« Resposta #4 Online: 25 de Agosto de 2019, 00:57:51 »
Acredito que esteja havendo uma pequena confusão aí. Uma coisa é o estudo não replicar, outra coisa é ele ter baixa validade externa. Replicação diz respeito a se repetir as conclusões de um estudo em outros estudos. Validade externa refere-se à possibilidade de generalização da relação causal, assim que identificada em ambiente específico com uma população específica, ou seja, até que ponto a relação causal pode ser generalizada a outros locais específicos, tempos e contextos de tarefa. Portanto, é perfeitamente possível um estudo replicar e ser válido apenas para o grupo e o ambiente específico estudados e não poder ser generalizado para outros. Ainda assim, a validade externa em experimentos controlados em laboratório não é improvável; depende da tarefa e do contexto a que está sendo aplicada. Como já mencionou Nassim Taleb, vários fenômenos psicológicos detectados em experimentos de laboratório, tais como dissonância cognitiva, aversão à perda, desconto hiperbólico, superconfiança excessiva e paradoxo da escolha, já eram sabidos por antigos escritores clássicos da era pré-psicologia empírica. Ademais, há quem mencione que, entre experimento controlado em laboratório e observações naturalísticas em estudo de campo, existe o meio termo chamado experimento de campo, que é um estudo em que o observador manipula as variáveis em ambientes naturais e não em laboratórios.

Do outro lado, o problema dos estudos observacionais, mais especificamente o que envolve somente observações naturalísticas, é que, embora lá exista informações nos dados, a agulha está em um palheiro. Não é surpresa que eles produzem resultados que tendem a ser falsos, o que é detectado pelo famoso "problema do especialista" em psicólogos clínicos e psiquiatras. Na perspectiva de Kahnemann, tem-se o seguinte:

Citação de: Daniel Kahnemann, 2012. Rápido e Devagar, Editora Objetiva, p. 284

O problema é que os julgamentos corretos envolvem previsões de curto prazo no contexto da entrevista terapêutica, habilidade em que os profissionais têm muitos anos de prática. As tarefas em que eles tipicamente falham exigem previsões de longo prazo sobre o futuro do paciente. Essas são bem mais difíceis, mesmo as melhores fórmulas saem-se apenas modestamente bem, e são tarefas que os clínicos nunca tiveram oportunidade de aprender adequadamente - eles teriam que esperar anos pelo feedback, em vez de receber o feedback instantâneo da sessão clínica.

Ainda segundo Kahnemann, julgamento intuitivo de especialista depende de duas condições básicas: um ambiente que seja suficientemente regular para ser previsível; uma oportunidade de aprender essas regularidades mediante a prática prolongada.
« Última modificação: 25 de Agosto de 2019, 19:32:05 por -Huxley- »

Offline Brienne of Tarth

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Re:Diagnóstico psiquiátrico é “cientificamente insignificante”: estudo
« Resposta #5 Online: 26 de Agosto de 2019, 12:56:07 »
Estou lendo, estou lendo, por favor não desistam de mim... :ok:
GNOSE

 

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