Autor Tópico: Quem gosta de poesia?  (Lida 38841 vezes)

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Offline Memphis Belle

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Re: Quem gosta de poesia?
« Resposta #150 Online: 15 de Outubro de 2007, 10:49:10 »
Tudo de mim pensa , nada de mim raciocina.
Abro as janelas da alma e vejo o brilho ofuscante de um sol  que está no centro de algum sistema solar.
Fecho-as sem entender.
Mas o brilho está lá.
Tudo em mim  pensa , nada em mim raciocina.
percebo uma série de bobagens , ouço  risos .
Me agonio , me masturbo,
me abandono sem nenhum sentido.
Sozinha, sozinha , sozinha, sozinha , sozinha.
No infinito de mim...
Tudo de mim pensa , nada de mim raciocina.
Fecho um livro. Faço a minha viagem ,
volto e não mais abro as páginas .
Discordo ....frustrada.
Rabisco esperanças  em algum guardanapo já usado ,
amarrotado.
Mas nunca falo de mim.
Tudo de mim pensa , nada de mim raciocina.
Caminho  em passos que admiro.
Choro o fim das pegadas .
Há tanto desejo em mim.
E agora não há mais pegadas a seguir .
Estou por mim.
Dentro de mim.
Pobre de mim.
Tudo de mim pensa , nada de mim raciocina.
Estou ouvindo algo agora ....
Estou ouvindo você agora .
Não gosto do que ouço!
Por que não param de gritar dentro de mim?
Resolvi...Vou calar para entender .
Cansei de brigar.
Tudo de mim pensa , nada de mim raciocina.
Há duas caveiras que se amam.
Uma fui eu a outra poderia ter sido você.
Ainda bem que não é.
Você está vivo é bom saber disso.
Eu já morri,mas continuo aqui...
O que será de mim, não sei.
Tudo de mim pensa , nada de mim raciocina.
Os pássaros estão cantando.
As crianças estão correndo  pelo jardim.
Os velhos estão  sentados  ao sol.
Os jovens  riem de si e de todos.
E eu ainda estou por aqui...pensando , raciocinando.
Até quando, não sei.

Maria Dulce Gonzales.
"Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele ou por sua origem, ou sua religião.
Para odiar, as pessoas precisam aprender.
E se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar, pois o amor chega mais naturalmente ao coração humano do que o seu oposto.
A bondade humana é uma chama que pode ser oculta, jamais extinta."
(Nelson Mandela)

Offline Nyx

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Re: Quem gosta de poesia?
« Resposta #151 Online: 15 de Outubro de 2007, 13:26:04 »
 :| Já aviso que é looooooooooooooooooooonga, mas vale a pena.  :wink:

Citar

O Operário Em Construção

Vinicius de Moraes

Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.

De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia...
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.

Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
– Garrafa, prato, facão –
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.

Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.

Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
– Exercer a profissão –
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.

E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.

E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:

Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.

E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.

Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação
– "Convençam-no" do contrário –
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.

Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!

Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.

Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
– Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.

Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!

– Loucura! – gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
– Mentira! – disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.

E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.

Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.

Offline Nyx

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Re: Quem gosta de poesia?
« Resposta #152 Online: 15 de Outubro de 2007, 13:34:28 »
 :hihi: Um curtinho agora:

Citar
O ACENDEDOR DE LAMPIÔES

Lá vem o acendedor de lampiões da rua !
Este mesmo que vem enfatigavelmente,
Parodiar o sol e associar-se à lua
Quando a sombra da noite enegrecer o poente!

Um, dois, três lampiões, acende e continua
Outros mais acende imperturbavelmente,
À medida que a noite aos poucos se acentua
E a palidez da lua apenas se presente.

Triste irônia atroz, que senso humano irrita:-
Ele que doira a noite e ilumina a cidade.
Talvez não tinha luz na choupana em que habita.

Tanta gente também que nos outros insinua
Crenças, religiões, amor, felicidade,
Como este acendedor de lampiões da rua !
JORGE DE LIMA

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Re: Quem gosta de poesia?
« Resposta #153 Online: 17 de Outubro de 2007, 12:50:11 »
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Antero de Quental

Noturno

Espírito que passas, quando o vento
Adormece no mar e surge a Lua,
Filho esquivo da noite que flutua,
Tu só entendes bem o meu tormento...

Como um canto longínquo - triste e lento-
Que voga e sutilmente se insinua,
Sobre o meu coração que tumultua,
Tu vestes pouco a pouco o esquecimento...

A ti confio o sonho em que me leva
Um instinto de luz, rompendo a treva,
Buscando. entre visões, o eterno Bem.

E tu entendes o meu mal sem nome,
A febre de Ideal, que me consome,
Tu só, Gênio da Noite, e mais ninguém!

Offline Nyx

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Re: Quem gosta de poesia?
« Resposta #154 Online: 05 de Novembro de 2007, 19:17:05 »
Citar
QUEM MATOU APARECIDA?
 
Aparecida, essa moça
cuja história vou contar
não teve glória nem fama
de que se possa falar.
Não teve nome distinto:
criança brincou na lama,
fez-se moça sem ter cama.
Nasceu na Praia do Pinto
morreu no mesmo lugar.
 
Praia do Pinto é favela
que fica atrás do Leblon.
O povo que mora nela
é tão pobre quanto bom:
Cozinha, sem ter panela,
namora sem ter janela,
tem por escola a miséria
e a paciência por dom.
 
No dia que a paciência
do favelado acabar,
que ele ganhar consciência
para se unir e lutar
seu fIlho terá comida
e escola pra estudar
terá água, terá roupa,
terá casa pra morar
no dia que o favelado
resolver se libertar.
 
Mas a nossa Aparecida
chegou cedo por demais
por isso perdeu a vida
que ninguém lhe dará mais.
E sua história esquecida
de poucos meses atrás,
é essa vida perdida
de uma moça sem cartaz,
que está aqui para ser lida
porque nela está contida
a lição que aprenderás.
 
Já bem cedo Aparecida
trabalhava prá comer:
vendia os bolos que a mãe
pra ela vender:
carregava baldes d'água
para banhar e beber.
Comida pouca e água suja
que até dá raiva dizer.
 
Da porta do seu barraco
- de zinco e madeira velha -
olhava o mundo dos ricos
com suas casas de telha.
Os blocos de apartamento
quase tocando no céu
dos quais nem em pensamento
um deles seria seu.
 
Daquele chão de monturo
via o mundo dividido:
Do lado de cá, escuro,
e do lado de lá, colorido,
À sua volta, a pobreza,
a fome, a doença, a morte;
E ali adiante'a riqueza
dos que tinham melhior sorte.
Nossa Aparecida achava
que ela tinha dado azar
Porque ela ignorava
que o mundo pode mudar.
 
Já conhecia a cidade
da gente limpa e bonita
meninas da sua idade
de seda e laço de fita.
Gente que anda de carro
vive em boite e cinema
que nunca pisou no barro
que não conhece o problema
que pensa que o Rio é mesmo
Copacabana e Ipanema.

------------------------------------------------
 
Por que existem favelas?
Por que há ricos e pobres?
Por que uns moram na lama
e outros vivem como nobres?
Só te pergunto essas coisas
pra ver se você descobre.
 
Se não descobre te digo
para que possa saber
o mundo assim dividido
não pode permanecer
Foi esse mundo, que mata
tanta criança ao nascer,
que negou à Aparecida
o direito de viver.
Quem ateou fogo às vestes
dessa menina infeliz
foi esse mundo sinistro
que ela nem fez nem quis
- que deve ser destruído
pro povo viver feliz.

Ferreira Gullar

Lua

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Re: Quem gosta de poesia?
« Resposta #155 Online: 12 de Novembro de 2007, 13:24:11 »



Não fui, na infância, como os outros
e nunca vi como outros viam.
Minhas paixões eu não podia
tirar de fonte igual à deles;
e era outra a origem da tristeza,
e era outro o canto, que acordava
o coração para a alegria.
Tudo o que amei, amei sozinho.
ASSIM, na minha infância, na alba
da tormentosa vida, ergueu-se,
no bem, no mal, de cada abismo,
a encadear-me, o meu mistério.
Veio dos rios, veio da fonte,
da rubra escarpa da montanha,
do sol, que todo me envolvia
em outonais clarões dourados;
e dos relâmpagos vermelhos
que o céu inteiro incendiavam;
e do trovão, da tempestade,
daquela nuvem que se alterava,
só, no amplo azul do céu puríssimo,
como um demônio, ante meus olhos.

Edgar Allan Poe

Offline Memphis Belle

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Re: Quem gosta de poesia?
« Resposta #156 Online: 12 de Novembro de 2007, 14:42:12 »
Minha alma sangra!
Onde está meu riso, se não está em ti ?
Para que o adiante , o por vir , se  morro....
Volta pra mim.Ressussita-me !
Inebria-me com teu gozo.
Me escraviza  para libertar-me.
Me deixe partir , só par voltar.
Abra em mim as janelas que fechas-te.
Desvenda-me .Me faz secreta.
Minha alma  te ama!

Maria Dulce Gonzales.
"Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele ou por sua origem, ou sua religião.
Para odiar, as pessoas precisam aprender.
E se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar, pois o amor chega mais naturalmente ao coração humano do que o seu oposto.
A bondade humana é uma chama que pode ser oculta, jamais extinta."
(Nelson Mandela)

Lua

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Re: Quem gosta de poesia?
« Resposta #157 Online: 12 de Novembro de 2007, 15:55:42 »
Minha alma sangra!
Onde está meu riso, se não está em ti ?
Para que o adiante , o por vir , se  morro....
Volta pra mim.Ressussita-me !
Inebria-me com teu gozo.
Me escraviza  para libertar-me.
Me deixe partir , só par voltar.
Abra em mim as janelas que fechas-te.
Desvenda-me .Me faz secreta.
Minha alma  te ama!

Maria Dulce Gonzales.


Belíssima poesia... Por um momento, me deixei perder nas linhas, no encanto das palavras... Tão... Linda...

Offline Nightstalker

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Re: Quem gosta de poesia?
« Resposta #158 Online: 22 de Novembro de 2007, 23:21:21 »
Vera Pedrosa

Edifício

Veio no cartão postal da ponte
aquela luz branca demais brumosa
e de repente me vi
diante. do mesmo edifício branco
corpos se separando
na maresia
Conselheiro do Fórum Realidade.

"Sunrise in Sodoma, people wake with the fear in their eyes.
There's no time to run because the Lord is casting fire in the sky.
When you make sin, hope you realize all the sinners gotta die.
Sunrise in Sodoma, all the people see the Truth and Final Light."

Offline Nightstalker

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Re: Quem gosta de poesia?
« Resposta #159 Online: 22 de Novembro de 2007, 23:27:41 »
Ana Cristina Cesar

Psicografia

Também eu saio à revelia
e procuro uma síntese nas demoras
cato obsessões com fria têmpera e digo
do coração: não soube e digo
da palavra: não digo (não posso ainda acreditar
na vida) e demito o verso como quem acena
e vivo como quem despede a raiva de ter visto
Conselheiro do Fórum Realidade.

"Sunrise in Sodoma, people wake with the fear in their eyes.
There's no time to run because the Lord is casting fire in the sky.
When you make sin, hope you realize all the sinners gotta die.
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Skorpios

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Re: Quem gosta de poesia?
« Resposta #160 Online: 23 de Novembro de 2007, 20:00:43 »
Talvez não seja o lugar já que podem dizer que é a letra de uma música e não um poema puro . Mas pela primeira vez prestei atenção na letra e achei-a genial . Deve ser a idade .

Velha Roupa Colorida
Elis Regina

Composição: Belchior

Você não sente não vê
Mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo
Que uma nova mudança em breve vai acontecer
O que há algum tempo era novo, jovem
Hoje é antigo
E precisamos todos rejuvenescer (bis)

Nunca mais teu pai falou: "She's leaving home"
E meteu o pé na estrada like a Rolling Stone...
Nunca mais você buscou sua menina
Para correr no seu carro, loucura, chiclete e som
Nunca mais você saiu a rua em grupo reunido
O dedo em V, cabelo ao vento
Amor e flor, que é de cartaz?

No presente a mente, o corpo é diferente
E o passado é uma roupa que não nos serve mais (bis)

Você não sente não vê
Mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo
Que uma nova mudança em breve vai acontecer
O que há algum tempo era novo, jovem
Hoje é antigo
E precisamos todos rejuvenescer (bis)

Como Poe, poeta louco americano,
Eu pergunto ao passarinho: "Blackbird, o que se faz?"
Raven never raven never raven
Blackbird me responde
Tudo já ficou atras
Raven never raven never raven
Assum-preto me responde
O passado nunca mais

Você não sente não vê
Mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo
Que uma nova mudança em breve vai acontecer
O que há algum tempo era novo, jovem
Hoje é antigo
E precisamos todos rejuvenescer (bis)
E precisamos rejuvenescer

Offline Raphael

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Re: Quem gosta de poesia?
« Resposta #161 Online: 02 de Dezembro de 2007, 12:14:19 »
Baixei músicas da maravilhosa Maria Bethânia, onde ela recita este poema. Realmente lindo.

Monólogo de Orfeu - Vinicius de Moraes
Composição: Vinicius de Moraes / Antonio Carlos Jobim
Cantada por Maria Bethânia.

Mulher mais adorada!
Agora que não estás, deixa que rompa
O meu peito em soluços! Te enrustiste
Em minha vida; e cada hora que passa
É mais por que te amar, a hora derrama
O seu óleo de amor, em mim, amada...
E sabes de uma coisa? Cada vez
Que o sofrimento vem, essa saudade
De estar perto, se longe, ou estar mais perto
Se perto, – que é que eu sei! Essa agonia
De viver fraco, o peito extravasado
O mel correndo; essa incapacidade
De me sentir mais eu, Orfeu; tudo isso
Que é bem capaz de confundir o espírito
De um homem – nada disso tem importância
Quando tu chegas com essa charla antiga
Esse contentamento, essa harmonia
Esse corpo! E me dizes essas coisas
Que me dão essa força, essa coragem
Esse orgulho de rei. Ah, minha Eurídice
Meu verso, meu silêncio, minha música!
Nunca fujas de mim! Sem ti sou nada
Sou coisa sem razão, jogada, sou
Pedra rolada. Orfeu menos Eurídice...
Coisa incompreensível! A existência
Sem ti é como olhar para um relógio
Só com o ponteiro dos minutos. Tu
És a hora, és o que dá sentido
E direção ao tempo, minha amiga
Mais querida! Qual mãe, qual pai, qual nada!
A beleza da vida és tu, amada
Milhões amada! Ah! Criatura! Quem
Poderia pensar que Orfeu: Orfeu
Cujo violão é a vida da cidade
E cuja fala, como o vento à flor
Despetala as mulheres - que ele, Orfeu
Ficasse assim rendido aos teus encantos!
Mulata, pele escura, dente branco
Vai teu caminho que eu vou te seguindo
No pensamento e aqui me deixo rente
Quando voltares, pela lua cheia
Para os braços sem fim do teu amigo!
Vai tua vida, pássaro contente
Vai tua vida que estarei contigo!
"I’ve got an F and a C and I got a K too, and the only thing missing is a bitch like U"

Offline Thufir Hawat

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Re: Quem gosta de poesia?
« Resposta #162 Online: 07 de Dezembro de 2007, 13:07:23 »
Monty Python's the Meaning of life poem

There's everything in this movie,
everything that fits
From the meaning of life in the universe,
to girls with great big tits

We've got movie-stars and foreign cars, explosions and the lot
Filmed as only we know how, on the budget that we've got

We spent a fortune on locations,
and quite a bit on drink
And there's even the odd philosophical joke,
just to make you buggers think

Yet, some parts are as serious and as deep as you could wish,
but largely it's all tits and ass and quite a bit of fish

Other bits are fairly childish, and some are frankly rude,
but at least we've got a lot of nice girls, all banging around in the nude

So take your seats, enjoy yourselves,
and lets just hope it's funny
Because it's not only done to make you laugh,
but to make us lots of money

So sit back and have a good time with your boyfriend or your wife
Relax and just enjoy yourself, for this, is the meaning of life.
Archimedes will be remembered when Aeschylus is forgotten, because languages die and mathematical ideas do not. "Immortality" may be a silly word, but probably a mathematician has the best chance of whatever it may mean.
G. H. Hardy, in "A Mathematician's Apology"

Offline Memphis Belle

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Re: Quem gosta de poesia?
« Resposta #163 Online: 09 de Maio de 2008, 12:56:20 »
O poeta

O poeta dormiu, a chuva lá fora parou, mas ele não viu. Não viu porque dormiu e por isso não viu. O sol vai  alto, a grama anda a crescer  sem que ninguém a pise.As opiniões se dividem.Os pensamentos estão em você! Longe da felicidade.
O Poeta continua a dormir. Não me acaricia, mas sinto suas mãos, lembro do tempo em que me fazia carinhos sem fim. Mas agora dorme e se acordado estaria em meio a  suas letras, não viria a  mim, não me beijaria e nem  me possuiria.Suas letras envelheceram.E eu continuo a ve-lo dormir.Estou aqui esperando que ele acorde.Mas se ele não acordar, me deitarei a seu lado para dormir também.
E então quem sabe voltaremos a sonhar juntos ? Com flores e risos, com pisadas felizes em gramas mal cuidadas? Ah, isso... Então agora me ocorreu que é melhor que ele não acorde mais. Pois quero também eu, dormir.

( Maria Dulce Gonzáles )
« Última modificação: 09 de Maio de 2008, 18:31:37 por Artemis »
"Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele ou por sua origem, ou sua religião.
Para odiar, as pessoas precisam aprender.
E se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar, pois o amor chega mais naturalmente ao coração humano do que o seu oposto.
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(Nelson Mandela)

Offline Nohai

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Re: Quem gosta de poesia?
« Resposta #164 Online: 09 de Maio de 2008, 14:19:42 »
Maravavilhoso o topico... Tirando os comentarios desnecessarios da primeira pagina.

Meu poema predileto é um de Augusto dos Anjos.

Versos Íntimos


Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!


Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.


Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.


Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

 :vergonha: Pode-se postar neste topico poemas de propria lavra?
Era uma vez um pintinho chamado Relam, toda vez que chovia Relam piava.

Offline Memphis Belle

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Re: Quem gosta de poesia?
« Resposta #165 Online: 09 de Maio de 2008, 18:13:20 »
Pode sim Noh .
"Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele ou por sua origem, ou sua religião.
Para odiar, as pessoas precisam aprender.
E se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar, pois o amor chega mais naturalmente ao coração humano do que o seu oposto.
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Offline Memphis Belle

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Re: Quem gosta de poesia?
« Resposta #166 Online: 09 de Maio de 2008, 18:28:38 »
Tempo de Espera

Enternecida é a hora que me chegam aos ouvidos ecos do que já não existe mais. Desgraçado é o instante em que percebemos que não podemos mais pegar as palavras ditas... Volve-las?Impossível. Alargar os passos, correr... Ir para longe. É só o que resta. Bem aventurado um momento de lembrança que nos remete ao sonho  que não teve tempo de existir.Amaldiçoado  o brilho no meu olhar que ninguém viu...Carregadas  de dor , foram as lágrimas que não serviram para aliviar meu coração.Mas  mui grata é a natureza  que me faz pressentir que sempre haverá um amanhã, de perdão, de esquecimentos do que foi ruim.Um renascimento  de algo  real e bom.
( Maria Dulce Gonzáles )
"Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele ou por sua origem, ou sua religião.
Para odiar, as pessoas precisam aprender.
E se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar, pois o amor chega mais naturalmente ao coração humano do que o seu oposto.
A bondade humana é uma chama que pode ser oculta, jamais extinta."
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Offline Moro

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Re: Quem gosta de poesia?
« Resposta #167 Online: 09 de Maio de 2008, 22:31:24 »
:| Já aviso que é looooooooooooooooooooonga, mas vale a pena.  :wink:

Citar

O Operário Em Construção

Vinicius de Moraes

Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.

De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia...
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.

Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
– Garrafa, prato, facão –
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.

Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.

Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
– Exercer a profissão –
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.

E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.

E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:

Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.

E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.

Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação
– "Convençam-no" do contrário –
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.

Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!

Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.

Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
– Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.

Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!

– Loucura! – gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
– Mentira! – disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.

E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.

Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.

Mistura de comunismo com cristianismo. Tem até a cena do diabo corrompendo o coitado... Que poesia maniqueista.
“If an ideology is peaceful, we will see its extremists and literalists as the most peaceful people on earth, that's called common sense.”

Faisal Saeed Al Mutar


"To claim that someone is not motivated by what they say is motivating them, means you know what motivates them better than they do."

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Sacred cows make the best hamburgers

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Offline Memphis Belle

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Re: Quem gosta de poesia?
« Resposta #168 Online: 11 de Maio de 2008, 19:54:09 »
QUERO VIVER DO SEU OLHAR

ESTOU TÃO SEM AMOR... VC TÃO AUSENTE DE MIM, E TUDO EM MIM QUE É SÓ TEU, SOFRE! TANTO! HÁ UM VAZIO TÃO GRANDE, ESTÁ TÃO FRIO... AS ONDAS ESTÃO AGITADAS LÁ FORA, MAS O BARULHO AQUI NESSE PEITO TEM MAIS QUE UMA EMOÇÃO... TEM VOCÊ. TEM MEUS SONHOS... E O VENTO BATE NA PAREDE ENFURECIDO COMIGO, MAS EU NÃO TENHO CULPA.E POR ISSO EM MEIO A TESPETASDE , EU SAIO E CAMINHO DEBAIXO DO TEMPORAL...UMA NOITE SEM ESTRELAS...DE UM AMOR ETERNO QUE VAI ACABAR .NÃO QUERO ACREDITAR, MAS, O VENTO ESTÁ TÃO FORTE, AS ONDAS TÃO PRÓXIMAS,NEM SE PODE ENTENDER.....EU SÓ PESSO PRA AINDA CONSEGIR ENXEGAR O CAMINHO DE VOLTA..ESTÁ TÃO LONGE., LONGE DEMAIS.MAS EU TENHO QUE VOLTAR , PORQUE VOCÊ ESTÁ LÁ. EU PRECISO VOLTAR PRA NÃO FICAR AQUI FORA TÃO PERDIDO. PRA NÃO FICAR AQUI DENTRO TÃO SOZINHO.
( CRF. )
 
"Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele ou por sua origem, ou sua religião.
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Offline Worf

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Re: Quem gosta de poesia?
« Resposta #169 Online: 07 de Julho de 2008, 05:39:51 »
Caminho a teu lado mudo
 
Caminho a teu lado mudo
Sentes-me, vês-me alheado...
Perguntas: Sim... Não... Não sei...
Tenho saudades de tudo...
Até, porque está passado,
Do próprio mal que passei.

Sim, hoje é um dia feliz.
Será, não será, por certo
Num princípio não sei que
Há um sentido que me diz
Que isto — o céu longe e nós perto
É só a sombra do que é...

E lembro-me em meia-amargura
Do passado, do distante, E tudo me é solidão...
Que fui nessa morte escura?
Quem sou neste morto instante?
Não perguntes... Tudo é vão. 

Fernando Pessoa

Offline Memphis Belle

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Re: Quem gosta de poesia?
« Resposta #170 Online: 16 de Julho de 2008, 17:17:16 »
Antes de amar-te

Antes de amar-te, amor, nada era meu:
vacilei pelas ruas e coisas:
nada contava nem tinha nome:
o mundo era do ar que esperava.
E conheci salões cinzentos,
túneis habitados pela lua,
hangares cruéis que se despediam,
perguntas que insistiam na areia.
Tudo estava vazio,morto e mudo,
caído,abandonado e decaído,
tudo era inalienavelmente alheio,
tudo era dos outros e de ninguém,
até que tua beleza e tua pobreza
de dádivas encheram o outono.

( Pablo Neruda )


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Para odiar, as pessoas precisam aprender.
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Offline Unknown

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Re: Quem gosta de poesia?
« Resposta #171 Online: 12 de Março de 2010, 18:41:46 »
Poesia Matemática

Millôr Fernandes

Às folhas tantas
do livro matemático
um Quociente apaixonou-se
um dia
doidamente
por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
e viu-a do ápice à base
uma figura ímpar;
olhos rombóides, boca trapezóide,
corpo retangular, seios esferóides.
Fez de sua uma vida
paralela à dela
até que se encontraram
no infinito.
"Quem és tu?", indagou ele
em ânsia radical.
"Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa."
E de falarem descobriram que eram
(o que em aritmética corresponde
a almas irmãs)
primos entre si.
E assim se amaram
ao quadrado da velocidade da luz
numa sexta potenciação
traçando
ao sabor do momento
e da paixão
retas, curvas, círculos e linhas sinoidais
nos jardins da quarta dimensão.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidiana
e os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E enfim resolveram se casar
constituir um lar,
mais que um lar,
um perpendicular.
Convidaram para padrinhos
o Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
sonhando com uma felicidade
integral e diferencial.
E se casaram e tiveram uma secante e três cones
muito engraçadinhos.
E foram felizes
até aquele dia
em que tudo vira afinal
monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum
freqüentador de círculos concêntricos,
viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
uma grandeza absoluta
e reduziu-a a um denominador comum.
Ele, Quociente, percebeu
que com ela não formava mais um todo,
uma unidade.
Era o triângulo,
tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era uma fração,
a mais ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade
e tudo que era espúrio passou a ser
moralidade
como aliás em qualquer
sociedade.

A verdade dividida

Carlos Drummond de Andrade

A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.
 
Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.
 
Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
diferentes uma da outra.
 
Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

Canção amiga

Carlos Drummond de Andrade

Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.

Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me vêem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.

Eu distribuo um segredo
como quem ama ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.

Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.

Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.

Poema

António Mendes Cardoso

Na espuma verde do mar
Desenharei o teu nome,
Em cada areia da praia
Em cada pólen da flor
Em cada gota do orvalho
O teu nome deixarei gravado

No protesto calado
De cada homem ultrajado
Em cada insulto
Em cada folha caída
Em cada boca faminta
Hei-de escrever o teu nome

Nos seios férteis das virgens
Nos sorrisos perenes das mães
Nos dedos dos namorados
No embrião da semente
Na luz irreal das estrelas
Nos limites do tempo
Hei-de uma esperança semear.
« Última modificação: 12 de Março de 2010, 18:48:15 por Unknown »

"That's what you like to do
To treat a man like a pig
And when I'm dead and gone
It's an award I've won"
(Russian Roulette - Accept)

Offline Mr."A"

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Re: Quem gosta de poesia?
« Resposta #172 Online: 17 de Março de 2010, 11:58:47 »
SEXO EM MOSCOU
(Mano Melo)

Quando comecei a passear meus dedos
Pela sua marighelazinha já ficando molhada
Ela teve medo e recuou na resitência:
- Stálin! Stálin!
Mas depois deu uma olhada
Viu meu sputinik pronto a entrar em órbita
Exclamou feliz da vida:
- Que vara! Que vara!
- Que nikita mais krutschev!
Eu era o sessenta
Ela era lunática rainha lunik 9
Me sentia como se estivesse dando um cheque-mate
No próprio Karpov
E por não ser nem fidel e nem castro
Lambi sua rosa de luxemburgo
E a linda bolchevique geminha tesudinha:
- Ai língua de seda,
Maravilhosa,
Me lenine toda, meu bem
Me lenine toda,
Todinha!
Arranhava minhas costas com suas unhas de mil caranguejos
E sussurrava entre beijos:
- Marx! Marx!
E o colchão de molas rangia:
- Mao tse tung! Mao tse tung!
Me chamou de seu tesão
Maiokovsky do sertão
Engels azul do meio dia
Poeta do real
Sua fantasia
Olhou-me nos olhos e disse:
- Tú és o meu Brejnev!
E ficamos por um tempão
Deitados no colchão de neve
E nos amávamos
Esperando o intervalo
Entre uma e outra greve
Trotsky! Ela tinha uma bezerra gregoriana
Que deixava lamarcas
E quando o êxtase atingiu ao seu máximo górki
Quando estava prestes a acontecer um orgasmo dissidente
Sussurou rangendo os dentes
- Chove dentro de mim,
Chove, chove,
Gorbatchev!
8-)

Offline Mr."A"

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Re: Quem gosta de poesia?
« Resposta #173 Online: 01 de Outubro de 2010, 13:55:08 »
POEMA DA BUCETA CABELUDA
(Bráulio Tavares)

A buceta da minha amada
tem pêlos barrocos,
lúdicos, profanos.
É faminta
como o polígono-das-secas
e cheia de ritmos
como o recôncavo-baiano.

A buceta da minha amada
é cabeluda
como um tapete persa.
É um buraco-negro
bem no meio do púbis
do Universo.

A buceta da minha amada
é cabeluda,
misteriosa, sonâmbula.
É bela como uma letra grega:
é o alfa-e-ômega dos meus segredos,
é um delta ardente sob os meus dedos
e na minha língua
é lambda.

A buceta da minha amada
é um tesouro
é o Tosão de Ouro
é um tesão.
É cabeluda, e cabe, linda,
em minha mão.

A buceta da minha amada
me aperta dentro, de um tal jeito
que quase me morde;
e só não é mais cabeluda
do que as coisas que ela geme
quando a gente fode.

Fonte: http://cseabra.utopia.com.br/poesia/poesias/0141.html
8-)

Offline Lakatos

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Re: Quem gosta de poesia?
« Resposta #174 Online: 01 de Outubro de 2010, 15:13:10 »
De vez em quando eu escrevo alguns poeminhas... Vejam esse:

Soneto nº 07

Meus olhos vão, com lágrimas, fechando.
Destino chega, a sátira dos lares.
Dos lobos vês os lânguidos uivares
E muito tristes, trôpegos, lembrando

Em nossas mentes cânticos chorando.
Não como em nossos fálicos amares,
Não para tu, em êxtase, cantares,
Mas para a vida, mística, voando,

Nos separar com trágica fiança:
Em minha mesa a tétrica elegia,
Em minha alma a lírica bonança,

Em minha vida a cátedra alegria,
Em minha amada a cética esperança.
De nós só resta a pútrida valia.

Não sei se acontece com todos, mas para mim, escrever é sempre uma terapia contra a depressão!!  :hihi:

 

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