Autor Tópico: Ciência no Brasil  (Lida 7517 vezes)

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Offline Geotecton

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Re: Ciência no Brasil
« Resposta #100 Online: 14 de Janeiro de 2011, 23:55:52 »
Tiranossauro rex versus Triceratops horridus. :lol:
Foto USGS

Offline Tabacof

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Re: Ciência no Brasil
« Resposta #101 Online: 16 de Janeiro de 2011, 04:13:17 »
Entrevista muitíssimo interessante com o maior neurocientista brasileiro, Miguel Nicolelis:

http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/nicolelis-diz-que-sofreu-sabotagem-nos-bastidores.html

Essa entrevista me revelou mais sobre a ciência brasileira do que qualquer outro texto que já li na minha vida, recomendadíssimo. É triste ver a análise dele, mas por outro lado mostra que há esperança, pois nós temos cientistas como ele.

Offline Adriano

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Re: Ciência no Brasil
« Resposta #102 Online: 16 de Janeiro de 2011, 06:22:46 »
Entrevista muitíssimo interessante com o maior neurocientista brasileiro, Miguel Nicolelis:

http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/nicolelis-diz-que-sofreu-sabotagem-nos-bastidores.html

Essa entrevista me revelou mais sobre a ciência brasileira do que qualquer outro texto que já li na minha vida, recomendadíssimo. É triste ver a análise dele, mas por outro lado mostra que há esperança, pois nós temos cientistas como ele.

Brilhante texto, mas que para mim demonstra duas incongruências:
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De que modo a evolução poderá ser influenciada pelo cérebro?

O processo de seleção natural vai agir de uma forma muito mais rápida. Em um mundo onde as pessoas terão de atuar com a atenção dividida entre múltiplas ferramentas, os atributos evolucionais necessários para sobreviver mudam. A mente que consegue controlar vários processos de forma eficaz tem uma vantagem evolucional sobre as outras. Há uma base genética para essa facilidade. À medida que gente com essa vantagem se reproduz mais que os outros, ocorre seleção. Várias pessoas – como os biólogos evolucionistas Richard Dawkins e Stephen Jay Gould – previram que o cérebro passaria a ter um papel mais fundamental na evolução. Mas creio que estamos acelerando este papel. Os neandertais acordaram um dia e encontraram o Homo sapiens jogando bola na esquina da casa deles. Um dia, um sujeito pode acordar e se dar conta de que ele já não pertence mais à espécie dos pais. Mas estamos falando de milênios aqui.

Com certeza a integração cérebro-máquina deve ser fundamental, mas de uma maneira mais dinâmica e não apenas do aspecto individual desta interação. Ele chove muito no molhado na análise da internet como potencial educacional e chora as pitangas sobre o saber canônico:

Citar
Você afirmou diversas vezes que a ciência precisa ser democratizada no País.

Sem dúvida. É uma atividade extremamente elitizada. Não temos a penetração popular adequada nas universidades. Quantos doutores são índios ou negros? A ciência deve ir ao encontro da sociedade brasileira. Essa foi uma das razões que me motivaram a escrever o manifesto. Até bem pouco tempo, a ciência era uma atividade da aristocracia brasileira. Há 30 ou 40 anos só a classe mais alta tinha acesso à universidade. Não precisavam de financiamento porque tinham dinheiro próprio.
Princípio da descrença.        Nem o idealismo de Goswami e nem o relativismo de Vieira. Realismo monista.

Online JJ

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Re:Ciência no Brasil
« Resposta #103 Online: 10 de Junho de 2018, 16:49:22 »
Sou nova por aqui...  :/
Mas fiquei empolgada com o tema e resolvi abrir um pouco minha experiencia pessoal com voces, pois acho que a minha propria formacao e um bom exemplo das "faces" da ciencia no Brasil!
 :erm:
Fiz psicologia na PUCRS em 1996, e embora a psico la tenha uma tradicao psicanalitica, eu ja no primeiro ano me apaixonei pela ciencia cognitiva e do comportamento...
Com muito esforco conseguimos reativar o laboratorio de psicologia experimental, e pela primeira vez na psico de la houve uma ponte com o curso de biologia...
No tempo eu era monitora da cadeira de experimental e cognitiva, e por um ano vi os alunos se apaixonarem por pesquisa, assim como eu me apaixonei, repetindo experimentos de desamparo aprendido (modelo animal de depressao) e muitos outros...
Mas a nossa alegria durou pouco...  :umm:
O diretor da psico na epoca era um ex seminarista que se dizia "psicologo humanista". Ele nao so desativou completamente nosso laboratorio como tambem despediu meu orientador de iniciacao cientifica (unico cientista de verdade no instituto). Logo depois ele me chamou na sua sala e disse claramente: "Clarice, terei que te desligar do curso se continuares insistindo em fazer "psicologia animal" nesse instituto! tu estas proibida de trazeres ratos do instituto de biologia para dentro deste predio!"
 :grito:
Sim! Nao so o diretor do curso da psicologia nao fazia a minima ideia do que e modelo animal como tambem fui ameacada de sair por tentar fazer experimentos!
So para ter uma ideia do nivel do curso, a professora de introducao 'a psicologia comentou um livro do Gardner em aula uma vez e disse que nao entendia como pode as amigdalas (apontando para a garganta) influenciarem tanto no comportamento humano!!!!
 :grito: :grito: :grito:
Desiludida eu baixei a cabeca... percebi que naquela universidade estavamos numa verdadeira epoca das trevas e que se continuasse criticando tudo iria para a fogueira!
MEDIEVALISMO!
Sem exageiros, um colega mais obstinado com a ciencia continuou tentando fazer algo no curso e foi literalmente barrado de fazer os estagios necessarios para terminar o curso, nao podendo se formar.
Pra mim isso e equivalente a fogueira considerando quanto se paga para um PUC no brasil!
Por outro lado, assim que terminei o curso entrei no mestrado na federal, em Neurociencias na biologia, e so la tive uma formacao de verdade!
Depois acabei saindo do Brasil pra continuar a carreira cientifica pensando em conseguir uma bolsa de doutorado na europa.
De novo um exemplo da ciencia no brasil!
Estou aqui ha 3 anos e nao consegui absolutamente nenhuma ajuda financeira para fazer o doutorado, mesmo sendo cidada europeia!
No brasil fiz o mestrado sem pagar e sendo paga! Alem de ter tido bolsa de iniciacao cientifica por toda a graduacao!
Na inglaterra (onde moro), essas oportunidades praticamente nao existem!
Mas por outro lado o curso de psicologia so fale da psicanalise na cadeira de historia e a biopsicologia seja uma cadeira basica obrigatoria!
... Nao sei se contribui muito ‘a discussao...
Mas acho que minha historinha e um bom exemplo das faces da ciencia no brasil!  :o
 ::)

PS: alguem pode me explicar como adicionar uma figura no perfil nesse site? :stunned:





Achei este relato bem revelador,  não imaginava que algo assim pudesse ter ocorrido  numa  universidade no Brasil.




Online JJ

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Re:Ciência no Brasil
« Resposta #104 Online: 10 de Junho de 2018, 16:58:40 »
Isso, porém, é algo que só vai acontecer quando os empresários acordarem para o fato de que investir em ciência pode ser um bom negócio. E, levando em conta a mentalidade tacanha do empresariado brasileiro...



Há casos de empresários brazucas que investiram em projetos de alta tecnologia que se ferraram  bonito (exemplo: Engesa).  Muitas pesquisas em ciência e tecnologia precisam da mão  pesada e forte do Estado,  pois caso contrário é comum que nada virem e que  vão para o brejo.


Essa mão estatal pesada e forte (na ciência e tecnologia) existe nos Estados Unidos. Mas, no Brasil   essa mão estatal na ciência e na tecnologia é bem mais leve e fraca.


« Última modificação: 10 de Junho de 2018, 17:04:18 por JJ »

Online JJ

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Re:Ciência no Brasil
« Resposta #105 Online: 10 de Junho de 2018, 17:00:58 »

No Brazil  compensa mais fazer coisas como:  plantar soja, milho,  cana de acúcar, criar gado,  fazer corretagem de terra, ou aplicar no mercado financeiro.  Ou fazer maracutaias com  prefeitos e governadores.

Offline Zero

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Re:Ciência no Brasil
« Resposta #106 Online: Ontem às 19:02:50 »
Citar
Com crise e cortes na ciência, jovens doutores encaram o desemprego: 'Título não paga aluguel'

 O estatístico Paulo Tadeu Oliveira, de 55 anos, defendeu seu doutorado na Universidade de São Paulo (USP) em agosto de 2008. Dez anos depois, ainda não conseguiu ingressar no mercado de trabalho. O pesquisador, que é deficiente visual, emendou três pós-doutorados em busca de especialização e experiência, mas não passou nas diversas seleções para o quadro de universidades públicas. Atualmente, está no quarto estágio pós-doutoral, desta vez sem apoio financeiro.

Em busca de trabalho na iniciativa privada, ele consultou 18 headhunters para tentar enquadrar seu currículo ao mercado, mas encontrou respostas similares: o estatístico não possui experiência corporativa e, ao mesmo tempo, é considerado overqualified (qualificado demais) para as posições disponíveis. Em maio, ele relatou sua história à Comissão de Direitos Humanos da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e espera resposta.

Assim como Oliveira, diversos jovens doutores (ou seja, titulados recentemente) estão patinando profissionalmente. A concorrência continua crescendo: no ano passado, foram formados 21.609 novos doutores – ao todo, são 302.298, incluindo estrangeiros residentes no país.

Em 2006, o país atingiu a meta de formar 10 mil doutores e 40 mil mestres por ano, segundo dados da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) divulgados à época. Em 2014, o Plano Nacional de Educação estabeleceu uma nova meta: a formação de 25 mil doutores por ano até 2020.

O problema é que o principal destino de doutores, a área da educação – 74,5% dos empregados estão nas universidades ou institutos de pesquisa – sentiu os efeitos da crise econômica no país.

O orçamento do Ministério da Educação (MEC) sofreu cortes de R$ 7,7 bilhões em 2015 e de R$ 10,7 bilhões em 2016, segundo dados da própria pasta. No Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) 44% (R$ 2,5 bilhões) foram congelados em 2017, de acordo com números do governo.

A Capes, vinculada ao MEC, perdeu R$ 1 bilhão por ano desde 2015; o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), ligado ao MCTIC, também perdeu cerca de R$ 1 bilhão no caixa de 2015 para 2016, o que afeta programas de pós-doutorado, por exemplo.

Nas instituições particulares, o quadro também é pessimista, com a demissão de milhares de professores - a Estácio de Sá, por exemplo, demitiu 1,2 mil docentes em dezembro de 2017 – e o trancamento de matrículas de alunos, que registrou um aumento de 22,4% entre 2011 e 2015, segundo dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep).

Novo cenário

Entre 1996 e 2014, o número de programas de pós-graduação stricto sensu (mestrado e doutorado) triplicou no país, informa o relatório Mestres e Doutores 2015, o mais recente da série. Elaborado pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), o estudo revela que o período também registrou um boom na formação de mestres (379%) e doutores (486%) no país.

Um novo estudo em andamento no CGEE revela também a taxa de empregabilidade de doutores recém-titulados: entre 2009 e 2014, o índice se estabilizou em cerca de 73%, mas em 2016 caiu para 69,3%.

"Historicamente, a taxa de emprego é mais estável, fruto de uma política constante, passando por governos variados. Apesar de ter cada vez mais doutores, podemos afirmar que até 2015 eles foram absorvidos pelo mercado, público e privado", diz a coordenadora da pesquisa, Sofia Daher, de 55 anos.

"A queda não é drástica, mas sinaliza uma tendência nova. Houve uma redução considerável de concursos para professores universitários", disse ela à BBC News Brasil.

O pesquisador Ronaldo Ruy, de 36 anos, é um retrato desse novo cenário: está desempregado desde a defesa de seu doutorado na Universidade Federal do Ceará (UFC), em 2016. "Estou buscando pós-doutorado para não tirar definitivamente os dois pés da ciência", diz ele, que fez cursos no Smithsonian Research Tropical Institute e no Florida Museum of Natural History, nos EUA.

Atualmente dependendo da ajuda financeira da família, Ruy buscará trabalho fora de sua área de atuação. "O amor pela ciência não as paga contas. No meu caso particular, a situação chegou ao ponto da minha família ter dado prazo para que eu saia de casa e inevitavelmente terei que seguir outro caminho (profissional)", conta.

Foi o que fez Karen Carvalho, de 36 anos, doutora em neurociências pela USP.

Após a conclusão da pesquisa no Instituto Butantan, em novembro, ela tentou ingressar na indústria farmacêutica, sem sucesso.

"Durante o doutorado, desenvolvi depressão. Uma ironia, pois meu campo de estudo é estresse e depressão", diz a bióloga, que hoje atua como corretora de imóveis.

De acordo com uma investigação com 2 mil estudantes de 26 países, publicada na revista Nature Biotechnology em março, os pós-graduandos têm seis vezes mais chance de sofrer ansiedade e depressão do que a população geral.

Além das pressões do doutorado, Carvalho afirma que a falta de perspectiva agravou seu quadro.

"No Brasil, a gente é tratado como 'só estudante' durante a pós. Falta olhar para o cientista como um profissional, muitas vezes muitíssimo qualificado. Você se mata para fazer mestrado e doutorado, e depois pensa: e agora, vou fazer o que com os títulos? Só perdi meu tempo? É uma tristeza, perde-se o brilho olhando para a situação atual da ciência. A gente está no limbo."
Doutores demais?

O biólogo professor da Universidade de Brasília (UnB) Marcelo Hermes-Lima, de 53 anos, vem criticando o que vê como uma formação excessiva de doutores desde 2008.

"Teve uma inundação de 'cérebros'. É a lei do mercado: se você tem essa 'commodity' demais, desvaloriza-se", afirma.

Para Hermes-Lima, a última década registrou "uma alucinada proliferação" de cursos de pós-graduação no país, priorizando quantidade, e não qualidade da formação acadêmica. "Aí chegou o teto - e o teto agora está começando a cair", ilustra.

"A crise econômica empurrou muita gente sem real motivação científica para a universidade. Sem emprego, muita gente buscou refúgio na ciência, de olho nas bolsas. A crise demorou para chegar na ciência, mas agora chegou", critica.

O filósofo Renato Janine Ribeiro, ex-ministro da Educação do governo Dilma Rousseff, pensa diferente. "Parar de investir na formação doutoral é um risco. Como um doutor demora em regra quatro anos para se titular, uma parada significará que, quando precisarmos de mais doutores, eles não estarão disponíveis", analisa.

Para ele, a dificuldade de manter o ritmo de investimento para jovens doutores está relacionada "por um lado, à crise econômica; por outro, às prioridades diferentes do novo governo".

Procurado pela BBC News Brasil, o Ministério da Educação diz não ser "verdade que falte recurso para as universidades". "A expansão das universidades federais trouxe impactos significativos para o orçamento do MEC, que precisam ser compreendidos em sua plenitude", escreve a pasta, em nota.

Essa expansão, acrescenta, "foi realizada sem planejamento". "O ano de 2014 foi influenciado pelas eleições e por um momento econômico em que a gestão anterior não mensurou os efeitos dos gastos exagerados e sem controle. Diversos programas aumentaram recursos fora da realidade, fazendo com que a própria gestão anterior iniciasse as reduções, a partir de 2015", conclui.

De 2003 a 2010, houve um salto de 45 para 59 universidades federais, o que representa uma ampliação de 31%; e de 148 câmpus para 274 câmpus/unidades, crescimento de 85%. A expansão também proporcionou uma interiorização – o número de municípios atendidos por universidades federais foi de 114 para 272, um crescimento de 138%, segundo dados do próprio MEC.

Por sua vez, o MCTIC afirma que está atuando junto à equipe econômica para maior disponibilização de recursos. "Em anos anteriores, os esforços do MCTIC para recomposição orçamentária têm dado resultados, com a liberação de recursos contingenciados ao longo do ano. No cenário de restrições orçamentárias, o MCTIC mantém ainda permanente diálogo com os gestores de suas entidades vinculadas para que os recursos sejam otimizados, minimizando o impacto em suas atividades."
Cartas de rejeição

Diante da falta de oportunidade no mercado, tanto na iniciativa privada quanto nas instituições públicas, muitos jovens doutores apostaram na possibilidade de um pós-doutorado, conforme diversos relatos à BBC Brasil. A bolsa mensal do CNPq é de R$ 4,5 mil.

Diferentemente do mestrado ou doutorado, o pós-doutorado não é um título: é uma especialização ou um estágio para aprimorar o nível de excelência de determinada área acadêmica. É visto como um aperfeiçoamento do currículo para processos seletivos para docente nas universidades públicas.

Para a maioria dos candidatos, porém, as expectativas acabaram frustradas.

"A proposta, apesar de meritória, não pode ser atendida nesta demanda, considerando-se a disponibilidade de recursos", dizia a resposta-padrão enviada a dezenas de doutores recém-titulados que tinham pedido bolsas na modalidade Pós-Doutorado Júnior (PDJ), do CNPq.

Diante do resultado, divulgado em meados de junho, muitos doutores relataram sua indignação ao serem rejeitados em depoimento em grupo de 6,6 mil pesquisadores brasileiros no Facebook. Sob a condição de anonimato, um parecerista do CNPq conta que os avaliadores também ficaram frustrados. "Não importa o quanto o projeto é excelente, não há recursos para todo mundo; é infrutífero para a ciência do país".

No início deste ano, dos 2.550 pedidos recebidos pelo CNPq, foram concedidas 363 bolsas de PDJ. No primeiro calendário de 2017, foram 2392 pedidos e 359 concessões.

Doutor em psiquiatria pela UFRGS, com temporada de estudos na Tufts University, nos EUA, o pesquisador Dirson João Stein, de 44 anos, tentou quatro editais de pós-doutorado desde abril, diante da falta de concursos na área. Não conseguiu aprovação em nenhum.

"Vejo como uma oportunidade de transição entre a vida estudantil e a vida profissional. Há possibilidade de praticar a docência, um dos principais pré-requisitos para a seleção de professores", considera. Assim como Ruy, Stein depende da família e, agora, faz freelancer como garçom para festas em São Leopoldo (RS).
Peso emocional

A psicóloga Inara Leão Barbosa, de 60 anos, que pesquisa desemprego desde 2003, destaca que um de seus efeitos psicossociais é o isolamento dos amigos e da família.

"É um sentimento de regressão, um impacto muito violento. Eles, que eram considerados tão inteligentes, passam a ser vistos como vagabundos que não querem trabalhar. Muitos voltam a morar com os pais e são tratados como adolescentes. Eles se culpam como indivíduos, esquecendo que a crise faz parte do sistema", diz Barbosa, professora da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS).

Muitos doutores vão parar no subemprego. "E, se você não quiser (o subemprego), no momento de crise tem uma fila de gente que quer", afirma.

Professor da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), o historiador Rodrigo Turin, 38, diz que a academia está sendo pautada por conceitos como "produtividade", "inovação" e "excelência", respondendo a uma lógica de mercado.

"Já começaram a aparecer, inclusive, ofertas de postos não-remunerados, nos quais esses jovens acadêmicos são induzidos a pesquisar e dar aulas apenas para poder 'engordar' seus currículos e, assim, se tornarem mais competitivos", critica.

Essa "ideologia da excelência" é um dos pontos estudados por Lara Carlette, de 29 anos. Sua tese Universidades de classe mundial e o consenso pela excelência, defendida no Departamento de Educação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em fevereiro, foi indicada ao Prêmio Capes pela originalidade do trabalho.

Ao propor um desdobramento de sua pesquisa para o CNPq, ela recebeu dois pareceres positivos e uma decisão negativa que, ironicamente, indicava falta de originalidade.

Segundo Carlette, os jovens doutores vivem impasses: por um lado, muitos passam anos na condição de bolsistas de dedicação exclusiva (o que proíbe vínculo empregatício, assim limitando a possibilidade de experiência docente); por outro lado, a experiência é cobrada nos concursos.

Na mesma linha, os acadêmicos precisam preservar a originalidade de suas teses (o que limita a publicação de artigos durante o doutorado), mas a produtividade (o número de publicações) é cobrada nos processos seletivos e nos editais.

"Pode parecer dramático, mas conviver com isso diariamente é torturante. Saber ler a conjuntura, e não individualizar a falta de oportunidades, é essencial", adiciona a pesquisadora, que já foi questionada inclusive pela juventude: foi chamada de "novinha" durante um processo seletivo.

"Depois da alegria e do alívio de defender uma tese, você está desempregado no dia seguinte. Título não paga aluguel."
https://www.bbc.com/portuguese/brasil-44696697

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